Pai e Filho

(texto de 8 de setembro de 2010)

Laços fora, soldados! As cortes querem mesmo escravizar o Brasil. A voz rouca não alcançava nem a primeira fila, lá embaixo, onde deviam estar o Paulo Rogério, o Julio, o Maciel, a Roberta, a turma toda me vendo lá em cima, no palco, sem voz, de espada em punho e chapéu de bico, o Dom Pedro I do Raquel de Castro Ferreira da São Vicente de 1974. Por essas e outras, não fui incluído entre os alunos ilustres no jubileu de ouro da escola, em 2008. Mas o Tércio, que também estava por ali, foi. Ele hoje é prefeito, reeleito, da São Vicente do Raquel. E eu, hoje, na Brasília de Lula, não sou nada e fui ao desfile de sete de setembro com a Caroline. Tirei fotos. O Lula também estava no palco dele, com a voz rouca que é dele, faixa presidencial atravessada no peito, mas sem chapéu de bico. Nem espada. Nem a turma lá embaixo rindo, como riu de mim, até a diretora mandar todo mundo calar a boca, que era Dom Pedro.

Noutro sete de setembro, desfilei. Mas foi antes. Ainda estava no Grupão, que nem escola mais é. Virou secretaria, alguma coisa assim. Na minha turma tinha uma menina que gostava de falar o nome inteiro dela, que acabava com Fittipaldi. Em 1971, mesmo em São Vicente, ser Fittipaldi era coisa grande. Eu era filho do prefeito, o que também era coisa grande. Por isso, a turma do segundo ano gostava de querer me bater. Prática democrática, especialmente em tempos obscuros, isso de bater nos filhos do poder. E nem eles, nem eu sabíamos o que era Arena ou MDB. Pra mim, MDB era uma coisa verde, surda, acho que porque não tinha vogal; Arena era uma coisa esbranquiçada. Me lembrava praia. Meu pai era da Arena, mas a gente não falava dessas coisas aos seis, sete anos. 

No sete de setembro em que meu pai era prefeito, e de que eu me lembro, lá estava eu de uniforme mais uma vez. Tia Carminha tinha comprado um quepe e um coldre e uma coisa que era uma arma, acho que tinha um cacetete, também. Ah, a doçura da infância! Fui ao desfile todo paramentado. A gente ficou na rua, mesmo. Não tinha palanque – ou, se tinha, nem minha mãe, nem eu estávamos lá. Vi passar o exército, tun-tum-tchi-tun-tun-tun…, e lá fui eu pra frente da tropa, marchando que nem eles. 

Acharam lindo. Porém, era 1972.  

Nessa época da minha infância, a memória dos meus ouvidos me conta que “Independência” era pronunciado rápido, ao som do repique que preparava a entrada de duas fortes batidas do bumbo: “ou Morte!”. Uma voz solitária gritava “Independência!”, e o coro respondia “ou Morte!”. Era uma ameaça, não um grito de liberdade. E aí vinha a banda e os uniformes e o passo firme sobre o chão escaldante. 

Quando passei a falar desse tempo com meu pai, eu já no Largo São Francisco, onde essas ingenuidades não duram muito tempo, soube que o velho Jonas, no caminho de casa até a prefeitura, recebia das mãos do seo Domingos, o chauffeur, a edição clandestina da Voz Operária, embrulhado no São Vicente Jornal. Meu pai revelou, a mim estudante de Direto, que ele, antes de ir para a Arena, tinha sido vice-presidente da União Internacional dos Estudantes, que tinha ido à Tchecoslováquia na década de 1950, que lá conhecera Ilya Erenburg – e Lida, a motorneira tcheca com quem nadou nas águas do Vltava, para ciúmes eternos de dona Laura. Houve uma virada, e ela veio quando da sua visita àquilo que chamavam com voz tenebrosa de Cortina de Ferro… 

Foi meu pai quem me apresentou Caio Prado Junior, lendo para mim extensas partes de Dialética do Conhecimento, numa edição que minha memória traidora me diz que era elegante, de capa dura, verde, letras douradas. Tenho até hoje, nalgum lugar, uma edição rota de “Así se templó el acero”, de Nicolai Ostrovsky, que ele trouxera do lado de lá da tal cortina, e que lhe teria custado muita dor, se o tivessem encontrado naqueles tempos.  E foi por pouco. 

Ele, prefeito, foi “denunciado” pelos irmãos Horneaux de Moura ao Exército, pelo que foi chamado a dar explicações ao comandante do 2º BC. Queriam saber o porquê de ele “ter ido a Moscou” e de a Irmãos Rodrigues publicar anúncios na Voz Operária (ou noutro veículo de esquerda da época). Irmãos Rodrigues era a fábrica de urnas funerárias da família de meu pai. Uma loja ficava quase ao lado da prefeitura. Nela, se lia: Serviço Funerário Central – SFC. Não por acaso a sigla de Santos Futebol Clube. Meu pai não me contou o que tinha conversado com o comandante. Apenas que discutiram visão de País, que tinha ido a Praga, não a Moscou, e como estudante, nada mais, e que isso teria bastado para lhe darem trégua. Era um homem muito sério e circunspecto, de modos gentis, quase britânicos, com o inevitável cardigan – no calor que fizesse. Não tinha o perfil que os preocupava.

Embora distanciado do debate e da ação das esquerdas, meu pai morreu stalinista. Afastou-se, por causa do que viu para além da tal cortina. Resolveu mudar-se de São Paulo para São Vicente, e separar, de um lado, o seu jardim, e, de outro, a General Jardim, onde fervilhava sua “alma matter”, a Escola de Sociologia e Política, de colegas como Plínio de Arruda Sampaio, de professores como Florestan Fernandes. Quem só conheceu o Jonas Rodrigues de São Paulo não reconhece o de São Vicente. Quem conhece o de São Vicente, sabe apenas que ele foi da Arena para o PDS, do PDS para o PP, que foi prefeito duas vezes e, talvez, que a Oposição o chamava de “prefeito papa-defunto”. Quem só sabe de sua vida em São Vicente, não sabe que, nas curvas dos anos de chumbo, ele operou para que ferroviários no Vale do Ribeira pudessem escapar da repressão. Que tentou, em vão, convencer Rubens Paiva a sair do país em tempo. 

Houve mortes e houve gritos de liberdade desde então. Hoje sei o fracasso que foi não ter insistido em saber detalhes da conversa de meu pai com o comandante. Fracasso ainda maior do que aquele do meu sete de setembro como Dom Pedro. O vexame que foi aquilo. Cheguei em casa, subi correndo as escadas, me fechei no quarto e a espada me espetou a barriga quando pulei de cara na cama, chorando feito a criança que era, ainda em trajes de defensor perpétuo da pátria.

O Viajante do Presente

Postei alguns vídeos do Alexandre Olive na minha timeline do Facebook, e vou seguir postando. Um francês bonitão numa bicicleta.

Que tem isso de mais?

Bem, ele é uma pessoa que está viajando. Ele usa uma bicicleta, veja só, e circula livremente por ruas, estradas, caminhos, praças. “Ele está viajando” – percebe, por assim dizer, “aonde quero chegar”?

Alex saiu de Paris em direção a Monaco. Está agora na região de Marselha. Logo estará
em Cannes, depois Nice e subirá uma das mais belas estradas do mundo até chegar a Montecarlo. Vai ser uma subida e tanto.

Ele está conversando com pessoas por onde passa, dorme na casa de pessoas que não conhece – ou que sim, depende.

Ele vem saindo de um lugar, indo para outro e depois outro, e nenhum deles é necessariamente uma farmácia ou mercado.

Ele está viajando por vilas e cidades, por um caminho que antigamente (seis meses atrás) trataríamos como “turístico”.

Por isso, ele está tirando fotos e fazendo vídeos perto de cabras, castelos, pontes, vacas, perto de pessoas, perto de pessoas que ele não conhece. Nem aquelas cabras da semana passada ele conhecia.

Nas nossas, nas suas conversas, quase todas virtuais, “viajar” é uma ideia remota, pertencente a um pretérito perfeito ou a uma projeção longínqua de futuro. Todos nos tornamos, em variada medida, viajantes do futuro – mais precisamente, viajantes do futuro do pretérito.

Mas, então, surge um viajante no presente, tão no presente que praticamente resgata um momento de glória para o gerúndio: ele está viajannnnndo.

A viagem de Monsieur Olive, com todo seu charme e carisma, fica entre o esperançoso e o perturbador, entre o gesto libertário e o estranhamente inesperado. É o registro de um agora improvável neste nosso eterno presente imediato da pandemia.

É uma viagem histórica e ele nem percebe.

Merci beaucoup, mon chèr.

Caio Leonardo

PS.: Conheci A. O. no TGV de Paris a Bruges, seis verões atrás, quando até eu viajava.

PS 2: Quatro anos depois, coitado, ele veio ao Brasil, perdeu-se no cerrado e levou 12 horas para ir de Brasíla a Alto Paraíso.

PS 3: Eu era o motorista.

Aquários Tropicais

Beth Carver. Daily-sailor. http://www.bethcarverart.com

Há um Aldir Blanc em mim, que vem de lá de São Vicente, terra de misses e pivôs, perfume barato e Afonso Schmidt. Foi ali que aprendi que toda beleza é relativa, que pela semana eram belas as meninas uniformizadas em azul escuro, com o R branco do Raquel; que no fimdesemana vinham belas as paulistas, que não usavam uniforme, mas umas coisas que não tinham nada a ver com praia: brinco, relógio, essas coisas de gente que a gente chamava de paulista, ou fresca.

As meninas do Raquel moravam logo ali na rua Japão, de onde saíam os barcos dos pescadores da Colônia Z-4, que emprestava um canto para a escola, ou na México 70, a maior favela da cidade, que nós gostamos é do que é grande, como a conquista do Tri e caranguejo no Boa Vista. As paulistas desciam a serra para nos ver jogar mini-tênis e futebol, e dizer que eu era sem sal – aquilo doeu, Aline (é, eu lembro do teu nome, e eu tinha só 15; nós nunca mais nos vimos, mas eu lembro: doeu).

Um dia, eu já devia ter uns vinte anos, vi a R. na praia da Ilha Porchat, aonde o pessoal do Raquel nunca ia – eu achava, mais menino, é que porque era longe. Nos cumprimentamos, ficamos felizes de nos ver, ela que havia chorado uma vez, nós aos 12 ou 13, quando fiz que não queria ser mais seu par no grupo de dança do Vira da escola: quanta crueldade cabe numa criança? Ela estava linda de branco quando chorou – vestido rodado e rendado, de caxopa se tu queres ser bonita.

No contraste entre as jóias do fimdesemana, nos dois sentidos, e a R., que era loira e dançava comigo o Vira no grupo folclórico do Raquel, foi que descobri a teoria da relatividade: toda beleza é circunstancial, relativa, ambientada.

Mas quando a vi na praia, aquele outro dia anos depois, na praia proibida a quem do Raquel, a praia que ainda era dos paulistas no fimdesemana, hoje não mais, vi que Roberta era uma menina daquelas que a lida com o fogão deixa marcas na pele, pele macerada, macilenta, pele sem os cuidados de pele das outras meninas ali, que nem me achavam mais tão sem sal, vai ver que de tanto mar, de tanto sol, de tanto do mesmo, das mesmas circunstâncias, circunstâncias tão diferentes das de R., um dia tão linda.

Não vejo derrisão no poema de Aldir Blanc. Vejo a mim mesmo sinceramente fascinado por Roberta, como até hoje assim, sinceramente.

R. foi minha miss suéter. Mas também minha Iracema.

Eu perdi o seu retrato.

caio leonardo

Beth Carver. http://www.bethcarverart.com

MISS SUÉTER
João Bosco e Adir Blanc

Fascínio tenho eu por falsas louras
(ai, a negra lingerie),
com sardas,
sobrancelha feita a lápis
e perfume da Coty…

Na boca,
dois pivots tão graciosos
entre jóias naturais
e olhos tais minúsculos aquários
de peixinhos tropicais…

Eu conheço uma assim,
uma dessas mulheres que um homem não esquece.
Ex-atriz de tv,
hoje é escriturária do INPS
e que, dias atrás,
venceu lá o concurso de Miss Suéter.

Na noite da vitória,
emocionada,
entre lágrimas falou:

– Nem sempre minha vida foi tão bela,
mas o que passou, passou…
Dedico este título a mamãe,
que tantos sacrifícios fez
pra que eu chegasse aqui,
ao apogeu,
com o auxílio de vocês…

Guardarei para sempre
seu retrato de miss com cetro e coroa
com a dedicatória que ela,
em letra miúda,
insistiu em fazer:

Pra que os olhos relembrem,
quando o teu coração infiel esquecer…
Um beijo, Margô.

O Império das Cem Mil Covas

NASA/Bill Ingals

O foguete vai partir – já não é mais novidade, mas vai partir. O mundo parou, mas não por causa do foguete. Como quando Apollo era uma missão, as ruas queimam na América e um foguete sobe. Mas o foguete de hoje não é da América, as ruas não são de ninguém e o mundo já não é mais americano.

A polícia de Minnesota perdeu o controle das ruas, quando mal havia gente circulando por elas. O povo americano, morrendo em casa por omissão do governo, não suportou mais uma morte, e de um cidadão negro, agora cometida por um agente de Estado.

Stephen Maturen/Getty Images

O nome do policial assassino entra para a História como uma repetição que não é farsa: é uma coincidência reveladora. Seu nome é Chauvin. Sim, Chauvin, por todos os deuses, Chauvin. O mesmo nome do oficial de Napoleão que, dez vezes baleado, dez vezes voltou ao front, movido por uma obsessão nacionalista e racista. Você conhece Chauvin. Dele surgiu chauvinismo, e agora deu em mais um porco chauvinista que matou por desprezo e orgulho.

Governo que não serve nem protege,
de nada serve.

No mesmo dia da morte de George Floyd,
a bandeira americana, que sempre salvava o mundo em Hollywood, abandonava a cena da luta mundial contra o vírus com um gesto final e funesto de desprezo pelo concerto das nações. Trump anunciava a saída da OMS.

A antes onipresente bandeira americana não aparece nas mãos do seu povo nos protestos em Los Angeles, em Atlanta, em Nova Iorque, nem em Minneapolis, onde Chauvin matou Floyd. A polícia apanha dos manifestantes em Chicago.

A violência viraliza na América da quarentena, mas a bandeira sumiu, perdeu o sentido, o peso, a capacidade de unir; perdeu a confiança do seu povo.

Joseph Tam – Cantão, China (via Cassius P.)

Ao mesmo tempo, do outro lado do planeta, Duas Sessões definiam outro futuro com pés firmes no chão. Lá, de onde veio o vírus e
onde o vírus foi contido, move-se um poder vertical, pervasivo, planejado, que trabalha para ser mais eficiente e construir capacidade de ação. Desde lá, o espectro de Hong Kong abre as asas sobre nós.

Enquanto os homens se perdem no Novo Mundo, o vírus se demora em devorar corpos, ideias, passividades – e um Império.

O foguete privado, o abandono da OMS e a morte de George Floyd marcam o fim da influência moral e da capacidade de agência
dos Estados Unidos da América.

A Terra não lhe será leve.

Zaijian.

caio leonardo
30 de maio de 2020
Ano I do Império Chinês

HOW SOON IS NOW?

Roger Dean cover for Relayer

SOON
Jon Anderson

Soon, oh soon the light
Pass within and soothe this endless night
And wait here for you
Our reason to be here

Soon, oh soon the time
All we move to gain will reach and calm
Our heart is open
Our reason to be here
Long ago, set into rhyme

Soon, oh soon the light
Ours to shape for all time, ours the right
The sun will lead us
Our reason to be here

LOGO
Jon Anderson

Logo, ah, logo a luz
Passa assim! e cura a eterna noite
Espera o que vem
Por isso estou aqui

Logo, ah, logo a vez
De quem leva o ganho vai chegar
O peito aberto
Por isso estou aqui

Longa dor, sinto em teu olhar

Logo, ah, logo a luz
A nós cabe o rumo: nós, a lei
O sol me guia
Por isso estou aqui!

———

Em 1974, criou-se uma conhecida heresia que consiste em extirpar os dezesseis primeiros do total de vinte e dois minutos de The Gates of Delirium, primeira faixa do lado A de Relayer, sétimo álbum do Yes, primeiro depois da saída de Rick Wakeman. A música é uma alegoria ao romance Guerra e Paz, de Tolstói. Até alcançar os 16’, ela progride para um caos ruidoso, embora elaborado, que retrata uma batalha nas guerras napoleônicas. A banda então faz uma ponte que ralenta tudo quase até o silêncio, para dar lugar a uma melodia suave, cantável – uma transição que expõe o talento de Allan White, Steve Howe e Chris Squire. A partir dali, para desenhar a paz que chega depois da guerra, Howe usa cítara elétrica ao executar uma linha melódica sideral que culmina nos vocais agudos de Jon Anderson, que também assina a letra. Esses seis últimos minutos foram lançados (lancetados?) como single com o nome Soon*. A depender das tuas cores no verdadeiro palio di Siena que são as brigas entre fãs de bandas diferentes, essa canção é ou um dos momentos mais transcendentes ou mais piegas da história do rock.

Relayer fez sucesso, marcou época e ajudou, acredito, a fazer de Anderson essa figura angelical e precursora da New Age, ele inteiro e a família junto sendo dedicados a causas do planeta. Em sua página no Facebook, Anderson aparece festejando o recém-lançado documentário da filha sobre uma comunidade indígena em Dakota (Sioux), com a qual ele próprio e a esposa passaram um tempo anos antes. Na mesma página há um vídeo de agradecimento ao coronavírus por nos ter feito parar e pensar no que somos e fazemos.**

É de perder o fio da meada. Não sei bem o que me levou a querer ouvir essa música ontem… Ah! Sim. Facebook. Jon Anderson apareceu entre as figuras públicas cujo perfil na rede eu poderia pensar em seguir, de acordo com o algoritmo do Vale do Simplismo. Tinha deletado tanta gente antes…: de Jack DeJohnette a John Travolta; de Claire Daines a Anne Leibowitz. Mas então surgiu Jon Anderson, a filha, o documentário, os índios, a gratidão ao coronavírus e acabei me lembrando da coisa toda em torno de Soon.

Assisti ao show de Anderson em São Paulo, na década de ‘90. Lembro, coitado, do tanto que insistiram em que ele estripasse Relayer e consumasse de novo o tal ritual herético. Pois foi. Muito, mas muito a contragosto, Anderson parou o show, calou a banda e avisou que cantaria à capella. E cantou. Enquanto cantava, ficou fazendo com as mãos umas volutas infantis, imitando um maestro e regendo o público, a quem, com isso, chamava abertamente de tosco. Soon é a Creep, é a Smells Like Teen Spirit, é a O Bêbado e a Equilibrista do velho Jon: O sucesso que ele não suporta ter que carregar para o decurso dos séculos.

Anderson, se fosse torturado ao ponto de novamente cantá-la em 2020, seria recebido por uma outra audiência, outros ouvidos, seriam outros até mesmo os ouvidos que a conhecem desde 1974, como é o meu caso, eu que a ouvi por obra e graça dos irmãos Negreiros, Ricardo e Gilberto, que sempre tinham os melhores e mais novos discos em casa – a casa da esquina da Freitas Guimarães com a Messia Açu, um portal que levava a nós, calungas, à swinging London pela ponta de uma agulha sobre pratos giratórios de vinil.

Éramos cinco; os Negreiros, sete. Não resisto à tentação de dizer que, pelo menos na média, éramos seis. No correr dos anos ’70 e ’80, as adolescências das nossas duas famílias chegavam e partiam em biografias que se cruzavam. A coisa não ficou sem romance, mas a Laís não se casou com o Ricardo; a Leila não se casou com o Gilberto; o Luiz não se casou com a Bia; e eu, pobre de mim, só escrevo isto aqui para ter como aparecer na história, porque o que interessa é que foi esse intercâmbio discográfico e a amizade do mais novo dos Negreiros, Fernando, com o mais novo dos Bessas Rodrigues, Xande, que fez surgir um Rick Wakeman brasileiro, que se assina Allex Bessa*** e se tornou tecladista, compositor, arranjador e baluarte do rock progressivo.

Coadjuvante sem fala nesse mundo, fui atrás daqueles últimos seis minutos d’Os Portões do Delírio. Reaparecia a ideia de fazer uma versão da letra. Era madrugada, o sono não vinha. Peguei a letra, compus a versão. E o que aconteceu então foi que a letra acabou inevitavelmente invadida pela quarentena e suas circunstâncias.

Em 1984 (o ano, não a outra distopia), Jim Morrissey perguntava How Soon is Now? Minha adolescência estava na curva descendente e o drama da solidão que Morrissey descrevia era assim: Tem esse lugar que dá pra você ir e encontrar alguém para amar de verdade, mas aí você vai e fica na sua, e vai embora na sua e vai pra casa e chora e quer morrer.**** Era triste. Mas na distopia de 2020, na curva ascendente da pandemia, sair de casa é cair numa arena de gladiadores e gritar Ave, César, os que morrem te saúdam! só que com a voz abafada atrás de uma sufocante máscara de pano, o inimigo mortal sendo qualquer coisa à sua volta: a maçaneta, o botão do elevador, o filho do vizinho, a mão do frentista – não o frentista inteiro, não o chumbo na gasolina, não o ar poluído, não o vira-latas que passa: não, todos esses estão redimidos, o inimigo é apenas a mão do frentista, a mão da moça do caixa, a mão que balançou o berço. O inimigo está nas extremidades, nos pontos de tangência, no ar que invade a sala quando algum tresloucado desperta e abre as janelas, pálido de espanto. Não estamos na Peste de Camus, estamos na Náusea de Sartre.

Está trancada a rua da amargura. Animais selvagens tomam as cidades. Num prenúncio desse quadro, o cavalo Remorex venceu sem jóquei nada menos do que o próprio _pálio de Siena no ano passado.***** Tudo parecia normal, como sempre que não se sabe a verdade, teria murmurado Cortázar. Um mundo sem humanos se prefigurava, enquanto Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiano, aplaudia no Twitter: Pazzesco, incredibile, fantástico!

Hoje, os que se ocupam de tentar sobreviver mergulham na sua própria versão de Xavier de Maistre, com o universo reduzido a uma recorrente viagem ao redor do quarto de dormir ou da cela na Papuda; ao redor de qualquer dos círculos do inferno, todos e cada um sendo uma mônada embasbacada diante da Tela Ubíqua, os olhos esbugalhados, laranja mecânica sem chapéu-coco, obrigada a sofrer com as imagens e os áudios do escândalo do dia, com a censura ao bom-senso, com a bestialidade se impondo, sem esperança de que alguém perca por um instante a ilusão e descubra estar sob a vigência, não de um Estado de Exceção, mas sim do mais total ilusionismo. E os dedos postam e postam e postam: O mundo como vontade e prestidigitação.

Concluo sem esforço, porque desprezo o ativista que rompe o isolamento, que todo homem é uma ilha, dependente e sob ataque do mar de telas e medos que o cerca por todos os lados. O ruído desse mar não vem de fora, lá faz um silêncio de abandono. Vem da mesma tela em que disputo agora, neste instante, a tua atenção. Então, vai daqui não uma reza, mas esta pequena heresia, e que ela, em seu pecado original de ser ou não ser piegas, ocupe um pouco do teu Tempo, por isso estou aqui, e que logo, ah…, logo a luz passe assim!, e cure esta eterna noite.

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Caio Leonardo, no Oitavo Dia do Maio do Primeiro Ano da Pandemia.

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* Soon, vídeo oficial https://youtu.be/cGtjr-U5bT4

** Obrigado, coronavírus https://www.facebook.com/TheJonAnderson/videos/230322224820992

*** Allex Bessa no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCLm68qTYiP3hD0rWQX0qW8w

**** There’s a club/ if you’d like to go/ you could meet somebody/ who really loves you./ So you go and you stand on your own,/and you leave on your own,/ and you go home,/ and you cry/ and you want to die…” How Soon Is Now, The Smiths https://www.youtube.com/watch?v=hnpILIIo9ek

***** Em 2019, o palio di Siena foi vencido pela contrada della Selva, apesar de o jóquei ter caído do cavalo na primeira volta. O cavalo Remorex continuou correndo sozinho, perdeu colocações, mas passou à frente de três e ganhou no fotochart. Foi algo como se a final do Brasileirão fosse um Palmeiras e Corinthians e, aos 45′ do segundo tempo, entrasse em campo um porco ou um gavião que pusesse a bola pra dentro. Nada menos que isso. O primeiro ministro do Interior da Itália, o ultradireitista Matteo Salvini, estava assistindo e comentou “Pazzesco, incredíbile, fantástico!“. Confira: https://youtu.be/RqvjOkO1Y1Y

Stultifera Navis

A enorme e torta canoa

desce a corredeira.

Sacode e roda entre pedras e toras

rumo à catarata.

A canoa não vai vazia para o abismo.

Estão todos juntos.

Mas eles se acotovelam e se amontoam,

gritam e berram, vociferam

contra as árvores que estendem seus galhos.

Contra as margens do rio.

 

caio leonardo

22 de março de 2018

A Musa Impassível

“A Musa Impassível”, Victor Brecheret, 1923 – Pinacoteca do Estado de São Paulo

 

Quando Eldorado ainda era Xiririca, surgiu Francisca Júlia. Em 1891, ela ganhou São Paulo aos 20 anos, como poetisa e crítica literária. Fez sucesso antes mesmo de seu primeiro livro ser publicado. No Brasil do século 19, obviamente não haveria de ser fácil uma mulher firmar-se como poeta. Como era Brasil, as dificuldades que ela enfrentou precisavam conter, em algum ponto, uma dose qualquer de histrionismo: Dois escritores de renome se esbofetearam na imprensa sem saberem que por causa dela. João Ribeiro assinou como Maria Azevedo um ataque a Raimundo Correia, que ele achou que usasse “Francisca Júlia” como pseudônimo.

Nem passou pela pena do poeta que a pena de uma poetisa pudesse aquilo tudo.

Francisca Júlia foi grande, foi intensa, misteriosa, melancólica, foi parnasiana, foi simbolista e, se não chegou a ser modernista, os modernistas a achavam grande.

A crítica literária parece ser unânime quanto à altura que ela alcançou como parnasiana – seus contemporâneos a incensavam. Suas rimas internas são cristais em que o leitor tropeça surpreso no caminho, e seus enjambements são desfiladeiros curvos que o levarão vertiginosamente ao reverso do verso seguinte.

Sua abertura ao simbolismo, no entanto, marcou a entrada do esotérico em sua vida. E foi doloroso.

Com 35 anos, deixou de escrever e de frequentar as rodas literárias, o misticismo foi tomando espaço no seu pensamento. (Arrisco imaginar, da distância imensa que há entre mim e o que foi a sua vida, que o desapego pregado pelo budismo possa ter tido algum papel nesse seu recolhimento). Não foi uma vida tranquila, intelectual e espiritualmente, a que decidiu ter. Mudou-se para o interior, foi morar com a mãe, deu aulas, cuidou da casa. E com a mãe voltou a São Paulo em 1908 e, lá, um ano depois, casou-se com um poema.

Ah, se não é um poema o tanto que há de sublime em alguém se apaixonar pelo telegrafista da estação do Lajeado, na Estrada de Ferro da Central do Brasil; ele, um senhor de 45 anos que atendia por Philadelpho Edmundo –  ou, talvez, por Sr. Munster, sobrenome que causa a saborosa dúvida de ter ele sido anglo ou saxão. Imaginar como a poetisa encontrou essa personagem seria insondável, se não se soubesse que a mãe dela havia sido transferida para a escola que ficava na tal estação do Lajeado, a atual Guaianazes.

Francisca Júlia afastou-se dos poetas, mas se casou como poeta e morreu poeticamente, horas depois do marido, por overdose de calmantes.

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa

O enterro de Francisca Julia e Philadelpho tornou-se um acontecimento nos meios literários, já acossados pelos modernistas. Era 1920. A história registra a presença de Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti…

Três anos depois, estava pronta a homenagem dos modernistas à parnasiana: uma escultura de Victor Brecheret, em mármore, que levava o nome de um poema dela, A Musa Impassível. “Mármores” é o nome do seu primeiro livro, que é onde está aquele poema. A Musa Impassível, que viera em Mármores, ao mármore voltava.

A escultura ficou junto à sua lápide no cemitério do Araçá, esquecida, até que a filha de Brecheret, Sandra,  numa passagem por lá, deu-se conta de que aquela era obra do pai, isso em 1992. Em 2006, a Musa foi levada à Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde foi restaurada.

___________

Estive diante da Musa Impassível, a de mármore, cinco anos depois da sua chegada à Pinacoteca. O que vi foram 2,80m de formidável feminilidade, que se inicia com a sutileza doce do pé esquerdo levemente soerguido e apoiado para trás no bloco em que ela se sustenta, ela um losango do qual brotam volumes que revelam a expressão arrebatadora do corpo dessa musa coberto por um manto entre evanescente e pesadamente úmido, o tecido se apegando aos joelhos unidos que dali desenham o vértice que se abre para caber os imensos quadris que abrigam o ventre protraído que vai se fechando no torso que suporta seios impossivelmente eretos que conformam o colo que faz surgir a cabeça que é onde, só então, surge o único elemento impassível da musa: seu rosto. E é do alto do seu pescoço que o olhar despenca numa linha afirmativamente sinuosa, guiada pelas abas das vestes que se derramam coladas ao centro, e que são os lábios unidos, repousados, de uma portentosa vulva.

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Musa Impassível
I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

(1895)

As Cidades e o Invisível

Somente nos relatos de Marco Polo, Kublai Khan conseguia discernir, através das muralhas e das torres destinadas a desmoronar, a filigrana de um desenho tão fino a ponto de evitar as mordidos dos cupins
Italo Calvino,  As Cidades Invisíveis
Que cidade é esta em que tantos vivem,
mas que só você vive,
que só você vê?
É sua a cidade dos que olham para cima?
É sua a cidade dos que olham para o chão,
para as calçadas,
para os degraus?
Ou a sua cidade é a dos que não olham, dos que não vêem?
É sua a cidade em que a barriga pesa até libertar uma nova vida,
ou aquela em que não se pode falar em barriga?
Conte como é a cidade dos que se doem de amor
e a das para quem o ato de amar dói.
Deixe que saibam da cidade dos que ouvem outros sons
e da dos que não ouvem som algum.
Da dos que tocam sons que não se ouve
e a dos que não emitem sons.
Como é a sua cidade, se sua cidade é sua cor?
Como é a cidade
cor de sangue
cor de rosa
estilete e neon
Como é viver na cidade às portas do reino humano de Azeroth?
Venha revelar o território demarcado pelas bandeiras belicosas da bola
Mostre o mapa tatuado na sua carne
Trace as entranhas urbanas
do seu mundo sobre duas rodas
Ou talvez seu domínio tenha duas mais
Ou sua cidade sejam muitas, costuradas por seis, oito, quantos eixos?
Sua cidade é o baixo?
Sua cidade é a zona?
Sua cidade é a vila?
Sua cidade é um império que sacode os quadris, imperatriz?
O viaduto sobre a sua cabeça:
diz de viver sob ele
Vem, homem da cidade-beco,
Aprochegue-se mulher que dorme sobre o meio-fio da via expressa
 que nem mais levanta os olhos
que nem mais tem o reflexo
de se defender da freada
da buzina
da batida
do seu nada
conte o que ainda vê
fale do que ainda importa
talvez uma margarida
talvez uma presilha
talvez o ato de esquecer: o que só você saberá
Que foi feito da Cidade Náutica?
Como é nadar na Cidade Ocian?
Que resta da Cellula-Mater da Nacionalidade?
Sua cidade é uma represa
ou uma represa a sua cidade?
Fale da secreta cidade das casas ornadas de ciprestes
Segrede as falas inauditas que correm entre os últimos ciprestes
Entoe a revelação da cidade dos homens de deus
Defenda a cidadela dos homens sem deus
Quantas cidades há num prédio de apartamentos?
Quantas cidades há num desentendimento?
Quem cantará o apagar da luz cinérea
que desenhava a Cidade-Estado do Edifício São Vito?
Aproveite e fale da Cidade da Eterna Primavera,
(o Mercado Municipal)
E você outro, desguarde as confidências daquele entorno
terra de Fagins e ratazanas do terceiro pecado.
É preciso
Sempre é preciso uma pausa
sem a qual não se perceberá
a cidade
encoberta pelo olhar viciado do quotidiano,
a cidade atrás do biombo fosco da indiferença
a cidade apenas tímida,
hipodérmica
recôndita:

a cidade invisível.

Caio Leonardo 2004/2017

(Texto originalmente concebido em 2004, como apresentação de uma comunidade do Orkut, rede social abandonada como um bairro que a especulação imobiliária mandou esquecer)

Chove na Varanda

Queria poder dar a alguém
O amor que eu tenho pela chuva.
Olhares que troco com as nuvens,
Conversas com gotas que dançam.

Sonho sonhos que só com ela,
Ouço o que ela diz com atenção,
Deixo meu rosto na janela,
Largo meu corpo na varanda.

As luzes ficam embaçadas,
Os vidros, a minha visão.
Tudo é como fazer amor,

Quando chove no meu terraço.
Entregue silente a ninguém,
abre-se a ela o meu abraço.

Caio Leonardo, na varanda escura e molhado de chuva

Canção do Levante

Caboclo que sessas sob o sol,
Já se vão desoras
de mancornar
os que alcunham de mandriões
os esportulários antes trambecados
por veredas hoje descangadas.

Olha as almas que tranam o rubicão da bonança
tangidas pelo aracati benfazejo
que bafeja
este albor de século.

Motejam o teu mourejar.
Rezingam o roborar do teu costado.
Lobrigam no breu da bem-aventurança,
apeançados com teu novo vigor.

Joeira pela urupema
o jaspe,
sessado e lustrado,
que ornará neste lustro
os altares deste bom povo,
lombilhado,
lonqueado.

Joeira pela urupema
o que te enfronda
e confronta o sandejar
dos da ribalta.
Que alto é o teu horizonte,
para além das pretermitências
que assombram o dia santo.

Joeira pela urupema
o sal da terra,
e deixa esvair-se
o esgar provecto
que aqui já não tem tempo,
nem lugar.

 

Caio Leonardo

21.10.2014

 

 

Leitura de Canção do Levante pelo autor:

Blues para Jonas e Jerry

29 de janeiro de 2010, para o filho do seo Raul

Quando meu pai morreu, a missa de 7º dia foi na Matriz de São Vicente. Fiquei de ler a elegia que tinha preparado, mas me atrapalhei com o microfone e ninguém me ouviu, apesar dos cutucões que o padre Paulo me dava, eu todo lá concentrado e inaudível, ridículo e devastado, poeta amador a toda prova. Semana passada, morreu Jerome David Salinger, Jerry para os pouquíssimos íntimos, escritor cujo estilo busco decifrar como um filho a seu pai, imitando gestos, procurando a própria identidade no mestre. Dei de presente dois natais seguidos “O Apanhador no Campo de Centeio” à Maria Antonia, minha sobrinha, coitada.

A notícia da morte de Salinger surgiu à tarde, mas, de manhã, no táxi que peguei no Brasília Alvorada pra ir ao escritório no Brasil 21, vi, no bolso da porta, espremido atrás de um livro que fala mal do Sarney, outro de capa cinza, letras gelo, que diziam “O Ap…” A corrida toda transcorrera em silêncio até ali, silêncio quebrado com a pergunta sobre se alguém tinha esquecido o livro que mostrei . Era do taxista, mesmo. A ideia de o livro não estar perdido, de que havia um leitor ao meu lado, me encheu de uma alegria de nefelibata, que deu lugar ao que sempre se pensava quando se pensava em Salinger: como vai ser quando ele morrer? Há coisas dele escondidas? Continuou escrevendo esses anos todos?

Escrevi para amigos:
“Morreu JD Salinger. O dia que eu tanto temia chegou. Chegou antes da sua reconciliação com a humanidade. Antes de ele permitir que pudéssemos ler mais dele. Salinger foi o mestre consumado da hipotipose e do diálogo natural, superando seu predecessor, F. Scott Fitzgerald. Ninguém o superou até hoje nessas duas artes. A terceira em que era excelente, a construção de personagens infantis. Mas aqui ele tem quem esteja à sua altura: Guimarães Rosa. E só.
E agora? Ele destruiu tudo que escreveu a partir de 1960? Seguiu escrevendo? Morto, não vai mais se incomodar com a leitura acadêmica ou estereotipada que o afligiu ao ponto da reclusão, e terá permitido acesso a um legado escondido? A morte de Salinger é algo como o Apocalipse. Agora vamos saber se o mundo acabou ou se outro é que surgirá”.
Herdei esses exageros da minha mãe, Laura.

Dos contos reunidos em “Nine Stories”, o mais comentado parece ser “A perfect day for bananafish”, mas “For Esmé with Love and Squalor” e “Teddy” é que são meus preferidos: complexas construções narrativas que não deixam entrever os andaimes, as escadas, a carpintaria toda que exigiram para estarem ali, com o frescor das coisas de Salinger.

No Orkut, quem diria, tive acesso a outros contos dele não reunidos nos quatro únicos títulos publicados “oficialmente” em livro; e também a “Hapworth 16, 1924”. Eram raridades. No dia da morte de Salinger, o Twitter ofereceu tudo a todos em poucos minutos. Porém, ainda fica a angústia da dúvida sobre se haverá mais o que ler dele.

O Pira, em homenagem a esse mestre, postou para os Valami Lesz (legendário lista de discussão virtual),o poema “Funeral Blues”, de W. H. Auden. O Pira é Henrique d’Arce, que é de Piracicaba, então está explicado. Estudamos juntos no Largo São Francisco. Hoje, ele mora em Londres e dá aulas de inglês. Nos encontramos em dezembro do ano passado. Tomamos umas “pints”, enquanto eu engraxava botas, num pub barulhento e sujo em Cavendish Square.

Naquela noite, outro taxi nos levou ao Soho. Chovia uma triste chuva de resignação. Dali partimos para um breve passeio pelas memórias de uma Londres fin-de-siècle, feita de Bar Itália e Neal’s Yard; High Holborn e Sarastro, cujo dono sempre me recebia com uma taça de champagne e uma conversa absurda, porque eu não entendia coisa alguma do seu cockney com sotaque cipriota. Fiquei sabendo então que o dono morrera no ano anterior.

No poema de Auden, o autor dispensa as estrelas, manda apagar o céu, embrulhar a lua e desmantelar o sol, porque seu amor morreu. Pira e eu temos, como tanta gente, esse amor por Salinger. Lá entre os Valamis, Pira, que fez aniversário ontem, veio com Funeral Blues para Salinger, mas também para si mesmo, que ele perdeu o pai recentemente. Juntei meu balde despejado ao dele, e postei na lista a tradução que fiz desse mesmo poema. Tradução que li na Matriz de São Vicente, em 1997, como fecho da elegia a Jonas Rodrigues.

Blues de Funeral

Esquece as horas, corta o telefone.

Cala co’um osso o cão e sua fome.

Silêncio ao piano: co’um surdo tambor,

Traz o féretro, deixa entrar a dor.

Sobre as cabeças, aviões gemam sem porto,

Anunciando lá de cima: Ele está morto.

Põe um laço de crepe nas alvas pombas da praça

E note o guarda com luvas negras, aquele que passa.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Meus dias úteis e meu domingo em festa,

Meu meio-dia e a meia-noite, minha prosa e canção;

Pensei que esse amor fosse para sempre; mas, não.

Estrelas não é mais preciso: apaga o céu.

Embrulha a lua e desmantela o sol;

Esvazia o oceano, derruba a mata;

Pois tudo agora não vale mais nada”.

Caio Leonardo, filho de Jonas, leitor de Jerry

29 de janeiro de 2010

Ourivesaria Papíria

.LaPalabra

Valéria Bico de Penna – há cinco minutos

“Perdeu-se uma

palavra

de boa linhagem

A casa não é mais a mesma sem o seu

latim.

Da última vez em que foi vista

passeava com um tipo,

que a deixou escapar numa voluta.

O tipo também desapareceu,

inofensivo,

como uma palavra tolerada pela gerência.

Palavra perdida,

que falta faz

a sua prosódia alongada e suave,

seu ditongo ascendente

que dava garbo e pose

a quem a domasse em público.

Como roçavam docemente

suas sibilantes

nos lábios de quem soubesse

trata-la com jeito.”

nahuatl

Marco Antonio Vieira – há duas semanas

“Alguém, por favor, adote

esta palavra abandonada.

Foi encontrada por acaso

na rua

sobre uma folha úmida de jornal.

Com ela,

o pincel de um ourives asteca

ornaria um pendente de amate,

mas está esquecida, envelhecida

sem cuidado,

quase letra morta.”

Elyezer Sturm und Drang – há 1 minuto (editado)

“Procura-se uma onomatopeia

para uma criança triste.

Pode ser velha,

se for um frufru.

Ou na linha do tiki-taka.

Não precisa ter saúde,

pode padecer de neologismo

(ser blafântica ou pistinoica).

Não importa de onde venha,

mas que venha logo,

em tempo de fazer

o próximo verão.”

Procurem

…….Perderam-se

…………….Adotem –

eu suplico não permitam que abandonem

palavras.

caio leonardo

Sorveteria Itanhaem, 15 de novembro, esquina com 11 de junho

[ilustrações:

(1) http://www.freewebs.com/movimientosextosol/nombresennahuatl.htm

(2) http://www.proel.org/index.php?pagina=alfabetos/nahuatl

Pietà

Michelangelo, La Pietà – Basilica di San Pietro

Neste link, Uma Introdução a Pietá e sua leitura pelo autor



___________

PIETÀ


Stabat mater
dolorosa

Jeanne aprés Modigliani –
La muse et la fênetre

Giulietta doppo Fellini –
Un dolore più forte
di quello di Cabiria

Drummond depois de Maria,
também ela Julieta –
a pessoa que mais amei neste mundo

And Juliet, the icon
left with no friendly drop
to help her after – after Romeo
Poison and dagger –
O happy dagger!

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa e
bate à porta
dum pendebat filius

Primeiro foi Djalma,
aquele coração
que era um balde despejado
– e agora Olívia,
juxta crucem lacrimosa.

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa

Ma
sina,
Giulietta:
Morrer de amor,
A mais bela morte.

Mas como dói em nós outros
a dor mortal que os levou de nós
e um do outro.

Duas inscelências
entrando no paraiso
Dry martini em punho –
Here’s to my love! –
e nós aqui,
como uma banda em Nova Orleans
no ofício de um jazz funeral,
cabírias nós todos
entre um trompete e o bumbo,
a dor e a melodia
a lágrima e o alento
o bourbon e a rua.

caio leonardo

7.5.2009