PESSOA REVISITED

Ó mal hostil!
Quanto do teu rastro
são lágrimas no Brasil!

Por te menosprezarem,
quantas mães se foram,
quantos filhos em vão oram!
Quantas vidas ficaram pelo caminho
para dar razão ao Mau, ó mal!

Valeu a pena? Tudo valeria a pena
Se a alma dele não fosse pequena.
Quem quer passar além deste Horror
Tem que passar além da dor.
Ele à gente o perigo e o abismo deu:
foi ele que espalhou o caos.

O Império das Cem Mil Covas

NASA/Bill Ingals

O foguete vai partir – já não é mais novidade, mas vai partir. O mundo parou, mas não por causa do foguete. Como quando Apollo era uma missão, as ruas queimam na América e um foguete sobe. Mas o foguete de hoje não é da América, as ruas não são de ninguém e o mundo já não é mais americano.

A polícia de Minnesota perdeu o controle das ruas, quando mal havia gente circulando por elas. O povo americano, morrendo em casa por omissão do governo, não suportou mais uma morte, e de um cidadão negro, agora cometida por um agente de Estado.

Stephen Maturen/Getty Images

O nome do policial assassino entra para a História como uma repetição que não é farsa: é uma coincidência reveladora. Seu nome é Chauvin. Sim, Chauvin, por todos os deuses, Chauvin. O mesmo nome do oficial de Napoleão que, dez vezes baleado, dez vezes voltou ao front, movido por uma obsessão nacionalista e racista. Você conhece Chauvin. Dele surgiu chauvinismo, e agora deu em mais um porco chauvinista que matou por desprezo e orgulho.

Governo que não serve nem protege,
de nada serve.

No mesmo dia da morte de George Floyd,
a bandeira americana, que sempre salvava o mundo em Hollywood, abandonava a cena da luta mundial contra o vírus com um gesto final e funesto de desprezo pelo concerto das nações. Trump anunciava a saída da OMS.

A antes onipresente bandeira americana não aparece nas mãos do seu povo nos protestos em Los Angeles, em Atlanta, em Nova Iorque, nem em Minneapolis, onde Chauvin matou Floyd. A polícia apanha dos manifestantes em Chicago.

A violência viraliza na América da quarentena, mas a bandeira sumiu, perdeu o sentido, o peso, a capacidade de unir; perdeu a confiança do seu povo.

Joseph Tam – Cantão, China (via Cassius P.)

Ao mesmo tempo, do outro lado do planeta, Duas Sessões definiam outro futuro com pés firmes no chão. Lá, de onde veio o vírus e
onde o vírus foi contido, move-se um poder vertical, pervasivo, planejado, que trabalha para ser mais eficiente e construir capacidade de ação. Desde lá, o espectro de Hong Kong abre as asas sobre nós.

Enquanto os homens se perdem no Novo Mundo, o vírus se demora em devorar corpos, ideias, passividades – e um Império.

O foguete privado, o abandono da OMS e a morte de George Floyd marcam o fim da influência moral e da capacidade de agência
dos Estados Unidos da América.

A Terra não lhe será leve.

Zaijian.

caio leonardo
30 de maio de 2020
Ano I do Império Chinês