Manoela On The Spot

Brasília vai a São Paulo, mas volta.

Calor e táxi sem ar-condicionado, depois de praça da Sé e rua da Glória ao meio-dia. Na Sé, para cumprir deveres de advogado; na Glória, à procura de um sashimi, que em Brasília não se come isso decentemente em lugar algum. São umas tripas que desmaiam no hashi. Sou traído pela memória, erro o caminho, o centro de São Paulo não me pertence mais, um estranho na sua própria cidade. Um táxi me resgata na Conselheiro Furtado, sigo para a Paulista.

_ O carro tem ar-condicionado? – eu, desesperado. Ele, acabrunhado:

_ Não tem, não senhor. Se o senhor quiser, eu coloco noutro carro.

Coloca a mim noutro carro. Pessoas vivem querendo me colocar aqui e ali. Sou um móvel a céu aberto. Quem manda andar sentado? A vida é que manda, e eu ando, e todos querem me colocar aqui ou ali.

No caminho, o motorista explica que o médico não deixa usar ar-condicionado, dorme mal à noite se usar. O desespero avança: suor e paletó, gravata e mormaço. No caminho, o motorista me mostra um ótimo lugar para almoçar, é lá onde ele come sempre. Eu tinha contado a ele que me perdera do sashimi, e que agradecia pelo resgate.

Olho o lugar onde ele sempre come com sincero interesse antropológico – mas que, por ser antropológico, não é um interesse autêntico e revela logo meu meio, meus gostos, essa coisa burguesa que já me dominou e não tem jeito. É possível, percebo, ser sincero sem ser autêntico. Ainda olho o lugar. O tempo anda lento como asfalto derretido. O carro não para, só anda lento no asfalto derretendo porque é São Paulo, então posso ver que estão lá no lugar onde o motorista come: a sinuca, a televisão, a lousa, o giz e o picadinho, que hoje é quinta-feira. Portas de alumínio recolhidas no teto, portas abertas ao calor da rua, nenhum refresco para o martírio do sol, só a cerveja que o sujeito imenso toma no gargalo, na porta, camiseta regata e chinelo. Bermuda. Ronaldo vai brilhar ali domingo que vem. Algumas garrafas vão cobrir de âmbar o chão da calçada. Talvez mesclado ao âmbar algum tom de vermelho, se o Corinthians perder.

_ Da próxima vez, apareça aqui, tem todo tipo de prato que você quiser – convida o motorista em tom de iniciado.

Fico imaginando que pratos todos eram aqueles. Belle meuniere, Osvaldo Aranha, Filet au poivre, esses nomes que estão em todos os cardápios desde 1960, e ao que se dá, em conjunto, o nome vazio de “cozinha internacional”, mas que é a cozinha do Suplemento Feminino do Estadão, contrabandeada nos últimos quarenta anos para todos os cardápios de um certo mundo ubíquo e invisível, mas um mundo onde se come. O que desanima não é o lugar ou a comida. Morar em Brasília é comer sempre mal. Eu até já estaria todo Pierre Clastres, não fosse o calor.

O calor pede porto seguro. Vou ao Spot, esse ícone paulistano a uma quadra de outro ícone, que é a avenida Paulista. Os vidros verdes-claros que são as paredes do Spot são um refresco para os olhos e a antecipação do refresco que é estar lá dentro. Lá dentro tem ar-condicionado e não tem televisão. Tem moças bonitas como as da televisão. Da bermuda com chinelo e camiseta, a cidade passa a Fendi e vinho tinto, no deltatê de uma bandeirada. Abandono o camarão à belle e me entrego camaleão às belles.

Entro, peço mesa e vou tomar um banho no lavabo. Tomo um banho no lavabo e, na volta à espera, encontro Tonico, que não via havia anos. Sempre encontro gente que não vejo há anos quando vou a São Paulo. Se não vivo lá há anos, é compreensível que quem quer que eu encontre não tenha sido visto… há anos. Uma senhora em cadeira de rodas entra pela porta lateral. Abro alas com a minha, e cedo minha preferência a ela. Tonico se agrada da gentileza, depois volta para sua gente. Ao fim do almoço, Tonico terá pago a minha conta para que eu saiba que ele também é gentil. Eu sabia, Tonico. Obrigado mais uma vez.

Uma boa mesa na porta lateral, e me espalho solitário num latifúndio de quatro lugares no restaurante lotado. Descanso os olhos nalgumas mesas. Abro a New Yorker que chegou mais de mês atrasada, Obama na capa como o Washington de Rembrandt Peale, capa histórica. Rembrandt Peale, quanto provincianismo em quem pintou os founding fathers. Passo os olhos no texto de um indiano: The Elephant. O gosto pelo multiculturalismo alimenta textos como aquele, em que “dados culturais” fazem a suposta graça da coisa. Pobreza e bicicletas com outro nome, nome indiano, exótico, multicultural. E nada mais.

Então, vem Manuela:

_ Você já escolheu?
_ Você é argentina?
_ Meu pai é espanhol.
_ Filet au poivre. E purê de batata. Antes, suco de tomate e uma água. Depois, Coca-cola.
_ Ok.
_ Qual o seu nome?

Ela responde.
_ E o seu?

Respondo.

Quanta tensão num diálogo tão sem graça quanto o elefante do indiano. Manuela tem uma beleza desconcertante, aqueles cabelos negros ondulados, alta e frágil, o sorriso doce e altivo, traços fortes e suaves – uma beleza vertida em oximoros. Manuela serve com sorrisos, ilumina meu dia com outra luz, não a daquele sol no lá fora, à espreita, formidável.

Eu tinha visto o sol nascer em Brasília, antes de pegar o avião às 9h15. Ver o nascer do sol revigora. Vi a lua nascer toda pós-cheia, agora que de volta a Brasília – ela, lua, toda amarela, subindo por detrás do palácio da Alvorada, alvorada selenita. Isso também revigora, quando não rouba o fôlego.

_ Você roubou meu fôlego, Manuela. Agora ponha coca-cola no lugar dele.

Manuela no lugar certo. Manuela que nem mais vou ver. Não trago na lembrança suas meias ou seu sapato. Manuela, eu tirei o seu retrato.

caio leonardo – 2009. publicado antes em 6loggers

Dos Aflitos e das Penas

– eu, pombo que vejo

o milho derramado

o passeio do velho, o canivete na curva,

a manga e a paina, a mancha da pitanga,

a folha ardendo e a folha dobrada,

o remanso e o fim da mansidão

– eu, pombo que voo baixo

atento ao bicho homem e ao lixo dele

(que apanho ao brigar por fêmea,

que tenho a asa ferida e o olho sujo)

declaro ser verdade e dou fé:

esta praça é a mesma e o que virá dói mais.

– eu, pombo detestado e proibido,

cassandra cansada de guerra,

que não conheço a fome porque como

da mão melancólica de quem se perde

e é tanta gente que se perde

que jamais faltará milho a pombo.

– eu, pombo do pós-estilingue,

da pós-política de higienização,

do pós-especismo,

em plena curva no ar,

de costas para o cimento lá embaixo,

por cima das poucas copas

num looping desengonçado para além das minhas asas –

pombo indo além das suas sandálias

(aquelas de que sempre suspeitei) -,

eu pombo e pássaro e vivo e atento,

desisto ou não desisto?

– eu, pombo ilustre do peito depenado,

o pombo impresso no olhar da mulher que passa e que decide

se sou a natureza ou um incômodo,

se mereço milho na mão ou bolsada mortal,

enquanto ela segue para o Plano

sob o sol que sempre arde no cerrado

e nas minhas penas.

– eu, pombo que sempre vou ser a ameaça

de desfazer o jogo de xadrez,

de cagar no seu quepe,

de não bicar o milho na sua mão,

de não fazer o que esperam de um bom pombo de praça.

– eu, que não sou Fernão, nem Hélio,

eu vejo o que vejo, ouço o que ouço,

leio todos os jornais carcomidos,

folheio os livros jogados no chão,

Eu, infestado de vocês e refestelado de mim,

sou o que dorme na cidade

e você o que não dorme,

sou o que comerá o milho da sua melancolia,

e eu durmo e dormirei é sobre o concreto

ao lado do Caverna,

eu olho e oro pelo sorriso vivido e tímido do Caverna,

pela sua história que não ouso imaginar,

pelo tempo que levou para vir a pé de São Paulo a Brasília,

eu olho e oro pelos seus passos infinitos,

pelo seus vincos de sol na cara.

ave, Caverna!

o sábio dono de nada, mas colecionador de chapéus.

ave, Caverna!

pombo sem penas do lago Sul,

com seu andar recurvado,

um carrinho torto de mercado

e aqueles óculos de Raul.

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caio leonardo, après Zé Geraldo

Sera tamen

Se penso antes de falar,

se penso antes de escrever,

se decido não falar,

se concluo que não é prudente escrever,

se o que projeto adiante me aturde,

se o que vejo em volta me desconcerta,

se de manhã não canto no chuveiro,

se ao chegar ao escritório não cubro de sorrisos e carinhos e atenções a todos,

se adio abrir os jornais,

se me perco em conversas angustiadas com almas angustiadas,

se me esqueço de ler,

se me esqueço de escrever,

se me doem as costas e prefiro calar,

é porque não há mais liberdade para nada disso.

E não há mais liberdade para isso.

Não há mais liberdade.

E que isto fique claro

a cada poema sobre formigas

a cada parágrafo sobre futebol,

a cada palavra,

a cada palavra não dita.

caio leonardo

28 de julho de 2019

A Era de Tinitus

Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Jo 1,6

Em 15 de julho de 2000, ouvi João Gilberto no Barbican. Fiquei no corredor atrás da última fileira, e era como se ele estivesse bem ao meu lado, sentado do jeito dele, paletó gravata e violão. A acústica da sala oferece essas intimidades. Tinha lido Chega de Saudade, do Ruy Castro, livro saboroso que orientou o quanto pôde meus ouvidos para entender o que o baiano fizera e fazia para ser tão extraordinário. Foi uma noite de educação dos sentidos.

À saída, no imenso foyeur, escondida num canto, sozinha, entretida com as próprias mãos, Angelica Huston. Parei no longe dela em que eu estava, um grande vazio, só nós. Ela deu aquele sorriso letal com os olhos baixos mas fixos em mim. Sorri de volta com a reverência de um Gomes à sua beleza única. Foi uma noite de educação dos sentidos.

Semana passada, enquanto ainda era possível viver, me lembrei dessa noite formadora. É que tinha achado um audiolivro sobre como Ouvir e Entender Música de Concerto, e as palestras foram me remetendo àquela orquestra toda que João Gilberto encaçapava no seu violão – lá ele a mantinha em silêncio à vista da mente da plateia, como potência e fúria encolhidas entre os seus acordes sincopados, seu ritmo feito de pausas, seus sussurros de vida boa à beira da praia. Vinha sendo uma semana de educação dos sentidos.

O silenciamento de João é a ruptura da caixa de ressonância daquele velho violão, e é o derramamento, a céu e olhos e ouvidos abertos, de toda a dissonância cacofônica daquela até agorinha escondida orquestra, orquestra que explode em fúria, antes potência, agora ato – e a música que tocam os despejados de João é o oposto extremo do Brasil que ele inventou.

Tenho tinitus desde cedo na vida. O meu é um som agudo e estridente, uma polifonia imitativa com uma camada de chiado sobre outra de zunido – soa como se eu vivesse um tempo em que tivesse sido extinta a Rádio MEC do Rio e sobrado, no mostrador do motobras do táxi amarelo que cruza a Rio Branco, um ruído fora de sintonia, ininterrupto, latente, que, se o tédio permitir, invade o cérebro.

Boa música compensa tinitus, mas João saiu do ar e os olhos já não podem ver.

Um Ranger de Ossos na Volta

Um copo de vidro, água dentro. Quase cheio.

Toca a sirene de ré do caminhão de lixo.

Óculos, livros. Um currículo, um guardanapo.

O carregador de celular cruza as pernas,

quer saber se vai comigo,

lemniscata desengonçada e aberta: desfinita.

A noite está aberta e fria,

lá fora.

E eu inventario os restos do dia.

Na Avenida

O garoto deixa cair a perna do muro.

 

Deve ser o 8.

Ele avança passo firme até o meio-fio.

Estica o braço.

 

É o 23.

Faz que não para o motorista.

 

O motorista freia, para e abre

a porta de saída –

que ainda era a da frente.

O garoto e o motorista se ameaçam

com os olhos

pelo tempo da descida de uma senhora:

sacola de plástico quadriculada,

acelga e bengala amanhecida.

Ela se agarra onde pode.

O último degrau é o abismo.

Os dois aguardam o gongo

enquanto ela aterrissa:

albatroz-de-sobrancelha-negra

de lenço na cabeça.

As asas balançam na direção da

Rangel Pestana.

 

O câmbio berra, engasga e

o 23 ruge em direção à praça do Correio.

O garoto sente passar o calor do motor,

a porta da frente se fecha com estrondo.

Os olhos se largam: empate.

 

O garoto dá cinco passos de costas e

finca de novo a sola do bamba no muro –

no último muro de casarão

na Presidente Wison.

As costas no muro,

a palma das mãos entre as costas

e o muro.

Ele sente alívio e incômodo:

no frio do muro branco,

nas rugas grossas do muro chapiscado.

Faz sombra a mangueira

que vem de dentro do casarão.

 

O garoto recosta, com cuidado,

a sua cabeça no muro, e aplica

um olhar sem direção, ausente.

 

Ausente, nada.

No outro lado da avenida,

de um certo sexto andar,

Gisela pode estar espiando.

O olhar transita

daqueles seis andares do edifício Itu

para os doze andares do São Rafael… Lá,

mora a professora Mari!… O garoto

deixa cair a perna do muro.

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D. hominis

A mosca varejeira entrou pela biblioteca – 

mais um parágrafo

                                e a angústia acabava.

A mosca varejeira descobriu minha presença –

o parágrafo ficou mais distante.

A mosca varejeira decidiu pelo meu cabelo –

a angústia se esgotou em raiva.

A mosca varejeira faz um barulho danado,

não demorou e já era o bicho nocivo da casa velha, lá em São Vicente.

Inimiga antiga.

A mosca varejeira que fazia um barulho danado levou um voleio da edição de bolso das Selected Short Stories de Guy de Maupassant.

E aquele parágrafo morreu ali, abatido pela dúvida insondável:

O que ela queria?

Talvez, que eu lhe abrisse a janela

ou lhe desse atenção – sua vida são sete dias

sem companhia; eu, que passei

tantas vezes sete dias sem companhia,

não me importo. Mas e ela?

Uma vida adulta que começou pela cópula

e se estendeu pelo nada. A dela. Ou a minha?

Sua vida foi voar, zumbir,

pertubar um sujeito angustiado, quieto no seu canto e que procurava palavras.

Nunca uma banana. Nunca o gosto ainda fresco de iogurte grego na lâmina de alumínio.

A mosca varejeira agora é aquela angústia que saiu do parágrafo e foi impressa,

como mancha,

na topo da capa amarela, debaixo do pé do pinguim.

……….

Caio Leonardo

Dodecaedro Dodecafônico

Fale de mim, Tempo.

Conte de mim.

Não que eu queira ouvir as histórias que sei

ou as que esqueci.

Conte o que fez de mim

enquanto descobria Raymond Carver;

o que esculpiu na minha carne

enquanto eu preparava a infindável refeição.

Sussurre o que não percebi que acontecia

em volta:

fale da minha ingenuidade obcecante.

Estou contente com o que sou,

apenas que ouvir outras vozes do Tempo

faz do homem um dodecaedro,

a vida vista e vivida por doze faces

que ouvem doze vozes dodecafônicas.

Diga, Tempo, o que tiver a dizer,

que a chuva está passando

e com ela vai a melancolia.

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caio leonardo 1° de maio de 2019

Sobriedade e Poder

Kublai Khan dominou o mundo e a China, que era maior que o mundo; levou conhecimento, cultura e riqueza de extremo a extremo da Rota da Seda, com mão pesada sobre os governantes e as cortes que não se resignavam à sua ordem, mas com tolerância à cultura, aos costumes e às religiões de cada povo submetido ao Império Mongol. A China não seria a China e a Europa não seria a Europa sem o legado do seu império.*

Kublai Khan bebia muito.

……….

Winston Churchill conduziu uma ilha acuada diante do exército mais poderoso da Europa. Foi maior líder político conservador do século 20.

Winston Churchill bebia famosamente.

………

“Dom Pedro II falava alemão, italiano, espanhol, francês, latim, hebraico e tupi-guarani. Lia grego, árabe, sânscrito e provençal. Fez traduções do grego, do hebraico, do árabe, do francês, do alemão, do italiano e do inglês.”** Sob sua coroa, o Brasil cresceu 4,81% ao ano em média.

Dom Pedro II era um grande bebedor de cachaça.

……….

Lula bebia cachaça, e fez o Brasil crescer 4% ao ano em média, de 2003 a 2010.

…………

O atual ocupante do primeiro cargo da República toma fanta laranja e é o maior erro que o Brasil cometeu em toda a sua história.

Não há, nem haverá, coisa alguma que o faça deixar de ser, por um segundo, em toda a sua vida, com a consistência de sempre, uma pessoa tão cheia de ressentimento, com nenhum entendimento sobre o presente, sem qualquer lampejo de ideia sobre para onde conduzir afirmativamente o Brasil, no que lhe cabe, para um futuro.

Nem que bebesse.

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*Leitura iluminadora: Gengis Khan and The Making of the Modern World, de Jack Weatherford

**Furtei daqui: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2012v2n30p101

Oração

Laura dormia a esta hora

depois de mamar em Carolina Augusta –

a mais bela cachopa de Rio Frio,

mocinha órfã de Trás-Os-Montes,

a mais nova mãe de Vila Ventura,

destino d’além-mar de uma alma forte,

mas não aventureira -,

tudo sob o olhar curioso e ciumento de Maria,

primogênita

a quem aquela criança chamaria de Taminha

pelos tempos dos tempos.

No alpendre, Antonio,

do sorriso maroto

e do cenho fechado,

guardava as galinhas e os ovos –

os olhos sobre a fronteira da estrada para Uchoa,

lama aberta no descampado,

a eternidade da pequenidão

daquela vila de terra vermelha,

noventa e dois anos atrás.

……….

caio leonardo, no abril de 2019,

filho de Laura, neto de Carolina Augusta,

sobrinho de Maria, que Maria nunca foi –

ou era Carminha ou era Taminha -,

neto de Antonio

A Vida Secreta da Morte

Ele não come carne.

Ela não come peixe.

Eles se dão flores?

Ele não come ovos.

Ela não come foie-gras.

Eles se dão flores?

Um bouquet de rosas

é um filet à chateubriand

Um bouquet de flores do campo

é uma terrine de foie-gras

Um bouquet de copos-de-leite

são copos de leite

Um bouquet de girassóis

são ovos pochés:

Todos são iguais na morte a serviço do homem.

O boi morre pelos rapazes e as meninas do futebol.

As rosas morrem pela aniversariante entediada.

O ganso morre pelo senhor desembargador.

As flores do campo morrem pela menina com apendicite.

Os ovos morrem pelo bolo da noiva.

Os copos-de-leite morrem para encenar a pureza que não está na noiva.

Vida alimenta-se de vida.

Tudo o mais é disfarce.

Menos o bouquet de flores.

O bouquet de flores é um assassínio indecoroso.

As Línguas como Vontade e Representação

Dois amigos meus inventaram línguas, Gavin Adams e Guian de Bastos. A língua dos Adams era (ainda será?) falada entre ele e sua irmã, as raízes no gaélico, no inglês e no irlandês, coisas das Ilhas de onde sua família viera. Sei que Abergavenny existe por causa dele. Decorei e consigo pronunciar Llanfairpwllgrwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch por uma nunca longínqua influência dele.
 
Já o Guian inventou a língua de Vaspara, a história de Vaspara, a geografia de Vaspara e até o jornal local, que certo dia, nos primeiros anos dos 1900, publicou uma pequena nota sobre um concurso de balonismo ocorrido na capital, tudo muito colorido, sereno e aventureiro, não fosse a delegação do Brasil e suas impertinências. A Faculdade de Letras da USP, se for mesmo uma academia com alguma dignidade, guarda o notável estudo sobre a gramática da língua de Vaspara, que inclui a tradução desse artigo, tradução e estudo elaborados na penúltima década dos mesmos 1900, pela hoje doutora Claudia Santana Martins.
 
Gavin mora de mim quase à mesma distância que há entre o País de Gales e Vaspara. Guian mais perto. Mais perto do País de Gales, em Amsterdam. E Vaspara inteira mora dentro dele. Já Claudinha mora na São Paulo do Gavin, e eu morro de saudades de tudo e todos.
 
Hoje, recebi os “podcasts da semana” da New Yorker. Um deles é uma entrevista com David Peterson, o cabra endiabrado que criou não uma, porém DUAS línguas para Game of Thrones: Valyrian e Dothraki. Tenho certeza de que meus amigos vão se deliciar com isso. Todos os meus amigos. Inclusive o Ser Leo, que, pelo que me lembro, e me lembro de nada na vida, despreza o seriado: nos dias de hoje, não dobrar os joelhos perante a Khaleesi é o mesmo que uma mãe não ir ver o filho desfilar no 7 de Setembro.
 

TRÊS ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE DE ARTHUR

Uma única vez, estive no escritório do prof. Fabio Konder Comparato, de quem tinha sido aluno. O assunto não era acadêmico – ele nunca teria tido motivo para me receber por algo do gênero. Estava lá, com gente grande, para pedir-lhe um parecer.

A uma certa altura, uma personagem foi citada, não me lembro qual, e ele então comentou, não com a gravidade que o define, mas com uma expressão entre tristeza e pânico:

__ Com ele aconteceu o que não desejaria para o meu pior inimigo: Ele perdeu o filho.

Década de ‘90. Foi nesta cena que comecei a me dar conta da dor dos meus próprios pais com o que aconteceu a mim mesmo, aos 22 anos.

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Drummond perdeu a filha, Julieta, a pessoa que mais amou em sua vida. Morreu uma semana depois, de tristeza.

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Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

Chico Buarque

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