Amor, Sol e a Pata da Aranha

“Amor incondicional” é o novo “calor senegalesco”, como se não existisse mais dúvida nem medida, como se não existisse um calor mais ou menos, lá pelos 26° C, um amor de perdição, o vento noroeste de Santos, o amor que divide, o sol das três da tarde em Brasília, o amor que vai embora, o meio-dia de Janeiro no Rio, o amor de Fevereiro, tudo justo quando menos se ama e mais desequilibrado o mundo das relações humanas se encontra; justo em meio ao aquecimento global.

O lugar-comum é a dispensa da reflexão, o abandono do olhar autêntico, é a preguiça de viver, a ilusão de que repetir uma fórmula vai conter as forças caóticas do universo.

Ler mais uma vez “amor incondicional” acaba sendo como misturar asa de morcego, pata de aranha, olho de coruja e sumo de carqueja no velho caldeirão do auto-engano.

PESSOA REVISITED

Ó mal hostil!
Quanto do teu rastro
são lágrimas no Brasil!

Por te menosprezarem,
quantas mães se foram,
quantos filhos em vão oram!
Quantas vidas ficaram pelo caminho
para dar razão ao Mau, ó mal!

Valeu a pena? Tudo valeria a pena
Se a alma dele não fosse pequena.
Quem quer passar além deste Horror
Tem que passar além da dor.
Ele à gente o perigo e o abismo deu:
foi ele que espalhou o caos.

A MORTE POR CONVENIÊNCIA

A morte de brasileiros, às centenas de milhares, atende a um cálculo político e a outro orçamentário.

Ao longo de não mais do que duas semanas:

i) O Presidente da República, o Governador do Estado do Amazonas e o Prefeito de Manaus deram causa a que alas inteiras de hospitais sob sua responsabilidade fossem palco da morte por asfixia de pacientes de COVID-19 pela falta de oxigênio. As pessoas estavam internadas, sendo cuidadas dentro de hospitais e morreram porque acabou o oxigênio.

ii) Um assessor do ministério da Saúde observou que não há por que abrir leitos de UTI, se não há oxigênio para o Norte. Então, que morram nas ruas.

iii) Há dúvidas quanto à veracidade da afirmação de uma autoridade, ventilada nos jornais, de que a morte de idosos beneficia o equilíbrio das contas do governo, por baixar o volume de aposentadorias a serem pagas. Pode não ser verdade, e espera-se que não o seja, porém a lógica é conhecida desde que veio a público a obra de Malthus, no século 19: o crescimento da população é mais intenso do que o dos recursos para sustentá-la, e qualquer progresso para a grande massa é uma ilusão passageira, porque os recursos logo se esgotam. É um dos mais complexos temas da Política, que este Governo demonstra ter resolvido por simplesmente dizer que não é com ele. Não se importa que morramos às centenas de milhares.

Não há relação de causa e efeito entre mortes por COVID nos últimos 11 meses e a oferta atual de alegados R$ 3 bilhões de reais em emendas a senadores e deputados apoiadores da candidatura governista à Presidência da Câmara dos Deputados. Porém, não deixa de ser uma coincidência extraordinária o que dizem alguns números a respeito de duas tristes grandezas: i) quantos de nós morremos e ii) quanto receberiam os que morreram, se vivessem por mais um ano – mais um ano fiscal, para ser preciso. Se estabelecermos, numa conta bem inferior à real, o valor do salário-mínimo (R$ 1.100, a partir deste janeiro) como base para o que, digamos de novo, 220 mil desses brasileiros mortos receberiam ao longo de 2021 como aposentadoria ou qualquer outro benefício governamental, chegaríamos ao valor anual (R$ 1.100 X 13 x 220.000) de R$ 3,14 bilhões de economia, por baixo, divididos entre o Orçamento Federal e o da Previdência Social. 3,14 é mesmo um número mágico.

Pois bem, o Presidente da República afirmou, semanas atrás, que o Brasil estava quebrado, não tinha dinheiro, não havia o que fazer para salvar a população da morte e da fome. Mas em seguida surgem R$ 3,14 bilhões de reais para construir apoio político no Congresso Nacional. Alguma conta fizeram. Talvez essa conta acima, macabra e conveniente.

Vamos fazer outras contas:

*Em 11 meses – de março a janeiro de 2021 -, morreram, repito, 220.000 pessoas de complicações causadas pelo COVID-19 no Brasil.

*Em média, portanto, morreram 666,666 (sim, não é brincadeira, a conta é essa…) pessoas por dia, todo dia, nesses 11 meses.

*De 1942 a 1945, morreram 1.300.000 pessoas em Auschwitz-Birkenau, o maior campo de extermínio nazista. Morreram esse tanto, lá e então, por asfixia, quase todos, mas também de bala, fome e experimentos médicos – experimentos de todo tipo, mas não há registro, é verdade, de terem oferecido cloroquina para curar uma síndrome respiratória grave.

*A média de mortes diárias em Auschwitz II – Birkenau naqueles três anos foi, grosso modo, de 1.200

*O Brasil, nesta data de 31 de janeiro de 2021, alcançou o número de 1400 mortos nas últimas 24 horas. Estamos acima de 1000 mortos há semanas.

Sim. O que estamos vivendo no Brasil já não difere muito do que se registrou em Auschwitz II – Birkenau em média de número de mortos. E não difere em NADA do que segue acontecendo há semanas em Manaus: morte por asfixia. Na Alemanha nazista, matavam com Zyklon B; no Brasil bolsonarista, matam sem Oxigênio.

Não bastasse isso, uma nova cepa de COVID 19 surge em Manaus. Dada a falta de leitos e de oxigênio, e a urgência em atendimento dos pacientes, tomou-se a decisão de transferir pacientes para outros Estados. Com essa transferência, se não feita com maior cuidado do que o já dedicado à Sars-COVID-19, poderá ser que a cepa de Manaus esteja sendo espalhada a outros Estados. Quando age para salvar vidas, o Governo central o faz com o risco de disseminar nova cepa do vírus, mais mortal.

A vacina, que já existe, poderia estar sendo recebida e distribuída em larga escala pelo Brasil, não fosse a decisão do Presidente da República de rejeitar, por conta de uma agenda geopolítica manicomial, a vacina criada no Brasil junto com um laboratório chinês. Também não teve competência, nem ânimo, para adquirir a vacina da Pfizer, alegadamente porque os termos contratuais propostos pela farmacêutica eram inaceitáveis para o governo brasileiro, numa demonstração de duas falhas trágicas: (i) descaso com a urgência, conveniência e oportunidade de ter a vacina no Brasil e (ii) incapacidade de negociar a benefício do Brasil um simples contrato com a altivez e o peso que uma das dez maiores economias do mundo tem de ter e demonstrar ter diante de uma empresa privada.

Ter a vacina a tempo e modo seria, numa avaliação funesta de seus aliados, uma derrota política para Bolsonaro, que deixou o discurso em defesa da vacina ser abraçado por Governadores, enquanto ele, Bolsonaro, insistia na aposta política em tratamento precoce e desprezo por medidas de distanciamento social, higiene e uso de máscaras – que nos valeu, digo de novo, 220.000 mortes numa conta que não para de subir.

É genocídio? É genocídio. É genocídio quando centenas de milhares de brasileiros morrem por inação ou definição clara de ação governamental ineficaz para salvar vidas, sabedoras as autoridades de que havia alternativa, de que havia ações a serem implementadas com urgência, mas não o fizeram para poderem lavar as próprias mãos e terem a oportunidade política de inculparem prefeitos, governadores e o Supremo Tribunal Federal, numa luta por ganho político. Quando tudo isso se soma e se arranja, temos evidências de que o Brasil vive um genocídio pensado e articulado de cima, para a tomada e manutenção de poder por um Presidente da República que precisa ser cassado, para o bem da nação.

Não é apenas a peste que assombra o Brasil. A fome está batendo à portas como corolário da peste, pela via do desemprego e do desalento, que já atingem perto de 40 milhões de brasileiros. Sem fonte de renda para dezenas de milhões de brasileiros, a fome é uma consequência fácil de intuir. Enquanto isso, o auxílio emergencial está a risco. O Governo diz não ter dinheiro para oferecê-lo sem romper o teto fiscal.

Ora, o Governo central está preocupado com equilíbrio de contas na Previdência e no Orçamento Geral da União, enquanto estamos em guerra contra um inimigo invisível que invadiu todo o território nacional e já matou dez vezes mais brasileiros do que a Segunda Guerra Mundial.

Derrube-se o Teto de Gastos, já! As próximas gerações orgulhar-se-ão da boa governança que teremos dado ao País num momento de extremo rigor, de desarticulação da economia, de falências, de dívidas, de dor, de fome e de morte. Saberão lidar com o custo que herdarão de nós. A alternativa é a vergonha eterna, a falência da sociedade brasileira pelas mãos desta geração hoje viva e econômica, intelectual e politicamente ativa.

Se falta visão mais clara do que se passa, o povo manauara deveria levar os bolsonaristas negacionistas aos hospitais para buscarem os corpos dos mortos, tal como os americanos fizeram com cidadãos e cidadãs de Weimar, levados a conhecer os horrores de Buchenwald.

O campo de extermínio de Aschwitz-Birkenau foi liberado pelos aliados no 25 de janeiro de 1945. Quanto a nós, chegamos agora ao fim do primeiro janeiro do nosso holocausto.

Caio Leonardo, advogado

O FUTURO É DAS COMPANHIAS AÉREAS

2 de Setembro de 2020

O setor aéreo está sob profundo estresse. Analistas avaliam que podem quebrar, desaparecer como serviço, com o advento dos riscos em torno da pandemia. Discordo.

A medicina vencerá o vírus, mas o mundo do trabalho jamais será o mesmo. A consequência disso não é o fim das aéreas, e, sim, o início da sua era de ouro.

Troquem a expressão home office para WORLD OFFICE: As pessoas não precisam trabalhar nem de casa, nem do escritório. Podem trabalhar DE QUALQUER LUGAR DO MUNDO, a qualquer tempo.

Não é mais preciso esperar as férias. A ideia de férias ficou ultrapassada.

Até do avião é possível participar de reuniões, hoje.

O turista será um profissional ou uma família tocando a vida enquanto passeia.

O futuro é das aéreas.

Caio Leonardo #airlines#aereas#tourism#turismo

A Mesmice como Vontade e Representação Política

Ai de ti, São Paulo!
Onde narcisos
acham lindo
o que veem no espelho.
Se é a tua imagem,
então é a tua vontade.

Não importa o quê,
não importa como:
importa que siga
sendo o mesmo

O príncipe é bom
sempre que feito
à sua imagem e semelhança.

Não importa para quê,
não importa aonde leve,
não importa o que aconteça:
importa apenas
que seja o mesmo.

As mesmas bandeiras de antes,
bandeirantes.

Ai de ti, São Paulo,
que acha mesmo feio
o que não é
espelho.

DOIS VIZINHINHOS

_ A mamãe te mostrou ou você viu?

_ Sua mãe mostrou a foto no carro.

_ Então, você não viu.

Maitê traz os óculos de coração

vermelhos

que ganhou na Feira do Paraguai

e Pedro prova os amarelos

ovais

que se entediavam sobre Sebastião Salgado no aparador da entrada.

Passos animados invadem a varanda.

O sol desenha nuvens amarelas vermelhas (infantis)

e prateadas

cinzas-escuro, como as volutas dos meus cabelos

longos de isolamento.

As cores se espalham

dramaticamente

por todo o horizonte

enquanto o sol se põe detrás de outros vizinhos

do lado de lá da serpente de pedras portuguesas

que rebola do Sul para o Norte

entre espelhos d’água,

palmeiras esparsas e outras complacências.

_ Um beija-flor mora aqui embaixo, Pedro.

_ É?

Ele encontra a pequena lanterna de ferro cor de jade

sobre a mesa de tampo de junco esturricado pela seca.

Os vermelhos os amarelos as linhas prateadas

mergulham devagar.

_ Hora de deixar o tio Caio descansar.

(Nunca vou me cansar. Nunca vou descansar)

_ Tio Caio, me mostra?, Pedro aponta para o microscópio, que está quebrado.

Pedro quer olhar pelo microscópio quebrado.

Pego a peça pesada

desço à altura dos olhos dele.

_ Não dá pra ver nada.

_ Tá quebrado.

Fico imaginando a frustração de olhar por um microscópio

de mais de cem anos de idade

aos quatro anos de idade

e não enxergar um mundo mais fascinante

do que o do caleidoscópio

que ficou na varanda

sobre o sofá redondo, agora sem luz.

Diamonds Are Forever


Sean Connery morreu.
Não quero conversa.
Não liguem para mim,
não escrevam mensagens,
não cobrem o Netflix.
Não toquem a campainha,
não batam à porta,
não venham entregar o edredom lavado.

Connery não tinha a menor importância para a ordem geral das coisas.
Mas aconteceu de ele ser o último pedregulho que me ligava ao século 20.
Sua morte precipitou uma avalanche que invade
e soterra
minha ordem afetiva com o mundo.

Finding Forrester, de Gus van Sant, 2000

Ele foi Salinger em Finding Forrester –
contra a proibição de Salinger de usarem sua obra no cinema.
Um escritor recluso
é o que à época este homem aqui
aspirava a ser,
não fossem as dores. E as contas.

A vida de Salinger dorme na minha cabeceira, se equilibra numa montanha desastrada de livros que existe para desabar de madrugada. E que desabou.

Me desapego do mundo agora.
O gatilho do insuportável é meu.
Está claro que a vida tem licença para matar,
mas nenhuma elegância ao fazê-lo.
A contragosto, vou tomar um banho
escovar os dentes
e comer um lanche besta.
Não, não vou me matar: seria o triunfo da vaidade sobre o fracasso dos viventes.
O mundo é que morreu mais do que podia esta semana.
Não tolero abusos. Nem da morte.

MURROS E UM MURO

Public
Praça Coronel Lopes, com o coreto e o Grupo Escolar de São Vicente. Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente

Esse prédio à esquerda, atrás do coreto, foi o Grupo Escolar de São Vicente, a que chamavam de Grupão. Estudei lá de 1970 a 1972 – pré-primário, primeiro e segundo anos. Dona Rosa Feiz foi minha professora, lembro com carinho. Me comportava mal no recreio, já isso não deu muito certo.

Meu pai era então prefeito da cidade. Não bastasse isso para deixar um pivete se achar grande coisa, eu também havia nascido com uma cardiopatia leve, PCA (persistência do canal arterial). Os fantasmas da época fizeram minha família acreditar que eu não podia ficar nervoso, não podiam brigar comigo. Mas podia ver Zorro, Ultraman e Super Homem. Logo, eu podia tudo, até bater em todo mundo, invencivelmente – porque ninguém reagia, fosse por ter nascido do prefeito ou imperfeito.

No último dia de aula do Grupão em 1972, a classe toda se perfilou na praça, um aluno ao lado do outro, organizadamente, só os meninos. Uma cena bonita de ver, não fosse pelo detalhe de que todos estavam ali para me pegar, para me dar uma surra histórica, coletiva, corretiva.

Escapei no carro oficial, não sei o que é mais errado nessa história. Mas seo Domingos foi quem me salvou. Grande seo Domingos, que levava o Voz Operária escondido para o meu pai, eleito pela Arena.

E a gente acha que o mundo de hoje é que é confuso.

Aquele muro de moleques mal-encarados me endireitou para o resto da vida. Nunca mais entrei numa briga de mão, de rua. Foi só muito, mas muito recentemente que me toquei de que talvez eu tenha sido discretamente levado pelos meus pais (ou talvez, será?, pela diretoria do Grupão) a sair de lá por causa da cena do muro humano. Um muro baixinho – tínhamos 8 anos – mas aterrador, armado entre a calçada da escola e a do Correio, que havia tomado o lugar do coreto na praça. Uns vinte incas venusianos. Pelo menos.

Foi assim que descobri que eu não era a identidade secreta do Nacional Kid.

Passei a estudar no Raquel em 1973. Raquel também me ensinou muito na vida. Que leucemia é câncer no sangue e que com isso não se brinca (Perdão, Ivan, o inesquecível). Que beleza é contexto. Que ir à escola descalço podia não ser malcriação. Que ser muito, mas muito bom em salto em distância não era passaporte para as Olimpíadas, se não acontece de o professor enxergar futuro no garoto calado, alto e negro que surpreendeu a classe no dia, no único dia, em que ficamos competindo, pulando no areião que existia onde hoje é o Corpo de Bombeiros.

Fique registrado que, no Raquel, o Cid Pereira Maia fez duzentos abdominais seguidos em 1976 – eu sei, porque fui eu que contei: naquele ano, eu tinha operado o coração, adeus PCA, mas ainda não podia participar dos exercícios, então o professor me deu essa incumbência. A aula só acabou quando o professor mandou o Cid parar. O resto da turma tinha desistido no oitavo, no vigésimo, no máximo.

Que foi o máximo dançar o Vira representando o Raquel. Que a sabedoria mais pura podia emergir de uma aula de matemática da dona Irene. Que a beleza de uma deusa negra podia se materializar numa aula de história da dona Noemede. Que se levantar quando a diretora entrava na sala era óbvio. Que diretoras tinham nome e sobrenome: Nadir Sobral. Professores, só nome. Com exceção de um: Gentil Ferreira Filho. Que o mais Gentil dos professores podia ser também o mais rígido. Que o meu medo de palco não era lei universal, porque vi surgirem naquele cantinho de mundo dois grandes do teatro: Marcos de Azevedo e Charles Moeller, mais novos. Que ser atleta não impede que alguém se torne artista – como… o próprio Cid Pereira Maia…

O Raquel me ensinou a respeitar meus colegas, a curiar a diferença, a me interessar pelo que não é parte de mim.

Anos depois, talvez um ano só depois, outra lição sobre brigas teve lugar no mundinho que foi o Ilha Porchat Clube. Numa tarde de verão que calculo ter sido o de 1974, apanhei sem reagir de um garoto que hoje é juiz e que ficara bravo comigo, porque eu estava agindo como advogado. Um segundo garoto, cuja família tinha chegado a São Vicente fazia pouco tempo, tinha furtado, mas devolvido, a raquete de tênis de praia de um terceiro garoto que já era antigo no clube. Perdoei o arrependido, ninguém mais perdoou. Apanhei sem me mover, os braços cruzados. Quando o futuro juiz parou de bater no futuro advogado, virei as costas em silêncio e fui para casa. Me senti muito justo e comedido. Uns meses depois o terceiro garoto, que eu havia perdoado primeiro e por quem havia apanhado, recebeu o perdão dos outros muitos que frequentavam o clube, um a um, e os novos amigos dele passaram a rir de mim. Acharam ridículo aquilo de eu ter assumido aquela defesa de graça e de apanhar sem reagir. Outra lição que trago para a vida: pensar com independência, nunca ser conduzido pela volatilidade irracional, e cruel, dos grupos. Cobrar pelo que defendo, isso ainda não aprendi.

Aos 19 anos, o grande Leo Imamura me aceitou como seu discípulo na academia que mantinha na Domingos de Morais, e lá aprendi Wing Chun, Tai Chi Chuan e Jeet Kune Do. Foi minha maior escola. Na vida. As grandes lições conto outra hora, mas foram elas que me tiraram de uma profunda depressão e fizeram ser algo perfeitamente existencialmente compreensível uma lesão medular que aconteceria três anos depois, em 1986. Aqui, conto duas lições menores: continuei sem brigar na rua e aprendi a apanhar como gente grande. Barbaridade, Leo.

Leo era meu colega no Largo São Francisco. Não demorou muito para, entre as Arcadas, outras cenas me darem lições duras. Aquilo de não pensar como grupo, nem me submeter à lógica do pertencimento, logo mostrou seus limites. Minha classe na faculdade de Direito saiu toda da sala em protesto contra uma posição adotada por mim. E a classe estava certa; eu, errado. Ou seja, pensar sozinho não resolve. É preciso aprender a ouvir antes de decidir. É mentira que a verdade está toda dentro de nós. A verdade constrói-se por consenso? Não sei, ainda não terminei de ler o livro do mestre mais recente, Lenio Streck.

Aliás, livros. Meu pai, lá vem ele de novo, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. Quando eu tinha 35 anos, minha mãe entregou ao Instituto a biblioteca onde cresci – nem tudo era praia e escola. Aqueles milhares de volumes podem ter tido o mesmo destino do coreto da foto, mas sem o Instituto estas histórias pela geografia de São Vicente não teriam sido contadas aqui.

É tanta gente a quem preciso agradecer nesta vida, não é, Coelho? E ainda nem comecei a falar de você.

ELEGIA AO CAMARADA TRUMPSKY

Trump é a materialização espetacular de uma esquecida Dialética da Natureza de Engels em sua eterna transformação.

Trump gerou uma nova qualidade de político mentiroso pela quantidade de mentiras que produz. Não é novidade político mentir. O novo é mentir tanto a ponto de deixar de ser político e transformar-se na própria mentira.

Ainda em Engels, Trump é uma negação desde criança. Cresceu e tornou-se a negação da negação. Nasceu cevada, tornou-se uma Devassa, uma cerveja de má qualidade, cujo nome é sinônimo de falta de pudor.

Trump é, por fim – e que seja seu fim – a consumação da lei materialista dialética da interpenetração dos contrários: era um capitalista que amava tanto o poder que acabou por destruir o império capitalista ao penetrá-lo como político.

Essa imagem publicada hoje pelo NYT mostra um discurso de campanha de Trump. Em vermelho, estão as mentiras que contou. Mentiu tanto que deixou de ser um capitalista mentiroso na política para tornar-se uma mentira na capital da política.

Foi posto na Casa Branca pelas mãos de um ex-comunista soviético, Putin; e deixará a Casa Branca entregando de mão-beijada o poder hegemônico global aos comunistas da China.

Donald, seo comunista de uma figa…

fonte: The New York Times

Pai e Filho

(texto de 8 de setembro de 2010)

Laços fora, soldados! As cortes querem mesmo escravizar o Brasil. A voz rouca não alcançava nem a primeira fila, lá embaixo, onde deviam estar o Paulo Rogério, o Julio, o Maciel, a Roberta, a turma toda me vendo lá em cima, no palco, sem voz, de espada em punho e chapéu de bico, o Dom Pedro I do Raquel de Castro Ferreira da São Vicente de 1974. Por essas e outras, não fui incluído entre os alunos ilustres no jubileu de ouro da escola, em 2008. Mas o Tércio, que também estava por ali, foi. Ele hoje é prefeito, reeleito, da São Vicente do Raquel. E eu, hoje, na Brasília de Lula, não sou nada e fui ao desfile de sete de setembro com a Caroline. Tirei fotos. O Lula também estava no palco dele, com a voz rouca que é dele, faixa presidencial atravessada no peito, mas sem chapéu de bico. Nem espada. Nem a turma lá embaixo rindo, como riu de mim, até a diretora mandar todo mundo calar a boca, que era Dom Pedro.

Noutro sete de setembro, desfilei. Mas foi antes. Ainda estava no Grupão, que nem escola mais é. Virou secretaria, alguma coisa assim. Na minha turma tinha uma menina que gostava de falar o nome inteiro dela, que acabava com Fittipaldi. Em 1971, mesmo em São Vicente, ser Fittipaldi era coisa grande. Eu era filho do prefeito, o que também era coisa grande. Por isso, a turma do segundo ano gostava de querer me bater. Prática democrática, especialmente em tempos obscuros, isso de bater nos filhos do poder. E nem eles, nem eu sabíamos o que era Arena ou MDB. Pra mim, MDB era uma coisa verde, surda, acho que porque não tinha vogal; Arena era uma coisa esbranquiçada. Me lembrava praia. Meu pai era da Arena, mas a gente não falava dessas coisas aos seis, sete anos. 

No sete de setembro em que meu pai era prefeito, e de que eu me lembro, lá estava eu de uniforme mais uma vez. Tia Carminha tinha comprado um quepe e um coldre e uma coisa que era uma arma, acho que tinha um cacetete, também. Ah, a doçura da infância! Fui ao desfile todo paramentado. A gente ficou na rua, mesmo. Não tinha palanque – ou, se tinha, nem minha mãe, nem eu estávamos lá. Vi passar o exército, tun-tum-tchi-tun-tun-tun…, e lá fui eu pra frente da tropa, marchando que nem eles. 

Acharam lindo. Porém, era 1972.  

Nessa época da minha infância, a memória dos meus ouvidos me conta que “Independência” era pronunciado rápido, ao som do repique que preparava a entrada de duas fortes batidas do bumbo: “ou Morte!”. Uma voz solitária gritava “Independência!”, e o coro respondia “ou Morte!”. Era uma ameaça, não um grito de liberdade. E aí vinha a banda e os uniformes e o passo firme sobre o chão escaldante. 

Quando passei a falar desse tempo com meu pai, eu já no Largo São Francisco, onde essas ingenuidades não duram muito tempo, soube que o velho Jonas, no caminho de casa até a prefeitura, recebia das mãos do seo Domingos, o chauffeur, a edição clandestina da Voz Operária, embrulhado no São Vicente Jornal. Meu pai revelou, a mim estudante de Direto, que ele, antes de ir para a Arena, tinha sido vice-presidente da União Internacional dos Estudantes, que tinha ido à Tchecoslováquia na década de 1950, que lá conhecera Ilya Erenburg – e Lida, a motorneira tcheca com quem nadou nas águas do Vltava, para ciúmes eternos de dona Laura. Houve uma virada, e ela veio quando da sua visita àquilo que chamavam com voz tenebrosa de Cortina de Ferro… 

Foi meu pai quem me apresentou Caio Prado Junior, lendo para mim extensas partes de Dialética do Conhecimento, numa edição que minha memória traidora me diz que era elegante, de capa dura, verde, letras douradas. Tenho até hoje, nalgum lugar, uma edição rota de “Así se templó el acero”, de Nicolai Ostrovsky, que ele trouxera do lado de lá da tal cortina, e que lhe teria custado muita dor, se o tivessem encontrado naqueles tempos.  E foi por pouco. 

Ele, prefeito, foi “denunciado” pelos irmãos Horneaux de Moura ao Exército, pelo que foi chamado a dar explicações ao comandante do 2º BC. Queriam saber o porquê de ele “ter ido a Moscou” e de a Irmãos Rodrigues publicar anúncios na Voz Operária (ou noutro veículo de esquerda da época). Irmãos Rodrigues era a fábrica de urnas funerárias da família de meu pai. Uma loja ficava quase ao lado da prefeitura. Nela, se lia: Serviço Funerário Central – SFC. Não por acaso a sigla de Santos Futebol Clube. Meu pai não me contou o que tinha conversado com o comandante. Apenas que discutiram visão de País, que tinha ido a Praga, não a Moscou, e como estudante, nada mais, e que isso teria bastado para lhe darem trégua. Era um homem muito sério e circunspecto, de modos gentis, quase britânicos, com o inevitável cardigan – no calor que fizesse. Não tinha o perfil que os preocupava.

Embora distanciado do debate e da ação das esquerdas, meu pai morreu stalinista. Afastou-se, por causa do que viu para além da tal cortina. Resolveu mudar-se de São Paulo para São Vicente, e separar, de um lado, o seu jardim, e, de outro, a General Jardim, onde fervilhava sua “alma matter”, a Escola de Sociologia e Política, de colegas como Plínio de Arruda Sampaio, de professores como Florestan Fernandes. Quem só conheceu o Jonas Rodrigues de São Paulo não reconhece o de São Vicente. Quem conhece o de São Vicente, sabe apenas que ele foi da Arena para o PDS, do PDS para o PP, que foi prefeito duas vezes e, talvez, que a Oposição o chamava de “prefeito papa-defunto”. Quem só sabe de sua vida em São Vicente, não sabe que, nas curvas dos anos de chumbo, ele operou para que ferroviários no Vale do Ribeira pudessem escapar da repressão. Que tentou, em vão, convencer Rubens Paiva a sair do país em tempo. 

Houve mortes e houve gritos de liberdade desde então. Hoje sei o fracasso que foi não ter insistido em saber detalhes da conversa de meu pai com o comandante. Fracasso ainda maior do que aquele do meu sete de setembro como Dom Pedro. O vexame que foi aquilo. Cheguei em casa, subi correndo as escadas, me fechei no quarto e a espada me espetou a barriga quando pulei de cara na cama, chorando feito a criança que era, ainda em trajes de defensor perpétuo da pátria.

O Viajante do Presente

Postei alguns vídeos do Alexandre Olive na minha timeline do Facebook, e vou seguir postando. Um francês bonitão numa bicicleta.

Que tem isso de mais?

Bem, ele é uma pessoa que está viajando. Ele usa uma bicicleta, veja só, e circula livremente por ruas, estradas, caminhos, praças. “Ele está viajando” – percebe, por assim dizer, “aonde quero chegar”?

Alex saiu de Paris em direção a Monaco. Está agora na região de Marselha. Logo estará
em Cannes, depois Nice e subirá uma das mais belas estradas do mundo até chegar a Montecarlo. Vai ser uma subida e tanto.

Ele está conversando com pessoas por onde passa, dorme na casa de pessoas que não conhece – ou que sim, depende.

Ele vem saindo de um lugar, indo para outro e depois outro, e nenhum deles é necessariamente uma farmácia ou mercado.

Ele está viajando por vilas e cidades, por um caminho que antigamente (seis meses atrás) trataríamos como “turístico”.

Por isso, ele está tirando fotos e fazendo vídeos perto de cabras, castelos, pontes, vacas, perto de pessoas, perto de pessoas que ele não conhece. Nem aquelas cabras da semana passada ele conhecia.

Nas nossas, nas suas conversas, quase todas virtuais, “viajar” é uma ideia remota, pertencente a um pretérito perfeito ou a uma projeção longínqua de futuro. Todos nos tornamos, em variada medida, viajantes do futuro – mais precisamente, viajantes do futuro do pretérito.

Mas, então, surge um viajante no presente, tão no presente que praticamente resgata um momento de glória para o gerúndio: ele está viajannnnndo.

A viagem de Monsieur Olive, com todo seu charme e carisma, fica entre o esperançoso e o perturbador, entre o gesto libertário e o estranhamente inesperado. É o registro de um agora improvável neste nosso eterno presente imediato da pandemia.

É uma viagem histórica e ele nem percebe.

Merci beaucoup, mon chèr.

Caio Leonardo

PS.: Conheci A. O. no TGV de Paris a Bruges, seis verões atrás, quando até eu viajava.

PS 2: Quatro anos depois, coitado, ele veio ao Brasil, perdeu-se no cerrado e levou 12 horas para ir de Brasíla a Alto Paraíso.

PS 3: Eu era o motorista.

Aquários Tropicais

Beth Carver. Daily-sailor. http://www.bethcarverart.com

Há um Aldir Blanc em mim, que vem de lá de São Vicente, terra de misses e pivôs, perfume barato e Afonso Schmidt. Foi ali que aprendi que toda beleza é relativa, que pela semana eram belas as meninas uniformizadas em azul escuro, com o R branco do Raquel; que no fimdesemana vinham belas as paulistas, que não usavam uniforme, mas umas coisas que não tinham nada a ver com praia: brinco, relógio, essas coisas de gente que a gente chamava de paulista, ou fresca.

As meninas do Raquel moravam logo ali na rua Japão, de onde saíam os barcos dos pescadores da Colônia Z-4, que emprestava um canto para a escola, ou na México 70, a maior favela da cidade, que nós gostamos é do que é grande, como a conquista do Tri e caranguejo no Boa Vista. As paulistas desciam a serra para nos ver jogar mini-tênis e futebol, e dizer que eu era sem sal – aquilo doeu, Aline (é, eu lembro do teu nome, e eu tinha só 15; nós nunca mais nos vimos, mas eu lembro: doeu).

Um dia, eu já devia ter uns vinte anos, vi a R. na praia da Ilha Porchat, aonde o pessoal do Raquel nunca ia – eu achava, mais menino, é que porque era longe. Nos cumprimentamos, ficamos felizes de nos ver, ela que havia chorado uma vez, nós aos 12 ou 13, quando fiz que não queria ser mais seu par no grupo de dança do Vira da escola: quanta crueldade cabe numa criança? Ela estava linda de branco quando chorou – vestido rodado e rendado, de caxopa se tu queres ser bonita.

No contraste entre as jóias do fimdesemana, nos dois sentidos, e a R., que era loira e dançava comigo o Vira no grupo folclórico do Raquel, foi que descobri a teoria da relatividade: toda beleza é circunstancial, relativa, ambientada.

Mas quando a vi na praia, aquele outro dia anos depois, na praia proibida a quem do Raquel, a praia que ainda era dos paulistas no fimdesemana, hoje não mais, vi que Roberta era uma menina daquelas que a lida com o fogão deixa marcas na pele, pele macerada, macilenta, pele sem os cuidados de pele das outras meninas ali, que nem me achavam mais tão sem sal, vai ver que de tanto mar, de tanto sol, de tanto do mesmo, das mesmas circunstâncias, circunstâncias tão diferentes das de R., um dia tão linda.

Não vejo derrisão no poema de Aldir Blanc. Vejo a mim mesmo sinceramente fascinado por Roberta, como até hoje assim, sinceramente.

R. foi minha miss suéter. Mas também minha Iracema.

Eu perdi o seu retrato.

caio leonardo

Beth Carver. http://www.bethcarverart.com

MISS SUÉTER
João Bosco e Adir Blanc

Fascínio tenho eu por falsas louras
(ai, a negra lingerie),
com sardas,
sobrancelha feita a lápis
e perfume da Coty…

Na boca,
dois pivots tão graciosos
entre jóias naturais
e olhos tais minúsculos aquários
de peixinhos tropicais…

Eu conheço uma assim,
uma dessas mulheres que um homem não esquece.
Ex-atriz de tv,
hoje é escriturária do INPS
e que, dias atrás,
venceu lá o concurso de Miss Suéter.

Na noite da vitória,
emocionada,
entre lágrimas falou:

– Nem sempre minha vida foi tão bela,
mas o que passou, passou…
Dedico este título a mamãe,
que tantos sacrifícios fez
pra que eu chegasse aqui,
ao apogeu,
com o auxílio de vocês…

Guardarei para sempre
seu retrato de miss com cetro e coroa
com a dedicatória que ela,
em letra miúda,
insistiu em fazer:

Pra que os olhos relembrem,
quando o teu coração infiel esquecer…
Um beijo, Margô.