Aquários Tropicais

Beth Carver. Daily-sailor. http://www.bethcarverart.com

Há um Aldir Blanc em mim, que vem de lá de São Vicente, terra de misses e pivôs, perfume barato e Afonso Schmidt. Foi ali que aprendi que toda beleza é relativa, que pela semana eram belas as meninas uniformizadas em azul escuro, com o R branco do Raquel; que no fimdesemana vinham belas as paulistas, que não usavam uniforme, mas umas coisas que não tinham nada a ver com praia: brinco, relógio, essas coisas de gente que a gente chamava de paulista, ou fresca.

As meninas do Raquel moravam logo ali na rua Japão, de onde saíam os barcos dos pescadores da Colônia Z-4, que emprestava um canto para a escola, ou na México 70, a maior favela da cidade, que nós gostamos é do que é grande, como a conquista do Tri e caranguejo no Boa Vista. As paulistas desciam a serra para nos ver jogar mini-tênis e futebol, e dizer que eu era sem sal – aquilo doeu, Aline (é, eu lembro do teu nome, e eu tinha só 15; nós nunca mais nos vimos, mas eu lembro: doeu).

Um dia, eu já devia ter uns vinte anos, vi a R. na praia da Ilha Porchat, aonde o pessoal do Raquel nunca ia – eu achava, mais menino, é que porque era longe. Nos cumprimentamos, ficamos felizes de nos ver, ela que havia chorado uma vez, nós aos 12 ou 13, quando fiz que não queria ser mais seu par no grupo de dança do Vira da escola: quanta crueldade cabe numa criança? Ela estava linda de branco quando chorou – vestido rodado e rendado, de caxopa se tu queres ser bonita.

No contraste entre as jóias do fimdesemana, nos dois sentidos, e a R., que era loira e dançava comigo o Vira no grupo folclórico do Raquel, foi que descobri a teoria da relatividade: toda beleza é circunstancial, relativa, ambientada.

Mas quando a vi na praia, aquele outro dia anos depois, na praia proibida a quem do Raquel, a praia que ainda era dos paulistas no fimdesemana, hoje não mais, vi que Roberta era uma menina daquelas que a lida com o fogão deixa marcas na pele, pele macerada, macilenta, pele sem os cuidados de pele das outras meninas ali, que nem me achavam mais tão sem sal, vai ver que de tanto mar, de tanto sol, de tanto do mesmo, das mesmas circunstâncias, circunstâncias tão diferentes das de R., um dia tão linda.

Não vejo derrisão no poema de Aldir Blanc. Vejo a mim mesmo sinceramente fascinado por Roberta, como até hoje assim, sinceramente.

R. foi minha miss suéter. Mas também minha Iracema.

Eu perdi o seu retrato.

caio leonardo

Beth Carver. http://www.bethcarverart.com

MISS SUÉTER
João Bosco e Adir Blanc

Fascínio tenho eu por falsas louras
(ai, a negra lingerie),
com sardas,
sobrancelha feita a lápis
e perfume da Coty…

Na boca,
dois pivots tão graciosos
entre jóias naturais
e olhos tais minúsculos aquários
de peixinhos tropicais…

Eu conheço uma assim,
uma dessas mulheres que um homem não esquece.
Ex-atriz de tv,
hoje é escriturária do INPS
e que, dias atrás,
venceu lá o concurso de Miss Suéter.

Na noite da vitória,
emocionada,
entre lágrimas falou:

– Nem sempre minha vida foi tão bela,
mas o que passou, passou…
Dedico este título a mamãe,
que tantos sacrifícios fez
pra que eu chegasse aqui,
ao apogeu,
com o auxílio de vocês…

Guardarei para sempre
seu retrato de miss com cetro e coroa
com a dedicatória que ela,
em letra miúda,
insistiu em fazer:

Pra que os olhos relembrem,
quando o teu coração infiel esquecer…
Um beijo, Margô.

O Império das Cem Mil Covas

NASA/Bill Ingals

O foguete vai partir – já não é mais novidade, mas vai partir. O mundo parou, mas não por causa do foguete. Como quando Apollo era uma missão, as ruas queimam na América e um foguete sobe. Mas o foguete de hoje não é da América, as ruas não são de ninguém e o mundo já não é mais americano.

A polícia de Minnesota perdeu o controle das ruas, quando mal havia gente circulando por elas. O povo americano, morrendo em casa por omissão do governo, não suportou mais uma morte, e de um cidadão negro, agora cometida por um agente de Estado.

Stephen Maturen/Getty Images

O nome do policial assassino entra para a História como uma repetição que não é farsa: é uma coincidência reveladora. Seu nome é Chauvin. Sim, Chauvin, por todos os deuses, Chauvin. O mesmo nome do oficial de Napoleão que, dez vezes baleado, dez vezes voltou ao front, movido por uma obsessão nacionalista e racista. Você conhece Chauvin. Dele surgiu chauvinismo, e agora deu em mais um porco chauvinista que matou por desprezo e orgulho.

Governo que não serve nem protege,
de nada serve.

No mesmo dia da morte de George Floyd,
a bandeira americana, que sempre salvava o mundo em Hollywood, abandonava a cena da luta mundial contra o vírus com um gesto final e funesto de desprezo pelo concerto das nações. Trump anunciava a saída da OMS.

A antes onipresente bandeira americana não aparece nas mãos do seu povo nos protestos em Los Angeles, em Atlanta, em Nova Iorque, nem em Minneapolis, onde Chauvin matou Floyd. A polícia apanha dos manifestantes em Chicago.

A violência viraliza na América da quarentena, mas a bandeira sumiu, perdeu o sentido, o peso, a capacidade de unir; perdeu a confiança do seu povo.

Joseph Tam – Cantão, China (via Cassius P.)

Ao mesmo tempo, do outro lado do planeta, Duas Sessões definiam outro futuro com pés firmes no chão. Lá, de onde veio o vírus e
onde o vírus foi contido, move-se um poder vertical, pervasivo, planejado, que trabalha para ser mais eficiente e construir capacidade de ação. Desde lá, o espectro de Hong Kong abre as asas sobre nós.

Enquanto os homens se perdem no Novo Mundo, o vírus se demora em devorar corpos, ideias, passividades – e um Império.

O foguete privado, o abandono da OMS e a morte de George Floyd marcam o fim da influência moral e da capacidade de agência
dos Estados Unidos da América.

A Terra não lhe será leve.

Zaijian.

caio leonardo
30 de maio de 2020
Ano I do Império Chinês

HOW SOON IS NOW?

Roger Dean cover for Relayer

SOON
Jon Anderson

Soon, oh soon the light
Pass within and soothe this endless night
And wait here for you
Our reason to be here

Soon, oh soon the time
All we move to gain will reach and calm
Our heart is open
Our reason to be here
Long ago, set into rhyme

Soon, oh soon the light
Ours to shape for all time, ours the right
The sun will lead us
Our reason to be here

LOGO
Jon Anderson

Logo, ah, logo a luz
Passa assim! e cura a eterna noite
Espera o que vem
Por isso estou aqui

Logo, ah, logo a vez
De quem leva o ganho vai chegar
O peito aberto
Por isso estou aqui

Longa dor, sinto em teu olhar

Logo, ah, logo a luz
A nós cabe o rumo: nós, a lei
O sol me guia
Por isso estou aqui!

———

Em 1974, criou-se uma conhecida heresia que consiste em extirpar os dezesseis primeiros do total de vinte e dois minutos de The Gates of Delirium, primeira faixa do lado A de Relayer, sétimo álbum do Yes, primeiro depois da saída de Rick Wakeman. A música é uma alegoria ao romance Guerra e Paz, de Tolstói. Até alcançar os 16’, ela progride para um caos ruidoso, embora elaborado, que retrata uma batalha nas guerras napoleônicas. A banda então faz uma ponte que ralenta tudo quase até o silêncio, para dar lugar a uma melodia suave, cantável – uma transição que expõe o talento de Allan White, Steve Howe e Chris Squire. A partir dali, para desenhar a paz que chega depois da guerra, Howe usa cítara elétrica ao executar uma linha melódica sideral que culmina nos vocais agudos de Jon Anderson, que também assina a letra. Esses seis últimos minutos foram lançados (lancetados?) como single com o nome Soon*. A depender das tuas cores no verdadeiro palio di Siena que são as brigas entre fãs de bandas diferentes, essa canção é ou um dos momentos mais transcendentes ou mais piegas da história do rock.

Relayer fez sucesso, marcou época e ajudou, acredito, a fazer de Anderson essa figura angelical e precursora da New Age, ele inteiro e a família junto sendo dedicados a causas do planeta. Em sua página no Facebook, Anderson aparece festejando o recém-lançado documentário da filha sobre uma comunidade indígena em Dakota (Sioux), com a qual ele próprio e a esposa passaram um tempo anos antes. Na mesma página há um vídeo de agradecimento ao coronavírus por nos ter feito parar e pensar no que somos e fazemos.**

É de perder o fio da meada. Não sei bem o que me levou a querer ouvir essa música ontem… Ah! Sim. Facebook. Jon Anderson apareceu entre as figuras públicas cujo perfil na rede eu poderia pensar em seguir, de acordo com o algoritmo do Vale do Simplismo. Tinha deletado tanta gente antes…: de Jack DeJohnette a John Travolta; de Claire Daines a Anne Leibowitz. Mas então surgiu Jon Anderson, a filha, o documentário, os índios, a gratidão ao coronavírus e acabei me lembrando da coisa toda em torno de Soon.

Assisti ao show de Anderson em São Paulo, na década de ‘90. Lembro, coitado, do tanto que insistiram em que ele estripasse Relayer e consumasse de novo o tal ritual herético. Pois foi. Muito, mas muito a contragosto, Anderson parou o show, calou a banda e avisou que cantaria à capella. E cantou. Enquanto cantava, ficou fazendo com as mãos umas volutas infantis, imitando um maestro e regendo o público, a quem, com isso, chamava abertamente de tosco. Soon é a Creep, é a Smells Like Teen Spirit, é a O Bêbado e a Equilibrista do velho Jon: O sucesso que ele não suporta ter que carregar para o decurso dos séculos.

Anderson, se fosse torturado ao ponto de novamente cantá-la em 2020, seria recebido por uma outra audiência, outros ouvidos, seriam outros até mesmo os ouvidos que a conhecem desde 1974, como é o meu caso, eu que a ouvi por obra e graça dos irmãos Negreiros, Ricardo e Gilberto, que sempre tinham os melhores e mais novos discos em casa – a casa da esquina da Freitas Guimarães com a Messia Açu, um portal que levava a nós, calungas, à swinging London pela ponta de uma agulha sobre pratos giratórios de vinil.

Éramos cinco; os Negreiros, sete. Não resisto à tentação de dizer que, pelo menos na média, éramos seis. No correr dos anos ’70 e ’80, as adolescências das nossas duas famílias chegavam e partiam em biografias que se cruzavam. A coisa não ficou sem romance, mas a Laís não se casou com o Ricardo; a Leila não se casou com o Gilberto; o Luiz não se casou com a Bia; e eu, pobre de mim, só escrevo isto aqui para ter como aparecer na história, porque o que interessa é que foi esse intercâmbio discográfico e a amizade do mais novo dos Negreiros, Fernando, com o mais novo dos Bessas Rodrigues, Xande, que fez surgir um Rick Wakeman brasileiro, que se assina Allex Bessa*** e se tornou tecladista, compositor, arranjador e baluarte do rock progressivo.

Coadjuvante sem fala nesse mundo, fui atrás daqueles últimos seis minutos d’Os Portões do Delírio. Reaparecia a ideia de fazer uma versão da letra. Era madrugada, o sono não vinha. Peguei a letra, compus a versão. E o que aconteceu então foi que a letra acabou inevitavelmente invadida pela quarentena e suas circunstâncias.

Em 1984 (o ano, não a outra distopia), Jim Morrissey perguntava How Soon is Now? Minha adolescência estava na curva descendente e o drama da solidão que Morrissey descrevia era assim: Tem esse lugar que dá pra você ir e encontrar alguém para amar de verdade, mas aí você vai e fica na sua, e vai embora na sua e vai pra casa e chora e quer morrer.**** Era triste. Mas na distopia de 2020, na curva ascendente da pandemia, sair de casa é cair numa arena de gladiadores e gritar Ave, César, os que morrem te saúdam! só que com a voz abafada atrás de uma sufocante máscara de pano, o inimigo mortal sendo qualquer coisa à sua volta: a maçaneta, o botão do elevador, o filho do vizinho, a mão do frentista – não o frentista inteiro, não o chumbo na gasolina, não o ar poluído, não o vira-latas que passa: não, todos esses estão redimidos, o inimigo é apenas a mão do frentista, a mão da moça do caixa, a mão que balançou o berço. O inimigo está nas extremidades, nos pontos de tangência, no ar que invade a sala quando algum tresloucado desperta e abre as janelas, pálido de espanto. Não estamos na Peste de Camus, estamos na Náusea de Sartre.

Está trancada a rua da amargura. Animais selvagens tomam as cidades. Num prenúncio desse quadro, o cavalo Remorex venceu sem jóquei nada menos do que o próprio _pálio de Siena no ano passado.***** Tudo parecia normal, como sempre que não se sabe a verdade, teria murmurado Cortázar. Um mundo sem humanos se prefigurava, enquanto Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiano, aplaudia no Twitter: Pazzesco, incredibile, fantástico!

Hoje, os que se ocupam de tentar sobreviver mergulham na sua própria versão de Xavier de Maistre, com o universo reduzido a uma recorrente viagem ao redor do quarto de dormir ou da cela na Papuda; ao redor de qualquer dos círculos do inferno, todos e cada um sendo uma mônada embasbacada diante da Tela Ubíqua, os olhos esbugalhados, laranja mecânica sem chapéu-coco, obrigada a sofrer com as imagens e os áudios do escândalo do dia, com a censura ao bom-senso, com a bestialidade se impondo, sem esperança de que alguém perca por um instante a ilusão e descubra estar sob a vigência, não de um Estado de Exceção, mas sim do mais total ilusionismo. E os dedos postam e postam e postam: O mundo como vontade e prestidigitação.

Concluo sem esforço, porque desprezo o ativista que rompe o isolamento, que todo homem é uma ilha, dependente e sob ataque do mar de telas e medos que o cerca por todos os lados. O ruído desse mar não vem de fora, lá faz um silêncio de abandono. Vem da mesma tela em que disputo agora, neste instante, a tua atenção. Então, vai daqui não uma reza, mas esta pequena heresia, e que ela, em seu pecado original de ser ou não ser piegas, ocupe um pouco do teu Tempo, por isso estou aqui, e que logo, ah…, logo a luz passe assim!, e cure esta eterna noite.

________

Caio Leonardo, no Oitavo Dia do Maio do Primeiro Ano da Pandemia.

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* Soon, vídeo oficial https://youtu.be/cGtjr-U5bT4

** Obrigado, coronavírus https://www.facebook.com/TheJonAnderson/videos/230322224820992

*** Allex Bessa no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCLm68qTYiP3hD0rWQX0qW8w

**** There’s a club/ if you’d like to go/ you could meet somebody/ who really loves you./ So you go and you stand on your own,/and you leave on your own,/ and you go home,/ and you cry/ and you want to die…” How Soon Is Now, The Smiths https://www.youtube.com/watch?v=hnpILIIo9ek

***** Em 2019, o palio di Siena foi vencido pela contrada della Selva, apesar de o jóquei ter caído do cavalo na primeira volta. O cavalo Remorex continuou correndo sozinho, perdeu colocações, mas passou à frente de três e ganhou no fotochart. Foi algo como se a final do Brasileirão fosse um Palmeiras e Corinthians e, aos 45′ do segundo tempo, entrasse em campo um porco ou um gavião que pusesse a bola pra dentro. Nada menos que isso. O primeiro ministro do Interior da Itália, o ultradireitista Matteo Salvini, estava assistindo e comentou “Pazzesco, incredíbile, fantástico!“. Confira: https://youtu.be/RqvjOkO1Y1Y

Anotações para eu ter do que discordar de mim amanhã. Ou não.

Poder dizer, e dizer, “não” a si mesmo é uma forma elevada de liberdade.

Dizer sempre “sim” a si mesmo é uma forma primária de sujeição.

A ideia de ser livre todo o tempo é a negação da própria liberdade, porque prende a pessoa à obrigação de não decidir, de não fazer escolha. Liberdade ou é escolher ou não é nada. E escolher é decidir. Decidir dói. Fecha portas, dá rumo, define trajetórias, impossibilita outros destinos.

Ser livre dói. Não ser livre dói mais. Não escolher é nunca vir a ser. Não decidir é não realizar. Ficar entre o sim e o não é não viver.

Não decidir é sair de Brasília e pegar a estrada errada para Alto Paraíso e só dizer não a si mesmo quase chegando a Posse. Decidir é saber que é preciso voltar e voltar e voltar, mesmo que isso seja uma grande humilhação, voltar e voltar até começar tudo de novo, desde Planaltina. Quem não define o x da questão viaja em Y. Sim, seguir pela estrada errada teria aberto muitas possibilidades, mas não teria dado na gargalhada da Patrícia, quando me viu entrar no quarto, às 4 da manhã, dez horas depois do esperado: a gargalhada transformou uma inconveniência numa aventura; seguir reto teria transformado uma aventura numa inconveniência? A escolha foi feita. Nunca saberei – mas sei o bem que me faz a história ter terminado nos braços e nas gargalhadas da Patricia .

Liberdade é escolha. Há grandes escolhas em jogo em 2020. Duas delas são imensas: a de dizer não a si mesmo e a de dizer não à tentação de nada fazer. Ficar entre o sim e o não é não viver. Dizer não a si mesmo é ficar em casa. Ou não. Escolher é tirar esse cara da frente. Ou não.

MEUCAMERÃO

Caiu minha orelha,
o nariz que tava aqui
fugiu de caolho.

A boca que ri,
riu tanto que despencou
do pescoço ao chão.

Meu rosto é o retrato
do outono do desalento:
triste, torto e trágico.

Ter teto trazia
alento. Ter sombra, alívio.
Ter hoje é terrível.

Eu, o que era antes,
descaio de mim. Eu, farto,
não como nem quando –

nem lembro onde pus
o meu último sapato:
Não piso na rua,

nem olho pra ela:
perdi a conta das f(r)ases
ai, língua minguante…

Matar as saudades?
Aquela máscara negra
esconde o teu rosto.

Vou deixar-me agora
sobre o leito de Procusto,
que mede e devora.

Caio Leonardo
Aos 27 do abril destes 2020

Nova ordem mundial.

Os EUA, a Rússia e, entre outros da recente onda nacionalista/conservadora, o Brasil, têm governos que são contra a prevalência de organismos internacionais sobre a soberania nacional – o tal fim do globalismo.

A China defende esses organismos internacionais, e mais: defende uma cooperação internacional em larga escala, como com seu projeto Belt and Road.

Os EUA e a Europa estão assistindo à sua decadência diante de uma China portentosa e imparável.

A Rússia vem trabalhando para desarticular OTAN, União Europeia e afundar os EUA. Com sucesso, haja vista seu papel no Brexit, na eleição de Trump e no posicionamento de Trump contra organismos internacionais, aí incluída a OTAN.

O plano da Rússia é o de instauração de uma Eurásia, de Vladivostok a Lisboa, nas palavras de Putin, em defesa da civilização cristã-sionista conservadora, nas palavras de Bannon.

O Plano da China é integrar o mundo para servir aos seus canais de comércio.

O Plano dos EUA muda a cada segundo, com sanções disparadas contra aliados, ex-aliados e inimigos; sem recursos para manter botas no chão e navios pelo mundo todo.

Nesse contexto, surge o coronavírus.

Cepa que surgiu na China e que a China soube conter, porque decide planejadamente e de cima para baixo.

O resto do mundo não decide assim: seus governos batem cabeça, a população quer, cada um, que a sua ideia de combate ao vírus prevaleça, essa coisa toda.

Pandemia foi prevista por várias vozes relevantes no cenário internacional, a não menos relevante tendo sido Bill Gates.

Agora, surgem vozes cobrando a China pela pandemia e a OMS, por não cobrar de Pequim a responsabilidade pela pandemia.

O recado estava dado? Quem não se preparou como governo errou? Alguma autoridade nacional de saúde não foi alertada para o risco? Quem está errado? De quem é a culpa?

Todas essas questões emperram a tomada de decisão necessária, enquanto a China segue firme para a recuperação de sua economia já no fim do segundo trimestre, e o mundo desaba para além da Grande Muralha.

Só há espaço para UMA CRISE: A pandemia

Só há espaço, na vida pessoal, para o cuidado de si, de quem está perto e, na extensão das capacidades de cada um, de quem está longe.

Só há espaço para se dar atenção a vozes e lideranças que mostrem respostas, soluções e norte.

Tudo o mais que se está discutindo no ambiente político é contingente, baixo e não interessa à população neste momento em que todos nós mais precisamos de Estado presente e atuante para equilibrar o impacto de uma crise concreta, real e incontornável.

O que interessa é como vamos comer e onde vamos dormir. Como a comida chegará a cada um de nós e como o teto será garantido. Como estaremos protegidos e o que podemos fazer para a proteção do outro.

O empresário e o empreendedor cuidam do seu negócio. Uma crise como esta extrapola a capacidade de ação de todo e qualquer negócio ou empreendimento. É para uma crise como esta que existe o Estado:

1) para informar a população sobre os riscos que corre, sobre em que estágio da pandemia se está, sobre o que está por vir e sobre como agir individual e coletivamente;

2) para tratar da população afetada, com todos os recursos de que dispuser e que puder mobilizar: não é hora de pensar na conta, a conta será paga por gerações que só existirão e progredirão, se esta geração sobreviver e superar esta crise;

3) para estudar e buscar solução para a pandemia; e aplicar essa solução em larga escala o mais rápido possível;

4) para alocar recursos de forma eficiente e capaz de responder aos desafios da crise para além da saúde: produção, distribuição e consumo de alimentos e bebidas; higiene pessoal e limpeza doméstica; teto e atenção a todos; reorganização do trabalho; reorganização da família, reorganização da logística das relações de troca;

5) para organizar e adaptar as forças produtivas em torno do bem comum, em especial, da contenção da pandemia: ponderar, adotar, avaliar, subvencionar, financiar e rever ações como isolamento, lockdown, protocolos de higiene e proteção, e plano de retomada gradual da vida no espaço público e no mundo do trabalho;

6) para sustentar empresas, empreendedores, trabalhadores e pessoas fora do mercado de trabalho, enquanto não seja possível retornar à dinâmica de mercado;

7) para oferecer segurança e ordem num momento em que ausentar-se, isolar-se é um ato cívico, humanitário, histórico.

Quem quer que esteja na esfera pública (fora da família e da empresa, dentro do Estado) deve estar ocupando o tempo dele/dela e o meu/seu com uma dessas sete finalidades.

Qualquer autoridade pública que desvie energia nesta hora não devia estar em posição de comando.

2020 é um ano para os grandes homens e para as grandes mulheres servirem a algo maior do que seus projetos pessoais.

2020 é o ano da Política entendida como a arte maior de pensar e construir o futuro.

Quem não tiver grandeza nem visão de futuro para o Brasil e para a humanidade, então que faça sua parte e isole-se.

Abracaixas

Ter apenas um assunto,

e esse assunto ser variações

sobre agressões a uma pessoa,

revela uma vida triste e encerrada,

consumida pelas próprias frustrações

transferidas na forma de ódio

àquele objeto

– àquele ser humano tornado objeto

pelo ressentimento e

pelo vazio existencial

a que se resume o que sobra de vida

àquele que tem apenas um assunto.

Passa da hora de libertar a mente

e o corpo dessa armadilha.

Não peço que mude de ideia,

mas que mude de assunto.

Abra outras caixinhas do universo.

Descubra o padre que descobriu o Tibet

(sim, isso aconteceu),

mergulhe

em mapas de lugares imaginários,

passeie

pelo Pantanal de Manoel de Barros,

cavalgue com o verdadeiro Genghis Khan,

o autor da modernidade,

penetre

a leveza sublime dos versos de Rumi,

mergulhe

no sono, ouvindo Roberta Flack –

_The First Time Ever I Saw Your Face_,

corra

9Km num parque que não conhece

e repare nas árvores.

Leia A Vida Secreta das Árvores

e A Vida Íntima dos Animais,

traga

para casa frutas e legumes

que nunca provou,

entre

no zoológico na volta do almoço

e avise

seus sócios de que vai se atrasar:

__ Estou em reunião com um unicórnio chinês. Ainda é segredo.

E, então, estenda o braço e sorria

para a Girafa:

Ela perdeu o parceiro ano passado.

caio leonardo, 11 de fevereiro de

2019

NOTAS ESPARSAS SOBRE A ESCRAVIDÃO IMPOSSÍVEL

(Lembranças distantes de leituras de Pierre Clastres)

Índios não-aculturados (que não foram contaminados pela cultura do branco) e que viviam em sua sociedade tradicional morriam ao serem escravizados. Não faziam as tarefas que lhes impunham. Morriam de desgosto.

O índio não reconhece a ideia de comando. Ninguém manda num índio.

O cacique é quem detém a fala, mas uma fala que é a das origens da tribo, suas lendas, seus costumes: ele carrega as representações que geraram e os mantêm juntos naquela sociedade. O cacique fala à tribo e pela tribo, mas não diz o que um ou outro índio ou índia deva fazer.

O pajé é o senhor da vida e da morte, o detentor do conhecimento e dos ritos de cura, nascimento e morte. O pajé não manda em ninguém. Os membros da tribo submetem-se à sua autoridade, mas não a suas ordens. Os índios só riem de duas coisas: do pajé e da onça. Eles riem daquilo de que têm medo. O pajé dá medo, porque ir ter com ele é porque se está com a vida a perigo – como quando aparece uma onça.

O índio não se submeteu à escravidão, porque não concebia que alguém mandasse nele.

Não foi porque era perguiçoso. Foi porque sequer entrava na cabeça dele a mera ideia de não ser livre.

(foto: Caetano Scannavino – Tribo Zoe)

Manoela On The Spot

Brasília vai a São Paulo, mas volta.

Calor e táxi sem ar-condicionado, depois de praça da Sé e rua da Glória ao meio-dia. Na Sé, para cumprir deveres de advogado; na Glória, à procura de um sashimi, que em Brasília não se come isso decentemente em lugar algum. São umas tripas que desmaiam no hashi. Sou traído pela memória, erro o caminho, o centro de São Paulo não me pertence mais, um estranho na sua própria cidade. Um táxi me resgata na Conselheiro Furtado, sigo para a Paulista.

_ O carro tem ar-condicionado? – eu, desesperado. Ele, acabrunhado:

_ Não tem, não senhor. Se o senhor quiser, eu coloco noutro carro.

Coloca a mim noutro carro. Pessoas vivem querendo me colocar aqui e ali. Sou um móvel a céu aberto. Quem manda andar sentado? A vida é que manda, e eu ando, e todos querem me colocar aqui ou ali.

No caminho, o motorista explica que o médico não deixa usar ar-condicionado, dorme mal à noite se usar. O desespero avança: suor e paletó, gravata e mormaço. No caminho, o motorista me mostra um ótimo lugar para almoçar, é lá onde ele come sempre. Eu tinha contado a ele que me perdera do sashimi, e que agradecia pelo resgate.

Olho o lugar onde ele sempre come com sincero interesse antropológico – mas que, por ser antropológico, não é um interesse autêntico e revela logo meu meio, meus gostos, essa coisa burguesa que já me dominou e não tem jeito. É possível, percebo, ser sincero sem ser autêntico. Ainda olho o lugar. O tempo anda lento como asfalto derretido. O carro não para, só anda lento no asfalto derretendo porque é São Paulo, então posso ver que estão lá no lugar onde o motorista come: a sinuca, a televisão, a lousa, o giz e o picadinho, que hoje é quinta-feira. Portas de alumínio recolhidas no teto, portas abertas ao calor da rua, nenhum refresco para o martírio do sol, só a cerveja que o sujeito imenso toma no gargalo, na porta, camiseta regata e chinelo. Bermuda. Ronaldo vai brilhar ali domingo que vem. Algumas garrafas vão cobrir de âmbar o chão da calçada. Talvez mesclado ao âmbar algum tom de vermelho, se o Corinthians perder.

_ Da próxima vez, apareça aqui, tem todo tipo de prato que você quiser – convida o motorista em tom de iniciado.

Fico imaginando que pratos todos eram aqueles. Belle meuniere, Osvaldo Aranha, Filet au poivre, esses nomes que estão em todos os cardápios desde 1960, e ao que se dá, em conjunto, o nome vazio de “cozinha internacional”, mas que é a cozinha do Suplemento Feminino do Estadão, contrabandeada nos últimos quarenta anos para todos os cardápios de um certo mundo ubíquo e invisível, mas um mundo onde se come. O que desanima não é o lugar ou a comida. Morar em Brasília é comer sempre mal. Eu até já estaria todo Pierre Clastres, não fosse o calor.

O calor pede porto seguro. Vou ao Spot, esse ícone paulistano a uma quadra de outro ícone, que é a avenida Paulista. Os vidros verdes-claros que são as paredes do Spot são um refresco para os olhos e a antecipação do refresco que é estar lá dentro. Lá dentro tem ar-condicionado e não tem televisão. Tem moças bonitas como as da televisão. Da bermuda com chinelo e camiseta, a cidade passa a Fendi e vinho tinto, no deltatê de uma bandeirada. Abandono o camarão à belle e me entrego camaleão às belles.

Entro, peço mesa e vou tomar um banho no lavabo. Tomo um banho no lavabo e, na volta à espera, encontro Tonico, que não via havia anos. Sempre encontro gente que não vejo há anos quando vou a São Paulo. Se não vivo lá há anos, é compreensível que quem quer que eu encontre não tenha sido visto… há anos. Uma senhora em cadeira de rodas entra pela porta lateral. Abro alas com a minha, e cedo minha preferência a ela. Tonico se agrada da gentileza, depois volta para sua gente. Ao fim do almoço, Tonico terá pago a minha conta para que eu saiba que ele também é gentil. Eu sabia, Tonico. Obrigado mais uma vez.

Uma boa mesa na porta lateral, e me espalho solitário num latifúndio de quatro lugares no restaurante lotado. Descanso os olhos nalgumas mesas. Abro a New Yorker que chegou mais de mês atrasada, Obama na capa como o Washington de Rembrandt Peale, capa histórica. Rembrandt Peale, quanto provincianismo em quem pintou os founding fathers. Passo os olhos no texto de um indiano: The Elephant. O gosto pelo multiculturalismo alimenta textos como aquele, em que “dados culturais” fazem a suposta graça da coisa. Pobreza e bicicletas com outro nome, nome indiano, exótico, multicultural. E nada mais.

Então, vem Manuela:

_ Você já escolheu?
_ Você é argentina?
_ Meu pai é espanhol.
_ Filet au poivre. E purê de batata. Antes, suco de tomate e uma água. Depois, Coca-cola.
_ Ok.
_ Qual o seu nome?

Ela responde.
_ E o seu?

Respondo.

Quanta tensão num diálogo tão sem graça quanto o elefante do indiano. Manuela tem uma beleza desconcertante, aqueles cabelos negros ondulados, alta e frágil, o sorriso doce e altivo, traços fortes e suaves – uma beleza vertida em oximoros. Manuela serve com sorrisos, ilumina meu dia com outra luz, não a daquele sol no lá fora, à espreita, formidável.

Eu tinha visto o sol nascer em Brasília, antes de pegar o avião às 9h15. Ver o nascer do sol revigora. Vi a lua nascer toda pós-cheia, agora que de volta a Brasília – ela, lua, toda amarela, subindo por detrás do palácio da Alvorada, alvorada selenita. Isso também revigora, quando não rouba o fôlego.

_ Você roubou meu fôlego, Manuela. Agora ponha coca-cola no lugar dele.

Manuela no lugar certo. Manuela que nem mais vou ver. Não trago na lembrança suas meias ou seu sapato. Manuela, eu tirei o seu retrato.

caio leonardo – 2009. publicado antes em 6loggers

Dos Aflitos e das Penas

– eu, pombo que vejo

o milho derramado

o passeio do velho, o canivete na curva,

a manga e a paina, a mancha da pitanga,

a folha ardendo e a folha dobrada,

o remanso e o fim da mansidão

– eu, pombo que voo baixo

atento ao bicho homem e ao lixo dele

(que apanho ao brigar por fêmea,

que tenho a asa ferida e o olho sujo)

declaro ser verdade e dou fé:

esta praça é a mesma e o que virá dói mais.

– eu, pombo detestado e proibido,

cassandra cansada de guerra,

que não conheço a fome porque como

da mão melancólica de quem se perde

e é tanta gente que se perde

que jamais faltará milho a pombo.

– eu, pombo do pós-estilingue,

da pós-política de higienização,

do pós-especismo,

em plena curva no ar,

de costas para o cimento lá embaixo,

por cima das poucas copas

num looping desengonçado para além das minhas asas –

pombo indo além das suas sandálias

(aquelas de que sempre suspeitei) -,

eu pombo e pássaro e vivo e atento,

desisto ou não desisto?

– eu, pombo ilustre do peito depenado,

o pombo impresso no olhar da mulher que passa e que decide

se sou a natureza ou um incômodo,

se mereço milho na mão ou bolsada mortal,

enquanto ela segue para o Plano

sob o sol que sempre arde no cerrado

e nas minhas penas.

– eu, pombo que sempre vou ser a ameaça

de desfazer o jogo de xadrez,

de cagar no seu quepe,

de não bicar o milho na sua mão,

de não fazer o que esperam de um bom pombo de praça.

– eu, que não sou Fernão, nem Hélio,

eu vejo o que vejo, ouço o que ouço,

leio todos os jornais carcomidos,

folheio os livros jogados no chão,

Eu, infestado de vocês e refestelado de mim,

sou o que dorme na cidade

e você o que não dorme,

sou o que comerá o milho da sua melancolia,

e eu durmo e dormirei é sobre o concreto

ao lado do Caverna,

eu olho e oro pelo sorriso vivido e tímido do Caverna,

pela sua história que não ouso imaginar,

pelo tempo que levou para vir a pé de São Paulo a Brasília,

eu olho e oro pelos seus passos infinitos,

pelo seus vincos de sol na cara.

ave, Caverna!

o sábio dono de nada, mas colecionador de chapéus.

ave, Caverna!

pombo sem penas do lago Sul,

com seu andar recurvado,

um carrinho torto de mercado

e aqueles óculos de Raul.

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caio leonardo, après Zé Geraldo