A Era de Tinitus

Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Jo 1,6

Em 15 de julho de 2000, ouvi João Gilberto no Barbican. Fiquei no corredor atrás da última fileira, e era como se ele estivesse bem ao meu lado, sentado do jeito dele, paletó gravata e violão. A acústica da sala oferece essas intimidades. Tinha lido Chega de Saudade, do Ruy Castro, livro saboroso que orientou o quanto pôde meus ouvidos para entender o que o baiano fizera e fazia para ser tão extraordinário. Foi uma noite de educação dos sentidos.

À saída, no imenso foyeur, escondida num canto, sozinha, entretida com as próprias mãos, Angelica Huston. Parei no longe dela em que eu estava, um grande vazio, só nós. Ela deu aquele sorriso letal com os olhos baixos mas fixos em mim. Sorri de volta com a reverência de um Gomes à sua beleza única. Foi uma noite de educação dos sentidos.

Semana passada, enquanto ainda era possível viver, me lembrei dessa noite formadora. É que tinha achado um audiolivro sobre como Ouvir e Entender Música de Concerto, e as palestras foram me remetendo àquela orquestra toda que João Gilberto encaçapava no seu violão – lá ele a mantinha em silêncio à vista da mente da plateia, como potência e fúria encolhidas entre os seus acordes sincopados, seu ritmo feito de pausas, seus sussurros de vida boa à beira da praia. Vinha sendo uma semana de educação dos sentidos.

O silenciamento de João é a ruptura da caixa de ressonância daquele velho violão, e é o derramamento, a céu e olhos e ouvidos abertos, de toda a dissonância cacofônica daquela até agorinha escondida orquestra, orquestra que explode em fúria, antes potência, agora ato – e a música que tocam os despejados de João é o oposto extremo do Brasil que ele inventou.

Tenho tinitus desde cedo na vida. O meu é um som agudo e estridente, uma polifonia imitativa com uma camada de chiado sobre outra de zunido – soa como se eu vivesse um tempo em que tivesse sido extinta a Rádio MEC do Rio e sobrado, no mostrador do motobras do táxi amarelo que cruza a Rio Branco, um ruído fora de sintonia, ininterrupto, latente, que, se o tédio permitir, invade o cérebro.

Boa música compensa tinitus, mas João saiu do ar e os olhos já não podem ver.

Um Ranger de Ossos na Volta

Um copo de vidro, água dentro. Quase cheio.

Toca a sirene de ré do caminhão de lixo.

Óculos, livros. Um currículo, um guardanapo.

O carregador de celular cruza as pernas,

quer saber se vai comigo,

lemniscata desengonçada e aberta: desfinita.

A noite está aberta e fria,

lá fora.

E eu inventario os restos do dia.

Na Avenida

O garoto deixa cair a perna do muro.

 

Deve ser o 8.

Ele avança passo firme até o meio-fio.

Estica o braço.

 

É o 23.

Faz que não para o motorista.

 

O motorista freia, para e abre

a porta de saída –

que ainda era a da frente.

O garoto e o motorista se ameaçam

com os olhos

pelo tempo da descida de uma senhora:

sacola de plástico quadriculada,

acelga e bengala amanhecida.

Ela se agarra onde pode.

O último degrau é o abismo.

Os dois aguardam o gongo

enquanto ela aterrissa:

albatroz-de-sobrancelha-negra

de lenço na cabeça.

As asas balançam na direção da

Rangel Pestana.

 

O câmbio berra, engasga e

o 23 ruge em direção à praça do Correio.

O garoto sente passar o calor do motor,

a porta da frente se fecha com estrondo.

Os olhos se largam: empate.

 

O garoto dá cinco passos de costas e

finca de novo a sola do bamba no muro –

no último muro de casarão

na Presidente Wison.

As costas no muro,

a palma das mãos entre as costas

e o muro.

Ele sente alívio e incômodo:

no frio do muro branco,

nas rugas grossas do muro chapiscado.

Faz sombra a mangueira

que vem de dentro do casarão.

 

O garoto recosta, com cuidado,

a sua cabeça no muro, e aplica

um olhar sem direção, ausente.

 

Ausente, nada.

No outro lado da avenida,

de um certo sexto andar,

Gisela pode estar espiando.

O olhar transita

daqueles seis andares do edifício Itu

para os doze andares do São Rafael.

Lá, mora a professora Mari. O garoto

deixa cair a perna do muro.

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D. hominis

A mosca varejeira entrou pela biblioteca – 

mais um parágrafo

                                e a angústia acabava.

A mosca varejeira descobriu minha presença –

o parágrafo ficou mais distante.

A mosca varejeira decidiu pelo meu cabelo –

a angústia se esgotou em raiva.

A mosca varejeira faz um barulho danado,

não demorou e já era o bicho nocivo da casa velha, lá em São Vicente.

Inimiga antiga.

A mosca varejeira que fazia um barulho danado levou um voleio da edição de bolso das Selected Short Stories de Guy de Maupassant.

E aquele parágrafo morreu ali, abatido pela dúvida insondável:

O que ela queria?

Talvez, que eu lhe abrisse a janela

ou lhe desse atenção – sua vida são sete dias

sem companhia; eu, que passei

tantas vezes sete dias sem companhia,

não me importo. Mas e ela?

Uma vida adulta que começou pela cópula

e se estendeu pelo nada. A dela. Ou a minha?

Sua vida foi voar, zumbir,

pertubar um sujeito angustiado, quieto no seu canto e que procurava palavras.

Nunca uma banana. Nunca o gosto ainda fresco de iogurte grego na lâmina de alumínio.

A mosca varejeira agora é aquela angústia que saiu do parágrafo e foi impressa,

como mancha,

na topo da capa amarela, debaixo do pé do pinguim.

……….

Caio Leonardo

Dodecaedro Dodecafônico

Fale de mim, Tempo.

Conte de mim.

Não que eu queira ouvir as histórias que sei

ou as que esqueci.

Conte o que fez de mim

enquanto descobria Raymond Carver;

o que esculpiu na minha carne

enquanto eu preparava a infindável refeição.

Sussurre o que não percebi que acontecia

em volta:

fale da minha ingenuidade obcecante.

Estou contente com o que sou,

apenas que ouvir outras vozes do Tempo

faz do homem um dodecaedro,

a vida vista e vivida por doze faces

que ouvem doze vozes dodecafônicas.

Diga, Tempo, o que tiver a dizer,

que a chuva está passando

e com ela vai a melancolia.

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caio leonardo 1° de maio de 2019

Sobriedade e Poder

Kublai Khan dominou o mundo e a China, que era maior que o mundo; levou conhecimento, cultura e riqueza de extremo a extremo da Rota da Seda, com mão pesada sobre os governantes e as cortes que não se resignavam à sua ordem, mas com tolerância à cultura, aos costumes e às religiões de cada povo submetido ao Império Mongol. A China não seria a China e a Europa não seria a Europa sem o legado do seu império.*

Kublai Khan bebia muito.

……….

Winston Churchill conduziu uma ilha acuada diante do exército mais poderoso da Europa. Foi maior líder político conservador do século 20.

Winston Churchill bebia famosamente.

………

“Dom Pedro II falava alemão, italiano, espanhol, francês, latim, hebraico e tupi-guarani. Lia grego, árabe, sânscrito e provençal. Fez traduções do grego, do hebraico, do árabe, do francês, do alemão, do italiano e do inglês.”** Sob sua coroa, o Brasil cresceu 4,81% ao ano em média.

Dom Pedro II era um grande bebedor de cachaça.

……….

Lula bebia cachaça, e fez o Brasil crescer 4% ao ano em média, de 2003 a 2010.

…………

O atual ocupante do primeiro cargo da República toma fanta laranja e é o maior erro que o Brasil cometeu em toda a sua história.

Não há, nem haverá, coisa alguma que o faça deixar de ser, por um segundo, em toda a sua vida, com a consistência de sempre, uma pessoa tão cheia de ressentimento, com nenhum entendimento sobre o presente, sem qualquer lampejo de ideia sobre para onde conduzir afirmativamente o Brasil, no que lhe cabe, para um futuro.

Nem que bebesse.

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*Leitura iluminadora: Gengis Khan and The Making of the Modern World, de Jack Weatherford

**Furtei daqui: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2012v2n30p101

Oração

Laura dormia a esta hora

depois de mamar em Carolina Augusta –

a mais bela cachopa de Rio Frio,

mocinha órfã de Trás-Os-Montes,

a mais nova mãe de Vila Ventura,

destino d’além-mar de uma alma forte,

mas não aventureira -,

tudo sob o olhar curioso e ciumento de Maria,

primogênita

a quem aquela criança chamaria de Taminha

pelos tempos dos tempos.

No alpendre, Antonio,

do sorriso maroto

e do cenho fechado,

guardava as galinhas e os ovos –

os olhos sobre a fronteira da estrada para Uchoa,

lama aberta no descampado,

a eternidade da pequenidão

daquela vila de terra vermelha,

noventa e dois anos atrás.

……….

caio leonardo, no abril de 2019,

filho de Laura, neto de Carolina Augusta,

sobrinho de Maria, que Maria nunca foi –

ou era Carminha ou era Taminha -,

neto de Antonio

A Vida Secreta da Morte

Ele não come carne.

Ela não come peixe.

Eles se dão flores?

Ele não come ovos.

Ela não come foie-gras.

Eles se dão flores?

Um bouquet de rosas

é um filet à chateubriand

Um bouquet de flores do campo

é uma terrine de foie-gras

Um bouquet de copos-de-leite

são copos de leite

Um bouquet de girassóis

são ovos pochés:

Todos são iguais na morte a serviço do homem.

O boi morre pelos rapazes e as meninas do futebol.

As rosas morrem pela aniversariante entediada.

O ganso morre pelo senhor desembargador.

As flores do campo morrem pela menina com apendicite.

Os ovos morrem pelo bolo da noiva.

Os copos-de-leite morrem para encenar a pureza que não está na noiva.

Vida alimenta-se de vida.

Tudo o mais é disfarce.

Menos o bouquet de flores.

O bouquet de flores é um assassínio indecoroso.

As Línguas como Vontade e Representação

Dois amigos meus inventaram línguas, Gavin Adams e Guian de Bastos. A língua dos Adams era (ainda será?) falada entre ele e sua irmã, as raízes no gaélico, no inglês e no irlandês, coisas das Ilhas de onde sua família viera. Sei que Abergavenny existe por causa dele. Decorei e consigo pronunciar Llanfairpwllgrwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch por uma nunca longínqua influência dele.
 
Já o Guian inventou a língua de Vaspara, a história de Vaspara, a geografia de Vaspara e até o jornal local, que certo dia, nos primeiros anos dos 1900, publicou uma pequena nota sobre um concurso de balonismo ocorrido na capital, tudo muito colorido, sereno e aventureiro, não fosse a delegação do Brasil e suas impertinências. A Faculdade de Letras da USP, se for mesmo uma academia com alguma dignidade, guarda o notável estudo sobre a gramática da língua de Vaspara, que inclui a tradução desse artigo, tradução e estudo elaborados na penúltima década dos mesmos 1900, pela hoje doutora Claudia Santana Martins.
 
Gavin mora de mim quase à mesma distância que há entre o País de Gales e Vaspara. Guian mais perto. Mais perto do País de Gales, em Amsterdam. E Vaspara inteira mora dentro dele. Já Claudinha mora na São Paulo do Gavin, e eu morro de saudades de tudo e todos.
 
Hoje, recebi os “podcasts da semana” da New Yorker. Um deles é uma entrevista com David Peterson, o cabra endiabrado que criou não uma, porém DUAS línguas para Game of Thrones: Valyrian e Dothraki. Tenho certeza de que meus amigos vão se deliciar com isso. Todos os meus amigos. Inclusive o Ser Leo, que, pelo que me lembro, e me lembro de nada na vida, despreza o seriado: nos dias de hoje, não dobrar os joelhos perante a Khaleesi é o mesmo que uma mãe não ir ver o filho desfilar no 7 de Setembro.
 

TRÊS ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE DE ARTHUR

Uma única vez, estive no escritório do prof. Fabio Konder Comparato, de quem tinha sido aluno. O assunto não era acadêmico – ele nunca teria tido motivo para me receber por algo do gênero. Estava lá, com gente grande, para pedir-lhe um parecer.

A uma certa altura, uma personagem foi citada, não me lembro qual, e ele então comentou, não com a gravidade que o define, mas com uma expressão entre tristeza e pânico:

__ Com ele aconteceu o que não desejaria para o meu pior inimigo: Ele perdeu o filho.

Década de ‘90. Foi nesta cena que comecei a me dar conta da dor dos meus próprios pais com o que aconteceu a mim mesmo, aos 22 anos.

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Drummond perdeu a filha, Julieta, a pessoa que mais amou em sua vida. Morreu uma semana depois, de tristeza.

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Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

Chico Buarque

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O Verão de Empédocles

the-four-elements-1472-grangerNão se completou uma lua sequer. Em 25 de janeiro, ela minguava pelo quarto dia, e a terra varreu Brumadinho. A lua então veio de ser nova, ainda nem era crescente, quando desceu a água e subiu o fogo sobre o Rio de Janeiro. Amanhã, a lua alcançará o quarto crescente, mas, antes disso, hoje a tragédia caiu do ar, em São Paulo. Fecha-se um ciclo trágico dos quatro elementos imutáveis da natureza: a terra, a água, o fogo e o ar.

Empédocles (490-430aC) é que concebeu a natureza assim, e ele entendia que esses quatro elementos não se moviam por si, mas pela oposição de duas forças: Amor e Ódio. O equilíbrio entre elas é que permite que a vida siga em harmonia, e isto vale também para a vida em sociedade.

Há Ódio demais circulando por este país. Mais Amor, por favor. A lunação atual só se fecha daqui a oito dias. Mais amor, por favor. Se não for por filosofia, ame por superstição. Mais amor, por favor.

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Ilustração: Toalha de praia

Breve e Necessário Passeio pelos Parques da Cidade

Ter apenas um assunto,

e esse assunto ser variações

em agressões a uma pessoa,

revela uma vida triste e encerrada,

consumida pelas próprias frustrações transferidas na forma de ódio àquele objeto – àquele ser humano tornado objeto

pelo ressentimento e

pelo vazio existencial

a que se resume o que sobra de vida

àquele que tem apenas um assunto.

Liberte-se da dor de ser quem você se tornou.

Não peço que mude de ideia,

mas que mude de assunto.

Abra outras caixinhas do universo.

Descubra o padre que descobriu o Tibet

(sim, isso aconteceu),

megulhe

em mapas de lugares imaginários,

passeie

pelo Pantanal de Manoel de Barros,

cavalgue com o verdadeiro Genghis Khan,

o autor da modernidade,

penetre

na leveza sublime dos versos de Rumi,

mergulhe

no sono, ouvindo Roberta Flack –

“The First Time Ever I Saw Your Face”,

corra

9Km num parque que não conhece

e repare nas árvores.

Leia A Vida Secreta das Árvores,

e A Vida Íntima dos Animais.

Traga

para casa frutas e legumes

que nunca provou.

Entre

no zoológico na volta do almoço,

e avise

seus sócios de que vai se atrasar:

__ Estou em reunião com um unicórnio chinês. Ainda é segredo.

E, então, estenda o braço e sorria

para a Girafa:

Ela perdeu o parceiro ano passado.

caio leonardo, 11 de fevereiro de

2019

Para que vivemos juntos?

É preciso ser absolutamente moderno, disse Rimbaud. Ninguém é moderno todo o tempo, respondeu Adorno, décadas depois. Os processos, os rumos, os encaminhamentos é que indicam se alguém, um grupo, uma sociedade, um governo, uma geração, um século, uma Era – se conduz com reflexão sobre para onde vai, vão, vamos, estão indo.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos que se veem hoje são conduzidos por certezas demais, certezas que haviam sido abandonadas pela reflexão.

A reflexão, ao que parece, foi ela mesma abandonada para dar lugar a certezas. Estamos abandonando a modernidade – cuja natureza é reflexiva, para Giddens.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos preponderantes na nossa atualidade movem-se pela noção de que tudo estava errado no caminho que vinha sendo trilhado para mudar o que estava errado.

As certezas atuais que decorrem dessa noção vêm sendo tais que reforçam exatamente tudo o que gerou e alimentava aquilo que estava errado.

São certezas que alimentam a violência; são certezas que aumentam a desigualdade, são certezas que, no entanto, trazem algo de novo e que nos leva para um caminho que nunca antes traçamos: As certezas preponderantes de 2019 constróem uma sociedade não apenas desigual, porque isso sempre foi, mas, sim, uma sociedade abertamente, convencidamente, orgulhosamente, franca, sarcástica, mordaz e apaixonadamente cruel.

Ou fazemos uma reflexão sobre essa crueldade – não para justificá-la, porque certezas não pedem justificativa, mas sim para superá-la -, ou a razão de vivermos como sociedade, como nação, estará perdida.

O Evangelho Segundo Don Teodoro

Todo parece tan natural, como siempre que no se sabe la verdad.
Júlio Cortázar, “Carta a una Señorita en Paris”

Em Buenos Aires, bebe-se Pepsi – agora entendo que, de quando em quando, aconteça de um rapaz vomitar coelhinhos num elevador da calle Suipacha. A cerveja Quilmes caiu em merecida desgraça, mas ainda pode ser vista pela noite de Palermo Soho em roupa de marca, um modelo deselegante em vermelho e dourado, onde se lê um desesperado Imperial. Nessas ocasiões, se for outono, é possível que a lua apareça de madrugada e nesse momento um rapaz de barba universitária tropeçará na longa cauda da noite ao atravessar a rua, e esbarrará na mesa da esquina oposta. Ele quer a todo custo que acendam seu cigarro. Seja gentil.

Não ficou claro quando Fernet Branca subiu para as mesas da Recoleta, mas o fato é que hoje está por todo lado, e todos a bebem, menos a classe alta, observou Pablo para depois conceder que também os jovens da classe alta bebem Fernet Branca, porém com Coca-Cola – não Pepsi. Não me pergunte por quê, eu estava intrigado com a camisa 8 de não sei qual volante obscuro do Estrela Vermelha que emoldurava uma Patrícia ainda de cabelos longos, recostada na mesa redonda de canto do La Brigada e ouvindo o rosto adolescente e tímido da filha do Pablo a defender ferozmente os Kirschner.

Os destinos da Quilmes e da Fernet, a subversão das relações de poder entre Coca e Pepsi, esses detalhes que denunciam a lealdade dos portenhos aos mundos estranhos de Borges e Bioy-Casares, tudo talvez estivesse nos preparando, a mim e à Patrícia, para o surgimento de Don Teodoro, 80 anos, taxista, último sorriso registrado provavelmente em 1978. Foi com Don Teodoro que descobrimos que o Tigre é o programa mais lindo para um domingo de sol, e não San Telmo. “Se soubesse que iam a San Telmo, não os teria deixado entrar”.

Don Teodoro é aquele para quem toda a imprensa está vendida a Cristina. Para quem o Malba, uma coleção *privada* (dito entre os dentes), é nada comparado ao Museu de Arte de Buenos Aires. Para quem a coisa certa a se fazer é contratar um motorista que saiba das coisas por 600 pesos, e rodar a cidade com ele por cinco horas, ou talvez não cinco horas, mas nunca tomem esse ônibus de dois andares, neles não se vê nada e só se vai a lugares estúpidos.

Don Teodoro, rugas de pedra e voz de V8, alma curtida de polêmica y calles, é quem afirma, em plena avenida Libertador e sem tomar fôlego:

“Pelé es mayor que Maradona. Os vi jugar a los dos y Pelé es un señor. Lo hizo todo, y es un señor. Maradona? Maradona tiene veinte hijos.”