DOIS VIZINHINHOS

_ A mamãe te mostrou ou você viu?

_ Sua mãe mostrou a foto no carro.

_ Então, você não viu.

Maitê traz os óculos de coração

vermelhos

que ganhou na Feira do Paraguai

e Pedro prova os amarelos

ovais

que se entediavam sobre Sebastião Salgado no aparador da entrada.

Passos animados invadem a varanda.

O sol desenha nuvens amarelas vermelhas (infantis)

e prateadas

cinzas-escuro, como as volutas dos meus cabelos

longos de isolamento.

As cores se espalham

dramaticamente

por todo o horizonte

enquanto o sol se põe detrás de outros vizinhos

do lado de lá da serpente de pedras portuguesas

que rebola do Sul para o Norte

entre espelhos d’água,

palmeiras esparsas e outras complacências.

_ Um beija-flor mora aqui embaixo, Pedro.

_ É?

Ele encontra a pequena lanterna de ferro cor de jade

sobre a mesa de tampo de junco esturricado pela seca.

Os vermelhos os amarelos as linhas prateadas

mergulham devagar.

_ Hora de deixar o tio Caio descansar.

(Nunca vou me cansar. Nunca vou descansar)

_ Tio Caio, me mostra?, Pedro aponta para o microscópio, que está quebrado.

Pedro quer olhar pelo microscópio quebrado.

Pego a peça pesada

desço à altura dos olhos dele.

_ Não dá pra ver nada.

_ Tá quebrado.

Fico imaginando a frustração de olhar por um microscópio

de mais de cem anos de idade

aos quatro anos de idade

e não enxergar um mundo mais fascinante

do que o do caleidoscópio

que ficou na varanda

sobre o sofá redondo, agora sem luz.

Diamonds Are Forever


Sean Connery morreu.
Não quero conversa.
Não liguem para mim,
não escrevam mensagens,
não cobrem o Netflix.
Não toquem a campainha,
não batam à porta,
não venham entregar o edredom lavado.

Connery não tinha a menor importância para a ordem geral das coisas.
Mas aconteceu de ele ser o último pedregulho que me ligava ao século 20.
Sua morte precipitou uma avalanche que invade
e soterra
minha ordem afetiva com o mundo.

Finding Forrester, de Gus van Sant, 2000

Ele foi Salinger em Finding Forrester –
contra a proibição de Salinger de usarem sua obra no cinema.
Um escritor recluso
é o que à época este homem aqui
aspirava a ser,
não fossem as dores. E as contas.

A vida de Salinger dorme na minha cabeceira, se equilibra numa montanha desastrada de livros que existe para desabar de madrugada. E que desabou.

Me desapego do mundo agora.
O gatilho do insuportável é meu.
Está claro que a vida tem licença para matar,
mas nenhuma elegância ao fazê-lo.
A contragosto, vou tomar um banho
escovar os dentes
e comer um lanche besta.
Não, não vou me matar: seria o triunfo da vaidade sobre o fracasso dos viventes.
O mundo é que morreu mais do que podia esta semana.
Não tolero abusos. Nem da morte.

MURROS E UM MURO

Public
Praça Coronel Lopes, com o coreto e o Grupo Escolar de São Vicente. Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente

Esse prédio à esquerda, atrás do coreto, foi o Grupo Escolar de São Vicente, a que chamavam de Grupão. Estudei lá de 1970 a 1972 – pré-primário, primeiro e segundo anos. Dona Rosa Feiz foi minha professora, lembro com carinho. Me comportava mal no recreio, já isso não deu muito certo.

Meu pai era então prefeito da cidade. Não bastasse isso para deixar um pivete se achar grande coisa, eu também havia nascido com uma cardiopatia leve, PCA (persistência do canal arterial). Os fantasmas da época fizeram minha família acreditar que eu não podia ficar nervoso, não podiam brigar comigo. Mas podia ver Zorro, Ultraman e Super Homem. Logo, eu podia tudo, até bater em todo mundo, invencivelmente – porque ninguém reagia, fosse por ter nascido do prefeito ou imperfeito.

No último dia de aula do Grupão em 1972, a classe toda se perfilou na praça, um aluno ao lado do outro, organizadamente, só os meninos. Uma cena bonita de ver, não fosse pelo detalhe de que todos estavam ali para me pegar, para me dar uma surra histórica, coletiva, corretiva.

Escapei no carro oficial, não sei o que é mais errado nessa história. Mas seo Domingos foi quem me salvou. Grande seo Domingos, que levava o Voz Operária escondido para o meu pai, eleito pela Arena.

E a gente acha que o mundo de hoje é que é confuso.

Aquele muro de moleques mal-encarados me endireitou para o resto da vida. Nunca mais entrei numa briga de mão, de rua. Foi só muito, mas muito recentemente que me toquei de que talvez eu tenha sido discretamente levado pelos meus pais (ou talvez, será?, pela diretoria do Grupão) a sair de lá por causa da cena do muro humano. Um muro baixinho – tínhamos 8 anos – mas aterrador, armado entre a calçada da escola e a do Correio, que havia tomado o lugar do coreto na praça. Uns vinte incas venusianos. Pelo menos.

Foi assim que descobri que eu não era a identidade secreta do Nacional Kid.

Passei a estudar no Raquel em 1973. Raquel também me ensinou muito na vida. Que leucemia é câncer no sangue e que com isso não se brinca (Perdão, Ivan, o inesquecível). Que beleza é contexto. Que ir à escola descalço podia não ser malcriação. Que ser muito, mas muito bom em salto em distância não era passaporte para as Olimpíadas, se não acontece de o professor enxergar futuro no garoto calado, alto e negro que surpreendeu a classe no dia, no único dia, em que ficamos competindo, pulando no areião que existia onde hoje é o Corpo de Bombeiros.

Fique registrado que, no Raquel, o Cid Pereira Maia fez duzentos abdominais seguidos em 1976 – eu sei, porque fui eu que contei: naquele ano, eu tinha operado o coração, adeus PCA, mas ainda não podia participar dos exercícios, então o professor me deu essa incumbência. A aula só acabou quando o professor mandou o Cid parar. O resto da turma tinha desistido no oitavo, no vigésimo, no máximo.

Que foi o máximo dançar o Vira representando o Raquel. Que a sabedoria mais pura podia emergir de uma aula de matemática da dona Irene. Que a beleza de uma deusa negra podia se materializar numa aula de história da dona Noemede. Que se levantar quando a diretora entrava na sala era óbvio. Que diretoras tinham nome e sobrenome: Nadir Sobral. Professores, só nome. Com exceção de um: Gentil Ferreira Filho. Que o mais Gentil dos professores podia ser também o mais rígido. Que o meu medo de palco não era lei universal, porque vi surgirem naquele cantinho de mundo dois grandes do teatro: Marcos de Azevedo e Charles Moeller, mais novos. Que ser atleta não impede que alguém se torne artista – como… o próprio Cid Pereira Maia…

O Raquel me ensinou a respeitar meus colegas, a curiar a diferença, a me interessar pelo que não é parte de mim.

Anos depois, talvez um ano só depois, outra lição sobre brigas teve lugar no mundinho que foi o Ilha Porchat Clube. Numa tarde de verão que calculo ter sido o de 1974, apanhei sem reagir de um garoto que hoje é juiz e que ficara bravo comigo, porque eu estava agindo como advogado. Um segundo garoto, cuja família tinha chegado a São Vicente fazia pouco tempo, tinha furtado, mas devolvido, a raquete de tênis de praia de um terceiro garoto que já era antigo no clube. Perdoei o arrependido, ninguém mais perdoou. Apanhei sem me mover, os braços cruzados. Quando o futuro juiz parou de bater no futuro advogado, virei as costas em silêncio e fui para casa. Me senti muito justo e comedido. Uns meses depois o terceiro garoto, que eu havia perdoado primeiro e por quem havia apanhado, recebeu o perdão dos outros muitos que frequentavam o clube, um a um, e os novos amigos dele passaram a rir de mim. Acharam ridículo aquilo de eu ter assumido aquela defesa de graça e de apanhar sem reagir. Outra lição que trago para a vida: pensar com independência, nunca ser conduzido pela volatilidade irracional, e cruel, dos grupos. Cobrar pelo que defendo, isso ainda não aprendi.

Aos 19 anos, o grande Leo Imamura me aceitou como seu discípulo na academia que mantinha na Domingos de Morais, e lá aprendi Wing Chun, Tai Chi Chuan e Jeet Kune Do. Foi minha maior escola. Na vida. As grandes lições conto outra hora, mas foram elas que me tiraram de uma profunda depressão e fizeram ser algo perfeitamente existencialmente compreensível uma lesão medular que aconteceria três anos depois, em 1986. Aqui, conto duas lições menores: continuei sem brigar na rua e aprendi a apanhar como gente grande. Barbaridade, Leo.

Leo era meu colega no Largo São Francisco. Não demorou muito para, entre as Arcadas, outras cenas me darem lições duras. Aquilo de não pensar como grupo, nem me submeter à lógica do pertencimento, logo mostrou seus limites. Minha classe na faculdade de Direito saiu toda da sala em protesto contra uma posição adotada por mim. E a classe estava certa; eu, errado. Ou seja, pensar sozinho não resolve. É preciso aprender a ouvir antes de decidir. É mentira que a verdade está toda dentro de nós. A verdade constrói-se por consenso? Não sei, ainda não terminei de ler o livro do mestre mais recente, Lenio Streck.

Aliás, livros. Meu pai, lá vem ele de novo, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. Quando eu tinha 35 anos, minha mãe entregou ao Instituto a biblioteca onde cresci – nem tudo era praia e escola. Aqueles milhares de volumes podem ter tido o mesmo destino do coreto da foto, mas sem o Instituto estas histórias pela geografia de São Vicente não teriam sido contadas aqui.

É tanta gente a quem preciso agradecer nesta vida, não é, Coelho? E ainda nem comecei a falar de você.

ELEGIA AO CAMARADA TRUMPSKY

Trump é a materialização espetacular de uma esquecida Dialética da Natureza de Engels em sua eterna transformação.

Trump gerou uma nova qualidade de político mentiroso pela quantidade de mentiras que produz. Não é novidade político mentir. O novo é mentir tanto a ponto de deixar de ser político e transformar-se na própria mentira.

Ainda em Engels, Trump é uma negação desde criança. Cresceu e tornou-se a negação da negação. Nasceu cevada, tornou-se uma Devassa, uma cerveja de má qualidade, cujo nome é sinônimo de falta de pudor.

Trump é, por fim – e que seja seu fim – a consumação da lei materialista dialética da interpenetração dos contrários: era um capitalista que amava tanto o poder que acabou por destruir o império capitalista ao penetrá-lo como político.

Essa imagem publicada hoje pelo NYT mostra um discurso de campanha de Trump. Em vermelho, estão as mentiras que contou. Mentiu tanto que deixou de ser um capitalista mentiroso na política para tornar-se uma mentira na capital da política.

Foi posto na Casa Branca pelas mãos de um ex-comunista soviético, Putin; e deixará a Casa Branca entregando de mão-beijada o poder hegemônico global aos comunistas da China.

Donald, seo comunista de uma figa…

fonte: The New York Times

Pai e Filho

(texto de 8 de setembro de 2010)

Laços fora, soldados! As cortes querem mesmo escravizar o Brasil. A voz rouca não alcançava nem a primeira fila, lá embaixo, onde deviam estar o Paulo Rogério, o Julio, o Maciel, a Roberta, a turma toda me vendo lá em cima, no palco, sem voz, de espada em punho e chapéu de bico, o Dom Pedro I do Raquel de Castro Ferreira da São Vicente de 1974. Por essas e outras, não fui incluído entre os alunos ilustres no jubileu de ouro da escola, em 2008. Mas o Tércio, que também estava por ali, foi. Ele hoje é prefeito, reeleito, da São Vicente do Raquel. E eu, hoje, na Brasília de Lula, não sou nada e fui ao desfile de sete de setembro com a Caroline. Tirei fotos. O Lula também estava no palco dele, com a voz rouca que é dele, faixa presidencial atravessada no peito, mas sem chapéu de bico. Nem espada. Nem a turma lá embaixo rindo, como riu de mim, até a diretora mandar todo mundo calar a boca, que era Dom Pedro.

Noutro sete de setembro, desfilei. Mas foi antes. Ainda estava no Grupão, que nem escola mais é. Virou secretaria, alguma coisa assim. Na minha turma tinha uma menina que gostava de falar o nome inteiro dela, que acabava com Fittipaldi. Em 1971, mesmo em São Vicente, ser Fittipaldi era coisa grande. Eu era filho do prefeito, o que também era coisa grande. Por isso, a turma do segundo ano gostava de querer me bater. Prática democrática, especialmente em tempos obscuros, isso de bater nos filhos do poder. E nem eles, nem eu sabíamos o que era Arena ou MDB. Pra mim, MDB era uma coisa verde, surda, acho que porque não tinha vogal; Arena era uma coisa esbranquiçada. Me lembrava praia. Meu pai era da Arena, mas a gente não falava dessas coisas aos seis, sete anos. 

No sete de setembro em que meu pai era prefeito, e de que eu me lembro, lá estava eu de uniforme mais uma vez. Tia Carminha tinha comprado um quepe e um coldre e uma coisa que era uma arma, acho que tinha um cacetete, também. Ah, a doçura da infância! Fui ao desfile todo paramentado. A gente ficou na rua, mesmo. Não tinha palanque – ou, se tinha, nem minha mãe, nem eu estávamos lá. Vi passar o exército, tun-tum-tchi-tun-tun-tun…, e lá fui eu pra frente da tropa, marchando que nem eles. 

Acharam lindo. Porém, era 1972.  

Nessa época da minha infância, a memória dos meus ouvidos me conta que “Independência” era pronunciado rápido, ao som do repique que preparava a entrada de duas fortes batidas do bumbo: “ou Morte!”. Uma voz solitária gritava “Independência!”, e o coro respondia “ou Morte!”. Era uma ameaça, não um grito de liberdade. E aí vinha a banda e os uniformes e o passo firme sobre o chão escaldante. 

Quando passei a falar desse tempo com meu pai, eu já no Largo São Francisco, onde essas ingenuidades não duram muito tempo, soube que o velho Jonas, no caminho de casa até a prefeitura, recebia das mãos do seo Domingos, o chauffeur, a edição clandestina da Voz Operária, embrulhado no São Vicente Jornal. Meu pai revelou, a mim estudante de Direto, que ele, antes de ir para a Arena, tinha sido vice-presidente da União Internacional dos Estudantes, que tinha ido à Tchecoslováquia na década de 1950, que lá conhecera Ilya Erenburg – e Lida, a motorneira tcheca com quem nadou nas águas do Vltava, para ciúmes eternos de dona Laura. Houve uma virada, e ela veio quando da sua visita àquilo que chamavam com voz tenebrosa de Cortina de Ferro… 

Foi meu pai quem me apresentou Caio Prado Junior, lendo para mim extensas partes de Dialética do Conhecimento, numa edição que minha memória traidora me diz que era elegante, de capa dura, verde, letras douradas. Tenho até hoje, nalgum lugar, uma edição rota de “Así se templó el acero”, de Nicolai Ostrovsky, que ele trouxera do lado de lá da tal cortina, e que lhe teria custado muita dor, se o tivessem encontrado naqueles tempos.  E foi por pouco. 

Ele, prefeito, foi “denunciado” pelos irmãos Horneaux de Moura ao Exército, pelo que foi chamado a dar explicações ao comandante do 2º BC. Queriam saber o porquê de ele “ter ido a Moscou” e de a Irmãos Rodrigues publicar anúncios na Voz Operária (ou noutro veículo de esquerda da época). Irmãos Rodrigues era a fábrica de urnas funerárias da família de meu pai. Uma loja ficava quase ao lado da prefeitura. Nela, se lia: Serviço Funerário Central – SFC. Não por acaso a sigla de Santos Futebol Clube. Meu pai não me contou o que tinha conversado com o comandante. Apenas que discutiram visão de País, que tinha ido a Praga, não a Moscou, e como estudante, nada mais, e que isso teria bastado para lhe darem trégua. Era um homem muito sério e circunspecto, de modos gentis, quase britânicos, com o inevitável cardigan – no calor que fizesse. Não tinha o perfil que os preocupava.

Embora distanciado do debate e da ação das esquerdas, meu pai morreu stalinista. Afastou-se, por causa do que viu para além da tal cortina. Resolveu mudar-se de São Paulo para São Vicente, e separar, de um lado, o seu jardim, e, de outro, a General Jardim, onde fervilhava sua “alma matter”, a Escola de Sociologia e Política, de colegas como Plínio de Arruda Sampaio, de professores como Florestan Fernandes. Quem só conheceu o Jonas Rodrigues de São Paulo não reconhece o de São Vicente. Quem conhece o de São Vicente, sabe apenas que ele foi da Arena para o PDS, do PDS para o PP, que foi prefeito duas vezes e, talvez, que a Oposição o chamava de “prefeito papa-defunto”. Quem só sabe de sua vida em São Vicente, não sabe que, nas curvas dos anos de chumbo, ele operou para que ferroviários no Vale do Ribeira pudessem escapar da repressão. Que tentou, em vão, convencer Rubens Paiva a sair do país em tempo. 

Houve mortes e houve gritos de liberdade desde então. Hoje sei o fracasso que foi não ter insistido em saber detalhes da conversa de meu pai com o comandante. Fracasso ainda maior do que aquele do meu sete de setembro como Dom Pedro. O vexame que foi aquilo. Cheguei em casa, subi correndo as escadas, me fechei no quarto e a espada me espetou a barriga quando pulei de cara na cama, chorando feito a criança que era, ainda em trajes de defensor perpétuo da pátria.

O Viajante do Presente

Postei alguns vídeos do Alexandre Olive na minha timeline do Facebook, e vou seguir postando. Um francês bonitão numa bicicleta.

Que tem isso de mais?

Bem, ele é uma pessoa que está viajando. Ele usa uma bicicleta, veja só, e circula livremente por ruas, estradas, caminhos, praças. “Ele está viajando” – percebe, por assim dizer, “aonde quero chegar”?

Alex saiu de Paris em direção a Monaco. Está agora na região de Marselha. Logo estará
em Cannes, depois Nice e subirá uma das mais belas estradas do mundo até chegar a Montecarlo. Vai ser uma subida e tanto.

Ele está conversando com pessoas por onde passa, dorme na casa de pessoas que não conhece – ou que sim, depende.

Ele vem saindo de um lugar, indo para outro e depois outro, e nenhum deles é necessariamente uma farmácia ou mercado.

Ele está viajando por vilas e cidades, por um caminho que antigamente (seis meses atrás) trataríamos como “turístico”.

Por isso, ele está tirando fotos e fazendo vídeos perto de cabras, castelos, pontes, vacas, perto de pessoas, perto de pessoas que ele não conhece. Nem aquelas cabras da semana passada ele conhecia.

Nas nossas, nas suas conversas, quase todas virtuais, “viajar” é uma ideia remota, pertencente a um pretérito perfeito ou a uma projeção longínqua de futuro. Todos nos tornamos, em variada medida, viajantes do futuro – mais precisamente, viajantes do futuro do pretérito.

Mas, então, surge um viajante no presente, tão no presente que praticamente resgata um momento de glória para o gerúndio: ele está viajannnnndo.

A viagem de Monsieur Olive, com todo seu charme e carisma, fica entre o esperançoso e o perturbador, entre o gesto libertário e o estranhamente inesperado. É o registro de um agora improvável neste nosso eterno presente imediato da pandemia.

É uma viagem histórica e ele nem percebe.

Merci beaucoup, mon chèr.

Caio Leonardo

PS.: Conheci A. O. no TGV de Paris a Bruges, seis verões atrás, quando até eu viajava.

PS 2: Quatro anos depois, coitado, ele veio ao Brasil, perdeu-se no cerrado e levou 12 horas para ir de Brasíla a Alto Paraíso.

PS 3: Eu era o motorista.

Aquários Tropicais

Beth Carver. Daily-sailor. http://www.bethcarverart.com

Há um Aldir Blanc em mim, que vem de lá de São Vicente, terra de misses e pivôs, perfume barato e Afonso Schmidt. Foi ali que aprendi que toda beleza é relativa, que pela semana eram belas as meninas uniformizadas em azul escuro, com o R branco do Raquel; que no fimdesemana vinham belas as paulistas, que não usavam uniforme, mas umas coisas que não tinham nada a ver com praia: brinco, relógio, essas coisas de gente que a gente chamava de paulista, ou fresca.

As meninas do Raquel moravam logo ali na rua Japão, de onde saíam os barcos dos pescadores da Colônia Z-4, que emprestava um canto para a escola, ou na México 70, a maior favela da cidade, que nós gostamos é do que é grande, como a conquista do Tri e caranguejo no Boa Vista. As paulistas desciam a serra para nos ver jogar mini-tênis e futebol, e dizer que eu era sem sal – aquilo doeu, Aline (é, eu lembro do teu nome, e eu tinha só 15; nós nunca mais nos vimos, mas eu lembro: doeu).

Um dia, eu já devia ter uns vinte anos, vi a R. na praia da Ilha Porchat, aonde o pessoal do Raquel nunca ia – eu achava, mais menino, é que porque era longe. Nos cumprimentamos, ficamos felizes de nos ver, ela que havia chorado uma vez, nós aos 12 ou 13, quando fiz que não queria ser mais seu par no grupo de dança do Vira da escola: quanta crueldade cabe numa criança? Ela estava linda de branco quando chorou – vestido rodado e rendado, de caxopa se tu queres ser bonita.

No contraste entre as jóias do fimdesemana, nos dois sentidos, e a R., que era loira e dançava comigo o Vira no grupo folclórico do Raquel, foi que descobri a teoria da relatividade: toda beleza é circunstancial, relativa, ambientada.

Mas quando a vi na praia, aquele outro dia anos depois, na praia proibida a quem do Raquel, a praia que ainda era dos paulistas no fimdesemana, hoje não mais, vi que Roberta era uma menina daquelas que a lida com o fogão deixa marcas na pele, pele macerada, macilenta, pele sem os cuidados de pele das outras meninas ali, que nem me achavam mais tão sem sal, vai ver que de tanto mar, de tanto sol, de tanto do mesmo, das mesmas circunstâncias, circunstâncias tão diferentes das de R., um dia tão linda.

Não vejo derrisão no poema de Aldir Blanc. Vejo a mim mesmo sinceramente fascinado por Roberta, como até hoje assim, sinceramente.

R. foi minha miss suéter. Mas também minha Iracema.

Eu perdi o seu retrato.

caio leonardo

Beth Carver. http://www.bethcarverart.com

MISS SUÉTER
João Bosco e Adir Blanc

Fascínio tenho eu por falsas louras
(ai, a negra lingerie),
com sardas,
sobrancelha feita a lápis
e perfume da Coty…

Na boca,
dois pivots tão graciosos
entre jóias naturais
e olhos tais minúsculos aquários
de peixinhos tropicais…

Eu conheço uma assim,
uma dessas mulheres que um homem não esquece.
Ex-atriz de tv,
hoje é escriturária do INPS
e que, dias atrás,
venceu lá o concurso de Miss Suéter.

Na noite da vitória,
emocionada,
entre lágrimas falou:

– Nem sempre minha vida foi tão bela,
mas o que passou, passou…
Dedico este título a mamãe,
que tantos sacrifícios fez
pra que eu chegasse aqui,
ao apogeu,
com o auxílio de vocês…

Guardarei para sempre
seu retrato de miss com cetro e coroa
com a dedicatória que ela,
em letra miúda,
insistiu em fazer:

Pra que os olhos relembrem,
quando o teu coração infiel esquecer…
Um beijo, Margô.

O Império das Cem Mil Covas

NASA/Bill Ingals

O foguete vai partir – já não é mais novidade, mas vai partir. O mundo parou, mas não por causa do foguete. Como quando Apollo era uma missão, as ruas queimam na América e um foguete sobe. Mas o foguete de hoje não é da América, as ruas não são de ninguém e o mundo já não é mais americano.

A polícia de Minnesota perdeu o controle das ruas, quando mal havia gente circulando por elas. O povo americano, morrendo em casa por omissão do governo, não suportou mais uma morte, e de um cidadão negro, agora cometida por um agente de Estado.

Stephen Maturen/Getty Images

O nome do policial assassino entra para a História como uma repetição que não é farsa: é uma coincidência reveladora. Seu nome é Chauvin. Sim, Chauvin, por todos os deuses, Chauvin. O mesmo nome do oficial de Napoleão que, dez vezes baleado, dez vezes voltou ao front, movido por uma obsessão nacionalista e racista. Você conhece Chauvin. Dele surgiu chauvinismo, e agora deu em mais um porco chauvinista que matou por desprezo e orgulho.

Governo que não serve nem protege,
de nada serve.

No mesmo dia da morte de George Floyd,
a bandeira americana, que sempre salvava o mundo em Hollywood, abandonava a cena da luta mundial contra o vírus com um gesto final e funesto de desprezo pelo concerto das nações. Trump anunciava a saída da OMS.

A antes onipresente bandeira americana não aparece nas mãos do seu povo nos protestos em Los Angeles, em Atlanta, em Nova Iorque, nem em Minneapolis, onde Chauvin matou Floyd. A polícia apanha dos manifestantes em Chicago.

A violência viraliza na América da quarentena, mas a bandeira sumiu, perdeu o sentido, o peso, a capacidade de unir; perdeu a confiança do seu povo.

Joseph Tam – Cantão, China (via Cassius P.)

Ao mesmo tempo, do outro lado do planeta, Duas Sessões definiam outro futuro com pés firmes no chão. Lá, de onde veio o vírus e
onde o vírus foi contido, move-se um poder vertical, pervasivo, planejado, que trabalha para ser mais eficiente e construir capacidade de ação. Desde lá, o espectro de Hong Kong abre as asas sobre nós.

Enquanto os homens se perdem no Novo Mundo, o vírus se demora em devorar corpos, ideias, passividades – e um Império.

O foguete privado, o abandono da OMS e a morte de George Floyd marcam o fim da influência moral e da capacidade de agência
dos Estados Unidos da América.

A Terra não lhe será leve.

Zaijian.

caio leonardo
30 de maio de 2020
Ano I do Império Chinês

HOW SOON IS NOW?

Roger Dean cover for Relayer

SOON
Jon Anderson

Soon, oh soon the light
Pass within and soothe this endless night
And wait here for you
Our reason to be here

Soon, oh soon the time
All we move to gain will reach and calm
Our heart is open
Our reason to be here
Long ago, set into rhyme

Soon, oh soon the light
Ours to shape for all time, ours the right
The sun will lead us
Our reason to be here

LOGO
Jon Anderson

Logo, ah, logo a luz
Passa assim! e cura a eterna noite
Espera o que vem
Por isso estou aqui

Logo, ah, logo a vez
De quem leva o ganho vai chegar
O peito aberto
Por isso estou aqui

Longa dor, sinto em teu olhar

Logo, ah, logo a luz
A nós cabe o rumo: nós, a lei
O sol me guia
Por isso estou aqui!

———

Em 1974, criou-se uma conhecida heresia que consiste em extirpar os dezesseis primeiros do total de vinte e dois minutos de The Gates of Delirium, primeira faixa do lado A de Relayer, sétimo álbum do Yes, primeiro depois da saída de Rick Wakeman. A música é uma alegoria ao romance Guerra e Paz, de Tolstói. Até alcançar os 16’, ela progride para um caos ruidoso, embora elaborado, que retrata uma batalha nas guerras napoleônicas. A banda então faz uma ponte que ralenta tudo quase até o silêncio, para dar lugar a uma melodia suave, cantável – uma transição que expõe o talento de Allan White, Steve Howe e Chris Squire. A partir dali, para desenhar a paz que chega depois da guerra, Howe usa cítara elétrica ao executar uma linha melódica sideral que culmina nos vocais agudos de Jon Anderson, que também assina a letra. Esses seis últimos minutos foram lançados (lancetados?) como single com o nome Soon*. A depender das tuas cores no verdadeiro palio di Siena que são as brigas entre fãs de bandas diferentes, essa canção é ou um dos momentos mais transcendentes ou mais piegas da história do rock.

Relayer fez sucesso, marcou época e ajudou, acredito, a fazer de Anderson essa figura angelical e precursora da New Age, ele inteiro e a família junto sendo dedicados a causas do planeta. Em sua página no Facebook, Anderson aparece festejando o recém-lançado documentário da filha sobre uma comunidade indígena em Dakota (Sioux), com a qual ele próprio e a esposa passaram um tempo anos antes. Na mesma página há um vídeo de agradecimento ao coronavírus por nos ter feito parar e pensar no que somos e fazemos.**

É de perder o fio da meada. Não sei bem o que me levou a querer ouvir essa música ontem… Ah! Sim. Facebook. Jon Anderson apareceu entre as figuras públicas cujo perfil na rede eu poderia pensar em seguir, de acordo com o algoritmo do Vale do Simplismo. Tinha deletado tanta gente antes…: de Jack DeJohnette a John Travolta; de Claire Daines a Anne Leibowitz. Mas então surgiu Jon Anderson, a filha, o documentário, os índios, a gratidão ao coronavírus e acabei me lembrando da coisa toda em torno de Soon.

Assisti ao show de Anderson em São Paulo, na década de ‘90. Lembro, coitado, do tanto que insistiram em que ele estripasse Relayer e consumasse de novo o tal ritual herético. Pois foi. Muito, mas muito a contragosto, Anderson parou o show, calou a banda e avisou que cantaria à capella. E cantou. Enquanto cantava, ficou fazendo com as mãos umas volutas infantis, imitando um maestro e regendo o público, a quem, com isso, chamava abertamente de tosco. Soon é a Creep, é a Smells Like Teen Spirit, é a O Bêbado e a Equilibrista do velho Jon: O sucesso que ele não suporta ter que carregar para o decurso dos séculos.

Anderson, se fosse torturado ao ponto de novamente cantá-la em 2020, seria recebido por uma outra audiência, outros ouvidos, seriam outros até mesmo os ouvidos que a conhecem desde 1974, como é o meu caso, eu que a ouvi por obra e graça dos irmãos Negreiros, Ricardo e Gilberto, que sempre tinham os melhores e mais novos discos em casa – a casa da esquina da Freitas Guimarães com a Messia Açu, um portal que levava a nós, calungas, à swinging London pela ponta de uma agulha sobre pratos giratórios de vinil.

Éramos cinco; os Negreiros, sete. Não resisto à tentação de dizer que, pelo menos na média, éramos seis. No correr dos anos ’70 e ’80, as adolescências das nossas duas famílias chegavam e partiam em biografias que se cruzavam. A coisa não ficou sem romance, mas a Laís não se casou com o Ricardo; a Leila não se casou com o Gilberto; o Luiz não se casou com a Bia; e eu, pobre de mim, só escrevo isto aqui para ter como aparecer na história, porque o que interessa é que foi esse intercâmbio discográfico e a amizade do mais novo dos Negreiros, Fernando, com o mais novo dos Bessas Rodrigues, Xande, que fez surgir um Rick Wakeman brasileiro, que se assina Allex Bessa*** e se tornou tecladista, compositor, arranjador e baluarte do rock progressivo.

Coadjuvante sem fala nesse mundo, fui atrás daqueles últimos seis minutos d’Os Portões do Delírio. Reaparecia a ideia de fazer uma versão da letra. Era madrugada, o sono não vinha. Peguei a letra, compus a versão. E o que aconteceu então foi que a letra acabou inevitavelmente invadida pela quarentena e suas circunstâncias.

Em 1984 (o ano, não a outra distopia), Jim Morrissey perguntava How Soon is Now? Minha adolescência estava na curva descendente e o drama da solidão que Morrissey descrevia era assim: Tem esse lugar que dá pra você ir e encontrar alguém para amar de verdade, mas aí você vai e fica na sua, e vai embora na sua e vai pra casa e chora e quer morrer.**** Era triste. Mas na distopia de 2020, na curva ascendente da pandemia, sair de casa é cair numa arena de gladiadores e gritar Ave, César, os que morrem te saúdam! só que com a voz abafada atrás de uma sufocante máscara de pano, o inimigo mortal sendo qualquer coisa à sua volta: a maçaneta, o botão do elevador, o filho do vizinho, a mão do frentista – não o frentista inteiro, não o chumbo na gasolina, não o ar poluído, não o vira-latas que passa: não, todos esses estão redimidos, o inimigo é apenas a mão do frentista, a mão da moça do caixa, a mão que balançou o berço. O inimigo está nas extremidades, nos pontos de tangência, no ar que invade a sala quando algum tresloucado desperta e abre as janelas, pálido de espanto. Não estamos na Peste de Camus, estamos na Náusea de Sartre.

Está trancada a rua da amargura. Animais selvagens tomam as cidades. Num prenúncio desse quadro, o cavalo Remorex venceu sem jóquei nada menos do que o próprio _pálio de Siena no ano passado.***** Tudo parecia normal, como sempre que não se sabe a verdade, teria murmurado Cortázar. Um mundo sem humanos se prefigurava, enquanto Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiano, aplaudia no Twitter: Pazzesco, incredibile, fantástico!

Hoje, os que se ocupam de tentar sobreviver mergulham na sua própria versão de Xavier de Maistre, com o universo reduzido a uma recorrente viagem ao redor do quarto de dormir ou da cela na Papuda; ao redor de qualquer dos círculos do inferno, todos e cada um sendo uma mônada embasbacada diante da Tela Ubíqua, os olhos esbugalhados, laranja mecânica sem chapéu-coco, obrigada a sofrer com as imagens e os áudios do escândalo do dia, com a censura ao bom-senso, com a bestialidade se impondo, sem esperança de que alguém perca por um instante a ilusão e descubra estar sob a vigência, não de um Estado de Exceção, mas sim do mais total ilusionismo. E os dedos postam e postam e postam: O mundo como vontade e prestidigitação.

Concluo sem esforço, porque desprezo o ativista que rompe o isolamento, que todo homem é uma ilha, dependente e sob ataque do mar de telas e medos que o cerca por todos os lados. O ruído desse mar não vem de fora, lá faz um silêncio de abandono. Vem da mesma tela em que disputo agora, neste instante, a tua atenção. Então, vai daqui não uma reza, mas esta pequena heresia, e que ela, em seu pecado original de ser ou não ser piegas, ocupe um pouco do teu Tempo, por isso estou aqui, e que logo, ah…, logo a luz passe assim!, e cure esta eterna noite.

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Caio Leonardo, no Oitavo Dia do Maio do Primeiro Ano da Pandemia.

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* Soon, vídeo oficial https://youtu.be/cGtjr-U5bT4

** Obrigado, coronavírus https://www.facebook.com/TheJonAnderson/videos/230322224820992

*** Allex Bessa no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCLm68qTYiP3hD0rWQX0qW8w

**** There’s a club/ if you’d like to go/ you could meet somebody/ who really loves you./ So you go and you stand on your own,/and you leave on your own,/ and you go home,/ and you cry/ and you want to die…” How Soon Is Now, The Smiths https://www.youtube.com/watch?v=hnpILIIo9ek

***** Em 2019, o palio di Siena foi vencido pela contrada della Selva, apesar de o jóquei ter caído do cavalo na primeira volta. O cavalo Remorex continuou correndo sozinho, perdeu colocações, mas passou à frente de três e ganhou no fotochart. Foi algo como se a final do Brasileirão fosse um Palmeiras e Corinthians e, aos 45′ do segundo tempo, entrasse em campo um porco ou um gavião que pusesse a bola pra dentro. Nada menos que isso. O primeiro ministro do Interior da Itália, o ultradireitista Matteo Salvini, estava assistindo e comentou “Pazzesco, incredíbile, fantástico!“. Confira: https://youtu.be/RqvjOkO1Y1Y

Anotações para eu ter do que discordar de mim amanhã. Ou não.

Poder dizer, e dizer, “não” a si mesmo é uma forma elevada de liberdade.

Dizer sempre “sim” a si mesmo é uma forma primária de sujeição.

A ideia de ser livre todo o tempo é a negação da própria liberdade, porque prende a pessoa à obrigação de não decidir, de não fazer escolha. Liberdade ou é escolher ou não é nada. E escolher é decidir. Decidir dói. Fecha portas, dá rumo, define trajetórias, impossibilita outros destinos.

Ser livre dói. Não ser livre dói mais. Não escolher é nunca vir a ser. Não decidir é não realizar. Ficar entre o sim e o não é não viver.

Não decidir é sair de Brasília e pegar a estrada errada para Alto Paraíso e só dizer não a si mesmo quase chegando a Posse. Decidir é saber que é preciso voltar e voltar e voltar, mesmo que isso seja uma grande humilhação, voltar e voltar até começar tudo de novo, desde Planaltina. Quem não define o x da questão viaja em Y. Sim, seguir pela estrada errada teria aberto muitas possibilidades, mas não teria dado na gargalhada da Patrícia, quando me viu entrar no quarto, às 4 da manhã, dez horas depois do esperado: a gargalhada transformou uma inconveniência numa aventura; seguir reto teria transformado uma aventura numa inconveniência? A escolha foi feita. Nunca saberei – mas sei o bem que me faz a história ter terminado nos braços e nas gargalhadas da Patricia .

Liberdade é escolha. Há grandes escolhas em jogo em 2020. Duas delas são imensas: a de dizer não a si mesmo e a de dizer não à tentação de nada fazer. Ficar entre o sim e o não é não viver. Dizer não a si mesmo é ficar em casa. Ou não. Escolher é tirar esse cara da frente. Ou não.

MEUCAMERÃO

Caiu minha orelha,
o nariz que tava aqui
fugiu de caolho.

A boca que ri,
riu tanto que despencou
do pescoço ao chão.

Meu rosto é o retrato
do outono do desalento:
triste, torto e trágico.

Ter teto trazia
alento. Ter sombra, alívio.
Ter hoje é terrível.

Eu, o que era antes,
descaio de mim. Eu, farto,
não como nem quando –

nem lembro onde pus
o meu último sapato:
Não piso na rua,

nem olho pra ela:
perdi a conta das f(r)ases
ai, língua minguante…

Matar as saudades?
Aquela máscara negra
esconde o teu rosto.

Vou deixar-me agora
sobre o leito de Procusto,
que mede e devora.

Caio Leonardo
Aos 27 do abril destes 2020

Nova ordem mundial.

Os EUA, a Rússia e, entre outros da recente onda nacionalista/conservadora, o Brasil, têm governos que são contra a prevalência de organismos internacionais sobre a soberania nacional – o tal fim do globalismo.

A China defende esses organismos internacionais, e mais: defende uma cooperação internacional em larga escala, como com seu projeto Belt and Road.

Os EUA e a Europa estão assistindo à sua decadência diante de uma China portentosa e imparável.

A Rússia vem trabalhando para desarticular OTAN, União Europeia e afundar os EUA. Com sucesso, haja vista seu papel no Brexit, na eleição de Trump e no posicionamento de Trump contra organismos internacionais, aí incluída a OTAN.

O plano da Rússia é o de instauração de uma Eurásia, de Vladivostok a Lisboa, nas palavras de Putin, em defesa da civilização cristã-sionista conservadora, nas palavras de Bannon.

O Plano da China é integrar o mundo para servir aos seus canais de comércio.

O Plano dos EUA muda a cada segundo, com sanções disparadas contra aliados, ex-aliados e inimigos; sem recursos para manter botas no chão e navios pelo mundo todo.

Nesse contexto, surge o coronavírus.

Cepa que surgiu na China e que a China soube conter, porque decide planejadamente e de cima para baixo.

O resto do mundo não decide assim: seus governos batem cabeça, a população quer, cada um, que a sua ideia de combate ao vírus prevaleça, essa coisa toda.

Pandemia foi prevista por várias vozes relevantes no cenário internacional, a não menos relevante tendo sido Bill Gates.

Agora, surgem vozes cobrando a China pela pandemia e a OMS, por não cobrar de Pequim a responsabilidade pela pandemia.

O recado estava dado? Quem não se preparou como governo errou? Alguma autoridade nacional de saúde não foi alertada para o risco? Quem está errado? De quem é a culpa?

Todas essas questões emperram a tomada de decisão necessária, enquanto a China segue firme para a recuperação de sua economia já no fim do segundo trimestre, e o mundo desaba para além da Grande Muralha.

Só há espaço para UMA CRISE: A pandemia

Só há espaço, na vida pessoal, para o cuidado de si, de quem está perto e, na extensão das capacidades de cada um, de quem está longe.

Só há espaço para se dar atenção a vozes e lideranças que mostrem respostas, soluções e norte.

Tudo o mais que se está discutindo no ambiente político é contingente, baixo e não interessa à população neste momento em que todos nós mais precisamos de Estado presente e atuante para equilibrar o impacto de uma crise concreta, real e incontornável.

O que interessa é como vamos comer e onde vamos dormir. Como a comida chegará a cada um de nós e como o teto será garantido. Como estaremos protegidos e o que podemos fazer para a proteção do outro.

O empresário e o empreendedor cuidam do seu negócio. Uma crise como esta extrapola a capacidade de ação de todo e qualquer negócio ou empreendimento. É para uma crise como esta que existe o Estado:

1) para informar a população sobre os riscos que corre, sobre em que estágio da pandemia se está, sobre o que está por vir e sobre como agir individual e coletivamente;

2) para tratar da população afetada, com todos os recursos de que dispuser e que puder mobilizar: não é hora de pensar na conta, a conta será paga por gerações que só existirão e progredirão, se esta geração sobreviver e superar esta crise;

3) para estudar e buscar solução para a pandemia; e aplicar essa solução em larga escala o mais rápido possível;

4) para alocar recursos de forma eficiente e capaz de responder aos desafios da crise para além da saúde: produção, distribuição e consumo de alimentos e bebidas; higiene pessoal e limpeza doméstica; teto e atenção a todos; reorganização do trabalho; reorganização da família, reorganização da logística das relações de troca;

5) para organizar e adaptar as forças produtivas em torno do bem comum, em especial, da contenção da pandemia: ponderar, adotar, avaliar, subvencionar, financiar e rever ações como isolamento, lockdown, protocolos de higiene e proteção, e plano de retomada gradual da vida no espaço público e no mundo do trabalho;

6) para sustentar empresas, empreendedores, trabalhadores e pessoas fora do mercado de trabalho, enquanto não seja possível retornar à dinâmica de mercado;

7) para oferecer segurança e ordem num momento em que ausentar-se, isolar-se é um ato cívico, humanitário, histórico.

Quem quer que esteja na esfera pública (fora da família e da empresa, dentro do Estado) deve estar ocupando o tempo dele/dela e o meu/seu com uma dessas sete finalidades.

Qualquer autoridade pública que desvie energia nesta hora não devia estar em posição de comando.

2020 é um ano para os grandes homens e para as grandes mulheres servirem a algo maior do que seus projetos pessoais.

2020 é o ano da Política entendida como a arte maior de pensar e construir o futuro.

Quem não tiver grandeza nem visão de futuro para o Brasil e para a humanidade, então que faça sua parte e isole-se.