Amor, Sol e a Pata da Aranha

“Amor incondicional” é o novo “calor senegalesco”, como se não existisse mais dúvida nem medida, como se não existisse um calor mais ou menos, lá pelos 26° C, um amor de perdição, o vento noroeste de Santos, o amor que divide, o sol das três da tarde em Brasília, o amor que vai embora, o meio-dia de Janeiro no Rio, o amor de Fevereiro, tudo justo quando menos se ama e mais desequilibrado o mundo das relações humanas se encontra; justo em meio ao aquecimento global.

O lugar-comum é a dispensa da reflexão, o abandono do olhar autêntico, é a preguiça de viver, a ilusão de que repetir uma fórmula vai conter as forças caóticas do universo.

Ler mais uma vez “amor incondicional” acaba sendo como misturar asa de morcego, pata de aranha, olho de coruja e sumo de carqueja no velho caldeirão do auto-engano.

A MORTE POR CONVENIÊNCIA

A morte de brasileiros, às centenas de milhares, atende a um cálculo político e a outro orçamentário.

Ao longo de não mais do que duas semanas:

i) O Presidente da República, o Governador do Estado do Amazonas e o Prefeito de Manaus deram causa a que alas inteiras de hospitais sob sua responsabilidade fossem palco da morte por asfixia de pacientes de COVID-19 pela falta de oxigênio. As pessoas estavam internadas, sendo cuidadas dentro de hospitais e morreram porque acabou o oxigênio.

ii) Um assessor do ministério da Saúde observou que não há por que abrir leitos de UTI, se não há oxigênio para o Norte. Então, que morram nas ruas.

iii) Há dúvidas quanto à veracidade da afirmação de uma autoridade, ventilada nos jornais, de que a morte de idosos beneficia o equilíbrio das contas do governo, por baixar o volume de aposentadorias a serem pagas. Pode não ser verdade, e espera-se que não o seja, porém a lógica é conhecida desde que veio a público a obra de Malthus, no século 19: o crescimento da população é mais intenso do que o dos recursos para sustentá-la, e qualquer progresso para a grande massa é uma ilusão passageira, porque os recursos logo se esgotam. É um dos mais complexos temas da Política, que este Governo demonstra ter resolvido por simplesmente dizer que não é com ele. Não se importa que morramos às centenas de milhares.

Não há relação de causa e efeito entre mortes por COVID nos últimos 11 meses e a oferta atual de alegados R$ 3 bilhões de reais em emendas a senadores e deputados apoiadores da candidatura governista à Presidência da Câmara dos Deputados. Porém, não deixa de ser uma coincidência extraordinária o que dizem alguns números a respeito de duas tristes grandezas: i) quantos de nós morremos e ii) quanto receberiam os que morreram, se vivessem por mais um ano – mais um ano fiscal, para ser preciso. Se estabelecermos, numa conta bem inferior à real, o valor do salário-mínimo (R$ 1.100, a partir deste janeiro) como base para o que, digamos de novo, 220 mil desses brasileiros mortos receberiam ao longo de 2021 como aposentadoria ou qualquer outro benefício governamental, chegaríamos ao valor anual (R$ 1.100 X 13 x 220.000) de R$ 3,14 bilhões de economia, por baixo, divididos entre o Orçamento Federal e o da Previdência Social. 3,14 é mesmo um número mágico.

Pois bem, o Presidente da República afirmou, semanas atrás, que o Brasil estava quebrado, não tinha dinheiro, não havia o que fazer para salvar a população da morte e da fome. Mas em seguida surgem R$ 3,14 bilhões de reais para construir apoio político no Congresso Nacional. Alguma conta fizeram. Talvez essa conta acima, macabra e conveniente.

Vamos fazer outras contas:

*Em 11 meses – de março a janeiro de 2021 -, morreram, repito, 220.000 pessoas de complicações causadas pelo COVID-19 no Brasil.

*Em média, portanto, morreram 666,666 (sim, não é brincadeira, a conta é essa…) pessoas por dia, todo dia, nesses 11 meses.

*De 1942 a 1945, morreram 1.300.000 pessoas em Auschwitz-Birkenau, o maior campo de extermínio nazista. Morreram esse tanto, lá e então, por asfixia, quase todos, mas também de bala, fome e experimentos médicos – experimentos de todo tipo, mas não há registro, é verdade, de terem oferecido cloroquina para curar uma síndrome respiratória grave.

*A média de mortes diárias em Auschwitz II – Birkenau naqueles três anos foi, grosso modo, de 1.200

*O Brasil, nesta data de 31 de janeiro de 2021, alcançou o número de 1400 mortos nas últimas 24 horas. Estamos acima de 1000 mortos há semanas.

Sim. O que estamos vivendo no Brasil já não difere muito do que se registrou em Auschwitz II – Birkenau em média de número de mortos. E não difere em NADA do que segue acontecendo há semanas em Manaus: morte por asfixia. Na Alemanha nazista, matavam com Zyklon B; no Brasil bolsonarista, matam sem Oxigênio.

Não bastasse isso, uma nova cepa de COVID 19 surge em Manaus. Dada a falta de leitos e de oxigênio, e a urgência em atendimento dos pacientes, tomou-se a decisão de transferir pacientes para outros Estados. Com essa transferência, se não feita com maior cuidado do que o já dedicado à Sars-COVID-19, poderá ser que a cepa de Manaus esteja sendo espalhada a outros Estados. Quando age para salvar vidas, o Governo central o faz com o risco de disseminar nova cepa do vírus, mais mortal.

A vacina, que já existe, poderia estar sendo recebida e distribuída em larga escala pelo Brasil, não fosse a decisão do Presidente da República de rejeitar, por conta de uma agenda geopolítica manicomial, a vacina criada no Brasil junto com um laboratório chinês. Também não teve competência, nem ânimo, para adquirir a vacina da Pfizer, alegadamente porque os termos contratuais propostos pela farmacêutica eram inaceitáveis para o governo brasileiro, numa demonstração de duas falhas trágicas: (i) descaso com a urgência, conveniência e oportunidade de ter a vacina no Brasil e (ii) incapacidade de negociar a benefício do Brasil um simples contrato com a altivez e o peso que uma das dez maiores economias do mundo tem de ter e demonstrar ter diante de uma empresa privada.

Ter a vacina a tempo e modo seria, numa avaliação funesta de seus aliados, uma derrota política para Bolsonaro, que deixou o discurso em defesa da vacina ser abraçado por Governadores, enquanto ele, Bolsonaro, insistia na aposta política em tratamento precoce e desprezo por medidas de distanciamento social, higiene e uso de máscaras – que nos valeu, digo de novo, 220.000 mortes numa conta que não para de subir.

É genocídio? É genocídio. É genocídio quando centenas de milhares de brasileiros morrem por inação ou definição clara de ação governamental ineficaz para salvar vidas, sabedoras as autoridades de que havia alternativa, de que havia ações a serem implementadas com urgência, mas não o fizeram para poderem lavar as próprias mãos e terem a oportunidade política de inculparem prefeitos, governadores e o Supremo Tribunal Federal, numa luta por ganho político. Quando tudo isso se soma e se arranja, temos evidências de que o Brasil vive um genocídio pensado e articulado de cima, para a tomada e manutenção de poder por um Presidente da República que precisa ser cassado, para o bem da nação.

Não é apenas a peste que assombra o Brasil. A fome está batendo à portas como corolário da peste, pela via do desemprego e do desalento, que já atingem perto de 40 milhões de brasileiros. Sem fonte de renda para dezenas de milhões de brasileiros, a fome é uma consequência fácil de intuir. Enquanto isso, o auxílio emergencial está a risco. O Governo diz não ter dinheiro para oferecê-lo sem romper o teto fiscal.

Ora, o Governo central está preocupado com equilíbrio de contas na Previdência e no Orçamento Geral da União, enquanto estamos em guerra contra um inimigo invisível que invadiu todo o território nacional e já matou dez vezes mais brasileiros do que a Segunda Guerra Mundial.

Derrube-se o Teto de Gastos, já! As próximas gerações orgulhar-se-ão da boa governança que teremos dado ao País num momento de extremo rigor, de desarticulação da economia, de falências, de dívidas, de dor, de fome e de morte. Saberão lidar com o custo que herdarão de nós. A alternativa é a vergonha eterna, a falência da sociedade brasileira pelas mãos desta geração hoje viva e econômica, intelectual e politicamente ativa.

Se falta visão mais clara do que se passa, o povo manauara deveria levar os bolsonaristas negacionistas aos hospitais para buscarem os corpos dos mortos, tal como os americanos fizeram com cidadãos e cidadãs de Weimar, levados a conhecer os horrores de Buchenwald.

O campo de extermínio de Aschwitz-Birkenau foi liberado pelos aliados no 25 de janeiro de 1945. Quanto a nós, chegamos agora ao fim do primeiro janeiro do nosso holocausto.

Caio Leonardo, advogado

O FUTURO É DAS COMPANHIAS AÉREAS

2 de Setembro de 2020

O setor aéreo está sob profundo estresse. Analistas avaliam que podem quebrar, desaparecer como serviço, com o advento dos riscos em torno da pandemia. Discordo.

A medicina vencerá o vírus, mas o mundo do trabalho jamais será o mesmo. A consequência disso não é o fim das aéreas, e, sim, o início da sua era de ouro.

Troquem a expressão home office para WORLD OFFICE: As pessoas não precisam trabalhar nem de casa, nem do escritório. Podem trabalhar DE QUALQUER LUGAR DO MUNDO, a qualquer tempo.

Não é mais preciso esperar as férias. A ideia de férias ficou ultrapassada.

Até do avião é possível participar de reuniões, hoje.

O turista será um profissional ou uma família tocando a vida enquanto passeia.

O futuro é das aéreas.

Caio Leonardo #airlines#aereas#tourism#turismo

A Mesmice como Vontade e Representação Política

Ai de ti, São Paulo!
Onde narcisos
acham lindo
o que veem no espelho.
Se é a tua imagem,
então é a tua vontade.

Não importa o quê,
não importa como:
importa que siga
sendo o mesmo

O príncipe é bom
sempre que feito
à sua imagem e semelhança.

Não importa para quê,
não importa aonde leve,
não importa o que aconteça:
importa apenas
que seja o mesmo.

As mesmas bandeiras de antes,
bandeirantes.

Ai de ti, São Paulo,
que acha mesmo feio
o que não é
espelho.

DOIS VIZINHINHOS

_ A mamãe te mostrou ou você viu?

_ Sua mãe mostrou a foto no carro.

_ Então, você não viu.

Maitê traz os óculos de coração

vermelhos

que ganhou na Feira do Paraguai

e Pedro prova os amarelos

ovais

que se entediavam sobre Sebastião Salgado no aparador da entrada.

Passos animados invadem a varanda.

O sol desenha nuvens amarelas vermelhas (infantis)

e prateadas

cinzas-escuro, como as volutas dos meus cabelos

longos de isolamento.

As cores se espalham

dramaticamente

por todo o horizonte

enquanto o sol se põe detrás de outros vizinhos

do lado de lá da serpente de pedras portuguesas

que rebola do Sul para o Norte

entre espelhos d’água,

palmeiras esparsas e outras complacências.

_ Um beija-flor mora aqui embaixo, Pedro.

_ É?

Ele encontra a pequena lanterna de ferro cor de jade

sobre a mesa de tampo de junco esturricado pela seca.

Os vermelhos os amarelos as linhas prateadas

mergulham devagar.

_ Hora de deixar o tio Caio descansar.

(Nunca vou me cansar. Nunca vou descansar)

_ Tio Caio, me mostra?, Pedro aponta para o microscópio, que está quebrado.

Pedro quer olhar pelo microscópio quebrado.

Pego a peça pesada

desço à altura dos olhos dele.

_ Não dá pra ver nada.

_ Tá quebrado.

Fico imaginando a frustração de olhar por um microscópio

de mais de cem anos de idade

aos quatro anos de idade

e não enxergar um mundo mais fascinante

do que o do caleidoscópio

que ficou na varanda

sobre o sofá redondo, agora sem luz.

Diamonds Are Forever


Sean Connery morreu.
Não quero conversa.
Não liguem para mim,
não escrevam mensagens,
não cobrem o Netflix.
Não toquem a campainha,
não batam à porta,
não venham entregar o edredom lavado.

Connery não tinha a menor importância para a ordem geral das coisas.
Mas aconteceu de ele ser o último pedregulho que me ligava ao século 20.
Sua morte precipitou uma avalanche que invade
e soterra
minha ordem afetiva com o mundo.

Finding Forrester, de Gus van Sant, 2000

Ele foi Salinger em Finding Forrester –
contra a proibição de Salinger de usarem sua obra no cinema.
Um escritor recluso
é o que à época este homem aqui
aspirava a ser,
não fossem as dores. E as contas.

A vida de Salinger dorme na minha cabeceira, se equilibra numa montanha desastrada de livros que existe para desabar de madrugada. E que desabou.

Me desapego do mundo agora.
O gatilho do insuportável é meu.
Está claro que a vida tem licença para matar,
mas nenhuma elegância ao fazê-lo.
A contragosto, vou tomar um banho
escovar os dentes
e comer um lanche besta.
Não, não vou me matar: seria o triunfo da vaidade sobre o fracasso dos viventes.
O mundo é que morreu mais do que podia esta semana.
Não tolero abusos. Nem da morte.

MURROS E UM MURO

Public
Praça Coronel Lopes, com o coreto e o Grupo Escolar de São Vicente. Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente

Esse prédio à esquerda, atrás do coreto, foi o Grupo Escolar de São Vicente, a que chamavam de Grupão. Estudei lá de 1970 a 1972 – pré-primário, primeiro e segundo anos. Dona Rosa Feiz foi minha professora, lembro com carinho. Me comportava mal no recreio, já isso não deu muito certo.

Meu pai era então prefeito da cidade. Não bastasse isso para deixar um pivete se achar grande coisa, eu também havia nascido com uma cardiopatia leve, PCA (persistência do canal arterial). Os fantasmas da época fizeram minha família acreditar que eu não podia ficar nervoso, não podiam brigar comigo. Mas podia ver Zorro, Ultraman e Super Homem. Logo, eu podia tudo, até bater em todo mundo, invencivelmente – porque ninguém reagia, fosse por ter nascido do prefeito ou imperfeito.

No último dia de aula do Grupão em 1972, a classe toda se perfilou na praça, um aluno ao lado do outro, organizadamente, só os meninos. Uma cena bonita de ver, não fosse pelo detalhe de que todos estavam ali para me pegar, para me dar uma surra histórica, coletiva, corretiva.

Escapei no carro oficial, não sei o que é mais errado nessa história. Mas seo Domingos foi quem me salvou. Grande seo Domingos, que levava o Voz Operária escondido para o meu pai, eleito pela Arena.

E a gente acha que o mundo de hoje é que é confuso.

Aquele muro de moleques mal-encarados me endireitou para o resto da vida. Nunca mais entrei numa briga de mão, de rua. Foi só muito, mas muito recentemente que me toquei de que talvez eu tenha sido discretamente levado pelos meus pais (ou talvez, será?, pela diretoria do Grupão) a sair de lá por causa da cena do muro humano. Um muro baixinho – tínhamos 8 anos – mas aterrador, armado entre a calçada da escola e a do Correio, que havia tomado o lugar do coreto na praça. Uns vinte incas venusianos. Pelo menos.

Foi assim que descobri que eu não era a identidade secreta do Nacional Kid.

Passei a estudar no Raquel em 1973. Raquel também me ensinou muito na vida. Que leucemia é câncer no sangue e que com isso não se brinca (Perdão, Ivan, o inesquecível). Que beleza é contexto. Que ir à escola descalço podia não ser malcriação. Que ser muito, mas muito bom em salto em distância não era passaporte para as Olimpíadas, se não acontece de o professor enxergar futuro no garoto calado, alto e negro que surpreendeu a classe no dia, no único dia, em que ficamos competindo, pulando no areião que existia onde hoje é o Corpo de Bombeiros.

Fique registrado que, no Raquel, o Cid Pereira Maia fez duzentos abdominais seguidos em 1976 – eu sei, porque fui eu que contei: naquele ano, eu tinha operado o coração, adeus PCA, mas ainda não podia participar dos exercícios, então o professor me deu essa incumbência. A aula só acabou quando o professor mandou o Cid parar. O resto da turma tinha desistido no oitavo, no vigésimo, no máximo.

Que foi o máximo dançar o Vira representando o Raquel. Que a sabedoria mais pura podia emergir de uma aula de matemática da dona Irene. Que a beleza de uma deusa negra podia se materializar numa aula de história da dona Noemede. Que se levantar quando a diretora entrava na sala era óbvio. Que diretoras tinham nome e sobrenome: Nadir Sobral. Professores, só nome. Com exceção de um: Gentil Ferreira Filho. Que o mais Gentil dos professores podia ser também o mais rígido. Que o meu medo de palco não era lei universal, porque vi surgirem naquele cantinho de mundo dois grandes do teatro: Marcos de Azevedo e Charles Moeller, mais novos. Que ser atleta não impede que alguém se torne artista – como… o próprio Cid Pereira Maia…

O Raquel me ensinou a respeitar meus colegas, a curiar a diferença, a me interessar pelo que não é parte de mim.

Anos depois, talvez um ano só depois, outra lição sobre brigas teve lugar no mundinho que foi o Ilha Porchat Clube. Numa tarde de verão que calculo ter sido o de 1974, apanhei sem reagir de um garoto que hoje é juiz e que ficara bravo comigo, porque eu estava agindo como advogado. Um segundo garoto, cuja família tinha chegado a São Vicente fazia pouco tempo, tinha furtado, mas devolvido, a raquete de tênis de praia de um terceiro garoto que já era antigo no clube. Perdoei o arrependido, ninguém mais perdoou. Apanhei sem me mover, os braços cruzados. Quando o futuro juiz parou de bater no futuro advogado, virei as costas em silêncio e fui para casa. Me senti muito justo e comedido. Uns meses depois o terceiro garoto, que eu havia perdoado primeiro e por quem havia apanhado, recebeu o perdão dos outros muitos que frequentavam o clube, um a um, e os novos amigos dele passaram a rir de mim. Acharam ridículo aquilo de eu ter assumido aquela defesa de graça e de apanhar sem reagir. Outra lição que trago para a vida: pensar com independência, nunca ser conduzido pela volatilidade irracional, e cruel, dos grupos. Cobrar pelo que defendo, isso ainda não aprendi.

Aos 19 anos, o grande Leo Imamura me aceitou como seu discípulo na academia que mantinha na Domingos de Morais, e lá aprendi Wing Chun, Tai Chi Chuan e Jeet Kune Do. Foi minha maior escola. Na vida. As grandes lições conto outra hora, mas foram elas que me tiraram de uma profunda depressão e fizeram ser algo perfeitamente existencialmente compreensível uma lesão medular que aconteceria três anos depois, em 1986. Aqui, conto duas lições menores: continuei sem brigar na rua e aprendi a apanhar como gente grande. Barbaridade, Leo.

Leo era meu colega no Largo São Francisco. Não demorou muito para, entre as Arcadas, outras cenas me darem lições duras. Aquilo de não pensar como grupo, nem me submeter à lógica do pertencimento, logo mostrou seus limites. Minha classe na faculdade de Direito saiu toda da sala em protesto contra uma posição adotada por mim. E a classe estava certa; eu, errado. Ou seja, pensar sozinho não resolve. É preciso aprender a ouvir antes de decidir. É mentira que a verdade está toda dentro de nós. A verdade constrói-se por consenso? Não sei, ainda não terminei de ler o livro do mestre mais recente, Lenio Streck.

Aliás, livros. Meu pai, lá vem ele de novo, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. Quando eu tinha 35 anos, minha mãe entregou ao Instituto a biblioteca onde cresci – nem tudo era praia e escola. Aqueles milhares de volumes podem ter tido o mesmo destino do coreto da foto, mas sem o Instituto estas histórias pela geografia de São Vicente não teriam sido contadas aqui.

É tanta gente a quem preciso agradecer nesta vida, não é, Coelho? E ainda nem comecei a falar de você.

ELEGIA AO CAMARADA TRUMPSKY

Trump é a materialização espetacular de uma esquecida Dialética da Natureza de Engels em sua eterna transformação.

Trump gerou uma nova qualidade de político mentiroso pela quantidade de mentiras que produz. Não é novidade político mentir. O novo é mentir tanto a ponto de deixar de ser político e transformar-se na própria mentira.

Ainda em Engels, Trump é uma negação desde criança. Cresceu e tornou-se a negação da negação. Nasceu cevada, tornou-se uma Devassa, uma cerveja de má qualidade, cujo nome é sinônimo de falta de pudor.

Trump é, por fim – e que seja seu fim – a consumação da lei materialista dialética da interpenetração dos contrários: era um capitalista que amava tanto o poder que acabou por destruir o império capitalista ao penetrá-lo como político.

Essa imagem publicada hoje pelo NYT mostra um discurso de campanha de Trump. Em vermelho, estão as mentiras que contou. Mentiu tanto que deixou de ser um capitalista mentiroso na política para tornar-se uma mentira na capital da política.

Foi posto na Casa Branca pelas mãos de um ex-comunista soviético, Putin; e deixará a Casa Branca entregando de mão-beijada o poder hegemônico global aos comunistas da China.

Donald, seo comunista de uma figa…

fonte: The New York Times

Pardon, Simone

simonedebeauvoir505_112912031304_0 Pourquois moi?

O ENEM de 2015 demonstra que o analfabetismo funcional não atinge apenas os estudantes, mas a Nação inteira.

É constrangedor ver a quantidade de gente que não consegue interpretar um texto.

Um povo que não consegue distinguir “sentido denotativo” de “sentido conotativo” num texto é um povo funcionalmente analfabeto.

E povo, aqui, não é usado no sentido conotativo de “gente pobre”, “gente humilde”; povo, aqui, é usado no sentido denotativo de “conjunto de pessoas ligadas por laços territoriais, culturais ou religiosos”.

Ou seja, o povo brasileiro, nós todos, somos incapazes de discutir um texto a partir do sentido que esse texto tenha ou possa ter.

É constrangedor ver a quantidade de gente que acredita que, na citação feita a obra sua no ENEM, Simone de Beauvoir renegava a genitália como elemento de distinção entre homem e mulher.

É constrangedor ver que o texto de Simone de Beauvoir foi interpretado como se referido ao debate sobre homossexualidade.

Como hoje é sábado e segunda é feriado, lá vai:

Antes de tudo: pronuncia-se “Bovoárr”.

Agora, ao texto.

Beauvoir não fala ali de homossexualidade.

Beauvoir não fala ali que a sexualidade é algo que se escolhe ou que, ao contrário, é algo que não se escolhe.

Beauvoir não fala ali que ninguém nasce com o sexo ou a sexualidade definido ou indefinido.

Beauvoir não fala ali de opção sexual.

Beauvoir ali está falando disto e só disto: do papel social imposto à mulher.

Quando Beauvoir diz que “ninguém nasce mulher”, ela quer dizer que ninguém nasce sendo o que a sociedade espera que seja o papel de uma mulher:

*ninguém nasce submisso;
*ninguém nasce para cuidar da casa;
*ninguém nasce para casar, ter filhos e dedicar-se exclusivamente a isso;
*ninguém nasce para ganhar menos do que os outros só por ser homem ou só por ser mulher.

Ao dizer que “ninguém nasce mulher”, Beauvoir está afirmando que de ninguém se pode exigir desde o nascimento que faça isto ou aquilo, assim ou assado, apenas por ter nascido com este ou aquele sexo.

Ela quer dizer que uma mulher tem a liberdade de decidir:

*se quer ou não se casar,
*se quer ou não ter filhos, se quer ou não ter uma casa,
*se quer ou não cuidar dessa casa ou de qualquer outra casa,
*se quer ou não estudar, trabalhar, ir pelo mundo afora,
*se quer aprender a cozinhar,
*se quer cozinhar em casa ou num grande restaurante – ou até mesmo num pequeno restaurante, ou
* se prefere assistir TV comendo pipoca de pantufas num sábado de carnaval.

O debate que cabe aqui, portanto, é sobre o valor que a nossa sociedade dá ou pretende dar à ideia de que cabe ao homem e à mulher papéis na sociedade que são específicos e determinados de antemão.

Querem debater sobre o que Beauvoir realmente quis dizer?

Caio Leonardo

31 de outubro de 2015

A Hora do Brasil

O País enfrenta uma crise política grave o bastante para o Parlamento aceitar sacrificar a economia para não se alinhar com o Governo.

O País está sacudido, há muita poeira levantada, muito barulho, muita tensão. É hora de deixar de lado interesses e enxergar o quadro político como ele é.

Agora, importa apenas o movimento das grandes peças. E elas ficaram resumidas a poucas: Temer, Renan, Cunha, cada vez menos Lula. O único movimento relevante de Dilma seria o de sua saída voluntária, numa demonstração de espírito público e compromisso com a democracia – no sentido de não dar azo a uma alternativa de exceção. Nenhum outro partido ou grupo político pode, hoje, interferir decisivamente no deslinde desta crise, senão através do alinhamento com o PMDB.

O País está, de novo, nas mãos do PMDB, como sempre que é preciso manter a estabilidade institucional.

Esta crise deixa claro que eleição é o caminho para o Poder, mas o Poder não é legitimado exclusivamente pelo voto. Lição dolorosa e tardia. É preciso introjetar na consciência política brasileira que, além de pelo voto, a legitimação de um Governo se dá pelo ser responsável (accountable) e eficiente. Mas nenhum Governo é responsável nem eficiente, se não se comunica. Se não se comunica os cidadãos, com suas instâncias internas, com suas bases sociais, partidárias e políticas, e com as outras instâncias de Poder.

Um governo deve deixar claro e comunicar, passo a passo, o diagnóstico que faz do País, que problemas enxerga. Deve construir soluções ouvindo e dialogando com aqueles afetados por tais problemas e construir com eles soluções que otimizem resultados ou mitiguem riscos. Deve comunicar como as soluções serão implementadas, em que tempo e a que custo. Deve comunicar como evoluem as ações para implementar tais soluções e o tempo até o próximo passo. Isso permite, por exemplo, que o cidadão entenda por que não tem SUS na sua cidade, mas também que melhoria chegará para a atenção à sua saúde e em que tempo.

Deixar o cidadão no escuro é trazer a escuridão para si.

Este Governo, se fez, faz ou faria, não comunicou. Ao não comunicar, permitiu que outra narrativa se estabelecesse: a da sua inércia, da sua inépcia, da sua ineficiência, da sua incompetência e da sua arrogância.

Hoje, essa narrativa norteia o entendimento de 71% da população e praticamente de todo o Congresso Nacional. A base governista, na prática – e nos sussurros de corredor – abandonou um Planalto que não cumpre acordos – e não se fala aqui de acordos escusos, mas de acordos em torno do que seja equilibrado ser feito naquele momento, consideradas todas as forças políticas, sociais e econômicas afetadas pela decisão acordada.

Não há governo que se sustente num quadro assim.

Tudo considerado, o que estamos vendo é o processo político de construção de um caminho de transição para um governo de serenamento e reorganização política e econômica.

Esperança é moeda fraca na política, e esta é mais uma opinião sem peso num mar revolto delas, mas custa pouco dizer que é hora de agir com grandeza; que o melhor cenário seria a chefe de Governo informar o Estado da Nação, fazer um balanço do que foi feito e do que está em curso, reconhecer que, embora siga firme em suas convicções do que seja melhor para o Brasil, ela não tem condições políticas de seguir conduzindo o País e assim abrir caminho para a formação de novo governo, sem sobressaltos.

Porém, o cenário mais provável é que, diante de uma plateia irritada com a demora e a postura dos jogadores, aquelas quatro peças pretas ainda precisem de alguns poucos lances para impor cheque-mate às duas últimas brancas, antes de se iniciar novo jogo político – sem que se vire o tabuleiro.

Caio Leonardo

A Duquesa e seu Tempo

Ser livre é, também, permitir-se construir compromissos – e, dada a natureza dos compromissos, respeitá-los. Ser livre a qualquer custo é ser oprimido não pelo outro, mas por uma ideia. Nós somos a geração mais infeliz da História – empatada, talvez, com a que viveu a peste na Europa – justamente porque, no curso do nosso Tempo, sobrevieram duas revoluções e duas contrarrevoluções: ‪#‎a‬ revolução sexual (que rompeu com a tradição e os modelos de relacionamento), #a contrarrevolução (involuntária) da AIDS (que trouxe o terror para a intimidade e a suspeição no trato com o corpo do Outro), #a revolução tecnológica (que dizimou todas as barreiras de espaço, de éthos e morais, abrindo as portas para a disseminação de todas as práticas e todos os jogos antes mantidos em segredo, tudo a tornar indesejável e impraticável a assunção de qualquer forma – porque não há mais formas – de compromisso a dois) e, por fim, #a contrarrevolução com discurso revolucionário, que é a bandeira dos homossexuais em defesa do casamento (uma busca pela forma como afirmação da identidade. De uma forma que é um compromisso, uma negação voluntária à liberdade no nível pessoal que é, ao mesmo tempo, um grito de liberdade no âmbito social, das instituições). Nesse contexto, a defesa que se lê pelas redes sociais da conduta de Camilla Parker-Bowles, duquesa da Cornualha, que traiu seu marido com o príncipe e agora trai o mesmo príncipe que se tornou seu marido, soa como um recuo aos anos 1960, quando ela era bela e jovem. É uma defesa que afirma uma libertação equivocada da mulher, porque alimentadora de um ethos que reproduz e marca a angústia do nosso tempo: a negação do compromisso. À falta de um modelo preestabelecido de relacionamento, já que todos foram negados nos mesmos 1960, o que resta hoje é a tensão entre, de um lado, a liberdade de cada um de fazer o que se quer, sem atenção ao Outro – e nisso reside, em grande parte, a infelicidade da nossa geração – e, de outro lado, a autonomia (o poder de ditar as próprias regras) de cada dois de arranjarem-se de comum acordo, definindo os limites da relação, permitindo, nessa combinação, que ambos se mantenham abertos a outros (desfrutar momentos na superfície do desejo e do encantamento), que ambos se mantenham fiéis (darem-se por encontrados um no outro, auto-suficientes diante da opressão da possibilidade de infinitas escolhas) ou que ambos se mantenham leais (manterem-se um ao outro como centro, mas permitindo-se abrir-se a prazeres fugazes). Qualquer desses compromissos podem ser desfeitos sem que seus termos sejam desprezados. Camilla não fez isso. Camila agiu como este subproduto da revolução sexual: a mônada (um ser que vive isolado do mundo) libertária que despreza o outro. Não há nada de grande no seu gesto. O discurso que a defende baseado em que ela confrontou as regras da Corte e impôs-se a um meio castrador não resiste ao fato de que ela se beneficiou dessa Corte, desejou essa Corte, confrontou regras (ao ser amante do príncipe) para viver nessa Corte e agora, ao sair dela, quer 350 milhões de libras como compensação. Não há nada de novo no arrivismo da duquesa. Nem há em sua conduta um norte de libertação feminina. É apenas mais uma alma pequena no grand monde, que definitivamente não aponta uma saída, muito menos um modelo, para esta geração. Caio Leonardo

Um Caminho para o Brasil

Hoje é 9 de março de 2015, e o Governo perdeu o contato com os cidadãos, com o Parlamento e não consegue apresentar uma narrativa consistente sobre a realidade que estamos vivendo no Brasil.

Essa narrativa não tem como ser construída numa Torre de Marfim. É preciso que o Governo faça sua autocrítica e dialogue com seus críticos. Mais do que isso: é preciso que o Governo dialogue na construção de cenários e de soluções com aqueles que serão impactados, positiva ou negativamente, pelas medidas que serão tomadas.

O Governo precisa voltar a se comunicar com os cidadãos, com trabalhadores, com empresários e com o Parlamento.

Faltam pontes – pontes políticas. O Governo precisa ir ao Parlamento ANTES de tomar medidas – e ouvi-lo; precisa ir ao setor privado, com transparência – e ouvi-lo; precisa ouvir as divergentes vozes que falam pelos trabalhadores. Uma vez construída uma solução, o Governo precisa explicar as medidas aos cidadãos, explicar onde estamos e para onde se está querendo ir.

É preciso que o Governo faça uma autocrítica em público e de público. Que assuma ter andado mal aqui e ali, e que pretende consertar com isto e aquilo – ouvindo a todos os implicados.

O Brasil precisa de uma narrativa que o explique. E de líderes que construam uma narrativa que faça sentido para todos. Não se trata de criar consenso ou pensamento único, mas sim de todos concordarem que o vestido é azul e preto, ou branco e dourado, dependendo da luz. Hoje, ninguém concorda sequer que se trata de um vestido. É preciso deixar claro, enfim, qual é a situação atual da economia e das contas públicas. É preciso deixar claro aonde se quer levar o País. No que vamos investir. No que será preciso cortar investimentos – e por quê.

O Brasil só sairá desta crise com Comunicação e Pontes, feitas a partir de Autocrítica e por meio de Diálogo e Construção Conjunta de Soluções.

O isolamento atual do Palácio do Planalto só tem efeitos deletérios sobre tudo o que se construiu – e foi muito o que construímos! – desde 1988.