Pardon, Simone

simonedebeauvoir505_112912031304_0 Pourquois moi?

O ENEM de 2015 demonstra que o analfabetismo funcional não atinge apenas os estudantes, mas a Nação inteira.

É constrangedor ver a quantidade de gente que não consegue interpretar um texto.

Um povo que não consegue distinguir “sentido denotativo” de “sentido conotativo” num texto é um povo funcionalmente analfabeto.

E povo, aqui, não é usado no sentido conotativo de “gente pobre”, “gente humilde”; povo, aqui, é usado no sentido denotativo de “conjunto de pessoas ligadas por laços territoriais, culturais ou religiosos”.

Ou seja, o povo brasileiro, nós todos, somos incapazes de discutir um texto a partir do sentido que esse texto tenha ou possa ter.

É constrangedor ver a quantidade de gente que acredita que, na citação feita a obra sua no ENEM, Simone de Beauvoir renegava a genitália como elemento de distinção entre homem e mulher.

É constrangedor ver que o texto de Simone de Beauvoir foi interpretado como se referido ao debate sobre homossexualidade.

Como hoje é sábado e segunda é feriado, lá vai:

Antes de tudo: pronuncia-se “Bovoárr”.

Agora, ao texto.

Beauvoir não fala ali de homossexualidade.

Beauvoir não fala ali que a sexualidade é algo que se escolhe ou que, ao contrário, é algo que não se escolhe.

Beauvoir não fala ali que ninguém nasce com o sexo ou a sexualidade definido ou indefinido.

Beauvoir não fala ali de opção sexual.

Beauvoir ali está falando disto e só disto: do papel social imposto à mulher.

Quando Beauvoir diz que “ninguém nasce mulher”, ela quer dizer que ninguém nasce sendo o que a sociedade espera que seja o papel de uma mulher:

*ninguém nasce submisso;
*ninguém nasce para cuidar da casa;
*ninguém nasce para casar, ter filhos e dedicar-se exclusivamente a isso;
*ninguém nasce para ganhar menos do que os outros só por ser homem ou só por ser mulher.

Ao dizer que “ninguém nasce mulher”, Beauvoir está afirmando que de ninguém se pode exigir desde o nascimento que faça isto ou aquilo, assim ou assado, apenas por ter nascido com este ou aquele sexo.

Ela quer dizer que uma mulher tem a liberdade de decidir:

*se quer ou não se casar,
*se quer ou não ter filhos, se quer ou não ter uma casa,
*se quer ou não cuidar dessa casa ou de qualquer outra casa,
*se quer ou não estudar, trabalhar, ir pelo mundo afora,
*se quer aprender a cozinhar,
*se quer cozinhar em casa ou num grande restaurante – ou até mesmo num pequeno restaurante, ou
* se prefere assistir TV comendo pipoca de pantufas num sábado de carnaval.

O debate que cabe aqui, portanto, é sobre o valor que a nossa sociedade dá ou pretende dar à ideia de que cabe ao homem e à mulher papéis na sociedade que são específicos e determinados de antemão.

Querem debater sobre o que Beauvoir realmente quis dizer?

Caio Leonardo

31 de outubro de 2015

A Hora do Brasil

O País enfrenta uma crise política grave o bastante para o Parlamento aceitar sacrificar a economia para não se alinhar com o Governo.

O País está sacudido, há muita poeira levantada, muito barulho, muita tensão. É hora de deixar de lado interesses e enxergar o quadro político como ele é.

Agora, importa apenas o movimento das grandes peças. E elas ficaram resumidas a poucas: Temer, Renan, Cunha, cada vez menos Lula. O único movimento relevante de Dilma seria o de sua saída voluntária, numa demonstração de espírito público e compromisso com a democracia – no sentido de não dar azo a uma alternativa de exceção. Nenhum outro partido ou grupo político pode, hoje, interferir decisivamente no deslinde desta crise, senão através do alinhamento com o PMDB.

O País está, de novo, nas mãos do PMDB, como sempre que é preciso manter a estabilidade institucional.

Esta crise deixa claro que eleição é o caminho para o Poder, mas o Poder não é legitimado exclusivamente pelo voto. Lição dolorosa e tardia. É preciso introjetar na consciência política brasileira que, além de pelo voto, a legitimação de um Governo se dá pelo ser responsável (accountable) e eficiente. Mas nenhum Governo é responsável nem eficiente, se não se comunica. Se não se comunica os cidadãos, com suas instâncias internas, com suas bases sociais, partidárias e políticas, e com as outras instâncias de Poder.

Um governo deve deixar claro e comunicar, passo a passo, o diagnóstico que faz do País, que problemas enxerga. Deve construir soluções ouvindo e dialogando com aqueles afetados por tais problemas e construir com eles soluções que otimizem resultados ou mitiguem riscos. Deve comunicar como as soluções serão implementadas, em que tempo e a que custo. Deve comunicar como evoluem as ações para implementar tais soluções e o tempo até o próximo passo. Isso permite, por exemplo, que o cidadão entenda por que não tem SUS na sua cidade, mas também que melhoria chegará para a atenção à sua saúde e em que tempo.

Deixar o cidadão no escuro é trazer a escuridão para si.

Este Governo, se fez, faz ou faria, não comunicou. Ao não comunicar, permitiu que outra narrativa se estabelecesse: a da sua inércia, da sua inépcia, da sua ineficiência, da sua incompetência e da sua arrogância.

Hoje, essa narrativa norteia o entendimento de 71% da população e praticamente de todo o Congresso Nacional. A base governista, na prática – e nos sussurros de corredor – abandonou um Planalto que não cumpre acordos – e não se fala aqui de acordos escusos, mas de acordos em torno do que seja equilibrado ser feito naquele momento, consideradas todas as forças políticas, sociais e econômicas afetadas pela decisão acordada.

Não há governo que se sustente num quadro assim.

Tudo considerado, o que estamos vendo é o processo político de construção de um caminho de transição para um governo de serenamento e reorganização política e econômica.

Esperança é moeda fraca na política, e esta é mais uma opinião sem peso num mar revolto delas, mas custa pouco dizer que é hora de agir com grandeza; que o melhor cenário seria a chefe de Governo informar o Estado da Nação, fazer um balanço do que foi feito e do que está em curso, reconhecer que, embora siga firme em suas convicções do que seja melhor para o Brasil, ela não tem condições políticas de seguir conduzindo o País e assim abrir caminho para a formação de novo governo, sem sobressaltos.

Porém, o cenário mais provável é que, diante de uma plateia irritada com a demora e a postura dos jogadores, aquelas quatro peças pretas ainda precisem de alguns poucos lances para impor cheque-mate às duas últimas brancas, antes de se iniciar novo jogo político – sem que se vire o tabuleiro.

Caio Leonardo

A Duquesa e seu Tempo

Ser livre é, também, permitir-se construir compromissos – e, dada a natureza dos compromissos, respeitá-los. Ser livre a qualquer custo é ser oprimido não pelo outro, mas por uma ideia. Nós somos a geração mais infeliz da História – empatada, talvez, com a que viveu a peste na Europa – justamente porque, no curso do nosso Tempo, sobrevieram duas revoluções e duas contrarrevoluções: ‪#‎a‬ revolução sexual (que rompeu com a tradição e os modelos de relacionamento), #a contrarrevolução (involuntária) da AIDS (que trouxe o terror para a intimidade e a suspeição no trato com o corpo do Outro), #a revolução tecnológica (que dizimou todas as barreiras de espaço, de éthos e morais, abrindo as portas para a disseminação de todas as práticas e todos os jogos antes mantidos em segredo, tudo a tornar indesejável e impraticável a assunção de qualquer forma – porque não há mais formas – de compromisso a dois) e, por fim, #a contrarrevolução com discurso revolucionário, que é a bandeira dos homossexuais em defesa do casamento (uma busca pela forma como afirmação da identidade. De uma forma que é um compromisso, uma negação voluntária à liberdade no nível pessoal que é, ao mesmo tempo, um grito de liberdade no âmbito social, das instituições). Nesse contexto, a defesa que se lê pelas redes sociais da conduta de Camilla Parker-Bowles, duquesa da Cornualha, que traiu seu marido com o príncipe e agora trai o mesmo príncipe que se tornou seu marido, soa como um recuo aos anos 1960, quando ela era bela e jovem. É uma defesa que afirma uma libertação equivocada da mulher, porque alimentadora de um ethos que reproduz e marca a angústia do nosso tempo: a negação do compromisso. À falta de um modelo preestabelecido de relacionamento, já que todos foram negados nos mesmos 1960, o que resta hoje é a tensão entre, de um lado, a liberdade de cada um de fazer o que se quer, sem atenção ao Outro – e nisso reside, em grande parte, a infelicidade da nossa geração – e, de outro lado, a autonomia (o poder de ditar as próprias regras) de cada dois de arranjarem-se de comum acordo, definindo os limites da relação, permitindo, nessa combinação, que ambos se mantenham abertos a outros (desfrutar momentos na superfície do desejo e do encantamento), que ambos se mantenham fiéis (darem-se por encontrados um no outro, auto-suficientes diante da opressão da possibilidade de infinitas escolhas) ou que ambos se mantenham leais (manterem-se um ao outro como centro, mas permitindo-se abrir-se a prazeres fugazes). Qualquer desses compromissos podem ser desfeitos sem que seus termos sejam desprezados. Camilla não fez isso. Camila agiu como este subproduto da revolução sexual: a mônada (um ser que vive isolado do mundo) libertária que despreza o outro. Não há nada de grande no seu gesto. O discurso que a defende baseado em que ela confrontou as regras da Corte e impôs-se a um meio castrador não resiste ao fato de que ela se beneficiou dessa Corte, desejou essa Corte, confrontou regras (ao ser amante do príncipe) para viver nessa Corte e agora, ao sair dela, quer 350 milhões de libras como compensação. Não há nada de novo no arrivismo da duquesa. Nem há em sua conduta um norte de libertação feminina. É apenas mais uma alma pequena no grand monde, que definitivamente não aponta uma saída, muito menos um modelo, para esta geração. Caio Leonardo

Um Caminho para o Brasil

Hoje é 9 de março de 2015, e o Governo perdeu o contato com os cidadãos, com o Parlamento e não consegue apresentar uma narrativa consistente sobre a realidade que estamos vivendo no Brasil.

Essa narrativa não tem como ser construída numa Torre de Marfim. É preciso que o Governo faça sua autocrítica e dialogue com seus críticos. Mais do que isso: é preciso que o Governo dialogue na construção de cenários e de soluções com aqueles que serão impactados, positiva ou negativamente, pelas medidas que serão tomadas.

O Governo precisa voltar a se comunicar com os cidadãos, com trabalhadores, com empresários e com o Parlamento.

Faltam pontes – pontes políticas. O Governo precisa ir ao Parlamento ANTES de tomar medidas – e ouvi-lo; precisa ir ao setor privado, com transparência – e ouvi-lo; precisa ouvir as divergentes vozes que falam pelos trabalhadores. Uma vez construída uma solução, o Governo precisa explicar as medidas aos cidadãos, explicar onde estamos e para onde se está querendo ir.

É preciso que o Governo faça uma autocrítica em público e de público. Que assuma ter andado mal aqui e ali, e que pretende consertar com isto e aquilo – ouvindo a todos os implicados.

O Brasil precisa de uma narrativa que o explique. E de líderes que construam uma narrativa que faça sentido para todos. Não se trata de criar consenso ou pensamento único, mas sim de todos concordarem que o vestido é azul e preto, ou branco e dourado, dependendo da luz. Hoje, ninguém concorda sequer que se trata de um vestido. É preciso deixar claro, enfim, qual é a situação atual da economia e das contas públicas. É preciso deixar claro aonde se quer levar o País. No que vamos investir. No que será preciso cortar investimentos – e por quê.

O Brasil só sairá desta crise com Comunicação e Pontes, feitas a partir de Autocrítica e por meio de Diálogo e Construção Conjunta de Soluções.

O isolamento atual do Palácio do Planalto só tem efeitos deletérios sobre tudo o que se construiu – e foi muito o que construímos! – desde 1988.

Sobre Panelas, Janelas, Ruas e Caminhos

As panelas e os gritos são legítimas expressões de uma visão do quadro geral brasileiro. Não é a única, nem a majoritária, mas é legítima. Ninguém pode ser obrigado a concordar com qualquer governo.

As panelas e os gritos não são as únicas expressões legítimas de visão do quadro geral brasileiro. Há outras, majoritárias ou não, igualmente legítimas.
Ninguém pode ser obrigado a concordar com quem faz barulho, apenas por que o fazem.

A única expressão ilegítima é aquela que prega solução não institucional para uma crise (séria) de governabilidade.

O Governo Dilma não conseguiu formar maioria no Parlamento. Isto é grave. Se estivéssemos em regime parlamentarista, novas eleições estariam sendo convocadas pelo Chefe do Estado. Mas nosso regime é presidencialista. Nele, o mandato do Chefe de Estado e de Governo, ambos encarnados na mesma pessoa do Presidente da República, não pode ser encurtado, a não ser por licença (um encurtamento branco), renúncia, impugnação de mandato, impeachment ou falecimento.

A saúde da nossa presidente vai bem – e não há nada que a convença a passar quatro anos sabáticos na Universidade de Pequim -, então licença, por ora, está descartada. E seu falecimento, também, mas a vida é frágil. A vida sob pressão, fragilíssima.

Renúncia está descartada. Ela mesma disse que não renuncia, nem se mata – não teremos um segundo Getúlio. No entanto, se Dilma renunciasse, assumiria Michel Temer até 31.12.2018.

A ação de impugnação de mandato só poderia ter sido movida até 15 dias da diplomação. Estamos a meses dela. Precluiu. Mas dependeria de prova de abuso de poder econômico, corrupção ou fraude. Se tivesse sido movida e a ela dado provimento, Dilma e Temer cairiam, e teriam lugar novas eleições – das quais, é sempre bom lembrar, Lula poderia participar como candidato.

Não há base para impeachment: crime comissivo previsto na Lei de Crimes de Responsabilidade (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l1079.htm). Não há impeachment por incompetência, inépcia, imperícia ou omissão (no Parlamentarismo, na prática, há). A CPI da Petrobras tem o firme intento de encontrar ligação da presidente com algum crime. Se um crime vier a ser imputável a ela, poderemos assistir a um processo de impeachment.

Na hipótese ainda remota de impeachment, é bom esclarecer que quem assume, de novo, é Michel Temer.

Toda alternativa fora das hipóteses acima implica ruptura da ordem constitutional. É golpe. Não há legitimidade em golpe dado numa democracia – e vivemos numa, com as instituições funcionando tanto que vemos escândalos todo dia, escândalos dos quais nada se saberia, se não estivéssemos, bem, numa democracia, com as instituições funcionando. É assim o círculo virtuoso de uma República onde o Estado de Direito funciona.

Gente graúda está na cadeia. Gente graúda está sendo investigada. Sem democracia, nada disso estaria acontecendo – e nada disso aconteceu antes de alcançarmos o atual estágio de maturidade das instituições, um estágio que se perderia com a regressão a um regime sustentado por um golpe.

Não, não existe “intervenção militar constitucional”. O art. 142 da Constituição Federal autoriza o Presidente da República, o Presidente do Congresso, o Presidente da Câmara, o Presidente do Senado ou o Presidente do Supremo Tribunal Federal a solicitar ação das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem. Alguém aí quer Dilma, Eduardo Cunha, Renan Calheiros ou Lewandowski chamando o Exército para impor a lei e a ordem? Para, por exemplo, impedir manifestações?

Os líderes políticos brasileiros estão sob sério questionamento. E não estão respondendo à altura do momento histórico. Alguém precisa pensar saídas institucionais com grandeza e firmeza de propósito.

E esse alguém é Você e sou eu e somos todos nós. Não dá para delegar, nem para agir como manada, como uma maria-vai-com-as-outras num tema tão sensível como o do futuro deste País, que está, sim, sob risco.

Hora de sermos responsáveis e de nos colocarmos à altura do que a História exige de nós. E esse “nós” somos, repito, Você e eu e todos e cada um dos que vivem neste e deste País

Imagem e Ação Política na Rede – Um breve diálogo com Ana Maria Bierrenbach

No Facebook.

 Ana Maria Bierrenbach: Outro dia eu postei imagens (que depois soube que eram falsas) de uma situação de violência contra um bebê, supostamente perpetrada por um membro do ISIS. Mas mudei de ideia e deletei o post em seguida, mantendo, porém, o comentário. Deletei a imagem porque me pareceu que, ao compartilhá-la, estaria reproduzindo, eu mesma, de alguma forma, aquele horror, e indo ao encontro dos interesses desses bárbaros. Há poucos dias, um amigo, Caio Leonardo, fez um apelo a que parássemos de reproduzir as imagens da destruição do patrimônio histórico e artistico no museu de Mosul, basicamente pela mesma razão: seria esse, precisamente, o interesse desses criminosos. Enfim, eu estava com essa questão na cabeça quando hoje me deparei com este artigo do Le Monde: http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/02/26/regarder-l-horreur-en-face_4584183_3232.html

A reflexão fundamental é a seguinte: será que o holocausto teria ocorrido se, naquela época, as pessoas tivessem tido acesso àquelas imagens? Será que a situação atual, de imagens encenadas com o objetivo de atrair e não de repelir, é comparável?

Caio Leonardo: Há uma diferença crucial entre, de um lado, a vítima divulgar a atrocidade – e esse seria o caso de um Dachau que ganhasse a Rede – e, de outro, o perpetrador da atrocidade espetacularizá-la. A primeira tem poder libertador. A segunda é a consumação de uma das pequenas vitórias que, no caso do ISIS, alimentam a sedução de novos adeptos pela via da viralização. Pessoas querem se ver no centro do espetáculo da aldeia global – para recuperar uma expressão quase abandonada. Do jeito que for: com seu gato, com seu filho, caindo de skate, cortando pescoços ou destruindo a História. Divulgar imagens dessa segunda natureza é alimentar um monstro caricato, narcísico e sem limites na sua sanha de épater l’Occident. E cada nova monstruosidade pedirá outra maior para superar a anterior em impacto.

 

Ana Maria Bierrenbach: Mas nós, que não somos (pelo menos por enquanto), vítimas diretas, e nem perpetradores, ficamos de espectadores passivos?

Caio Leonardo: Quem pode fazer alguma coisa tem informação e meios – e esses são os Estados-Nações envolvidos ou interessados no conflito. Ao reproduzirmos essas imagens, nos alinhamos com o projeto de um ISIS, nossa crítica ingênua constitui massa de manobra. Podemos e devemos discutir aquilo a que temos acesso, mas sem reproduzir imagens do interesse de entes que são inimigos da civilização que nos envolve e que cabe a nós consertar e defender.

Mais: nós somos vítimas, sim, porque aquelas peças são nossa História, como Humanidade, e aqueles reféns mortos são nossa imagem e semelhança de Ocidentais: é a nós que querem atingir.

Luzes, Trevas e 25 de Dezembro

Persas e hindus celebravam em nome de Mitra a vitória do sol sobre as trevas, no solstício de inverno, o dia mais curto do ano, 21 de dezembro no hemisfério norte. Essa é a mesma data em que os celtas celebram o Sol Criança, e crêem ter sido a data de nascimento do rei Arthur, no castelo de Tintagel, daí a celebração de Alban Arthuan (“a luz de Arthur”), uma das quatro “luzes” (Albans) em que se divide o ano celta.

Com Aureliano, os romanos passaram a celebrar o Deus Sol Invictus, inspirados no mitraísmo, pela mesma razão solar, porém em 25 de dezembro. Constantino, o imperador que tornou o cristianismo a religião do Império Romano, antes disso cunhava suas moedas com a efígie do jovem e imberbe Sol Invictus. Há quem sustente que vem daí os cristãos celebrarem o nascimento do deus feito homem em 25 de dezembro. Em 25 de Kislev (não exatamente dezembro, mas esses meses não raro se sobrepõem) os judeus celebram o milagre do óleo, que queimou miraculosamente não por um, mas por oito dias na menorah do Templo após a sua liberação por Judas Macabeus.

As festas em torno do solstício inspiraram o Natal; e o Natal norte-americano tem em alguma dose influenciado, desde o advento do Sionismo, a festa do Hannukah, com crianças recebendo presentes, em vez da tradicional gelt, ao cabo do oitavo dia de celebração, entre queijos e vinhos, em homenagem ao triunfo de Judite sobre Holofernes.

Seja pela religação com os astros, seja pela religação com seu deus, seja pela religação com seus ancestrais, seja até mesmo só por haver motivos alheios para festa: celebremos, cada um a seu modo, esta época do ano – porque todo rito de passagem serve a dar sentido à vida.

Feliz Natal. Gmar chatimah tovah. Que a luz vença as trevas.

caio leonardo bessa rodrigues
em 23 de dezembro de 2008

Bright-White Powder My Wig, Mr. Turner

Esta é uma boa noite para Turner, suas tempestades, seus mares em ressaca, seus naufrágios. Talvez mitigue o excesso de calor e a escassez d’água.

Este é “Norham Castle at Sunrise”, William Mallord Turner foi o homem que o pintou, entre 1835 e 1840. A primeira vez que vi um Turner foi em 1995, na Tate Gallery, em Londres, e foram logo vários, havia uma ala inteira dedicada a ele – mas não entendi por quê. Achei-o insosso, indefinido, apático: inglês. Não gosto do amarelo tanto quanto Turner gosta; e gosto menos ainda de suas associações com o vermelho, tão usuais nos óleos de Turner.

Porém, insosso e indefinido era, constatei depois, o meu olhar ainda romântico, ainda não preparado para um pintor que foi impressionista quarenta anos antes de Monet. De 1829 a 1837, os óleos de Turner mudaram cada vez mais profundamente na direção de representarem efeitos de luz, em detrimento dos aspectos figurativos do que fosse o objeto de sua pintura. Foi essa mudança, essa nova fase, que fez dele um precursor do impressionismo…

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Os Homens que Queriam Ser Reis

 

Rudyard Kipling narra a estória de dois aventureiros britânicos que planejaram tornar-se reis do Kafiristão, um canto do Afeganistão, munidos de filosofia maçônica e vinte rifles Martini-Henry. Aquilo de os dois não temerem os deuses locais impressionou,  angariaram uma legião de apoiadores. Um deles assumiu o trono. Ofereceram uma jovem em casamento. Ele gostou; ela, não muito: ficou aterrorizada com a ideia de dormir com um deus e, diante de todos, recebeu a tentativa de beijo com uma mordida. O rei-deus sangrou. Foi quando os sacerdotes ao lado gritaram: “Ele sangra! Não é Deus nem Diabo, mas só um homem!”.

Numa Copa já famosa por uma mordida, ontem foi o dia de ver sangrarem aqueles a quem é imposta a condição de deuses. A seleção brasileira expôs para além de qualquer dúvida sua condição humana. Perdeu e perdeu de goleada. E, ao perder de goleada, finalmente se liberta, e da pior maneira, da maldição da Mística da Canarinho, essa que impôs durante décadas a obrigação unicamente brasileira de ganhar, ganhar sempre, ganhar bem e a jogar bonito. Nenhum outro País no mundo exige qualquer coisa parecida com isso de sua camisa. Até a lei, que é a lei, proíbe a exigência de obrigação impossível.

Pois o Brasil sangrou. O Brasil mostrou sua humanidade. “Não sois máquinas, homens é que sois”, grita o lugar-comum inevitável. E o sangue vertido era vermelho, não um óleo lubrificante.

O placar de 8 de julho é, sim, libertador. Confere liberdade para aqueles a quem a carreira alça ao maior dos infernos esportivos – um inferno que há de ter tido seu fim na tarde de ontem no Mineirão, o inferno de ser escalado para envergar a camisa sagradamente maldita da seleção brasileira.

Sagrada e maldita. Sagrada, porque venerada. Venerada por devotos cruéis, que não pedem a seus deuses, mas deles exigem o cumprimento da promessa da vitória e não uma vitória qualquer, mas a vitória com espetáculo. Sagrada e maldita. Maldita, porque aquele que a vestir não pode errar. Se errar, será execrado em praça pública. Barbosa, Zico, Julio César, Felipe Melo.

O placar de 8 de julho é libertador, porque não há como apontar culpado. É um placar maior do que qualquer falha individual, maior do que qualquer esquema tático. Um placar construído, vejam só, por um time superior ao do Brasil. Sim, eles existem! E tampouco eles são deuses. Mas é preciso também dizer que foi um placar construído pelo terror pânico que tomou os deuses ensanguentados ao se virem homens e saberem que suas vidas, a partir daquele momento, seriam infernos para si e suas famílias até o fim de seus dias. Barbosa.

Os 7 gols de 8 de julho libertaram Barbosa. Mas há de libertar também todo e qualquer que tenha usado ou que venha a usar a camisa da seleção brasileira. A Mística da Canarinho foi quem sangrou. Porque a Mística da Canarinho, como toda mística, não passa de crendice. E, nesse caso, de uma crença cruel.

A camisa da seleção brasileira tem história e ontem mais um capítulo foi inscrito nela. O capítulo em que foi deixado claro a todo o Mundo e, em especial, aos brasileiros, que ninguém é infalível e de ninguém pode ser exigido infalibilidade. Sim, lembrem-se de Francisco, o papa: Ele renegou a única infalibilidade vigente.

No conto de Kipling, o homem que queria ser rei, em fuga, despenca de uma ponte de corda que é rompida a golpes de espada pelo povo irado do Kafiristão. O narrador é convencido da estória contada pelo aventureiro que sobreviveu, no que este retira de dentro de um saco imundo uma cabeça ainda coroada, porém decepada.

O Brasil não é o Kafiristão. Tem em comum com ele ser uma terra de crenças equivocadas, é verdade. Mas que 8 de julho de 2014 seja a data da libertação do brasileiro desse torpor coletivo em torno de uma Mística que se desfez diante de um adversário maior. O Brasil sangrou. Viva o Brasil.

Caio Leonardo

Concerto ao Ar Livre

 

 

Eu gosto de trompete e a culpa é de Telemann. Acho que foi no salão nobre da São Francisco, pompa, academia e veludo, num dos concertos que a TV Cultura gravava ali, que topei com esse nome pela primeira vez. Achei divertido, meio tecnológico, meio heróico, coisa de ouvido de criança educado por Hannah Barbera e Marvel Comics. Telemann em vida foi mais famoso que seus amigos Bach e Haendel, o que não é pouca coisa. Quem conhece sua obra vai achar estranho eu gostar de trompete por causa dele, que compôs de tudo, e, no meio de tudo, alguma coisa para trompete. Mas foi essa alguma coisa que acabei achando na Musical Box. 

A Musical Box, que não existe mais, ficava na praça Villaboim, assim como eu. Eu sempre ficava lá nos fins de semana. A praça era um pedaço de Paris em São Paulo, uma Saint Germain des Prés tomado de judeus e descolados. A praça no centro era um pequeno jardim em que crianças e mães e babás brincavam e cuidavam, espalhadas pelos bancos que surgiam aqui e ali, nos caminhos sinuosos demarcados por canteiros de poucas flores em chão de terra batida. Árvores pequenas se equilibravam nos canteiros, um pouco intimidadas por aquela que tomava a cena, de tronco largo e que subia alta, com galhos que irradiavam por todo a praça lá embaixo, oferecendo sombra e lentidão a uma São Paulo que parava debaixo dela para respirar e dar bom dia ao vizinho da rua Rio de Janeiro ou Pernambuco. Essa árvore recobria a banca de revistas que ficava, e fica, em frente ao sinal de trânsito e a faixa de pedestres, que levava até mim, figura incrustada nalguma mesa do Caffè Romano, taça de vinho tinto esquecida sobre a mesa e quase sempre o cappelini ao molho branco que vinha com um toque um tanto snob de salmão e caviar. Vinho é ainda hoje um gosto por adquirir; mas permanece o hábito de sempre pedir o mesmo prato nos mesmos lugares. 

Devo à praça Villaboim parte da educação dos meus sentidos, aquela que depende de um contato com o andar de cima. Ali na Musical Box, uma “loja de discos” comum, não fosse a qualidade do que vendia, encontrei de tudo que me ensinou a ouvir o que já havia lido ser bom, mas não sabia por quê. Charlie Parker, Dinah Washington, mais óbvias; coisas escondidas que descobri ali mesmo, como Eleni Karaindrou e sua trilha para Ulysses’ Gaze, um bálsamo; coisas tétricas como Gorécki e seu lamento para o holocausto (mamo, nie placz…); coisas mundanas como Pet Shop Boys; líricas e momentosas como The Smiths – estou falando da década de 1990, eu sempre atrasado dez anos em tudo. The Smiths me ensinou a encontrar poesia no universo homossexual, passo que foi tão difícil para mim como encontrar poesia no som da língua espanhola. Educação dos sentidos e para o Outro.

O sentido do gosto foi apurado no Caffè Romano, que também não existe mais. Ali, aprendi, por exemplo, o gosto de cada licor, um por um trazidos a mim na garrafa, para ler o rótulo e aprender sobre ele, almoço após almoço. As garrafas vinham das prateleiras em vidro e espelhos e cores, tudo emoldurado de alguma forma que a coisa resplandecia em dourado, especialmente com a luz do meio da tarde iridescendo tudo que havia atrás do balcão, ele mesmo no entanto sóbrio e revestido de couro marrom escuro em capitonê.

Maraska, se querem saber. Maraska se tornou o meu preferido entre os licores. E quando veio a guerra dos Bálcãs, morri de medo que, entre tanta desgraça, Zadar tivesse sido destruída, e então Maraska nunca mais. Foi só em Brasília, quase uma década depois, que um casal de diplomatas, ela linda como aquela gente de Hrvatska nasce para ser, me presenteou com uma garrafa de Maraska, que portanto ainda existe, e está aqui do meu lado para provar, nos dois sentidos:

Original
MARASCHINO 
LIKER OD ORIGINALNOG DESTILATA VISJNE MARASKE

 

Na entressafra, fiquei com Drambuie, que aprendi a beber com gelo picado em vaso corto noutro café, em frente ao palácio real de Madrid em obras, enquanto a doce e sorridente Louise passeava por ali em volta, investigando maravilhas, 1997. 

Eu preferia a mesa que ficava ao lado da parede de vidro, de ponta a ponta da entrada do Caffè, de onde podia ver a vida passar, as jovens senhoras e seus cachorrinhos, as lições de elegância no gesto e no trato que aquela gente me deu. Sônia Gonçalves, a grande dama do mundo da moda, num certo domingo de sol, ela toda de branco trazendo flores do campo nos braços, Sônia sempre com flores, reclamava que estavam todos de preto num dia lindo como aquele. Era 16 de agosto de 1992, e o Brasil pedia o impeachment de Collor.

Não, não aprendi nada na praça Villaboim sobre vinhos. Isso foi com o Roberto Smeraldi, que também foi quem me ensinou o que é e me ofereceu bottarga, o que basta para eu dever eterna gratidão a ele, se não a devesse por tanto mais. A praça Villaboim me abriu os ouvidos e apurou meu gosto, corrigiu meus gestos e minhas roupas, baixou o tom da minha voz e me ensinou a olhar como quem sabe. Fernando Moraes, o escritor; Maurício Machado, o último dândi; um dia, Paulo Freire; um dia, Milton Santos; muitas vezes, Fernando Henrique Cardoso e Ruth; uma vez, Patrícia Pillar ainda solteira e sozinha na mesa ao lado; várias vezes, a torcida do Corínthians descendo em direção ao Pacaembu, ou de lá voltando; e quando eu corria até lá no meio da semana para o almoço, podia ver as estudantes da FAAP, que davam a sincera e precisa impressão de que aquela faculdade só admitia meninas, e meninas lindas, charmosas, bem vestidas e de tanto bom gosto, que nunca me davam bola. Que tipo de prova era um vestibular da FAAP?

Na praça eu lia Cortázar e a coisa toda saía de prumo, com aquele estranhamento que Julio conferia a tudo e a todos. Para lá eu seguia depois de achar alguma coisa nova na livraria Cultura, ou na Duas Cidades, que também não existe mais, porém ficava mais para o centro, na Bento de Freitas. Eu sempre com livros no colo na Villaboim, como sempre em todo lugar. Eduquei os olhos atulhados de esquerdismo, a doença blablablá do comunismo, para aprender a mesclar o olhar crítico a esse mundo outro da burguesia paulistana, sua sofisticação cosmopolita, seus mundos de sons, saberes, sabores. Quanto tateei por ali, em tantos sentidos…

Eu chegava sozinho, almoçava no Caffè, depois ia para o Nabuco, que, claro, não existe mais. Pegava uma mesa na calçada, e começava a festa. Não precisava marcar nada com ninguém. As pessoas simplesmente vinham e a mesa ia crescendo. Várias vezes passei mais de onze horas num mesmo dia ali na praça, as mesas sendo juntadas depois separadas, conforme o povo ia a vinha. Assim era que, às dezenas, pessoas cultas, divertidas e, a partir de algum momento, irremediavelmente borrachas enchiam de novas referências e novos prazeres meus ouvidos e olhos atentos ou embriagados, quando eu mesmo não oferecia meu tato e minha boca embriagados a alguma moça incauta, todo mundo sabe que São Paulo é um perigo.

Com o rumo que me dei, perdi a praça. Na Villaboim, eu hoje não existo mais. Em Brasília não tem praça, não tem charme, não tem elegância, não tem jovens senhoras passeando com seus cachorrinhos do lado de lá da porta de vidro. A falta que faz essa coisa “cidade”, que Brasília não tem. Olho agora pela janela, vejo o horizonte, os ciprestes, os pinheiros e os abetos que me separam do palácio da Alvorada e do lago Norte. Uma visão plácida, com este céu de tirar o fôlego com sua imensidão. Mas não vejo uma alma, a não ser aqueles dois na lancha pequena que passa agora. Deve ser o Claudinho.

 
 
caio leonardo
 
*texto publicado em 16 de maio de 2009, em 6loggers.com, projeto de escrevinhação coletivo hoje merecidamente extinto  por falta de leitores e de escritores