Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker

Aqui, um complemento ao comentário sobre a lista dos Melhores Livros de 2012.

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker.

No liame acima, Você encontrará a crítica de James Wood a Hilary Mantel, publicada pela New Yorker. Wood demonstra o porquê de Mantel merecer a atenção que tem tido:

“As a novelist, Mantel has the maddeningly unteachable gift of being interesting.”

Baci,

Caio Leonardo

Rosa, a mais bela flor do Lácio

Guimarães Rosa é o maior escritor de todos os tempos. Eis aí um jeito antipático de começar uma conversa.

Falava-se espanhol com diferentes procedências e qualidades em mais uma mesa composta pelo Ministro Conselheiro Devoto. Era improvável que todos estivessem se entendendo, então aproveitei para fazer umas afirmações vindas daquilo que brotava da terceira taça de vinho depois do espumante de boas-vindas. Vinho acaba rápido com meu discernimento.

rosa com vaqueiros

Naquela noite, éramos bolivianos, canadenses, venezuelanos, argentinos e brasileiros, todos ingredientes do jantar comandado pelo mais célebre Ministro Conselheiro que a terra de Borges y Bioy-Casares já produziu. Fomos todos imersos na casa de pouca luz,  lugar onde sempre me sentia num dos jantares aéreos de Santos Dumont,  servidos lá em cima, no alto do quinto lance de escadas escherianas por suas diagonais vertiginosas, marca da arquitetura da mansão escondida em meio às florestas do Lago Sul, erguida em madeira de lei, ornada de vidro, verde e pássaros da noite.

O espanto, porque é de espanto que se trata, o espanto com a obra de Rosa foi o que, por algum efeito colateral, quis passar à majestática Sra. Paz-Estenssoro, ao terrível Ivan Godoy e à monumental Gabriela Rosso, os ouvidos mais próximos.

Rosa é único, este foi o ponto de partida. Ele inventou uma língua, cuja base é o português falado no sertão de Minas e de Goiás, mas esse português foi desconstruído e desarranjado por meio de recursos a experiências gramaticais, semânticas e fonéticas que Rosa ia buscar na dúzia de idiomas que conhecia, mal ou bem. Isto é o que se diz sempre que se fala dele, nenhuma novidade.

Mas… o que diferencia Rosa de Faulkner? (Neste momento, os três deviam ter-se voltado para o outro lado da mesa, em fuga, mas não…) Faulkner também foi buscar um falar de gente do interior para construir tramas complexas e oferecer personagens de alta densidade dramática, mesmo que num conto. Mas Faulkner recorria à mímese, à imitação. Rosa não imita: ele esconde na sua linguagem uma complexidade de composição inigualada, que no entanto ainda soa como o falar de gente simples. Se Rosa não imita, imito eu o Rosa, nessa canção de boiadeiro sussurrada em curva de rio, desmargem que se encordeia verdejar adentro, ponto de descanso aos cafuis, que no sertão é outro o nome das horas,  e na boca da noite os olhos areiam venosos, na antecipação do muito cedo que é o acordar no descampado, no quebrar da barra, rosto ornado de orvalho lagriluminoso.

Quando se pensa em complexidade e literatura, Joyce é inevitável. Joyce também reinventou o inglês – e inventou complexas estruturas narrativas, com o que Rosa também gostava de brincar, basta ver o que fez em Sagarana, mais especificamente em Matraga e todas as suas referências clássicas escondidas atrás de uma folha, de uma vela, do que ele quisesse. Mas Joyce tramou contra o inglês convencional por cima, enquanto Rosa conspirou por baixo a favor do português. Joyce é abertamente culto e sofisticado. Rosa é o baú rústico em que se esconde o Aleph.

Rosa não é linear, Joyce até que é, ao menos no Ulysses, já que é uma trama contra o tempo, incrustada nas mais famosas 24 horas deitadas em livro. A descontinuidade vertiginosa parece ter surgido com Lawrence Sterne, que está em Joyce, no Machado de Memórias Póstumas, e também em Rosa, no mínimo por sua inapetência pelo corriqueiro, pelo formal, pelo burocrático – e por Belenos!, esse homem era um diplomata…

De onde é que Rosa foi tirar coragem para falar de povo e como povo, com o intento de fazer grande literatura e não literatura regional? Rabelais terá sido o primeiro autor a retratar o povo, o imaginário do povo, as coisas da plebe. Mas retratou isso com uma linguagem rebuscada e fiel ao que via. Rosa não tem linguagem rebuscada, muito menos era fiel ao que via: a experiência roseana é lisérgica, mais que sinestésica.

Depois do Porto Ruby, eu já era valente o quanto seja preciso para sustentar que Rosa é maior que Rabelais, Sterne, Joyce e Faulkner, e só me circundava, me perseguia o medo de que alguma alma sensata e estraga-prazeres viesse podar meu roseiral de ufanidades, jogando o Bardo sobre a mesa como quem grita Truco! Mas eram todos, obviamente menos eu, diplomatas, então Shakespeare não veio em socorro da hierarquia das letras, e passamos, ladies first e belo jantar, para o café curto com lascas de chocolate.

A Argentina abandonou o Brasil quando enviou Guillermo Devoto à China. Sua ida pôs fim àquela secreta filial do Tortoni e deixou a muitos sem ter onde recusar um mau charuto com o apoio auto-irônico do anfitrião.

Caio Leonardo
18.10.2008

Notas para uma Reforma Política depois da AP 470

[texto revisto]

Numa enciclopédia de Política que fica ao alcance da mão esquerda em minha mesa no escritório, lembro de ter encontrado no verbete “Stalinismo” dois traços distintivos do ideário revolucionário que me intrigam desde então: o Centralismo Democrático e a Legalidade Revolucionária. Pelo Centralismo Democrático, o poder é do Povo e sua vontade está centralizada no Partido. Pela Legalidade Revolucionária, tudo que é feito pela Causa é legítimo. O Centralismo Democrático, já presente em Lênin, evoluiu, sob Stalin, para o Culto da Personalidade. A Legalidade Revolucionária, de seu lado, acabou por legitimar o terror, segundo Gianfranco Pasquino, que assina o verbete.

Vou construir, aqui, uma redução desses dois traços de forma a amolda-los, mudando o que deva ser mudado, àquilo parecem ser valores seguidos pela esquerda brasileira que ascendeu ao Poder.

A convergência desses dois traços está na base do que a mim, desde sempre, parece ter movido a conduta de quem quer que tenha sido encarregado de garantir a Governabilidade em 2003. Logo após as eleições, partidos minoritários exigiram dinheiro do Governo eleito em 2002 para conceder-lhe apoio que lhe garantisse maioria no Congresso Nacional. Corrente dentro do Partido dos Trabalhadores assumiu para si o papel de Centralidade Democrática, outorgando-se, com base em sua ascendência sobre as demais, a tarefa de garantir que a Causa (de manter-se no Poder para promover mudanças estruturais no País) sobrepujasse qualquer obstáculo oposto a ela, inclusive aquele da extorsão feita por partidos minoritários. Continue lendo “Notas para uma Reforma Política depois da AP 470”

Pietà

Michelangelo, La Pietà – Basilica di San Pietro

Neste link, Uma Introdução a Pietá e sua leitura pelo autor



___________

PIETÀ


Stabat mater
dolorosa

Jeanne aprés Modigliani –
La muse et la fênetre

Giulietta doppo Fellini –
Un dolore più forte
di quello di Cabiria

Drummond depois de Maria,
também ela Julieta –
a pessoa que mais amei neste mundo

And Juliet, the icon
left with no friendly drop
to help her after – after Romeo
Poison and dagger –
O happy dagger!

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa e
bate à porta
dum pendebat filius

Primeiro foi Djalma,
aquele coração
que era um balde despejado
– e agora Olívia,
juxta crucem lacrimosa.

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa

Ma
sina,
Giulietta:
Morrer de amor,
A mais bela morte.

Mas como dói em nós outros
a dor mortal que os levou de nós
e um do outro.

Duas inscelências
entrando no paraiso
Dry martini em punho –
Here’s to my love! –
e nós aqui,
como uma banda em Nova Orleans
no ofício de um jazz funeral,
cabírias nós todos
entre um trompete e o bumbo,
a dor e a melodia
a lágrima e o alento
o bourbon e a rua.

caio leonardo

7.5.2009

The #iRecallers

(It seems worthwhile to re-publish this post, first published in 2012, now that the Tahrir Square gave cause to another Government bite the dust)

The Euro-Arab Spring that pollinate revolts from Tunis to Paris is the ultimate offspring of the Tech-Revolution: The Isegoric Recall.

#IsegoricRecall is how I call the form of change in government by way of non-institutional direct democracy mediated by social media. #IsegoricRecall is what happened in Egypt, Lybia, Syria, Tunisia, and now erupts in Spain, France and Greece. #IsegoricRecall has been catapulted from social distress to mass movement by force of interaction through social media.

#IsegoricRecall is showing to be a disarchist, leaderless movement carried on by the strenght of vocalized equality provided and fed by social media.

#IsegoricRecall is disarchist in the sense that it is against an extant govern, not govern itself (not “anarchist”)They show they are in power, regaining the sometimes quasi-mythical popular origin of the mandate conceded to those ruling a country. Their power is that of simply stopping.

The process of recall is ordinarily based on the rule of law and has to follow certain proceedings; whereas the #IsegoricRecall is shapeless and built up off the rule of law, by the ultimate rulers – the people exerting their right to speak at the agora, on the quintessential public environment: the squares.

From this moment on, if the people stop on, governments step down.

 

Caio Leonardo

Bright-White Powder My Wig, Mr. Turner

Este é “Norham Castle at Sunrise”, William Mallord Turner foi o homem que o pintou, entre 1835 e 1840. A primeira vez que vi um Turner foi em 1995, na Tate Gallery, em Londres, e foram logo vários, havia uma ala inteira dedicada a ele – mas não entendi por quê. Achei-o insosso, indefinido, apático: inglês. Não gosto do amarelo tanto quanto Turner gosta; e gosto menos ainda de suas associações com o vermelho, tão usuais nos óleos de Turner.

Porém, insosso e indefinido era, constatei depois, o meu olhar ainda romântico, ainda não preparado para um pintor que foi impressionista quarenta anos antes de Monet. De 1829 a 1837, os óleos de Turner mudaram cada vez mais profundamente na direção de representarem efeitos de luz, em detrimento dos aspectos figurativos do que fosse o objeto de sua pintura. Foi essa mudança, essa nova fase, que fez dele um precursor do impressionismo. Desde então, amarelo continua amarelo, amarelo com vermelho continua detestável, mas, ah!, como Turner para mim, hoje, é outra coisa…

The Fighting Temeraire Tugged to Her Last Berth to Be Broken up.
1838. Oil on canvas. The National Gallery, London, UK.

Foram precisos sete anos de hiato e a visão, em especial, de “Calais Pier”, de 1803, na ala dedicada a ele na National Gallery, para a grandeza e o vigor de Turner ficarem evidentes para mim. A violência das ondas sobre o píer avivou a memória do mar arrebentando nos molhes de São Vicente, ou castigando a amurada na Ponta da Praia, em Santos. Os olhares desesperados das mulheres, antevendo a desgraça que se insinua sobre o barco cheio de passageiros que se aproxima do píer para aportar, é de um vigor e de uma força que só se vê em Turner. Ele teria mesmo visto uma cena como a que representou em “Calais Pier”: cena em que ele teria quase sido tragado pelo mar. O modo como o mar se move nesse óleo denuncia uma intimidade de viajante. Só o sabe quem sabe a que sabe o mar. Pois o mar é que acabou tragado pelos olhos do artista e encerrado numa tela formidável.

“Calais Pier with French Poissards preparing for Sea, an English Packet arriving”

1803. National Gallery, London

Turner nasceu em Londres, em 1775, filho de um sujeito interessante: era barbeiro e, saboreie: peruqueiro. Nenhum gentleman pensaria em ir à coroação de George III, em 1761, sem sua perriwig empoada em branco-vivo. E que fique claro que peruca não era coisa para mulheres. Pai e filho foram muito próximos até a morte do pai, em 1829. Devia ser muito interessante a relação entre os dois, e a dos dois com Londres. Sua mãe teve história menos doce: enlouqueceu e morreu internada em 1804 – não devia ser para qualquer um (ou uma) aquele mundo de cores, navalhas, cavaletes, pentes, pincéis, loções, paisagens e perucas.

Aos 27, Turner já era um “full member” da Royal Academy. Desde os 18 seus quadros já eram disputados. Aos 14, andava inacreditáveis quarenta quilômetros por dia, fazendo desenhos e aquarelas. A partir dos 17, expandiu essa coisa de perambular e esboçar e aquarelar o que houvesse pela frente para além da Inglaterra, se aventurando País de Gales e Escócia adentro. Marinas e campo lhe interessavam. De seu barquinho, pintou várias vistas do Tâmisa.

Gosto particularmente das suas marinas. Do vigor no movimento das ondas sob a tempestade, dos barcos, navios – em perigo ou majestosos, silentes. Coisa de ilhéu. Daí vem também o fascínio inicial que senti com “A Tempestade”, de Shakespeare. A primeira cena da peça, que revela o desespero a bordo de uma embarcação prestes a ir a pique, são o lado de dentro, as vozes, de alguns dos quadros de Turner.

Ele foi um homem recluso, nunca teve propriamente amigos que não seu pai. Teve várias companhias femininas, teve filhos que um pudor esquecido chamava de “naturais”. Mas nunca alguém realmente próximo. Ninguém o podia ver pintando. Freqüentava pouco as obrigações da Royal Academy. Mas, aos 71, levou sua reclusão ao extremo: desapareceu. Passou os últimos cinco anos da vida hospedado numa estalagem paupérrima em Chelsea – ele, um homem que fizera fortuna com a pintura, escondido até mesmo da dona do lugar, que não o reconheceu. Morreu um dia depois de descoberto.


Longships Lighthouse, Lands End. c.1834-1835.
Watercolour on paper. Private collection, UK.

A Ilha, o Farol e um Tango

John Donne (1572/1631) é um dos grandes da Inglaterra, poeta metafísico, jovem de mulheres e homem de letras, a quem a educação católica pôs em apuros e a conversão à igreja fundada por Henrique VIII acabou por salvar. Em 1615, após ter-se engraçado com quem não podia, escapou de um triste fim com a ajuda de James I, que o fez ordenar-se anglicano e lhe deu Saint Paul’s Cathedral, para que lá proferisse sermões que marcaram seu tempo, assim como é sua a marca sobre a poesia daquela época e lugar.

“A Valediction: Forbidding Mourning” é para Donne quase um verbete do saboroso Dictionnaire des Idées Reçus, de Flaubert. Podia bem estar lá: John Donne, aquele de “A Valediction…” etc. Mas esse poema tão óbvio quando se pensa em Donne é que traz este verso que é um dos meus favoritos em toda a língua inglesa: “dull sublunary lovers love”.

Há uma musicalidade ondulante em sua escansão que nos leva a um forte pico logo em sub/LU/nary, para depois nos deixar rolar pela encosta de um vale que desce até o amor que descansa depois do gozo. Esse verso é a imagem sonora mesma do ato sexual, cujo caráter físico é ao que Donne quer se referir, quando fala do tedioso amor dos amantes sublunares, para ele mera necessidade de presença, de olhos, lábios e mãos.

Entretanto, o amor dele, poeta metafísico, é outro: a distância não é quebra, é expansão, por serem os dois uma alma só. A imagem a que recorre para descrever esse outro amor é a de dois amantes tão unos como as pontas de um só compasso:

“Thy firmnes drawes my circle just, And makes me end, where I begunne”.

Em Meditation XVII, surge outra passagem lugar-comum, por ter sido a fonte do título de uma das grandes obras de Hemingway: “No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. (…) [A]nd therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.” Numa tradução livre, “Nenhum homem é uma ilha, inteiro de si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte do todo; então não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

É como dizer: nenhum homem é idiota. Idiota, etimologicamente, é aquele que vive num mundo próprio, ensimesmado – “idios”, pessoal, próprio, singular; “otes”, habitante. O “habitante de si mesmo”. O vocábulo é muito mais interessante e rico nessa acepção, do que nas suas derivações.

Quem muito se fecha passa a ser difícil de ser compreendido – pelo Outro. A dificuldade de compreensão é de quem observa, e não do observado. Mas quem leva a fama é justamente o observado, cuja idiotice, ou ensimesmamento, resultou nos desvãos da semântica em sinônimo de “pouca inteligência”.

Nalgum momento na vida dos “idiotas”, o isolamento que os define deve ter ferido alguma suscetibilidade, e terá sido a partir daí que o termo passou a ter, por despeito, o sentido pejorativo. Ora, se narciso acha feio o que não é espelho, então o isolamento é a feiúra no mundo dos homens-continentes, onde é inconcebível o homem-ilha. No man is an island, case closed.

O solipsismo (esse estado mental a que aludo com freqüência, que se resume na impressão de que “só eu existo no mundo, não existe o Outro”) está entre os estágios mais primários da compreensão do ambiente em que se vive. Começa-se a superá-lo por volta da segunda metade dos primeiros dez anos de vida. Pode-se sustentar, com alguma boa vontade, que a conduta “idiota”, na “pura acepção da palavra”, é um passo na evolução para além do solipsismo, mas que ainda mantém um pé nele. O idiota já deixou de achar que só ele existe, mas preferiu viver no seu próprio mundo. Porém, ver como idiota, no sentido pejorativo, aquele que age como Outro, que age com vontade própria, com rumo próprio, que não aquele rumo que se esperava dele, é negar ao Outro o ser Outro, é querer que o mundo se amolde à sua vontade. Viva e deixe viver.

Siddhartha viveu todos os mundos, assim como Ulisses viveu todas as experiências humanas. Um a Leste, outro a Oeste: os dois, mitos fundadores de civilizações. Ulisses, o homem-continente, que arriscou a vida por seu povo e por sua esposa; já Siddharta, o homem-ilha, que viveu entre o povo, que reinou sobre o povo, que se entregou ao amor carnal, e que ao fim de sua jornada voltou-se para si mesmo e em si mesmo encontrou o sentido para sua existência. Dois itinerários tortuosos, dois destinos distintos. Qual o melhor, isolamento ou gregarismo, com trocadilhos?

Siddhartha, acrescento logo, mesmo na culminância do nirvana, seguiu vivendo em sociedade, porque seu corpo lá estava, nalgum ponto da Índia – portanto jamais foi totalmente ilha. Que atitude tinham os demais diante dele – além da veneração que ele já merecia em vida? Teriam querido Siddhartha para si?

Querer trazer para perto pode ser um ato de amor, mas também pode ser um ato de opressão. É de amor quando o Outro aceita o chamado. É de opressão quando o chamado é rejeitado, mas ainda assim o Mesmo insiste em que o Outro venha – ou vá. Querer “abrir os olhos” de alguém pode querer dizer, apenas, “veja o mundo como eu o vejo”. Como Higgins quis com Eliza. Para Eliza, foi bom. Para outras Elizas, talvez não. E se Eliza quisesse levar Higgins para o seu mundo?

Um mundo sem solipsistas é um mundo em que todos respeitam a alteridade, essa “qualidade de ser Outro”. E respeito se conquista, diz o lugar-comum. Quando chamados equivocados se exaurem, melhor o silêncio e a distância. Quando esse silêncio respeitoso é compreendido como fraqueza, é preciso, lamentavelmente, subir o tom. Mesmo que seja apenas para garantir seu direito de se manter quieto em sua ilha, contra a vontade alheia. Não ser uma ilha não retira a ninguém o direito de recolher-se.

Da ilha para o mar, não são os sinos que fazem o alerta, mas o farol, silencioso e fulgurante no giro perfeito do oclusor, traçado pelo compasso que une dois distantes amantes, compasso nada silente de tango sobre tacos de madeira, vinho barato e cravo na boca, rechiflao en mi tristeza.

Caio Leonardo

19.10.2008

fonte:http://cabodofimdomundo.blogspot.com

Da Jurisdição à Legisdição

A Comissão Especial da Câmara dos Deputados para o Projeto de Reforma do Código de Processo Civil (CPC) está por entrar em fase de discussão e votação  do parecer elaborado pelo seu ainda então relator-geral, Deputado Sérgio Barradas Carneiro. (Substitutivo Barradas)

A reforma do CPC não é iniciativa isolada. Atualmente, no Congresso Nacional, estão também sendo discutidas reformas do Código Penal, de Defesa do Consumidor, Comercial. Estão em elaboração um novo Código Eleitoral e um Código de Arbitragem, ambos no Senado Federal. É esperado ainda um Código de Mineração.

Esse surto legiferante que o Brasil está vivendo é oriundo em especial do Senado. O que sustenta esse surto é aquilo a que seus variegados defensores chamam de “constitucionalização dos códigos”. A crítica desse processo de constitucionalização é o cerne deste artigo. Continue lendo “Da Jurisdição à Legisdição”

Olhos Serenos da África

Sunset-Giraffe

Na sala de estar do casarão da rua Pero Corrêa, Jonas, o prefeito, e Gabriel Teixeira, o diretor do Horto Florestal, tratam das coisas da política da São Vicente de 1969. Talvez falem da pressão sobre os ferroviários; da guerrilha no Vale do Ribeira, ali pegado; da cassação de mais algum vereador; ou ainda do ambiente na distante Brasília, capital tão nova e já testemunha de uma renúncia, de um golpe e de um golpe dentro de golpe. Tanta coisa. Os dois senhores falam e falam, de assuntos que adultos falam na sala de estar, Gabriel Teixeira sentado no sofá de couro e Jonas na poltrona, fumando Pall Mall, influência de seus tempos paulistanos de rua Maranhão e Cultura Inglesa. Quatro maços por dia. Jonas oferece ao amigo um vermouth, que eu, anos depois, porém ainda novo demais, vou beber escondido, furtando um gole ou outro da garrafa no carrinho de madeira que então servirá de bar na Casa Nova, da avenida Presidente Wilson, 294. Jonas fazia um bico divertido ao dizer vermouth. Quando sozinho na sala de jantar da Casa Nova, vou gostar dos selos dourados, das bandeiras que compõem o rótulo – vou gostar do nome, que saberei ler: “Martini & Rossi”.

Mas na sala de estar onde estão Jonas e Gabriel Teixeira, eu ainda não sei ler e estou entretido com alguma coisa muito importante debaixo da mesa: os desenhos no tapete, o barulho da unha raspando o tapete, o cheiro de pó e areia, cheiro de tapete de casa de praia. Disfarço – e espero a hora de me transformar.

Ali agachado debaixo da mesa, a conversa não tem fim. Eu gosto de tomar o café das visitas depois que as visitas vão embora. O café na xícara fica doce e morninho, aquele açúcar todo lá no fundo, preto ou amarelo bem escuro, que é tudo o que resta quando as visitas vão embora. Eu não quero ainda que o seo Gabriel Teixeira vá embora. Eu ainda não me transformei. E quando eu me transformar, ele vai ter que me prometer de pé junto.

A madeira da mesa é fria de um jeito bom, que em São Vicente faz muito calor. A madeira faz uns nós, fica gorda, depois quadrada, gostoso de sentir com a mão. Eu então moro em São Vicente, na rua Pero Corrêa, de fronte ao Zé Albano. Eu ganhei o terceiro lugar no campeonato de taco lá na casa do Zé Albano, eu e o Bando, mas fui eu que mandei a bola lá no Interpraias, que é o prédio que ‘tão construindo do lado da minha casa, que fica o lado de lá da rua onde eu moro, se Você estiver na casa do Zé Albano em 1969.

foto: Lucio Kodato
foto: Lucio Kodato

A Tata ‘tá me procurando, eu acho. Hora de me esconder aqui debaixo da mesa, que é diferente de ficar debaixo da mesa. Escondido ninguém me vê. Eu vejo o sapato do seo Gabriel Teixeira mexendo pra lá e pra cá, vejo a voz gorda dele e os pés se mexendo, as pernas dele esticadas e os sapatos batendo as pontas, que engraçado. De pé junto, ele vai prometer. Não é hora de me transformar, que a Tata vai me ver. Ela fala com o papai e faz barulho de xícara e pires e de colher, mas nem me vê – eu estou invisível. Ela bem que falou Seo Jonas, o senhor viu o Nado por aí? Identidade secreta, ela nem sabe meu nome de verdade. Eu ri. Eu ri porque ela não me viu. O papai fala grosso, com a voz grossa dele de homem. Ele fala baixo e devagar. Voz de prefeito, de nem te ligo pra Tata, que quer saber é de mim.

Eu tinha ido ao zoológico, que é igual ao Horto, mas lá no horto tem a pedreira que toca sirene e depois vem a explosão, sempre às onze horas. A gente ouve o barulho das pedras de vez em quando, mesmo a pedreira sendo lá longe, pra lá da vila Margarida, pra trás do horto. No horto tem árvore e jardim, como no zoológico, mas no horto não tem assim bicho como no Zoológico. Eu vi cobra, não gostei. Eu vi macaco, que eu gostei. Vi aranha, mas aranha eu já tinha visto. Tem aranha no porão da garagem que fica debaixo da seringueira. Não assim debaixo da seringueira: debaixo dos galhos da seringueira, que vão até o céu, até mais alto que o teto da casa.

A casa tem a parte debaixo, onde fica a cozinha e a sala e o papai e o seo Gabriel Teixeira. E a casa tem lá em cima, onde fica o meu quarto e o banheiro e o quarto de todo mundo e o quarto do vovô. Então, a seringueira vai mais alto que o teto do quarto do vovô que é lá no fim do corredor. Debaixo dos galhos da seringueira tem um quarto que é separado da casa, mas não é outra casa, é a nossa casa ainda, mas pra lá no jardim. Debaixo desse quarto tem o porão e dentro do porão tem a gente que se esconde lá pra brincar de detetive.

A Leila que vai primeiro. Ela que faz a carteirinha do clube. Quem não tem carteirinha não entra. A gente entra de costas, se arrastando assim pelo buraco. Antes, o Bando tira a grade de ferro que é pesada, encosta ela na parede e aí a gente se agacha um de cada vez e entra de costas, se arrastando. A Leila põe jornal porque é muito sujo lá no porão, e é escuro, também. Claro, é o porão, oras. Porão é escuro. A gente fica de costas no porão em cima da terra. Tem um monte de pedrinha que arranha as costas da gente e o jornal faz um barulho quando rasga de tanto a gente escorregar sobre ele pra entrar no porão escuro. Então, a gente é detetive e quer saber onde tem mais coisa do Hitler. Achado não é roubado.

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O Hitler é o homem que ‘tava no retrato que a Laís encontrou quando a gente descobriu o porão. Foi assim: não podia entrar naquele quarto, mas a gente entrou. Bem quietinho. Se fosse pra não entrar mesmo, não proibiam. Proibiu, já viu. Foi todo mundo e o chão afundou e a gente descobriu o porão e o papai descobriu que a gente ‘tava lá. Embaixo, entre o piso de madeira, podre, podre, e o chão do porão, o papai depois encontrou duas caixas de latão bem grandes, que depois serviram pra guardar de tudo lá em casa, mas quando o papai encontrou as caixas estavam cheias de livros e mais livros. Meu pai gostava muito de livros, mas não gostou nadinha daqueles que estavam ali. Junto também encontraram umas garrafas grandes assim, que o papai também mandou jogar fora. Minha mãe falou que era uma pena, que era vinho branco alemão, tudo era alemão. É alemão, acho que alguém cochichou, assustado. Com esse monte de coisas suspeitas e perigosas ali, é claro que todo mundo virou agente secreto e queria entrar no porão pra investigar.

A casa era dum alemão, a casa onde eu moro na rua Pero Corrêa, na rua onde fica o posto de gasolina do seo Albano, que é pai do Zé Albano. A gente ia ao posto do seo Albano consertar a bicicleta, só que eu não tinha bicicleta, nem o Bando, nem a Leila, a gente não, mas a turma do Zé Albano tinha. Tinha uma banheira e tinha o borracheiro que sempre andava de chinelo e short e camiseta regata, sempre com uma ponta de cigarro na boca, sempre quieto. Tinha fotos no canto onde ficava a banheira, que ficava com água pro borracheiro ver onde tinha furado o pneu. Tinha mulher pelada ali.

PostoDoAlbano

A gente perdeu um jogo, mas ganhou o outro, então ficou em terceiro, eu e o Bando, no campeonato de taco na casa do Zé Albano. O Bando nunca acertava a bola de tênis que era bem velha e soltava uns pelos e parecia que tinha cabelo, feito o de surfista, parafinado, comprido, amarelo quase verde, meio duro, como o do Marcelo. A bola girava no ar quando alguém acertava ela com o taco, e então era uma correria. A outra dupla começava a gritar pra pegar a bola e a dupla que tinha batido na bola ia lá e cruzava os tacos, gritando e correndo, contando os pontos e vendo se alguém já tinha pegado a bola, que o importante, o importante mesmo, o importante é não ser queimado, que é quando o outro vai lá e joga a bola em você e, se você estiver com o taco fora da casinha, você ‘tá queimado.

Eu não me lembro do retrato do Hitler, mas acho que sei que era velho velho, mais velho que o retrato do vovô. O vovô come banana escondido no quarto dele lá em cima, no fim do corredor. O Bando ‘tá na escola e o Xande é muito pequeno, é uma criancinha. Ele quebrou o braço. Eu quebrei o dente. Foi a Laís e a Leila, mas elas disseram pra eu não contar, senão eu ia ver. Doeu, mas passou. Então eu contei, ‘to pouco ligando. Elas gostam de passar rasteira, depois falam Que bonitinho!, eu lá no chão, chorando. Que bonitinho.

Leila_Bando_Nado_byLucio_Kodato

Pronto, a Tata saiu e os pés do seo Gabriel Teixeira são os pés do monstro. É agora, tá na hora de eu me transformar:

__ Um, dois e já! Superómen!

__ Filho, sem gritar.

__ Você é o Super-homem? – as mãos do Gabriel Teixeira perguntam, oferecendo colo. Mas aquelas garras não vão me derrotar!

Eu rio sério, que eu já me transformei, então eu vou pra cima do Gabriel Teixeira, que é um monstro muito grande que eu tenho que derrotar.

__ Leonardo!

Depois de vários socos potentes desferidos contra o monstro inimigo, está na hora de negociar a rendição. Dele.

__ Seo Gabriel Teixeira, o senhor me dá uma girafa?

__ Uma girafa?

__ É. Eu ganhei, então o senhor me dá uma girafa? Ela vem da África. Eu sei dar comida pra ela. Eu pego um pratinho de lata, que não quebra, e ponho lá na janela do meu quarto, e ela vai lá e come. Eu cuido dela.

__ Você cuida?

__ Cuido.

__ Então, vou te dar a girafa, sim.

__ Promete!

__ Prometo.

__ Pé junto.

__ Prometo.

De lá da cozinha, a Tata vem acudir o pobre monstro espancado.

__Nado, vem pra cá, menino! Xispa! Já pra fora – a voz da Tata é rouca e, quando ela fica brava, eu apanho.

Eu vou lá pra cozinha com a Tata. Mamãe ‘ta trabalhado na Secretaria do Menor. Aí, eu saio pro quintal e vou brincar no quintal com a Fly ou com os patos ou com os coelhos. A Fly é linda. E eu gosto mesmo é da casinha dela, que é verde e tem uma porta meio redonda. O japonês amigo da Ciça, minha prima, ‘tava lá em casa um dia e ele tem uma máquina e tirou foto da gente lá no quintal. Eu sentei na porta da casa da Fly, mas a Fly não saiu na fotografia, porque o Lucio Kodato tinha medo de pastor alemão, eu acho. Livro alemão, vinho alemão, pastor alemão, fotógrafo japonês. Que história!

Tem uma pitangueira perto da parede em frente à casa da Fly. Ela dá um monte de pitanga que às vezes é muito azeda, muito azeda, mas aí tem umas que são doces. Eu nunca sei, só depois de experimentar. Os galhos da pitangueira são macios, mas o tronco e os galhos da seringueira têm uns cascos secos que se soltam e machucam se a gente não sabe trepar direito. Machuca a mão, se a gente sobe rápido também. Eu gosto de trepar na pitangueira e tenho medo de trepar na seringueira, mas todo mundo trepa na seringueira, porque ela é mais importante. Criança brinca na pitangueira, os maiores na seringueira, mas eu quero ser como os maiores, que eu sou supererói e tudo, então eu trepo na seringueira, mas só até o terceiro galho – a Leila e a Laís sobem até lá em cima. O Bando, também. O Zé Albano vai mais alto, mas também o pai dele não mora na nossa casa, mora na casa dele, do outro lado da rua. Queria ver ele trepar na seringueira na casa dele. Queria ver. Aposto.

Dou a volta na casa correndo. Vou até o portão, olho a rua. Ainda não tem jambolão, que é a melhor coisa do mundo. Eu corro e corro. Aposto corrida até lá atrás e levo um susto com o latido da Fly. Dou um tapa no focinho dela. Não é nada fácil dar um tapa no focinho da Fly, ela é muito maior que eu. Mas eu tenho superpoderes. Fui lá, levantei a mão até alcançar o nariz dela e dei um tapa, porque ela me assustou. Ela espirra ou coisa assim e vai embora, sacudindo daquele jeito dela que parece que tá dançando, toctoctoc nas pedras perto do laguinho verde-musgo onde ficam os patos. A casa é imensa, mas eu consigo ir até o muro de trás numa corrida só. Aí dói aqui do lado, mas só que eu já ganhei, pode doer.

Cansei. Sento nos degraus da escadinha que sobe pro quarto do alemão, porta trancada. Pego do chão umas pedras e jogo bolinha-de-gude com elas, que nem brilham nem são azuis ou verdes, mas são azuis e verdes e brilham enquanto jogo. Olho pra cima e vejo a janela do quarto do vovô e a janela do quarto dos meninos, que é o meu quarto. Desenho no ar direitinho a altura da janela e o tamanho do pescoço da girafa. Dá, sim. É só a Tata fazer aveia com açúcar, e eu ponho num prato que não quebra, pra mamãe não brigar, e aí a girafa vem bem devagarinho, bem mansa do jeito dela, com aqueles olhos tristes de quem tem pescoço grande. Pescoço onde, hoje, enxergo majestade e uma mudez compassiva com a vulgaridade em volta; onde, hoje, enxergo seu pelo ornado de ouro e bronze, anéis de bronze sobre leito de ouro; onde, hoje, ouço o trotar de patas que são bengalas de âmbar – bengalas menos infinitas apenas que o mastro de onde pende aquela bandeira de paz, que é o seu rosto alongado e dócil, de olhar sereno, languidez quase feminina numa altivez de varão: onde, hoje percebo,  projeto a silhueta retilínea em corpo e em ato que foi meu pai, espelho e caminho a perseverar em mim.

Caio Leonardo
primavera de 2012/primavera de 2013