Vitruvius Revisitado

un-accessibility-logo[Novo Símbolo de Acessibilidade da ONU]

Marcus Vitruvius Pollio não é alguém com ideias fáceis de ultrapassar. Para superá-las, seria preciso mudar (quase) todas as cidades do mundo e (quase) tudo que há nelas.

Vitruvius foi contemporâneo de Augusto, o césar que elevou Roma ao ponto central em que ainda se encontra no desenho da cultura do Ocidente. E Vitruvius teve um papel nada desprezível em parte desse processo. Ele escreveu De Architectura, obra em dez volumes que viria a se firmar como as bases clássicas não só do que entendemos por arquitetura, mas também engenharia e urbanismo. Vitruvius estabeleceu princípios e, mais do que isso, concebeu as proporções que deviam nortear uma construção. Para isso, partiu do corpo humano. Mas não de um corpo qualquer, não da multiplicidade de tipos humanos, mas sim de uma ideia de corpo humano matemática e geometricamente proporcional. Os séculos perderam os desenhos que acompanhavam os textos dele, redescobertos numa abadia quase um milênio e meio depois de escritos. Essa redescoberta deu impulso à volta aos clássicos que caracterizou o Renascimento.

Um certo outro Leonardo teve então acesso a Vitruvio, tomou notas, fez desenhos. Um desses desenhos é facilmente reconhecível ainda hoje: dentro de um círculo, um homem de proporções perfeitas, em pé, com braços e pernas tocando a circunferência em oito pontos. A esse desenho foi dado o merecido nome de “Homem Vitruviano”. A regra era clara: Todos os elementos de uma construção e de uma cidade deviam seguir a perfeição daquelas proporções: da altura à largura de uma fachada, da posição à proporção dos degraus de uma escada.

Aquele Leonardo não anteviu a dor de cabeça que esse desenho daria a este Leonardo.

Ao definirem o Homem Vitruviano como a proporção ideal, Vitruvio e Leonardo acabaram por definir igualmente o usuário que todo construtor teria em mente. Toda a variedade da experiência física e sensorial humana reduzida ao esplendor de um corpo único, preciso, idealizado.

Passou-se mais de meio milênio até que tomadores de decisão se dessem conta de que o Homem Vitruviano tinha legado uma cidade excludente, inatingível por muitos daqueles que divergem das proporções clássicas por serem mais altos, mais baixos, mais gordos, com pernas curtas, com braços longos, sem braços, de uma forma ou de outra.

Surgiu daí a noção de acessibilidade: o belo, sólido e útil concebido por Vitrúvio – e recuperado por Leonardo e seus contemporâneos – era inútil para muitos, porque opunha barreiras a seu uso aos que não tocavam de braços e pernas estendidos aqueles quatro pontos do círculo. A ideia de sociedade inclusiva fazia nenhum sentido num Renascimento que convivia com a Inquisição de Torquemada. Só veio fazer sentido no fim da segunda metade do século XX.

Estávamos já em 1980 quando a acessibilidade foi pensada a partir das necessidades de quem portava uma deficiência. Evoluímos para o conceito de desenho universal, que deveria atender todas as incapacidades, ainda que temporárias, como a gravidez, a infância, a velhice – três das muitas proporções esquecidas por Vitruvius.

Se o arquiteto romano circunscrevera a perfeição, a ONU num primeiro momento, circunscreveu a deficiência. Nisso, cometeu o mesmo erro do romano, que foi o de pensar num modelo específico: o símbolo ainda vigente de acessibilidade é aquele que representa uma pessoa em cadeira de rodas dentro, também, de uma circunferência. A cadeira de rodas remete a apenas uma das cinco deficiências básicas.

Pois agora, na metade da segunda década do século XXI, as Nações Unidas divulgam um novo Símbolo Universal de Acessibilidade. Ele retoma, sim, o “Homem Vitruviano”, mas a partir de uma perspectiva completamente outra.

A ONU descarta o modelo centrado numa deficiência específica, a motora, mas não cai na armadilha de buscar abrigar todas as deficiências: o novo símbolo expressa a ideia de um mundo aberto a todos a partir das suas habilidades. Noutras palavras, a ONU aposenta o conceito de deficiência e passa a empregar o conceito de habilidade.

A mudança conceitual é imensa. O desenho (design, se preferirem) pensado com um olhar sobre o cada um pode fazer (habilidade), em vez de um olhar sobre o que não pode fazer (deficiência) permite antever ambientes, objetos, produtos, informações desenhados para atender as variadas formas com que uma pessoa preferirá utilizá-los.

Aquele Leonardo desenhou um homem. O símbolo da ONU representa uma pessoa. E essa pessoa que se move para todos os lados, que está em todos os cantos, que é centro e circunferência, surge para moldar o terreno – em tantos sentidos – por onde poderá desfilar todo a variedade que marca a experiência de estar vivo.

O Teatro abre suas portas. A senhora J. sobe vaporosamente a escada de mármore à esquerda; o senhor C. prefere conduzir pela sensual rampa sinuosa à direita a sua carrozzina de duas rodas com seis giroscópios. Menos mal que o aplicativo de audiodescrição em tempo real satisfez as exigências feitas por M. A. para dirigir O Rinoceronte. Noite de estreia. O crítico T.J., já está postado na fileira H e liga o prompter transparente com tradução simultânea para linguagem de sinais. A estrela S. espera que ele esteja de bom humor.

Abrem-se as cortinas para um novo espetáculo.

caio Leonardo

4.8.2015

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s