O ÚLTIMO VERÃO ANTES DO PASSADO

(texto de 2014, em que uma voz faz saber o que certos muitos fariam – e vieram a fazer – nos verões seguintes, para nos levar a todos ao que sabíamos que outros haviam feito em verões já então passados)

No seu MacBook Air,
um olhar contemporaneamente brasileiro
vai do terroir
ao terror.

E se subleva,
confortavelmente,
entre amigos.

As vísceras estão expostas, seu Brasil é horrível.
Já foi pior, mas não era possível ver.
Agora se pode. Agora ele vê.
Ele vê julgamentos. Vê condenações.
Como nunca antes.

E então ele julga.

Diariamente, julga. Condena.
Uma dose diária de indignação cívica.

Por ver pela primeira vez,
acredita que tudo o que vê
acontece pela primeira vez.

E ele então se subleva –
entre a foto de um malbec,
um video de trombadas na Rússia
e uma espiada num perfil ousado,
ele se subleva.
Mergulhado na sua solidão,
nas dores que ele mal reconhece,
ele se subleva.
Dia após dia,
ele se subleva.

Com um clique.

A queda do véu das aparências
é demais para ele, diante da tela de alta resolução.
Aquela dose diária já não basta.

Surge a multidão,
em ato e em potência,
retroalimentada pela clique dos cliques,
entorpecida pela luz da tela e o prazer
mórbido
do julgamento e da condenação
fáceis.

E vai ele,
e vai a multidão
atrás de doses mais fortes.

Na multidão,
mesmo os que pensam
que pensam,
amalgamam-se, amoldam-se,
desaparecem.
Para não sumirem no espetáculo,
constroem cicatrizes na carne
sua e do Outro,
para exposição imediata,
mediática:
estética da violência.

Os cadáveres já estão aí.
De todos os lados do jogo.
O morador de rua,
a dona de casa,
o cinegrafista.

O jogo segue sem regras,
nem objetivos.

Seguirá até
a ruptura
do esgarçado tecido das relações de poder

Quando então os fantasmas
não serão mais meras postagens compartilhadas.

Quando então o retrogosto
de um vinho aparentemente envelhecido
mostrará de novo seu amargor.

Quando então alguns despertarão
para o fato de que o horror de hoje
está em finalmente podermos enxergar tudo e todos
como realmente é e somos

Quando então a transparência insuportável
dará lugar à velha noite
em que os adultos de hoje nasceram

Quando então voltaremos
a marcar o passo.

Quando então será tarde demais
para ser consequente.

caio leonardo, 19 de fevereiro de 2014. Meses antes.

Um Conto de Duas Cidadelas

O Brasil é uma mãe estranha que prefere ficar deitada no berço a educar seus filhos que não fogem à luta.

Os filhos briguentos da pátria andam cheios de indignação embora nunca tenham tido alguma dignidade para perder.

O medo de uma gerou várias presidências que agora terçam canetas sacadas de três lados da praça, enquanto no quarto lado o Panteão da República, cansado que só, sentado no banco de concreto, parece picar fumo, frágil matuto com o olhar perdido sobre pedras portuguesas.

Soldados desconhecidos loucos pela fama travam uma guerra cibernética armados de pios e posts, protegidos por cidadelas tecnológicas cercadas de batatas fritas, coca-cola, um eventual cigarro e muitos equívocos.

O IP, azul-amarelo ou vermelho, é o símbolo desses Brasis.

Há brasileiros demais sonhando com castelos brancos; execrando o branco do vestido bordado da menina negra; chutando santas de toda cor; ceifando e martelando cruzes; defendendo o indefensável à destra e à sinistra; são brasileiros que atacam a mão na bola do time de lá e não enxergam o carrinho por trás do time de cá, que lincham moral e civicamente em nome da pátria, da família e da propriedade ou em nome do que quer que surja como o oposto de propriedade, família e patriotadas.

De peito enfunado e olhar raivoso, os filhos de Pindorama estão decididos a tomar de volta o seu lugar no bananal das republiquetas latino-americanas.

Se essa é a língua que entendem, que ouçam este Cantinflas a desancar uns e outros. .

Caio Leonardo