Simetrias existenciais

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Em Santos, o terreno é pantanoso, cede. Por essas e outras, muitos prédios erguidos na orla da praia na década de ’70 são famosamente inclinados. “Eles se cumprimentam”, vai dizer um caiçara. A cidade é cortada por canais feitos para drenar o terreno, numerados do Sul para o Norte da ilha. Na esquina da praia com o Canal 4, fica um desses prédios, enorme, na minha memória ainda amarelo, que correu o risco de desabar e precisou ter sua base, dizia uma lenda, congelada.

Mas minha memória é esquerda e põe no térreo dele um restaurante estiloso chamado Cibus, que na verdade ficava noutra avenida. Fui descobrir recentemente que “cibus” é “comida” em latim. Ou seja, o lugar chic de Santos chamava-se “Restaurante Comida” – algo como um edifício chamar-se “Prédio”, o que Santos não demora a oferecer. Na avenida Ana Costa fica o Edifício Palazzo. Palazzo em italiano…

No térreo de verdade daquele edifício no Canal 4, ainda funciona um bar que é assumidamente uma espelunca, outra palavra latina, que significa “caverna”. Santos tem o seu Cavern Club. Passei ali noites inesquecíveis, outras de que não me lembro, algumas que é melhor nem lembrar. Ali, vi e ouvi tocar várias gerações de roqueiros locais, liderados por essa força da natureza que é Julinho Bittencourt. A turma do Charlie Brown tocava lá. Pelado, o baterista, sempre aparecia. Meu irmão,Allex Bessa, também tocou seu teclado naquele palco apertado. Nome do lugar? “Bar do Torto”. Eis aí um nome perfeito.

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Este foi um fim de semana pantanoso para mim, aqui em brasília. Passei todo ele com dores fortes no ombro e no pescoço. Para consertar, tentei congelar a base da dor com um emplastro. Adiantou pouco. Não conseguiria cumprimentar ninguém. Fiquei dois dias na minha caverna, sem sair do prédio, meio que pelado, e tudo que fiz foi comida (em latinha) e, entre um canal e outro, ouvir a entrevista a Elvis Costello do roqueiro Lou Reed, aquele bardo torto.

Santos não sai de mim.

O Baile na Rua Aurora

BartôByHopper

Acho que foi o Sandor Ney, ou talvez o Georges Jazzar, mas alguém jogou no grupo de discussão a novidade de que tinha descoberto um bom restaurante peruano na improvável rua Aurora, registrada em verso, prosa, canção e boletins de ocorrência. Começou um alvoroço. Não podia ser aquela  rua Aurora, piroca dentro, piroca fora. Mas em que altura? Perto do Bar Leo? É seguro? Fica na Boca do Lixo? Ainda existe a Boca do Lixo?

Enquanto eles discutiam isso em São Paulo, eu, de Brasília, comecei um passeio vertiginoso via Google Street View. Apeei meu cavalo virtual na esquina da avenida Rio Branco com a Aurora e comecei a descê-la em direção à Vieira de Carvalho, que é o que se poderia chamar de “área nobre” dali. Foi, mesmo, um dia. Ali surgiu o Rubaiyat, ali ficava o mais antigo restaurante de São Paulo.

Mas no hoje do meu passeio por aquela lente panóptica, a Aurora apresentava suas velhas credenciais logo na esquina com a Rio Branco: um American Bar, senha para inferninho. Sigo adiante e, passadas umas portas sem pistas, mas que escondem muita história, surge no nº 427 um hotel talvez chamado Lugus (difícil dizer, a imagem da placa é aguardentemente distorcida). O hotel é vizinho de uma venda, um mercadinho sem nome nem número, de parede azul, com duas portas, uma delas aberta, já são 9h30 ou 10 da manhã no instantâneo que me guia. Para dentro da porta aberta, movimento, clientes, objetos, caixa registradora, comércio. Para dentro da porta fechada, por trás de uma cortina de ferro vazada em losangos, uma década de fórmicas, madeiras e ferros empilhados, coisas sem uso esquecidas na sombra, mas visíveis da rua. Meu olhar atravessa a porta de volta para a rua por entre os losangos de ferro e se depara com o que jaz na soleira do mercadinho azul, sem nome, da rua Aurora, sem número.

Naquela soleira, estirado sobre a pedra preta polida típica dos degraus de construções no centro de São Paulo, jaz a figura de um homem de passado violento, ocupação incerta e futuro mais ainda, coberto de blue jeans de corpo e alma, alma alugada para a boêmia.

Sobre os olhos, enormes óculos escuros que remetem a Ray Charles mas num degradante marrom degradê; as canelas exibem meias beiges combinando com o mocassim marrom que faz dele outro Paco perdido no fim de uma noite suja, acolhido pela indiferença do pouco comércio diurno de uma rua que vive da madrugada e seus pecados. O braço direito dele, manga arregaçada, aponta desmaiado para a sarjeta que está a metro e meio, mas inteira dentro dele.

A noite deve ter recebido como um astro aquele alter ego de Bartô Galeno, colete azul escuro de cantor de rádio, de caminhoneiro garboso, garantia de atenção das moças e dos garçons nos shows de strip tease do teatro Orion, na altura do 753. Não deve ter sido fácil percorrer aqueles trezentos metros até a soleira do mercadinho, tropeçando na letra de “No Toca Fita do Meu Carro”, com a boca encharcada de “Que Amor Danado que Arranjei”. Boca entregue ao vazio de uma noite de moças trocadas por Old Eight e Fogo Paulista. Mario de Andrade, que morava no 320, passaria por ele e poetaria: “Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paissandu deixem meu sexo”.

Desacordado, mal percebe que ele é o bêbado que se apoiou nos losangos de ferro e por eles desceu até a soleira, se ajeitou como pôde e agora está, para sempre, capturado pelo olho que tudo vê, em todo lugar. 

Uma fiorino para em frente ao mercado e esconde a porta aberta da vista desconfiada do porteiro da garagem em frente. Um garoto passa correndo com um saco plástico na mão, olhos vidrados. O vento seco arrasta a poeira da calçada e irrita os olhos da senhora que vem de cabeça baixa da Santa Ifigênia, sacola na mão – pilhas e lâmpadas e soquetes. Uma lasca de reboco se solta sob o sol. O caixa do mercado ajeita o troco, entediado. Um silêncio entre carros toma o ar por um instante. O leite de coco espera na prateleira a validade expirar. A rua expira e renasce, outra vez aurora.

Bartô se move, geme. O apontador de bicho muda o passo e o rumo, para não dar com ele. Doem as costas, dói o joelho, dói Malena que o proibiu de ser caminhoneiro, depois o deixou, e ele entrou na bebida em lugar de partir para a boleia. Agora é figura fácil na Aurora, ninguém nem se importa, ele jogado de novo no chão pela manhã. A rua é assim. Ele é assim. Tantos são. Não se meta.

O peruano, bem, o peruano fui descobrir trinta metros dali, sem placa na porta, sem qualquer indicação de que ali houvesse um restaurante. Sem número. Descoberto por exclusão: só pode ser ali o 451. Os de São Paulo acabaram indo lá e gostando, é bom e barato, me contam. O Rinconcito Peruano fica escondido no alto de uma escadaria estreita, onde se respira um sonho imigrante de vida nova e bem-aventurança, que contrasta com o registro fotográfico, geográfico, urbano, degradante daquele corpo que, no entanto, ainda agora assombra, não mais a rua, mas a soleira virtual de um mercadinho azul, sem nome, ao lado do hotel da mesma rua Aurora, na altura do 427.
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Caio Leonardo

(clique no link, vá ao Street View e veja por si)

A Viagem dos Beagles

Charles Darwin tinha 21 anos em 1831, quando foi convidado a embarcar, como extranumerário e na qualidade de cientista da natureza, na viagem que lhe geraria fama e conflitos. Em 1839, publicou as notas que fez a bordo. O primeiro e o segundo capítulos narram sua passagem pelo Brasil. A certa altura de suas notas sobre Salvador, Darwin comenta admirado suas observações sobre o Diodon antennatus, cujo nome popular ele não registra: baiacu. Prefere referir-se a ele “intimamente” como Diodon. Mais do que descrever o modo como o baiacu-Diodon incha, vira de cabeça para baixo e nada mesmo assim, o jovem Charles se admira de ter ouvido de um certo Dr. Allan de Forres que esse peixinho é capaz devorar a parede do estômago do tubarão até abrir caminho para sair dali, matando o predador no processo – ou seja, o baiacu, sem alternativa, ousa lutar por dentro de um meio inóspito para ganhar a liberdade.

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A viagem de Darwin foi feita à bordo do HMS Beagle, um nome que volta agora a estar envolvido numa polêmica em torno da ciência. Ou melhor, noutra polêmica contra a ciência. Em 1859, a polêmica foi contra a Teoria da Evolução, que acabava com o Criacionismo; em 2013, a polêmica é contra a evolução tecnológica, na medida em que ela dependa do sacrifício especificamente de… beagles.

Neste outubro, ativistas invadiram, depredaram e saquearam um laboratório na cidade de São Roque, SP, tudo com o intuito de libertar os beagles ali mantidos e usados para experiências, testes. Representantes dos ativistas alegam que não conseguiram dialogar com a direção do laboratório, então preferiram partir para a ação. O que eles entendem por “ação” pode ser resumido em “fazer justiça com as próprias mãos”.

Mas qual ideia de justiça norteou o que se quis fazer ali? Como se deu a definição de que aquilo era o justo para aquela situação? Quem definiu?

A resposta é: Um grupo de pessoas decidiu o que era o Justo, decidiu qual a consequência da sua Justiça e executou ele mesmo sua própria sentença. Exatamente como faz um grupo de extermínio, um tribunal do tráfico ou o PCC.

Será isto, para ficarmos com Darwin, uma evolução?

A resposta é não. Não é evolução uma justiça caótica e definida pela cabeça de cada um, conforme a visão de mundo de cada um, ao sabor de indignações que se agigantam a cada novo curtir em rede social.

Mas o que é essa justiça, se não o voluntarismo de uns contra tudo e contra todos? O brasileiro está alimentando e treinando seus cães interiores para o ataque; e os está usando em praça pública diariamente, em reiterados e frenéticos exercícios de intolerância e rejeição ao diálogo.

A sociedade brasileira está em crise de representação, como já se disse alhures, mas também de identidade. Surge uma justiça sectária, esquizofrênica, aleatória, circunstancial, narcisista e privada.

A crise de identidade está em que, formalmente, estamos num Estado Democrático de Direito, vivemos sob o império da lei. Isto quer dizer, no que interessa aqui, que não estamos sob o império de ninguém, da vontade de ninguém, de poder algum que não aquele expresso na lei e na interpretação dela feita pelos tribunais. Isto quer dizer, também, que não estamos sob o império das agendas pessoais, coletivas, sociais, privadas ou de qualquer outra natureza que se queira impor pela violência.

Pois é melhor começarmos a defender esse tal de Estado Democrático de Direito, antes de mergulharmos, cabeça à frente, na barbárie.

Para essa defesa, é preciso lembrar algumas obviedades: Não existe causa justa que esteja acima da lei. Quem viola a lei deve sofrer as consequências no estrito limite da lei.

Escondido num canto do art. 5o. da Constituição Federal está dito, meio que com vergonha de dizer o evidente:

“Não haverá tribunal de exceção”.

Mas o caso do Instituto Royal é precisamente isto: um tribunal de exceção. Privado.

A respeito desse caso, é preciso situar pelo menos mais dois conceitos:  “Desobediência civil” e “Criminalização de Movimento Social”.

“Desobediência Civil” é um não-fazer, é deixar de fazer o que se ordena que seja feito. É um direito do Homem, a desobediência civil. Porém, invadir o que quer que seja e destruir o que haja lá dentro não é desobediência civil: é crime. Fazer isso em grupo é formação de quadrilha.

“Criminalização de movimento social” é um meio autoritário de impedir que demandas sociais sejam ponderadas e incluídas nos processos de decisão política. Por esse meio, as manifestações públicas são reduzidas a meras condutas criminosas. É inaceitável, quando o movimento social manifesta-se nos limites do Direito. Porém, quando ativistas cometem crime são eles que estão pondo em risco sua bandeira: eles estão cometendo crimes no seio de um movimento social. Não é o Estado que está imputando, do nada, crime ao movimento social só por ele existir: é o movimento social que está se deslegitimando por seus próprios atos.

Movimento social não está nem à margem nem acima da lei. Se é que estamos falando em movimento social em se tratando do grupo que agiu em São Roque.

Todo interesse, toda perspectiva deve ser ponderada no processo de elaboração da lei. Assim, é legítimo que se defenda que beagles, ratos, macacos – mamíferos, enfim… – deixem de ser usados em testes. Mas para que isso aconteça, só há dois meios: o acordo ou a lei. Não, a chantagem, a coação, a violência física ou mental não entram no conceito de “acordo”: ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei – isso também está no art. 5o. da Constituição Federal. Ou seja, nenhum ativista pode obrigar o Instituto Royal a deixar de fazer testes, enquanto os testes foram permitidos por lei.

Mudar a lei é processo que se faz por dentro das estruturas do Estado, não à margem dele. Exige estratégia de convencimento – de outros atores sociais e, em última instância, daqueles que tomam a decisão política. Destruir o Instituto Royal pode até ter impacto no debate legislativo, mas a mudança eventual na lei não vai ser a ponto de permitir que cidadãos invadam prédios e os saqueiem.

Há uma Ordem Jurídica em vigor. Ela precisa operar também neste caso, por mais doces que sejam os beagles. É preciso que o que ocorreu no Instituto Royal – assim como o que vem ocorrendo sistematicamente em manifestações públicas – tenha impacto policial e judicial contra quem invade, depreda, saqueia. Todos os participantes, no limite da responsabilidade por seus atos, devem ser processados criminalmente por invasão, dano a patrimônio; civilmente, por danos materiais; e o que mais couber.

O Brasil, os brasileiros que se manifestam, aqueles que se calam, todos estão no caminho errado, na medida em que permitem que se torne corriqueiro o recurso à violência em favor de uma causa, de várias causas, de todas as causas, de qualquer causa, e é a essa banalização da violência que estamos a assistir. E muitos, a aplaudir.

O Brasil está na encruzilhada entre civilização e barbárie. Não há terceira via. Precisa definir sua identidade.

O Brasil está nutrindo posturas autoritárias no seio dos seus movimentos sociais e em manifestações públicas. Autoritárias e criminosas. Movimento social sempre foi uma luz para novas formas de mudança para uma sociedade melhor. Essa luz está se apagando.

O Brasil precisa emancipar-se do seu viés autoritário e pensar caminhos mais inteligentes que não flertem com – nem se traduzam em – barbárie.

O Brasil tem o que aprender com “A Viagem do Beagle”:  por não ter alternativa, o baiacu constrói seu caminho para a liberdade por dentro da estrutura que o devora.

Caio Leonardo 22 de outubro de 2013IMG_1532

22 de outubro de 2013

Outras portas da percepção

“Il faut être absolument moderne”, bradou Baudelaire famosamente. Hoje, século e meio de pois, ainda é impossível ser totalmente moderno. Em tudo há o peso de todos os séculos. Digo eu, nada famosamente, sobre o viver no século 21:

“Il faut être infatigablement curieux”.

É preciso ser curioso. Querer saber. Perguntar. Procurar. E mergulhar nos caminhos que a curiosidade abre.

Aberta a porta para a curiosidade, esquecer qualquer objetivo, qualquer foco: deixar-se ir e apreciar a paisagem que surge enquanto as descobertas se sucedem.

A melhor maneira de sair do mundo imposto pelas circunstâncias, de sair da rotina do trabalho, da casa, da cidade, dos amigos, é deixar-se ir sem rumo para dentro do conhecimento. A cada coisa que chame a atenção, parar e olhar dentro; e, de dentro do dentro, entrar ainda mais fundo; ou sair e abrir a próxima porta, caixa, liame, sítio.

A internet permite esse passeio caótico e enriquecedor. As ruas de uma cidade desconhecida, também. Donde, viajar. Viajar também pela própria cidade. Ao redor do próprio quarto, como Xavier De Maistre.

Outro dia, fui ao Pólo Sul. Lá, encontrei a Baía do Paraíso, que é mesmo paradisíaca. De lá, passei pela estonteante Coronation Island, que me levou às Ilhas Sandwich, cujo nome me levou a caças à raposa na Inglaterra, que me levaram a Manor Houses, que me transportaram à Irlanda, onde fui passear pelo Liffey, que me lembrou Joyce, que me deixou em Trieste com Italo Svevo, que me abriu caminho para descer pela Bota e assim, em menos de uma hora, eu havia saído do Pólo Sul e estava em Roma, louco de vontade de ser Mastroianni diante de Anita, o que me remeteu à memória de quando estive, em julho passado, na companhia de Alexandre Olive, ele mesmo uma descoberta no caminho de outras descobertas: Alexandre me apresentava a vista espetacular do SkyLounge do DoubleTree Hilton, quando, diante dos nossos olhos muito abertos e muito curiosos, surge uma figura icônica recostada na altíssima empena cega do nieuwe filmmuseum, que se chama, muito apropriadamente, Eye. Estava lá uma improvável Anita Ekberg, imersa na inevitável fontana di Trevi, porém emergindo gloriosa, absurda, em meio ao estuário do porto de Amsterdam. Para quem ousasse ver. Para quem tivesse tido a curiosidade de olhar.

Anita in the Eye
Anita in the Eye

Da Indignação ao Ridículo

A indignação baseada na intolerância e nessa sua rima insolúvel, a ignorância, resulta no ridículo.

O Brasil não está perdido: o trabalho de arrumar a casa é que é longo, cansativo e cheio de obstáculos. Quem olha o Brasil de dentro da floresta só vê o cipoal, não enxerga a vereda, o caminho que está sendo trilhado. Um caminho doloroso, espinhoso, mas que precisa ser trilhado.

Esquece que nunca ninguém sequer foi julgado, como está sendo, no STF.

Esquece que, por nunca ter sido julgado, ninguém jamais havia sido condenado antes. Agora temos condenação.

Pior do que esquecer, ignora que os tais embargos infringentes não querem dizer impunidade, que seu alcance é muito restrito e que seu acolhimento colocou o Brasil num patamar de civilização que, bem, que o brasileiro médio ainda não alcançou. O brasileiro médio ainda quer a barbárie, a tocha na mão, o esquadrão da morte.

Esquece que julgamento não é jogo de futebol, 90 minutos e acaba. Julgamento tem rito e envolve respeito a direitos: uma garantia para todos. Esquece que esses direitos não valiam de nada há até bem pouco tempo: agora, valem. E é para valerem, mesmo.

Ignora o que é viver num País civilizado, porque nunca viveu num antes: o Brasil sempre foi um fim de mundo. Para tornar-se civilizado, é preciso fazer valer a lei. E é isso que está acontecendo agora. Ser civilizado dói. Exige postura e retidão. E quem aí cuida de postura e retidão? Quem aí teve compostura na sua reação à decisão do STF?

O Brasil está mudando. Crescendo. O Brasil tem apenas 25 anos. O Brasil nasceu em 1988, com a nova Constituição. É um sujeito que acabou de sair da adolescência, está entrando na fase adulta, tem cabeça de menino e corpo de homem, cheio de energia, cheio de razão, mas ainda não sabe nada da vida. Não sabe nada do que é ser adulto, gente grande.

É preciso dar esse desconto às atitudes dos brasileiros nas redes sociais. Mas é preciso, também, dizer claramente: com esse acúmulo de leituras equivocadas do que acontece no País, o brasileiro está se portando de um modo ridículo.

O brasileiro conseguiu transformar a indignação, que era uma arma, numa fantasia ridícula.

E não entendeu até agora por que o resto do mundo olha com admiração o que acontece aqui, enquanto quem está aqui é convencido de que está tudo errado, tudo perdido.

Quem está aqui, olha a floresta de dentro e só vê cipó. Quem vê a floresta do alto, quem vê de fora, quem enxerga o processo em perspectiva histórica e não histriônica, e não no vai-da-valsa dos comentadores: esse, sim, vê um Brasil novo.

No espelho que reflete a imagem desse jovem de 25 anos, que é o Brasil, há quem só veja espinhas, há quem veja o temor pelo futuro incerto.

E há quem veja o quanto ele cresceu, e se preocupe em oferecer a ele uma boa formação, que se ocupe de participar da construção do seu futuro, para além do medo e da intolerância com seus modos de jovem ainda cheio de defeitos.

Esse jovem Brasil não é um impávido colosso que acabou de acordar. É, antes, um jovem tentando encontrar seu caminho, com todas as dores da juventude que enfrenta a vida adulta.

Caio Leonardo

*ilustração: montagem obtida da página no Facebook de Leandro Rodrigues, em cima de foto de “atrizes indignadas” que circula pelas redes sociais

36 Views of the Moon & Venus on September 8, 2013

Moon&Venus

O crescente tira a estrela,
na varanda,
pra uma dança.
Ela se recolhe,
Ele avança.
E eu aflito, me pergunto:
Será que a mão dele
a alcança?

Caio Leonardo, 8 de setembro de 2013
Imagem: desenho usando ZenBrush by Caio Leonardo, aprés la Lune et Venus d’aujourd’hui.

O Dízimo e os Césares

Pentecostais têm projeto político explícito. E agora, publico.  Nunca no Brasil, nem na Colônia, nem no Império, muito menos na República, religiosos organizaram-se pela tomada de Poder como hoje o fazem os pentecostais. A religião outrora predominante, a católica, exercia seu poder pelas relações que mantinha com o “poder secular” ou “Poderes Constituídos” – o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Nunca houve uma busca por exercício direto de Poder pela Igreja Católica no Brasil. Nem por qualquer outra denominação.

O que está em curso hoje é diferente de tudo que já houve, em termos de relação Estado e Religião em nosso País. Os pentecostais, que já contam com uma bancada poderosa no Congresso Nacional, planejam aumentar em 50% sua representação; mas almejam o “milagre” (palavras do Pastor Feliciano) de um aumento de 100%, “para que possam conter propostas ‘progressistas’ que são contra a família”.

Isso é novo no cenário político. É o fim do “A César, o que é de César”. Para os pentecostais – ou “evangélicos” – o mundo de Deus já não basta: eles querem exercer Poder sobre o mundo dos Homens. Aqui. Agora. No Brasil. Não lhes basta ser pastor de almas: querem conduzir o País.

Os pentecostais tornam-se, com esse plano tornado público e explícito, a voz conservadora mais organizada no espectro político brasileiro atual. Com condições de se tornar uma força política incontornável a partir de 2014, quando um novo Congresso será eleito. Hoje, Dilma já faz concessões largas à chamada Bancada Evangélica. Se bem sucedido o plano urdido sob a liderança do Pastor Feliciano e do Pastor Malafaia, essas concessões já não serão mais pontuais. Estarão no centro do Poder.

E esse é um plano à prova de Reforma Política. O desejado Financiamento Público Exclusivo de Campanha, por si só, não impedirá o abuso de poder econômico por parte desse grupo. Os cultos seguirão podendo ser usados para passar mensagens políticas, ainda que subliminares, e nada impedirá – se não sobrevier impedimento legal com a mesma reforma – que os dízimos sigam nutrindo candidaturas alinhadas com esse projeto de Poder.

Os pentecostais formam, quando unidos, uma organização lastreada em recursos econômicos e financeiros infindáveis. Se tributos devidos a César continuam devidos por pentecostais; o mesmo não ocorre com o dízimo, que é fiel e rigorosamente pago aos homens de Deus.

E é com esse dízimo que os homens de Deus planejam tornar-se Césares.

O Brasil, sem se dar conta, engendra em seu meio político o equivalente tropical de algo como a Irmandade Muçulmana, de momentosa trajetória catastrófica no Egito de hoje.

À falta de mullahs, o discurso conservador com lastro religioso cresce em força política seguindo a palavra dos pastores evangélicos.

Demolalia Eventual, o Surto

E depois da democracia representativa, mas antes da plena democracia participativa e bem diferente de uma democracia direta, o Brasil inventou a DEMOLALIA EVENTUAL, um fenômeno sociológico em que pessoas (que chamam a si mesmos de “o povo”, mas que são a classe média de sempre, não a emergente ou estatística) movidas por eventos criados aleatoriamente via Facebook, vão às ruas falar e falar e falar. Da mesma forma que se auto autodeclaram “povo”, os demolálicos eventuais também se autodeclaram recém-acordados e investidos de algo que chamam de consciência política, quando, na verdade, passaram a sofrer de um distúrbio psicossocial coletivo, que os leva a repetir (donde “lálicos”) qualquer coisa que lhes seja lançado em posts, videos e fotos publicados no mesmo Facebook.

Surgiu nas redes sociais, foi para as ruas, voltou das ruas, celebrou nas redes, alimentou-se nas redes e voltou para as ruas a cada novo evento, e assim tem sido a rotina do demolálico eventual desde que seu surto tomou o lugar do MPL – Movimento Passe Livre, a primeira e última voz com uma organização, uma agenda e um propósito a tomar as ruas, em fim de maio de 2013. Estamos em começo de julho, e o surto continua, com os mesmos sintomas.

Nessas idas e vindas, o demolálico eventual procura avidamente um discurso com que possa estabelecer um diálogo com um interlocutor, mas o discurso não se articula, donde o diálogo não ter início, também porque o interlocutor segue indefinido – isto porque ninguém o representa, em seus eventos não há líderes, não há agendas, não há nem institucionalidades, tampouco desejo de compor com ou instituir novas institucionalidades: falam e falam, de si para si, movidos por… eventos.

Espera-se que este começo equivocado e perigoso – porque apropriável por qualquer discurso mais articulado – resulte num aprendizado político que ofereça uma agenda alternativa à definida pela sociedade política. Nada indica que isso vá acontecer ou esteja em gestação. Todos estão contentes em repetir o último post com alguma mensagem panfletária. Contra o que quer que seja.

Dizem que o (demolálico eventual é um) Gigante (que) acordou. Se é assim, ele ainda está cambaleando de sono, sem saber onde está, como foi parar ali ou para onde vai.

O DEDO REVOLTADO

Ouve-se repetidamente na cobertura pela imprensa brasileira e internacional, e agora pela boca do próprio ministro Gilberto Carvalho, a quem cabe precisamente a articulação com movimentos sociais, que ninguém sabe definir de onde veio esse movimento que tomou as ruas. Estranho, porque a origem não é segredo. Está no Movimento Passe Livre – MPL. Mas… o que o MPL fez para ter o efeito que conseguiu? A resposta é: ele meteu o dedo no botão “post”.

Uma novidade consabida do MPL é ele não estar alinhado com sindicatos, nem com partidos, menos ainda com ONGS. Mas há quem, parece, não deu a devida atenção ao fato de o MPL estar, sim, alinhado com movimentos similares, que protagonizaram mobilizações em várias partes do mundo, embora com agendas mais urgentes e relevantes do que a que o MPL escolheu para debutar no Brasil. O MPL acompanhou o Occupy Wall Street, os Indignados, a Primavera Árabe e outros protestos de impacto global. Estudou seus métodos de organização, articulação, mobilização, comunicação e ação e reação nas ruas. Notou que nenhum desses movimentos tem líderes, que são extremamente ágeis e articulados, capazes de gerar mobilizações com grande rapidez, intensidade, extensão e impacto – e todos têm em comum a organização e a tomada de decisões, ora a partir, ora por meio das redes sociais.

As redes sociais estão no óbvio cerne de tudo que se passa no Brasil relativo aos movimentos de massa de junho de 2013.

O conhecimento adquirido pelo MPL nesses contatos ou nessas observações aparentemente incluiu estratégias de defesa dos manifestantes, que se veem repetidas nas imagens de diversas, dezenas de ações desses grupos cobertas pela mídia.

Essa relação à distância entre MPL e outras “redes de mobilização social” evoluiu, no nosso País, para a estruturação de uma organização interna horizontal, ou seja, sem líderes, sem sujeição a qualquer ente externo, portanto apartidária, e constituída, faute de mieux, em torno da temática da mobilidade urbana. Em vista da identidade pontual de agendas (e de público), duas bandeiras partidárias aproximaram-se mais evidentemente do MPL, sem jamais terem conseguido obter hegemonia ou qualquer coisa parecida com controle ou ascendência sobre tomadas de rumo e decisão – são elas o PSTU e PSOL. Suas bandeiras viriam a ser proibidas em todos os futuros protestos protagonizados ou gerados pelo MPL.

Estabelecida a pauta e os meios, era hora de ir às ruas, testar seus músculos. Verificar se, no Brasil, obteriam o mesmo sucesso dos seus semelhantes.

O MPL vinha atuando já havia algum tempo contra aumentos em tarifas de transporte público, com sucesso nalgumas cidades, até que adveio o aumento em São Paulo, capital.

O MPL foi novamente às ruas, com o seguinte modus operandi mais aparente: Articulou-se por meio das redes sociais; angariou ali simpatizantes; marcou dia e hora;  mas definiu o local e o itinerário em cima da hora, para despistar a polícia. Teria dado orientação sobre como proceder ou reagir? Um bom público compareceu.  Sempre muitos mais do que seus membros “nucleares”.

Sua primeira performance surgiu para a opinião pública via mídia como a de um grupo raivoso, agressivo, pronto para confronto com a polícia e com arroubos de ataques a patrimônio público e privado.  Foram registrados vários atos  definidos, em uníssono, como vandalismo pela imprensa, pelo Governador do Estado de São Paulo e pelo prefeito da Capital. Vozes (se não há líderes nem quem porte a voz do movimento, como chamar quem fala por eles, senão espectralmente de “vozes”?)  negaram ter agido com agressividade ou violência. Outro dado relevante para o que viria a ocorrer em seguida: policiais foram feridos nesses confrontos. Transeuntes, também.

Neste ponto, a opinião pública parecia francamente contrária ao movimento. O governador os qualificou de baderneiros e prometeu reação enérgica de sua polícia. O prefeito afirmou que as reivindicações eram ilegítimas, porque, em campanha, fora prometido que o aumento de tarifa seria abaixo da inflação, e assim havia sido feito. Foi posto em evidência que a demanda dos manifestantes era contra um aumento de 20 centavos – um vintém. A legitimidade do movimento estava questionada. Sua autenticidade, também, dado o extrato social aparente dos manifestantes, que não indicava origem condizente com quem sofresse com o aumento; mas igualmente porque a insurreição contra o aumento não se repetia na periferia, nos bolsões onde a massa de usuários de transporte público se encontrava e se encontra.

Aqui, falo na primeira pessoa. Critiquei o movimento, nas próprias redes sociais, por essa inautenticidade e por estar gerando uma onda sobre a qual não tinha controle, nem de conteúdo (Sua pauta de reivindicações resumia-se à revogação do aumento de 20 centavos), nem de forma (Pacífica? Confrontacional? ), nem de extensão (Quem participa? Se todos, como manter ordem unida sem liderança?), nem de interação com a política institucional (Apartidários, pareciam também rejeitar interlocução com tomadores de decisão: não negociavam). Critiquei, ainda, a ingenuidade de seu apartidarismo: o serem apartidários não tornava apartidário, muito menos apolítico o ambiente em que as manifestações estava ocorrendo. Ora, a praça era São Paulo, esquina do PSDB com o PT,  o ponto de maior fricção política nacional nessa quadra histórica.

Naquela primeira hora,  prefeito falou aos que nele votaram, como se tais eleitores fossem se lembrar da promessa de campanha, mantida, e que agora usava como razão para não atender ao pedido de revogação do aumento de tarifa. Ninguém deu ouvido a ele. Já o governador politizou noutra direção: diferentemente do prefeito, demonstrou ser conhecedor do seu eleitorado, definiu os manifestantes como baderneiros e vagabundos, e soltou a polícia sobre eles, para regozijo dos seus seguidores.

Mas a jogada política do Governador não foi longe, porque longe demais foi sua polícia. No protesto seguinte, reprimiu com muita violência tanto os manifestantes, como a imprensa e quem mais entrasse na mira de suas balas de borracha.

As redes sociais, a esta altura, já estavam espumando de ódio e indignação, como de costume. E como de hábito, tanto à esquerda, como à direita. Mas havia um fato novo. A diferença é que alguém havia aberto as portas das redes sociais. As portas para a rua. A hidrofobia típica das redes sociais (brasileiras?) estava liberta do jugo dos teclados. Os dedos estavam livres para, se quisessem, apontar outros horizontes, que não o do QWERTY.

Vozes da classe média – essa que por excelência se expressa raivosamente nas redes sociais, à esquerda e à direita – levantaram o tom, insurgindo-se contra a violência policial. Lembraram a repressão histórica da ditadura. Agora, eram pais lembrando-se de si mesmos nas ruas sob o cassetete dos últimos estertores da ditadura. Ver “gente como a gente apanhar” da polícia sem qualquer “critério” era inadmissível para aquelas pessoas. E lembraram-se das ruas.

As manifestações seguintes foram crescendo, nutridas por duas outras mudanças no que originalmente era o movimento: (i) sua pauta diluiu-se em dezenas de outras – primeiro, em autodefesa, para justificar que “a luta não era por 20 centavos”; segundo, por apropriação de seu sentido  e extensão por aquelas outras vozes das redes sociais, nada articuladas, que apenas têm por rotina brigar virtualmente; (ii) como não há líderes no MPL, então qualquer um é seu porta-voz, e assim, aquele movimento surgido da crise das representatividades, passava a correr o risco de não mais ser o representante de seu próprio movimento.

Foi então que se chegou a 17 de junho de 2013.

250 mil pessoas Brasil adentro, em manifestações de todo tamanho e com qualquer pauta. Uma catarse em escala nacional contra todo tipo de grito preso na garganta. Gritos, no entanto, nada presos nas redes sociais, mas que agora se repetiam nas ruas. Uma grande feijoada. A tensão virtual trocada em miúdos, num banquete pelas ruas.

17 de junho marcou dessa forma o transbordamento dos discursos de insatisfação, antes contidos nas redes sociais, para dentro das ruas, praças, avenidas, pontes, estaiadas ou não. Palácios.

17 de junho também viu o MPL tentar um retorno tático à sua pauta original. Agora, vozes (anônimas) passaram a insistir que a pauta era a revogação do aumento e que é sobre isso o movimento.

Mas São Paulo não era mais dona do movimento. O movimento estava pelo País todo, sem cara, nem agenda definidas. Nele já cabia e cabe qualquer coisa. Um portmanteau reivindicatório, sem rumo, nem objetivo. Catarse social. O líquido pastoso dos confrontos comportamentais  no Facebook e no Twitter escorreu pelas ruas. E ninguém nos palácios, nem nas redações, a entender o que se passava. A mídia internacional misturando tarifa de ônibus com Copa do Mundo – uma interpretação da mesma forma válida como qualquer outra, no que reflete a diluição do discurso e do movimento.

Na sua incepção, o que havia era apenas isto: um experimento de organização social em rede, que saiu do controle de quem o concebeu e acabou por gerar uma catarse social gigantesca.

Porém, essa catarse é apenas um dos efeitos colaterais da experiência do MPL.

Com base no que se aprendeu esses dias com o MPL, “todos” que têm um perfil em qualquer rede social estão em condição de gerar um protesto em praça pública, sob qualquer pretexto, basta saber ser sedutor ou, talvez mais ainda: ser aberto a um discurso de insatisfação detectado na rede. Não há nada de mais fácil do que fazer isso. Basta olhar os “trending topics”. Ou gerar um “hashtag” com apelo adequado. Ou criar um “evento” e, nele, abrir um menu para que os convidados escolham contra o que querem protestar.

No ambiente em rede, o “protesto” passou assim a ser um “evento”; o cidadão, um “perfil”; o “manifestante”, um “convidado” e “a pauta de reivindicações”, um “menu” que pode ser preenchido pelos que “acessem a página” (em lugar da dinâmica de “participar de assembleia”). O  “grupo” toma o lugar do “partido”, do “sindicato”, da “ONG”) . Um role-playing game – agora em cartaz nas ruas de sua cidade.

Foi precisamente assim que se organizou a manifestação feita em Brasília, no mesmo  17 de junho. Sem nem mais um grão de sofisticação. As TVs que cobriam o “evento”, ou “protesto”,  na Esplanada dos Ministérios, expunham com horror que os manifestantes haviam “invadido o Congresso Nacional”. Quem quer que não tivesse conhecimento de como o “evento” fora organizado poderia ficar sinceramente receoso de um golpe de Estado. Mas para saber que não era nada disso bastava digitar “Marcha do Vinagre” na área de pesquisa do Facebook e entrar no “evento” de mesmo nome.

Ao entrar no “evento Marcha do Vinagre”  (referência aos protestos em São Paulo, em que manifestantes usaram vinagre para mitigar os efeitos do gás lacrimogêneo, mas chegaram a ter o produto recolhido pela polícia) o leitor logo perceberá que essa marcha nasceu e morreu sem pauta, sem agenda, sem objetivo, senão a manifestação pela manifestação: o que houve em Brasília foi a expressão máxima do processo em curso de fetichização do protesto. O protesto tornado coisa, a partir de matéria virtual. Uma condensação de fetiches virtuais.

O fato de estar ocorrendo a fetichização do protesto não o torna menos preocupante. Um protesto pelo protesto ainda é um protesto. E uma multidão mobilizada por nada, sem objetivo e sem causa – ou com todas as causas, o que dá no mesmo – é muito preocupante, por ser incontível, incontrolável e com ela é impossível negociar.  Um protesto como a Marcha do Vinagre é intrinsecamente um impasse entre o ser e o não ser protesto. Sua falta de liderança se desdobra facilmente em acefalia. E, sem cérebro que o pense, a porta se abre à barbárie. Nada de mais grave aconteceu no Congresso Nacional, porque as “forças de segurança” souberam deixar o grupo exaurir seu desejo de expressão, perfazer sua catarse, e… ir embora.

Enquanto isso, no 17 de junho de São Paulo, a multidão, em mitoses sucessivas, dividiu-se em quatro grandes passeatas. Uma delas ficou sem ter o que fazer, senão posar para belas fotos na Ponte Estaiada. A que se dirigiu à Paulista dispersou-se pacificamente, tal como a que ficou pela Faria Lima. Porém, os que se desgarraram para o Palácio dos Bandeirantes chegaram lá sem cérebro, sem pernas, com fome e sem saber o que fazer.

Os de Brasília foram indo embora debaixo dos pratos do Congresso Nacional, como quem acorda de ressaca sob a mesa e  nota com dificuldade que a festa acabou. Os do Palácio dos Bandeirantes, parece que ficaram esperando que alguma coisa importante acontecesse, mas não.

Nenhuma catarse dura para sempre.

Anda bem o núcleo do MPL, no que quer resolver logo o problema da tarifa de ônibus. Para encerrar esse capítulo, antes da diluição total do seu movimento. Mas o dano da apropriação do movimento é atual. Grupos sem compromisso com a agenda do MPL vêm praticando atos de vandalismo contra prédios públicos, palácios. Não há qualquer garantia de que, atingido o objetivo de revogação do aumento de tarifa, outras bandeiras mantenham grupos nas ruas, do tamanho que fortuna e virtú lhes proporcionar.

Fica portanto o lerta: a partir de junho de 2013, o Brasil está sujeito a mobilizações em massa por qualquer motivo ou sem qualquer motivo. Bastará um dedo revoltado que, tendo usado a fórmula mágica da condensação de revoltas virtuais, resolva clicar em “post”. Como lidar com essa capacidade nova de mobilização? O que pode advir disso? Que dinâmica isso gerará nos processos eleitorais de 2014? Que interlocução será possível e conveniente com essas dinâmicas?

E principalmente: como tornar isso instrumento de cultura e não de barbárie?

Os dedos estão lançados.

 

Caio Leonardo

18/19 de junho de 2013

21 de Dezembro, o Solstício

copernicus1-1Persas e hindus celebravam em nome de Mitra a vitória do sol sobre as trevas, no solstício de inverno, o dia mais curto do ano, 21 de dezembro no hemisfério norte. Essa é a mesma data em que os celtas celebram o Sol Criança, e crêem ter sido a data de nascimento do rei Arthur, no castelo de Tintagel, daí a celebração de Alban Arthuan (“a luz de Arthur”), uma das quatro “luzes” (Albans) em que se divide o ano celta.

Com Aureliano, os romanos passaram a celebrar o Deus Sol Invictus, inspirados no mitraísmo, pela mesma razão solar, porém em 25 de dezembro. Constantino, o imperador que tornou o cristianismo a religião do Império Romano, antes disso cunhava suas moedas com a efígie do jovem e imberbe Sol Invictus. Há quem sustente que vem daí os cristãos celebrarem o nascimento do deus feito homem em 25 de dezembro. Em 25 de Kislev (não exatamente dezembro, mas esses meses não raro se sobrepõem) os judeus celebram o milagre do óleo, que queimou miraculosamente não por um, mas por oito dias na menorah do Templo após a sua liberação por Judas Macabeus.

As festas em torno do solstício inspiraram o Natal; e o Natal norte-americano tem em alguma dose influenciado, desde o advento do Sionismo, a festa do Hannukah, com crianças recebendo presentes, em vez da tradicional gelt, ao cabo do oitavo dia de celebração, entre queijos e vinhos, em homenagem ao triunfo de Judite sobre Holofernes.

Seja pela religação com os astros, seja pela religação com seu deus, seja pela religação com seus ancestrais, seja até mesmo só por haver motivos alheios para festa: celebremos, cada um a seu modo, esta época do ano – porque todo rito de passagem serve a dar sentido à vida.

Feliz Natal. Gmar chatimah tovah. Que a luz vença as trevas.

Caio Leonardo, em 23 de dezembro de 2008
XmasLights

Mais do Mesmo, Antes do Fim de Tudo

O fim do mundo já aconteceu talvez mais vezes do que as pre-visões que fazem a graça de estar vivo neste fim… de ano. O zunzunzum em torno de 2012 é um patrocínio das redes sociais e de um gosto pelo banal, por qualquer ideia mal formada, porém repetível até o absurdo, adquirido pelas mídias desesperadas por sobrevivência num mercado sempre mutante – no caso delas, para o mal ou, mais hodiernamente, para o fim. O mundo em que as mídias tradicionais surgiram, de fato, acabou. O novo mundo da revolução tecnológica oferece-lhes um piso móvel, viscoso, oblíquo, de comportamento caótico, o perfeito oposto à certeza bucólica da banca da esquina. Essas mídias contam agora com a fascinação que a leitura escatológica do calendário maia possa exercer sobre leitores.

Praticamente todos os meios de comunicação vêm divertindo seus leitores com o “fim do mundo”, um tal que ninguém nele acredita, a ponto de várias empresas usarem a coisa como mote de publicidade de seus produtos. Festas estão sendo marcadas para celebrá-lo. Uma cidade na França está cercada pela polícia, por causa do abrigo ali feito para agasalhar os apocalípticos.

The Economist, a venerável revista inglesa que os brasileiros aprendemos a odiar, semana sim, semana não, conforme o tratamento que dê a este nosso Gigante recem-acordado, aparece desta vez com o gráfico abaixo, que mostra umas tantas predições malogradas de fim de mundo:

Fins do Mundo

Pois bem. Esta é a má notícia: o mundo vai, mesmo, acabar. É inexorável. Pode acabar ainda hoje, 20 de dezembro de 2012, basta que uma descarga de raios gama, vindo dos confins da galáxia, atravesse e reduza a nada nossa atmosfera e tudo o mais que aqui existe. Para que um grande asteróide choque-se com o planeta, pelo menos até agora, basta que ele exista e venha em nossa direção, o que só será percebido pelos nossos bravos cientistas uma ou duas semanas antes do impacto. Se uma coisa ou outra não acontecer, um dia certamente o sol morrerá. Muito antes disso, terá engolido os três primeiros planetas do seu sistema, nosotros inclusos. Isso tudo bem sabemos quase todos.

Agora chego com a ladainha ambiental. Bem antes de o sol engordar, terão acabado na Terra o ferro, o hélio, o silício, o granito, o mármore; a diversidade biológica, o atual patrimônio genético; talvez as montanhas todas terão sido reduzidas a montículos, depois da extração de tudo que nelas se contenha; a água doce natural; e o que mais se possa agregar nessa conta de tudo o que o homem (e a mulher) extraem da natureza – tudo feito e desfeito, quem diria?, como se não houvesse amanhã.

A lenga-lenga ambiental é o grande calendário contemporâneo de um “fim do mundo” causado pelo homem. Porém, nem mesmo a mais correta agenda ambiental impedirá a consumação dos dias, porque assim é o universo, percebido já por Fernando Pessoa, na sua Tabacaria:

“Ele [o dono da Tabacaria] morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.”

Qual a conclusão disso tudo, o carpe diem? Bem, façam como preferirem. De minha parte, sigo essa mesma filosofia do Pessoa via Álvaro de Campos, e o faço mais por concordância do que por adesão:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Que isso quer dizer? Que a vida não tem sentido, apenas direção – e ela dirige-se para a morte. Todo o resto é construção da imaginação humana. Usar a imaginação para viver bem, lançar um olhar generoso e de veneração a tudo quanto existe, vivo ou não vivo; oferecer um legado, em lugar de deixar uma lacuna: Isto bastará, mas não terá sido fácil.

 

Caio Leonardo, um dia antes

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker

Aqui, um complemento ao comentário sobre a lista dos Melhores Livros de 2012.

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker.

No liame acima, Você encontrará a crítica de James Wood a Hilary Mantel, publicada pela New Yorker. Wood demonstra o porquê de Mantel merecer a atenção que tem tido:

“As a novelist, Mantel has the maddeningly unteachable gift of being interesting.”

Baci,

Caio Leonardo