Mural da História

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Estamos em 1947 pelas lentes da Life. Plínio Salgado, Gaspar Dutra, Harry Truman: o “trio fascista” surge em muros empastelados pelos comunistas de Prestes, numa São Paulo que, naquele ano, tinha seu primeiro prefeito negro. Negro e socialista: Paulo Lauro. Mas Socialista com “Ç”, que o dele era o do Partido Social Progressista, nome promissor, mas não comprometido, liderado que era por um certo Adhemar de Barros. Paulo Lauro prefeitou por um ano, nomeado pelo próprio Adhemar. Em 1938, Paulo Lauro havia ganhado fama por ter conseguido absolver o réu confesso do infame Massacre do Restaurante Chinês: Arias de Oliveira, garçom que fora despedido dias antes do acontecido pelo cruel Ho Fong, proprietário do inglório Órion, na Wenceslau Brás. Para Paulo Lauro, alguém que não seu cliente havia distribuído pauladas noturnas noutros dois garçons, em seguida esganado o chinês e, escada acima, sobre a cama do casal, esmagado as vísceras de Akiu Fong, esposa do patrão, que se negara a contar onde estavam o dinheiro e as joias. Assim foi que Arias deixou de roubar, por não achar o cofre, mas matou. Arias foi primeiramente absolvido, o que elegeu Paulo Lauro, mas depois acabou condenado e preso, o que não impediu que, de prefeito, Lauro chegasse a Deputado Federal. 

Adhemar tinha seu lado Arias. Cofre por cofre, os públicos padeceram mais em suas mãos, porém o dele próprio tampouco se pode dizer que tenha ficado intacto como o de Ho Fong. Quanto ao trio, Truman, que fez duo com Dutra em Washington, também era dado a roubos, e matou infinitamente mais orientais do que Arias. Dutra não fez fama com roubos, mas, uma vez pavimentado, passou a matar depois de morto. Dos três pichados, Plínio, que não levou fama com roubo ou morte, era o único fascista à vera.

A nêmesis de Plínio era Prestes, que tinha estado preso, não por roubar ou matar, mas por conspirar, e era então senador. Na foto se lê: “Sem P.C.B. não há democracia”.  Prestes foi cassado no ano seguinte… Seus comunistas, que picharam o muro de ’47, perderam o rumo com a queda do Muro de ’89. Quanto a Plínio, este, discretamente, é mantido vivo pelas mortes e roubos que campeiam em São Paulo, e norteia vitorioso o pensamento majoritário paulistano até hoje.

Os Homens que Queriam Ser Reis

 

Rudyard Kipling narra a estória de dois aventureiros britânicos que planejaram tornar-se reis do Kafiristão, um canto do Afeganistão, munidos de filosofia maçônica e vinte rifles Martini-Henry. Aquilo de os dois não temerem os deuses locais impressionou,  angariaram uma legião de apoiadores. Um deles assumiu o trono. Ofereceram uma jovem em casamento. Ele gostou; ela, não muito: ficou aterrorizada com a ideia de dormir com um deus e, diante de todos, recebeu a tentativa de beijo com uma mordida. O rei-deus sangrou. Foi quando os sacerdotes ao lado gritaram: “Ele sangra! Não é Deus nem Diabo, mas só um homem!”.

Numa Copa já famosa por uma mordida, ontem foi o dia de ver sangrarem aqueles a quem é imposta a condição de deuses. A seleção brasileira expôs para além de qualquer dúvida sua condição humana. Perdeu e perdeu de goleada. E, ao perder de goleada, finalmente se liberta, e da pior maneira, da maldição da Mística da Canarinho, essa que impôs durante décadas a obrigação unicamente brasileira de ganhar, ganhar sempre, ganhar bem e a jogar bonito. Nenhum outro País no mundo exige qualquer coisa parecida com isso de sua camisa. Até a lei, que é a lei, proíbe a exigência de obrigação impossível.

Pois o Brasil sangrou. O Brasil mostrou sua humanidade. “Não sois máquinas, homens é que sois”, grita o lugar-comum inevitável. E o sangue vertido era vermelho, não um óleo lubrificante.

O placar de 8 de julho é, sim, libertador. Confere liberdade para aqueles a quem a carreira alça ao maior dos infernos esportivos – um inferno que há de ter tido seu fim na tarde de ontem no Mineirão, o inferno de ser escalado para envergar a camisa sagradamente maldita da seleção brasileira.

Sagrada e maldita. Sagrada, porque venerada. Venerada por devotos cruéis, que não pedem a seus deuses, mas deles exigem o cumprimento da promessa da vitória e não uma vitória qualquer, mas a vitória com espetáculo. Sagrada e maldita. Maldita, porque aquele que a vestir não pode errar. Se errar, será execrado em praça pública. Barbosa, Zico, Julio César, Felipe Melo.

O placar de 8 de julho é libertador, porque não há como apontar culpado. É um placar maior do que qualquer falha individual, maior do que qualquer esquema tático. Um placar construído, vejam só, por um time superior ao do Brasil. Sim, eles existem! E tampouco eles são deuses. Mas é preciso também dizer que foi um placar construído pelo terror pânico que tomou os deuses ensanguentados ao se virem homens e saberem que suas vidas, a partir daquele momento, seriam infernos para si e suas famílias até o fim de seus dias. Barbosa.

Os 7 gols de 8 de julho libertaram Barbosa. Mas há de libertar também todo e qualquer que tenha usado ou que venha a usar a camisa da seleção brasileira. A Mística da Canarinho foi quem sangrou. Porque a Mística da Canarinho, como toda mística, não passa de crendice. E, nesse caso, de uma crença cruel.

A camisa da seleção brasileira tem história e ontem mais um capítulo foi inscrito nela. O capítulo em que foi deixado claro a todo o Mundo e, em especial, aos brasileiros, que ninguém é infalível e de ninguém pode ser exigido infalibilidade. Sim, lembrem-se de Francisco, o papa: Ele renegou a única infalibilidade vigente.

No conto de Kipling, o homem que queria ser rei, em fuga, despenca de uma ponte de corda que é rompida a golpes de espada pelo povo irado do Kafiristão. O narrador é convencido da estória contada pelo aventureiro que sobreviveu, no que este retira de dentro de um saco imundo uma cabeça ainda coroada, porém decepada.

O Brasil não é o Kafiristão. Tem em comum com ele ser uma terra de crenças equivocadas, é verdade. Mas que 8 de julho de 2014 seja a data da libertação do brasileiro desse torpor coletivo em torno de uma Mística que se desfez diante de um adversário maior. O Brasil sangrou. Viva o Brasil.

Caio Leonardo

A COPA É DO MUNDO!

A COPA É DO MUNDO!

Acabou a repressão. A festa está nas ruas. O mundo a trouxe de fora e o brasileiro foi lembrado de quem é e do que gosta.

A Copa é do Mundo. A apropriação dela pela FIFA e as consequências disso devem ser criticadas, sim. No entanto, não existe movimento global de congraçamento, movimento civilizatório mesmo, que chegue perto do que é a Copa, que é do Mundo.

Vou ver Equador x Suíça. Brasília está coalhada de estrangeiros. Vou ver a festa. O jogo pouco importa. Aprendi isso no voo que peguei segunda-feira (9.6) de Paris para Brasília. Gente do mundo todo no avião, vindo para a Copa que é, Vocês sabem, do Mundo. Atrás de mim, dois ingleses de origem indiana. Vinham para ver… Suíça x Equador.

Tenho direito a acompanhante, coisas de quem rola por aí numa nave espacial. Perguntei à turma do escritório quem queria ir. Diogo Karl é quem vai comigo.

Vamos com autorização para estacionamento especial no vidro do carro. Se me preocupo se vão vandalizar meu carro? Não. É só um carro.

Ninguém vai me reprimir, ninguém vai reprimir minha vontade de participar do maior congraçamento da humanidade.

E vai ser lindo ver uma multidão de suíços e uma multidão de equatorianos como protagonistas da mesma festa. Onde mais isto aconteceria? Onde dois países tão completamente diferentes em todos os sentidos estariam juntos para festejar?

E recebidos por uma multidão de brasileiros, com a participação de ingleses, paquistaneses, angolanos, alemães, italianos.

E com 3 bilhões de pessoas assistindo!

E, no meio disso tudo, num estádio lindo, na Brasília onde moro (e que, 7 anos atrás, exibia um estádio de paróquia), lá estarei eu. E o Diogo Karl.

Blues para Jonas e Jerry

29 de janeiro de 2010, para o filho do seo Raul

Quando meu pai morreu, a missa de 7º dia foi na Matriz de São Vicente. Fiquei de ler a elegia que tinha preparado, mas me atrapalhei com o microfone e ninguém me ouviu, apesar dos cutucões que o padre Paulo me dava, eu todo lá concentrado e inaudível, ridículo e devastado, poeta amador a toda prova. Semana passada, morreu Jerome David Salinger, Jerry para os pouquíssimos íntimos, escritor cujo estilo busco decifrar como um filho a seu pai, imitando gestos, procurando a própria identidade no mestre. Dei de presente dois natais seguidos “O Apanhador no Campo de Centeio” à Maria Antonia, minha sobrinha, coitada.

A notícia da morte de Salinger surgiu à tarde, mas, de manhã, no táxi que peguei no Brasília Alvorada pra ir ao escritório no Brasil 21, vi, no bolso da porta, espremido atrás de um livro que fala mal do Sarney, outro de capa cinza, letras gelo, que diziam “O Ap…” A corrida toda transcorrera em silêncio até ali, silêncio quebrado com a pergunta sobre se alguém tinha esquecido o livro que mostrei . Era do taxista, mesmo. A ideia de o livro não estar perdido, de que havia um leitor ao meu lado, me encheu de uma alegria de nefelibata, que deu lugar ao que sempre se pensava quando se pensava em Salinger: como vai ser quando ele morrer? Há coisas dele escondidas? Continuou escrevendo esses anos todos?

Escrevi para amigos:
“Morreu JD Salinger. O dia que eu tanto temia chegou. Chegou antes da sua reconciliação com a humanidade. Antes de ele permitir que pudéssemos ler mais dele. Salinger foi o mestre consumado da hipotipose e do diálogo natural, superando seu predecessor, F. Scott Fitzgerald. Ninguém o superou até hoje nessas duas artes. A terceira em que era excelente, a construção de personagens infantis. Mas aqui ele tem quem esteja à sua altura: Guimarães Rosa. E só.
E agora? Ele destruiu tudo que escreveu a partir de 1960? Seguiu escrevendo? Morto, não vai mais se incomodar com a leitura acadêmica ou estereotipada que o afligiu ao ponto da reclusão, e terá permitido acesso a um legado escondido? A morte de Salinger é algo como o Apocalipse. Agora vamos saber se o mundo acabou ou se outro é que surgirá”.
Herdei esses exageros da minha mãe, Laura.

Dos contos reunidos em “Nine Stories”, o mais comentado parece ser “A perfect day for bananafish”, mas “For Esmé with Love and Squalor” e “Teddy” é que são meus preferidos: complexas construções narrativas que não deixam entrever os andaimes, as escadas, a carpintaria toda que exigiram para estarem ali, com o frescor das coisas de Salinger.

No Orkut, quem diria, tive acesso a outros contos dele não reunidos nos quatro únicos títulos publicados “oficialmente” em livro; e também a “Hapworth 16, 1924”. Eram raridades. No dia da morte de Salinger, o Twitter ofereceu tudo a todos em poucos minutos. Porém, ainda fica a angústia da dúvida sobre se haverá mais o que ler dele.

O Pira, em homenagem a esse mestre, postou para os Valami Lesz (legendário lista de discussão virtual),o poema “Funeral Blues”, de W. H. Auden. O Pira é Henrique d’Arce, que é de Piracicaba, então está explicado. Estudamos juntos no Largo São Francisco. Hoje, ele mora em Londres e dá aulas de inglês. Nos encontramos em dezembro do ano passado. Tomamos umas “pints”, enquanto eu engraxava botas, num pub barulhento e sujo em Cavendish Square.

Naquela noite, outro taxi nos levou ao Soho. Chovia uma triste chuva de resignação. Dali partimos para um breve passeio pelas memórias de uma Londres fin-de-siècle, feita de Bar Itália e Neal’s Yard; High Holborn e Sarastro, cujo dono sempre me recebia com uma taça de champagne e uma conversa absurda, porque eu não entendia coisa alguma do seu cockney com sotaque cipriota. Fiquei sabendo então que o dono morrera no ano anterior.

No poema de Auden, o autor dispensa as estrelas, manda apagar o céu, embrulhar a lua e desmantelar o sol, porque seu amor morreu. Pira e eu temos, como tanta gente, esse amor por Salinger. Lá entre os Valamis, Pira, que fez aniversário ontem, veio com Funeral Blues para Salinger, mas também para si mesmo, que ele perdeu o pai recentemente. Juntei meu balde despejado ao dele, e postei na lista a tradução que fiz desse mesmo poema. Tradução que li na Matriz de São Vicente, em 1997, como fecho da elegia a Jonas Rodrigues.

Blues de Funeral

Esquece as horas, corta o telefone.

Cala co’um osso o cão e sua fome.

Silêncio ao piano: co’um surdo tambor,

Traz o féretro, deixa entrar a dor.

Sobre as cabeças, aviões gemam sem porto,

Anunciando lá de cima: Ele está morto.

Põe um laço de crepe nas alvas pombas da praça

E note o guarda com luvas negras, aquele que passa.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Meus dias úteis e meu domingo em festa,

Meu meio-dia e a meia-noite, minha prosa e canção;

Pensei que esse amor fosse para sempre; mas, não.

Estrelas não é mais preciso: apaga o céu.

Embrulha a lua e desmantela o sol;

Esvazia o oceano, derruba a mata;

Pois tudo agora não vale mais nada”.

Caio Leonardo, filho de Jonas, leitor de Jerry

29 de janeiro de 2010

BLANCHE, COM DOIS TÊS

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Blue Moon é um drink para dias quentes.  A receita clássica é refrescante – e leve . O que não deixa de ser intrigante, porque, na cena de abertura de A Streetcar Named Desire (em português, ora Um Bonde Chamado Desejo, ora Uma Rua Chamada Pecado), Tennessee Williams faz uma “mulher negra” aconselhar um marinheiro de passagem a não aceitar o Blue Moon do boteco da esquina, o Four Deuces, porque quem o bebia não voltava para casa sobre seus dois pés.

Eli, barman do Gero em Brasília, prepara sua versão com Jack Daniel’s, suco de limão, goma de açúcar e Curaçao Blue ou soda limonada, acompanhados de um cubo de abacaxi e outras citricidades. A receita clássica do Blue Moon é Malibu, suco de Abacaxi, Curaçao Blue (no topo), um splash de Grenadine, maisnum triângulo de abacaxi e cerejas, para decorar.

Devia haver uma versão bem forte desse coquetel, talvez algo com o trocadilhável Tennessee whisky do Eli, na calorenta New Orleans estival de meados dos anos 1940, época em que Williams situa a peça. Sua primeira montagem foi dirigida em 1947 por Elia Kazan, com Jessica Tandy (aos 36! Décadas antes de Titanic) no papel de Blanche Dubois, e um Marlon Brando aos 24 anos, como Stanley Kowalski. Em 1949, no West End de Londres, Vivien Leigh, dirigida por seu marido, Laurence Olivier, assumiria o papel principal, que ela depois levaria para o cinema, fazendo dupla com Brando, ambos pelas mãos do mesmo Elia Kazan.

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Kazan introduziu nas duas versões, tanto a do Teatro, como a do cinema, o naturalismo de Stanislavsky na composição de papéis à primeira vista melodramáticos. Melodrama e naturalismo são opostos, mas Kazan encontrou o tom e a maneira de conferir naturalidade àqueles que se tornaram dois ícones da dramaturgia norte-americana: Blanche Dubois, a Southern belle vitimada por uma tragédia amorosa, destituída de tudo da sua juventude de bem-nascida, entregue a autoilusões, devastada por crises nervosas e pelo álcool, que se refugia na casa da irmã mais nova, tentando conter seu caminho em direção à loucura; e Stanley Kowalski, o antagonista de Blanche, que fará de tudo para proteger dela seu pequeno mundo regado a pôquer, boliche, cerveja, amigos e um amor irascível, desregrado, violento e ciclotímico por sua esposa Stella, irmã de Blanche.

Em 2009, Cate Blanchett foi Blanche Dubois. E o deve ter sido com tamanha força, que Woody Allen resolveu recriar Blanche para que só Blanchett brilhasse, sem um contraponto forte como Kowalski. Verdade ou não, foi assim ou de outra forma que surgiu Blue Jasmine.

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Em sua recriação, Allen estabelece claramente o mesmo conflito entre a mulher sofisticada e arruinada que, em fuga do seu passado e da sua loucura, se confronta com o ambiente rasteiro onde vive a irmã com seu marido grosseirão. Mas Allen faz outras transposições bem mais sutis. Blue Moon deixa de ser um drink a ser evitado e passa a ser a música que não sai da cabeça de Jasmine, trauma relacionado à perda do marido e, com ele, a do mundo glamoroso a que antes pertencia em New York. Na peça de Tennessee Williams, Blanche também é assombrada por uma música que a remete à cena que pôs fim a seus anos dourados em Laurel – a Varsouviana, que dançara com seu marido numa festa, momentos antes de ele tirar a própria vida com um tiro ao saber que ela descobrira que ele era gay. A Motion Picture Association não permitiu essa referência a homossexualismo na versão cinematográfica de 1951.

A peça é toda permeada de jazz, assim também a versão de Woody Allen. Na peça, já embarcada na Nau dos Insensatos, Blanche, que tentara delirantemente enganar a todos em volta, canta imersa na banheira pedaços de Paper Moon, cuja letra diz “não seria faz-de-conta, se Você acreditasse em mim”. A Paper Moon de Williams torna-se Blue Moon em Allen.

“Jasmine”  também aparece no texto original em inglês da peça. Ao ser perguntada por Stella como Stanley havia se comportado na primeira conversa a sós com Blanche, esta responde que ele não é do tipo que cai por perfume de jasmim (“He’s not just the sort that goes for jasmine perfume!”).

Blue… Allen brinca com o sentido de “triste” que essa palavra tem. Na peça, Williams fecha quase todas as cenas dando indicação de que um “blue piano” vem da rua e toma a ambiente (esse efeito de música e sons vindos da rua perpassa toda a peça, mas o “blue piano” é o elemento recorrente). Blue piano. Blue jazz. Blue Jasmine, um triste perfume, o que resta de uma mulher.

Allen também recria a cena em que Williams faz sua anti-heroína apresentar-se àquele que aparece como sendo seu salvador. Allen faz dois jogos interessantes. O Mitch de Williams torna-se Dwight com Allen: dois nomes cheios de consoantes e apenas uma – e a mesma – vogal. O sobrenome de Jasmine é French (francês), enquanto o de Blanche é francês (Dubois). Ambas dão muita importância a essa origem e ambas mentem ao se apresentarem, o que as levará, ambas, à ruína total.

Allen não recria Kowalski, divide-o em dois, reduzindo à metade seu impacto: ele é Augie, ex-marido de Ginger, que perdeu a bolada que ganhara na loteria ao investir com Hal, o criminoso de colarinho branco novaiorquino com quem Jasmine era casada; mas também é Chili, o garotão que namora Ginger. Ambos são apenas uma caricatura do seu arquétipo. Kowalski, a certa altura, assume ser ninguém mas declara-se “rei de sua casa”, “como todo homem”, numa defesa contra o desprezo de Blanche por ele. O grande projeto de Chili é bem diferente e emasculado: a casa em jogo não é dele, ele quer morar na casa de Ginger, mas a chegada de Jasmine põe tudo em risco. Já Augie só quer saber de remoer a perda da bolada. Ginger não é, de modo algum, a subserviente Stella (dois nomes de bebida…). Stella aceita tudo de Kowalski; Ginger trai Chili, que volta para ela submisso mesmo depois de traído, atitude que seria impensável para Kowalski. Há uma enorme tensão sexual entre Blanche e Kowalski, que atinge o clímax na cena antológica que se resolve num estupro velado. Chili nem sequer merece maior atenção de Jasmine, cujo foco é encontrar sua salvação noutro homem, um bem de vida. Aqui, Allen contraditoriamente faz a trama perder em profundidade dramática para favorecer a performance de Blanchett.

Allen transpõe a estória da Costa Leste para a Oeste; de New Orleans para San Francisco. De uma cidade moralmente decadente para uma cidade financeiramente arruinada pela crise econômica mundial. De Leste a Oeste, em Williams e em Allen, os “residentes” estão acomodados às suas circunstâncias. São as “forasteiras” Blanche e Jasmine que buscam, na sua loucura gerada pela queda da “alta sociedade”, instilar o desconforto e impor seu modo de vida. As duas, sem sucesso.

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Williams criou um papel feminino fortíssimo, emblemático, arquetípico, ainda num mundo dominado por valores e personagens masculinos. Allen transpõe esse papel para um mundo em que a mulher é posta no centro de toda e qualquer narrativa. Quando surgiu no papel de Kowalski, Brando, ao estabelecer a então nova abordagem metodológica na composição da personagem, instado por Elia Kazan, causou uma convulsão estética na Broadway do pós-guerra. Na versão de Allen, cabe ao homem o papel de boçal, cumprido por um perfeitamente esquecível Bobby Cannavale.

Cate Blanchett, “the outstanding actress of our day” (epíteto atribuído a Vivien Leigh), impõe uma assustadora carga expressiva à sua Jasmine, uma atuação que vai marcar sua carreira como um ponto alto difícil de ser superado – por ela e por toda outra atriz viva. Blanchett é Blanche, superlattivamente.

Allen, no entanto, talvez maravilhado – quem não? – com sua estrela, perde o controle da direção em algumas cenas. Em especial, a da chegada de Jasmine de volta à casa de Ginger depois de ser abandonada por Dwight. Seu desenrolar é artificial, não se sustenta com Ginger e Chili tendo todos os elementos diante de si para perceber que algo está muito errado com Jasmine, mas… não interagem com a loucura dela.

Outro sinal dos tempos é a cena final. Williams dá a Blanche o destino que era dado aos loucos em 1947: a internação. Allen dá a Jasmine o fim que Foucault legou aos loucos: a praça.

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Blue Moon, a música que atormenta Jasmine, tem melodia de Rodgers e curiosamente recebeu três letras de Hart, para três diferentes projetos cinematográficos, nenhuma delas publicada, tudo antes de chegar à versão que hoje é um standard. Eric Clapton e Rod Stewart incluíram, nas suas interpretações, alguns versos que não constam das mais clássicas, cuja última linha diz:

“Life was a bitter cup for the saddest of all men” (“A vida era um copo amargo para o mais triste de todos os homens”). Num tempo em que homens dão lugar a mulheres, eis um verso que resume Blanche e Jasmine.

Caio Leonardo

Ave Palavra: Grogoló

caburé

“No Paranoá,

o grogoló da barragem

bole o caburé”

caio leonardo

_______

Grogoló é um hapax legomenon, ou seja, um termo que ocorreu (foi registrado) uma única vez – neste caso, não apenas uma única vez num determinado texto ou numa obra específica (o que bastaria para fazer dele igualmente um hapax), mas sim uma única vez em toda a história da língua portuguesa. Uma busca no Google não registra seu uso. Mas o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo atravessa “grogoló” entre “grito” e “grogue”, página 693. É ali que está dito que grogoló apareceu uma única vez em literatura romanceada (LR); e ainda oferece este contexto saboroso:

“O ermo como que alargado com o trilili dos grilos, com o sapear da saparia e o grogoló da enxurrada crescia na grota”. 

Grogoló é, claramente, uma onomatopeia. Substantivo masculino, significa “som produzido por água que corre aos borbotões”. Com o haikai acima, grogoló não muito gloriosamente deixa de ser um hapax, digamos, absoluto. Ainda não está a salvo do oblívio, porque deste não está o próprio ignorado autor deste blog. Porém, um passo torto adiante foi dado para que grogoló volte à vida.

Salve uma palavra do esquecimento. Use-a.

Caio Leonardo

imagem: http://blogdovitinhoguia.blogspot.com.br/ (visitem!)

Ourivesaria Papíria

.LaPalabra

Valéria Bico de Penna – há cinco minutos

“Perdeu-se uma

palavra

de boa linhagem

A casa não é mais a mesma sem o seu

latim.

Da última vez em que foi vista

passeava com um tipo,

que a deixou escapar numa voluta.

O tipo também desapareceu,

inofensivo,

como uma palavra tolerada pela gerência.

Palavra perdida,

que falta faz

a sua prosódia alongada e suave,

seu ditongo ascendente

que dava garbo e pose

a quem a domasse em público.

Como roçavam docemente

suas sibilantes

nos lábios de quem soubesse

trata-la com jeito.”

nahuatl

Marco Antonio Vieira – há duas semanas

“Alguém, por favor, adote

esta palavra abandonada.

Foi encontrada por acaso

na rua

sobre uma folha úmida de jornal.

Com ela,

o pincel de um ourives asteca

ornaria um pendente de amate,

mas está esquecida, envelhecida

sem cuidado,

quase letra morta.”

Elyezer Sturm und Drang – há 1 minuto (editado)

“Procura-se uma onomatopeia

para uma criança triste.

Pode ser velha,

se for um frufru.

Ou na linha do tiki-taka.

Não precisa ter saúde,

pode padecer de neologismo

(ser blafântica ou pistinoica).

Não importa de onde venha,

mas que venha logo,

em tempo de fazer

o próximo verão.”

Procurem

…….Perderam-se

…………….Adotem –

eu suplico não permitam que abandonem

palavras.

caio leonardo

Sorveteria Itanhaem, 15 de novembro, esquina com 11 de junho

[ilustrações:

(1) http://www.freewebs.com/movimientosextosol/nombresennahuatl.htm

(2) http://www.proel.org/index.php?pagina=alfabetos/nahuatl

Concerto ao Ar Livre

 

 

Eu gosto de trompete e a culpa é de Telemann. Acho que foi no salão nobre da São Francisco, pompa, academia e veludo, num dos concertos que a TV Cultura gravava ali, que topei com esse nome pela primeira vez. Achei divertido, meio tecnológico, meio heróico, coisa de ouvido de criança educado por Hannah Barbera e Marvel Comics. Telemann em vida foi mais famoso que seus amigos Bach e Haendel, o que não é pouca coisa. Quem conhece sua obra vai achar estranho eu gostar de trompete por causa dele, que compôs de tudo, e, no meio de tudo, alguma coisa para trompete. Mas foi essa alguma coisa que acabei achando na Musical Box. 

A Musical Box, que não existe mais, ficava na praça Villaboim, assim como eu. Eu sempre ficava lá nos fins de semana. A praça era um pedaço de Paris em São Paulo, uma Saint Germain des Prés tomado de judeus e descolados. A praça no centro era um pequeno jardim em que crianças e mães e babás brincavam e cuidavam, espalhadas pelos bancos que surgiam aqui e ali, nos caminhos sinuosos demarcados por canteiros de poucas flores em chão de terra batida. Árvores pequenas se equilibravam nos canteiros, um pouco intimidadas por aquela que tomava a cena, de tronco largo e que subia alta, com galhos que irradiavam por todo a praça lá embaixo, oferecendo sombra e lentidão a uma São Paulo que parava debaixo dela para respirar e dar bom dia ao vizinho da rua Rio de Janeiro ou Pernambuco. Essa árvore recobria a banca de revistas que ficava, e fica, em frente ao sinal de trânsito e a faixa de pedestres, que levava até mim, figura incrustada nalguma mesa do Caffè Romano, taça de vinho tinto esquecida sobre a mesa e quase sempre o cappelini ao molho branco que vinha com um toque um tanto snob de salmão e caviar. Vinho é ainda hoje um gosto por adquirir; mas permanece o hábito de sempre pedir o mesmo prato nos mesmos lugares. 

Devo à praça Villaboim parte da educação dos meus sentidos, aquela que depende de um contato com o andar de cima. Ali na Musical Box, uma “loja de discos” comum, não fosse a qualidade do que vendia, encontrei de tudo que me ensinou a ouvir o que já havia lido ser bom, mas não sabia por quê. Charlie Parker, Dinah Washington, mais óbvias; coisas escondidas que descobri ali mesmo, como Eleni Karaindrou e sua trilha para Ulysses’ Gaze, um bálsamo; coisas tétricas como Gorécki e seu lamento para o holocausto (mamo, nie placz…); coisas mundanas como Pet Shop Boys; líricas e momentosas como The Smiths – estou falando da década de 1990, eu sempre atrasado dez anos em tudo. The Smiths me ensinou a encontrar poesia no universo homossexual, passo que foi tão difícil para mim como encontrar poesia no som da língua espanhola. Educação dos sentidos e para o Outro.

O sentido do gosto foi apurado no Caffè Romano, que também não existe mais. Ali, aprendi, por exemplo, o gosto de cada licor, um por um trazidos a mim na garrafa, para ler o rótulo e aprender sobre ele, almoço após almoço. As garrafas vinham das prateleiras em vidro e espelhos e cores, tudo emoldurado de alguma forma que a coisa resplandecia em dourado, especialmente com a luz do meio da tarde iridescendo tudo que havia atrás do balcão, ele mesmo no entanto sóbrio e revestido de couro marrom escuro em capitonê.

Maraska, se querem saber. Maraska se tornou o meu preferido entre os licores. E quando veio a guerra dos Bálcãs, morri de medo que, entre tanta desgraça, Zadar tivesse sido destruída, e então Maraska nunca mais. Foi só em Brasília, quase uma década depois, que um casal de diplomatas, ela linda como aquela gente de Hrvatska nasce para ser, me presenteou com uma garrafa de Maraska, que portanto ainda existe, e está aqui do meu lado para provar, nos dois sentidos:

Original
MARASCHINO 
LIKER OD ORIGINALNOG DESTILATA VISJNE MARASKE

 

Na entressafra, fiquei com Drambuie, que aprendi a beber com gelo picado em vaso corto noutro café, em frente ao palácio real de Madrid em obras, enquanto a doce e sorridente Louise passeava por ali em volta, investigando maravilhas, 1997. 

Eu preferia a mesa que ficava ao lado da parede de vidro, de ponta a ponta da entrada do Caffè, de onde podia ver a vida passar, as jovens senhoras e seus cachorrinhos, as lições de elegância no gesto e no trato que aquela gente me deu. Sônia Gonçalves, a grande dama do mundo da moda, num certo domingo de sol, ela toda de branco trazendo flores do campo nos braços, Sônia sempre com flores, reclamava que estavam todos de preto num dia lindo como aquele. Era 16 de agosto de 1992, e o Brasil pedia o impeachment de Collor.

Não, não aprendi nada na praça Villaboim sobre vinhos. Isso foi com o Roberto Smeraldi, que também foi quem me ensinou o que é e me ofereceu bottarga, o que basta para eu dever eterna gratidão a ele, se não a devesse por tanto mais. A praça Villaboim me abriu os ouvidos e apurou meu gosto, corrigiu meus gestos e minhas roupas, baixou o tom da minha voz e me ensinou a olhar como quem sabe. Fernando Moraes, o escritor; Maurício Machado, o último dândi; um dia, Paulo Freire; um dia, Milton Santos; muitas vezes, Fernando Henrique Cardoso e Ruth; uma vez, Patrícia Pillar ainda solteira e sozinha na mesa ao lado; várias vezes, a torcida do Corínthians descendo em direção ao Pacaembu, ou de lá voltando; e quando eu corria até lá no meio da semana para o almoço, podia ver as estudantes da FAAP, que davam a sincera e precisa impressão de que aquela faculdade só admitia meninas, e meninas lindas, charmosas, bem vestidas e de tanto bom gosto, que nunca me davam bola. Que tipo de prova era um vestibular da FAAP?

Na praça eu lia Cortázar e a coisa toda saía de prumo, com aquele estranhamento que Julio conferia a tudo e a todos. Para lá eu seguia depois de achar alguma coisa nova na livraria Cultura, ou na Duas Cidades, que também não existe mais, porém ficava mais para o centro, na Bento de Freitas. Eu sempre com livros no colo na Villaboim, como sempre em todo lugar. Eduquei os olhos atulhados de esquerdismo, a doença blablablá do comunismo, para aprender a mesclar o olhar crítico a esse mundo outro da burguesia paulistana, sua sofisticação cosmopolita, seus mundos de sons, saberes, sabores. Quanto tateei por ali, em tantos sentidos…

Eu chegava sozinho, almoçava no Caffè, depois ia para o Nabuco, que, claro, não existe mais. Pegava uma mesa na calçada, e começava a festa. Não precisava marcar nada com ninguém. As pessoas simplesmente vinham e a mesa ia crescendo. Várias vezes passei mais de onze horas num mesmo dia ali na praça, as mesas sendo juntadas depois separadas, conforme o povo ia a vinha. Assim era que, às dezenas, pessoas cultas, divertidas e, a partir de algum momento, irremediavelmente borrachas enchiam de novas referências e novos prazeres meus ouvidos e olhos atentos ou embriagados, quando eu mesmo não oferecia meu tato e minha boca embriagados a alguma moça incauta, todo mundo sabe que São Paulo é um perigo.

Com o rumo que me dei, perdi a praça. Na Villaboim, eu hoje não existo mais. Em Brasília não tem praça, não tem charme, não tem elegância, não tem jovens senhoras passeando com seus cachorrinhos do lado de lá da porta de vidro. A falta que faz essa coisa “cidade”, que Brasília não tem. Olho agora pela janela, vejo o horizonte, os ciprestes, os pinheiros e os abetos que me separam do palácio da Alvorada e do lago Norte. Uma visão plácida, com este céu de tirar o fôlego com sua imensidão. Mas não vejo uma alma, a não ser aqueles dois na lancha pequena que passa agora. Deve ser o Claudinho.

 
 
caio leonardo
 
*texto publicado em 16 de maio de 2009, em 6loggers.com, projeto de escrevinhação coletivo hoje merecidamente extinto  por falta de leitores e de escritores

Simetrias existenciais

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Em Santos, o terreno é pantanoso, cede. Por essas e outras, muitos prédios erguidos na orla da praia na década de ’70 são famosamente inclinados. “Eles se cumprimentam”, vai dizer um caiçara. A cidade é cortada por canais feitos para drenar o terreno, numerados do Sul para o Norte da ilha. Na esquina da praia com o Canal 4, fica um desses prédios, enorme, na minha memória ainda amarelo, que correu o risco de desabar e precisou ter sua base, dizia uma lenda, congelada.

Mas minha memória é esquerda e põe no térreo dele um restaurante estiloso chamado Cibus, que na verdade ficava noutra avenida. Fui descobrir recentemente que “cibus” é “comida” em latim. Ou seja, o lugar chic de Santos chamava-se “Restaurante Comida” – algo como um edifício chamar-se “Prédio”, o que Santos não demora a oferecer. Na avenida Ana Costa fica o Edifício Palazzo. Palazzo em italiano…

No térreo de verdade daquele edifício no Canal 4, ainda funciona um bar que é assumidamente uma espelunca, outra palavra latina, que significa “caverna”. Santos tem o seu Cavern Club. Passei ali noites inesquecíveis, outras de que não me lembro, algumas que é melhor nem lembrar. Ali, vi e ouvi tocar várias gerações de roqueiros locais, liderados por essa força da natureza que é Julinho Bittencourt. A turma do Charlie Brown tocava lá. Pelado, o baterista, sempre aparecia. Meu irmão,Allex Bessa, também tocou seu teclado naquele palco apertado. Nome do lugar? “Bar do Torto”. Eis aí um nome perfeito.

——-

Este foi um fim de semana pantanoso para mim, aqui em brasília. Passei todo ele com dores fortes no ombro e no pescoço. Para consertar, tentei congelar a base da dor com um emplastro. Adiantou pouco. Não conseguiria cumprimentar ninguém. Fiquei dois dias na minha caverna, sem sair do prédio, meio que pelado, e tudo que fiz foi comida (em latinha) e, entre um canal e outro, ouvir a entrevista a Elvis Costello do roqueiro Lou Reed, aquele bardo torto.

Santos não sai de mim.

O Baile na Rua Aurora

BartôByHopper

Acho que foi o Sandor Ney, ou talvez o Georges Jazzar, mas alguém jogou no grupo de discussão a novidade de que tinha descoberto um bom restaurante peruano na improvável rua Aurora, registrada em verso, prosa, canção e boletins de ocorrência. Começou um alvoroço. Não podia ser aquela  rua Aurora, piroca dentro, piroca fora. Mas em que altura? Perto do Bar Leo? É seguro? Fica na Boca do Lixo? Ainda existe a Boca do Lixo?

Enquanto eles discutiam isso em São Paulo, eu, de Brasília, comecei um passeio vertiginoso via Google Street View. Apeei meu cavalo virtual na esquina da avenida Rio Branco com a Aurora e comecei a descê-la em direção à Vieira de Carvalho, que é o que se poderia chamar de “área nobre” dali. Foi, mesmo, um dia. Ali surgiu o Rubaiyat, ali ficava o mais antigo restaurante de São Paulo.

Mas no hoje do meu passeio por aquela lente panóptica, a Aurora apresentava suas velhas credenciais logo na esquina com a Rio Branco: um American Bar, senha para inferninho. Sigo adiante e, passadas umas portas sem pistas, mas que escondem muita história, surge no nº 427 um hotel talvez chamado Lugus (difícil dizer, a imagem da placa é aguardentemente distorcida). O hotel é vizinho de uma venda, um mercadinho sem nome nem número, de parede azul, com duas portas, uma delas aberta, já são 9h30 ou 10 da manhã no instantâneo que me guia. Para dentro da porta aberta, movimento, clientes, objetos, caixa registradora, comércio. Para dentro da porta fechada, por trás de uma cortina de ferro vazada em losangos, uma década de fórmicas, madeiras e ferros empilhados, coisas sem uso esquecidas na sombra, mas visíveis da rua. Meu olhar atravessa a porta de volta para a rua por entre os losangos de ferro e se depara com o que jaz na soleira do mercadinho azul, sem nome, da rua Aurora, sem número.

Naquela soleira, estirado sobre a pedra preta polida típica dos degraus de construções no centro de São Paulo, jaz a figura de um homem de passado violento, ocupação incerta e futuro mais ainda, coberto de blue jeans de corpo e alma, alma alugada para a boêmia.

Sobre os olhos, enormes óculos escuros que remetem a Ray Charles mas num degradante marrom degradê; as canelas exibem meias beiges combinando com o mocassim marrom que faz dele outro Paco perdido no fim de uma noite suja, acolhido pela indiferença do pouco comércio diurno de uma rua que vive da madrugada e seus pecados. O braço direito dele, manga arregaçada, aponta desmaiado para a sarjeta que está a metro e meio, mas inteira dentro dele.

A noite deve ter recebido como um astro aquele alter ego de Bartô Galeno, colete azul escuro de cantor de rádio, de caminhoneiro garboso, garantia de atenção das moças e dos garçons nos shows de strip tease do teatro Orion, na altura do 753. Não deve ter sido fácil percorrer aqueles trezentos metros até a soleira do mercadinho, tropeçando na letra de “No Toca Fita do Meu Carro”, com a boca encharcada de “Que Amor Danado que Arranjei”. Boca entregue ao vazio de uma noite de moças trocadas por Old Eight e Fogo Paulista. Mario de Andrade, que morava no 320, passaria por ele e poetaria: “Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paissandu deixem meu sexo”.

Desacordado, mal percebe que ele é o bêbado que se apoiou nos losangos de ferro e por eles desceu até a soleira, se ajeitou como pôde e agora está, para sempre, capturado pelo olho que tudo vê, em todo lugar. 

Uma fiorino para em frente ao mercado e esconde a porta aberta da vista desconfiada do porteiro da garagem em frente. Um garoto passa correndo com um saco plástico na mão, olhos vidrados. O vento seco arrasta a poeira da calçada e irrita os olhos da senhora que vem de cabeça baixa da Santa Ifigênia, sacola na mão – pilhas e lâmpadas e soquetes. Uma lasca de reboco se solta sob o sol. O caixa do mercado ajeita o troco, entediado. Um silêncio entre carros toma o ar por um instante. O leite de coco espera na prateleira a validade expirar. A rua expira e renasce, outra vez aurora.

Bartô se move, geme. O apontador de bicho muda o passo e o rumo, para não dar com ele. Doem as costas, dói o joelho, dói Malena que o proibiu de ser caminhoneiro, depois o deixou, e ele entrou na bebida em lugar de partir para a boleia. Agora é figura fácil na Aurora, ninguém nem se importa, ele jogado de novo no chão pela manhã. A rua é assim. Ele é assim. Tantos são. Não se meta.

O peruano, bem, o peruano fui descobrir trinta metros dali, sem placa na porta, sem qualquer indicação de que ali houvesse um restaurante. Sem número. Descoberto por exclusão: só pode ser ali o 451. Os de São Paulo acabaram indo lá e gostando, é bom e barato, me contam. O Rinconcito Peruano fica escondido no alto de uma escadaria estreita, onde se respira um sonho imigrante de vida nova e bem-aventurança, que contrasta com o registro fotográfico, geográfico, urbano, degradante daquele corpo que, no entanto, ainda agora assombra, não mais a rua, mas a soleira virtual de um mercadinho azul, sem nome, ao lado do hotel da mesma rua Aurora, na altura do 427.
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Caio Leonardo

(clique no link, vá ao Street View e veja por si)

A Viagem dos Beagles

Charles Darwin tinha 21 anos em 1831, quando foi convidado a embarcar, como extranumerário e na qualidade de cientista da natureza, na viagem que lhe geraria fama e conflitos. Em 1839, publicou as notas que fez a bordo. O primeiro e o segundo capítulos narram sua passagem pelo Brasil. A certa altura de suas notas sobre Salvador, Darwin comenta admirado suas observações sobre o Diodon antennatus, cujo nome popular ele não registra: baiacu. Prefere referir-se a ele “intimamente” como Diodon. Mais do que descrever o modo como o baiacu-Diodon incha, vira de cabeça para baixo e nada mesmo assim, o jovem Charles se admira de ter ouvido de um certo Dr. Allan de Forres que esse peixinho é capaz devorar a parede do estômago do tubarão até abrir caminho para sair dali, matando o predador no processo – ou seja, o baiacu, sem alternativa, ousa lutar por dentro de um meio inóspito para ganhar a liberdade.

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A viagem de Darwin foi feita à bordo do HMS Beagle, um nome que volta agora a estar envolvido numa polêmica em torno da ciência. Ou melhor, noutra polêmica contra a ciência. Em 1859, a polêmica foi contra a Teoria da Evolução, que acabava com o Criacionismo; em 2013, a polêmica é contra a evolução tecnológica, na medida em que ela dependa do sacrifício especificamente de… beagles.

Neste outubro, ativistas invadiram, depredaram e saquearam um laboratório na cidade de São Roque, SP, tudo com o intuito de libertar os beagles ali mantidos e usados para experiências, testes. Representantes dos ativistas alegam que não conseguiram dialogar com a direção do laboratório, então preferiram partir para a ação. O que eles entendem por “ação” pode ser resumido em “fazer justiça com as próprias mãos”.

Mas qual ideia de justiça norteou o que se quis fazer ali? Como se deu a definição de que aquilo era o justo para aquela situação? Quem definiu?

A resposta é: Um grupo de pessoas decidiu o que era o Justo, decidiu qual a consequência da sua Justiça e executou ele mesmo sua própria sentença. Exatamente como faz um grupo de extermínio, um tribunal do tráfico ou o PCC.

Será isto, para ficarmos com Darwin, uma evolução?

A resposta é não. Não é evolução uma justiça caótica e definida pela cabeça de cada um, conforme a visão de mundo de cada um, ao sabor de indignações que se agigantam a cada novo curtir em rede social.

Mas o que é essa justiça, se não o voluntarismo de uns contra tudo e contra todos? O brasileiro está alimentando e treinando seus cães interiores para o ataque; e os está usando em praça pública diariamente, em reiterados e frenéticos exercícios de intolerância e rejeição ao diálogo.

A sociedade brasileira está em crise de representação, como já se disse alhures, mas também de identidade. Surge uma justiça sectária, esquizofrênica, aleatória, circunstancial, narcisista e privada.

A crise de identidade está em que, formalmente, estamos num Estado Democrático de Direito, vivemos sob o império da lei. Isto quer dizer, no que interessa aqui, que não estamos sob o império de ninguém, da vontade de ninguém, de poder algum que não aquele expresso na lei e na interpretação dela feita pelos tribunais. Isto quer dizer, também, que não estamos sob o império das agendas pessoais, coletivas, sociais, privadas ou de qualquer outra natureza que se queira impor pela violência.

Pois é melhor começarmos a defender esse tal de Estado Democrático de Direito, antes de mergulharmos, cabeça à frente, na barbárie.

Para essa defesa, é preciso lembrar algumas obviedades: Não existe causa justa que esteja acima da lei. Quem viola a lei deve sofrer as consequências no estrito limite da lei.

Escondido num canto do art. 5o. da Constituição Federal está dito, meio que com vergonha de dizer o evidente:

“Não haverá tribunal de exceção”.

Mas o caso do Instituto Royal é precisamente isto: um tribunal de exceção. Privado.

A respeito desse caso, é preciso situar pelo menos mais dois conceitos:  “Desobediência civil” e “Criminalização de Movimento Social”.

“Desobediência Civil” é um não-fazer, é deixar de fazer o que se ordena que seja feito. É um direito do Homem, a desobediência civil. Porém, invadir o que quer que seja e destruir o que haja lá dentro não é desobediência civil: é crime. Fazer isso em grupo é formação de quadrilha.

“Criminalização de movimento social” é um meio autoritário de impedir que demandas sociais sejam ponderadas e incluídas nos processos de decisão política. Por esse meio, as manifestações públicas são reduzidas a meras condutas criminosas. É inaceitável, quando o movimento social manifesta-se nos limites do Direito. Porém, quando ativistas cometem crime são eles que estão pondo em risco sua bandeira: eles estão cometendo crimes no seio de um movimento social. Não é o Estado que está imputando, do nada, crime ao movimento social só por ele existir: é o movimento social que está se deslegitimando por seus próprios atos.

Movimento social não está nem à margem nem acima da lei. Se é que estamos falando em movimento social em se tratando do grupo que agiu em São Roque.

Todo interesse, toda perspectiva deve ser ponderada no processo de elaboração da lei. Assim, é legítimo que se defenda que beagles, ratos, macacos – mamíferos, enfim… – deixem de ser usados em testes. Mas para que isso aconteça, só há dois meios: o acordo ou a lei. Não, a chantagem, a coação, a violência física ou mental não entram no conceito de “acordo”: ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei – isso também está no art. 5o. da Constituição Federal. Ou seja, nenhum ativista pode obrigar o Instituto Royal a deixar de fazer testes, enquanto os testes foram permitidos por lei.

Mudar a lei é processo que se faz por dentro das estruturas do Estado, não à margem dele. Exige estratégia de convencimento – de outros atores sociais e, em última instância, daqueles que tomam a decisão política. Destruir o Instituto Royal pode até ter impacto no debate legislativo, mas a mudança eventual na lei não vai ser a ponto de permitir que cidadãos invadam prédios e os saqueiem.

Há uma Ordem Jurídica em vigor. Ela precisa operar também neste caso, por mais doces que sejam os beagles. É preciso que o que ocorreu no Instituto Royal – assim como o que vem ocorrendo sistematicamente em manifestações públicas – tenha impacto policial e judicial contra quem invade, depreda, saqueia. Todos os participantes, no limite da responsabilidade por seus atos, devem ser processados criminalmente por invasão, dano a patrimônio; civilmente, por danos materiais; e o que mais couber.

O Brasil, os brasileiros que se manifestam, aqueles que se calam, todos estão no caminho errado, na medida em que permitem que se torne corriqueiro o recurso à violência em favor de uma causa, de várias causas, de todas as causas, de qualquer causa, e é a essa banalização da violência que estamos a assistir. E muitos, a aplaudir.

O Brasil está na encruzilhada entre civilização e barbárie. Não há terceira via. Precisa definir sua identidade.

O Brasil está nutrindo posturas autoritárias no seio dos seus movimentos sociais e em manifestações públicas. Autoritárias e criminosas. Movimento social sempre foi uma luz para novas formas de mudança para uma sociedade melhor. Essa luz está se apagando.

O Brasil precisa emancipar-se do seu viés autoritário e pensar caminhos mais inteligentes que não flertem com – nem se traduzam em – barbárie.

O Brasil tem o que aprender com “A Viagem do Beagle”:  por não ter alternativa, o baiacu constrói seu caminho para a liberdade por dentro da estrutura que o devora.

Caio Leonardo 22 de outubro de 2013IMG_1532

22 de outubro de 2013

Outras portas da percepção

“Il faut être absolument moderne”, bradou Baudelaire famosamente. Hoje, século e meio de pois, ainda é impossível ser totalmente moderno. Em tudo há o peso de todos os séculos. Digo eu, nada famosamente, sobre o viver no século 21:

“Il faut être infatigablement curieux”.

É preciso ser curioso. Querer saber. Perguntar. Procurar. E mergulhar nos caminhos que a curiosidade abre.

Aberta a porta para a curiosidade, esquecer qualquer objetivo, qualquer foco: deixar-se ir e apreciar a paisagem que surge enquanto as descobertas se sucedem.

A melhor maneira de sair do mundo imposto pelas circunstâncias, de sair da rotina do trabalho, da casa, da cidade, dos amigos, é deixar-se ir sem rumo para dentro do conhecimento. A cada coisa que chame a atenção, parar e olhar dentro; e, de dentro do dentro, entrar ainda mais fundo; ou sair e abrir a próxima porta, caixa, liame, sítio.

A internet permite esse passeio caótico e enriquecedor. As ruas de uma cidade desconhecida, também. Donde, viajar. Viajar também pela própria cidade. Ao redor do próprio quarto, como Xavier De Maistre.

Outro dia, fui ao Pólo Sul. Lá, encontrei a Baía do Paraíso, que é mesmo paradisíaca. De lá, passei pela estonteante Coronation Island, que me levou às Ilhas Sandwich, cujo nome me levou a caças à raposa na Inglaterra, que me levaram a Manor Houses, que me transportaram à Irlanda, onde fui passear pelo Liffey, que me lembrou Joyce, que me deixou em Trieste com Italo Svevo, que me abriu caminho para descer pela Bota e assim, em menos de uma hora, eu havia saído do Pólo Sul e estava em Roma, louco de vontade de ser Mastroianni diante de Anita, o que me remeteu à memória de quando estive, em julho passado, na companhia de Alexandre Olive, ele mesmo uma descoberta no caminho de outras descobertas: Alexandre me apresentava a vista espetacular do SkyLounge do DoubleTree Hilton, quando, diante dos nossos olhos muito abertos e muito curiosos, surge uma figura icônica recostada na altíssima empena cega do nieuwe filmmuseum, que se chama, muito apropriadamente, Eye. Estava lá uma improvável Anita Ekberg, imersa na inevitável fontana di Trevi, porém emergindo gloriosa, absurda, em meio ao estuário do porto de Amsterdam. Para quem ousasse ver. Para quem tivesse tido a curiosidade de olhar.

Anita in the Eye
Anita in the Eye

Da Indignação ao Ridículo

A indignação baseada na intolerância e nessa sua rima insolúvel, a ignorância, resulta no ridículo.

O Brasil não está perdido: o trabalho de arrumar a casa é que é longo, cansativo e cheio de obstáculos. Quem olha o Brasil de dentro da floresta só vê o cipoal, não enxerga a vereda, o caminho que está sendo trilhado. Um caminho doloroso, espinhoso, mas que precisa ser trilhado.

Esquece que nunca ninguém sequer foi julgado, como está sendo, no STF.

Esquece que, por nunca ter sido julgado, ninguém jamais havia sido condenado antes. Agora temos condenação.

Pior do que esquecer, ignora que os tais embargos infringentes não querem dizer impunidade, que seu alcance é muito restrito e que seu acolhimento colocou o Brasil num patamar de civilização que, bem, que o brasileiro médio ainda não alcançou. O brasileiro médio ainda quer a barbárie, a tocha na mão, o esquadrão da morte.

Esquece que julgamento não é jogo de futebol, 90 minutos e acaba. Julgamento tem rito e envolve respeito a direitos: uma garantia para todos. Esquece que esses direitos não valiam de nada há até bem pouco tempo: agora, valem. E é para valerem, mesmo.

Ignora o que é viver num País civilizado, porque nunca viveu num antes: o Brasil sempre foi um fim de mundo. Para tornar-se civilizado, é preciso fazer valer a lei. E é isso que está acontecendo agora. Ser civilizado dói. Exige postura e retidão. E quem aí cuida de postura e retidão? Quem aí teve compostura na sua reação à decisão do STF?

O Brasil está mudando. Crescendo. O Brasil tem apenas 25 anos. O Brasil nasceu em 1988, com a nova Constituição. É um sujeito que acabou de sair da adolescência, está entrando na fase adulta, tem cabeça de menino e corpo de homem, cheio de energia, cheio de razão, mas ainda não sabe nada da vida. Não sabe nada do que é ser adulto, gente grande.

É preciso dar esse desconto às atitudes dos brasileiros nas redes sociais. Mas é preciso, também, dizer claramente: com esse acúmulo de leituras equivocadas do que acontece no País, o brasileiro está se portando de um modo ridículo.

O brasileiro conseguiu transformar a indignação, que era uma arma, numa fantasia ridícula.

E não entendeu até agora por que o resto do mundo olha com admiração o que acontece aqui, enquanto quem está aqui é convencido de que está tudo errado, tudo perdido.

Quem está aqui, olha a floresta de dentro e só vê cipó. Quem vê a floresta do alto, quem vê de fora, quem enxerga o processo em perspectiva histórica e não histriônica, e não no vai-da-valsa dos comentadores: esse, sim, vê um Brasil novo.

No espelho que reflete a imagem desse jovem de 25 anos, que é o Brasil, há quem só veja espinhas, há quem veja o temor pelo futuro incerto.

E há quem veja o quanto ele cresceu, e se preocupe em oferecer a ele uma boa formação, que se ocupe de participar da construção do seu futuro, para além do medo e da intolerância com seus modos de jovem ainda cheio de defeitos.

Esse jovem Brasil não é um impávido colosso que acabou de acordar. É, antes, um jovem tentando encontrar seu caminho, com todas as dores da juventude que enfrenta a vida adulta.

Caio Leonardo

*ilustração: montagem obtida da página no Facebook de Leandro Rodrigues, em cima de foto de “atrizes indignadas” que circula pelas redes sociais

36 Views of the Moon & Venus on September 8, 2013

Moon&Venus

O crescente tira a estrela,
na varanda,
pra uma dança.
Ela se recolhe,
Ele avança.
E eu aflito, me pergunto:
Será que a mão dele
a alcança?

Caio Leonardo, 8 de setembro de 2013
Imagem: desenho usando ZenBrush by Caio Leonardo, aprés la Lune et Venus d’aujourd’hui.

O Dízimo e os Césares

Pentecostais têm projeto político explícito. E agora, publico.  Nunca no Brasil, nem na Colônia, nem no Império, muito menos na República, religiosos organizaram-se pela tomada de Poder como hoje o fazem os pentecostais. A religião outrora predominante, a católica, exercia seu poder pelas relações que mantinha com o “poder secular” ou “Poderes Constituídos” – o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Nunca houve uma busca por exercício direto de Poder pela Igreja Católica no Brasil. Nem por qualquer outra denominação.

O que está em curso hoje é diferente de tudo que já houve, em termos de relação Estado e Religião em nosso País. Os pentecostais, que já contam com uma bancada poderosa no Congresso Nacional, planejam aumentar em 50% sua representação; mas almejam o “milagre” (palavras do Pastor Feliciano) de um aumento de 100%, “para que possam conter propostas ‘progressistas’ que são contra a família”.

Isso é novo no cenário político. É o fim do “A César, o que é de César”. Para os pentecostais – ou “evangélicos” – o mundo de Deus já não basta: eles querem exercer Poder sobre o mundo dos Homens. Aqui. Agora. No Brasil. Não lhes basta ser pastor de almas: querem conduzir o País.

Os pentecostais tornam-se, com esse plano tornado público e explícito, a voz conservadora mais organizada no espectro político brasileiro atual. Com condições de se tornar uma força política incontornável a partir de 2014, quando um novo Congresso será eleito. Hoje, Dilma já faz concessões largas à chamada Bancada Evangélica. Se bem sucedido o plano urdido sob a liderança do Pastor Feliciano e do Pastor Malafaia, essas concessões já não serão mais pontuais. Estarão no centro do Poder.

E esse é um plano à prova de Reforma Política. O desejado Financiamento Público Exclusivo de Campanha, por si só, não impedirá o abuso de poder econômico por parte desse grupo. Os cultos seguirão podendo ser usados para passar mensagens políticas, ainda que subliminares, e nada impedirá – se não sobrevier impedimento legal com a mesma reforma – que os dízimos sigam nutrindo candidaturas alinhadas com esse projeto de Poder.

Os pentecostais formam, quando unidos, uma organização lastreada em recursos econômicos e financeiros infindáveis. Se tributos devidos a César continuam devidos por pentecostais; o mesmo não ocorre com o dízimo, que é fiel e rigorosamente pago aos homens de Deus.

E é com esse dízimo que os homens de Deus planejam tornar-se Césares.

O Brasil, sem se dar conta, engendra em seu meio político o equivalente tropical de algo como a Irmandade Muçulmana, de momentosa trajetória catastrófica no Egito de hoje.

À falta de mullahs, o discurso conservador com lastro religioso cresce em força política seguindo a palavra dos pastores evangélicos.