Um Mundo Flutua pelos Arredores da Avenida Paulista

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Jovem Dama Soprando um Apito – Utamaro Kitagawa (1753 -1806 – Edo)

Os príncipes imperiais do Japão estão no Brasil, e trouxeram um presente suntuoso: Uma mostra de Ukiyo-e.

Ukiyo-e significa literalmente “imagens do mundo flutuante”, esse mundo flutuante sendo ora a fragilidade ritual da sensualidade do ambiente das gueixas, o hedonismo da era Edo; ora instantâneos da vida na cidade ou da relação do homem com a natureza.

Ukiyo-e toma forma por meio de gravuras cuja excelência técnica alcançou níveis de preciosidade, com grandes mestres desde o século XVII até o XIX. Pois esses grandes mestres estão aqui. Hokusai, Harunobu, Hiroshigue, Utamaro… A exposição é aberta com aquela que é a obra mais icônica da arte japonesa: A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai.

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A Grande Onda de Kanagawa – Hokusai Katsushika (1760 – 1849 – Edo)

No seu tempo, muitas das gravuras do gênero serviram de posters e propaganda de espetáculos de teatro ou de bordéis, algo a que, na França do século XIX, Toulouse-Lautrec viria a se dedicar.

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Chuva Repentina sobre a Ponte Shin-Ohashi e Atake, Hiroshige Utagawa (1797-1858 – Edo)

Toulouse-Lautrec é apenas um grande artista ocidental do século XIX cujo nome pode estar numa mesma frase em que o Japão seja citado. Peças vindas do Japão invadiram a Europa naquele século. Nas suas Cartas a Theo, Van Gogh reiteradamente refere-se à influência dessa arte japonesa sobre seu olhar e suas composições, ao ponto de transpor para óleo sobre tela algumas gravuras, como “Chuva Repentina sobre a Ponte Shin-Ohashi e Atake”, um Hiroshige que compõe as celebradas “Cem Vistas Célebres de Edo” (1858). Van Gogh colecionava ukiyo-e. Mais de uma centena de gravuras. À época, surgiram dois termos: “Japonaiserie”, para referir-se a itens vindos do Japão; e “Japonisme”, para designar a influência de temas japoneses sobre artistas da época, em especial os ligados ao Impressionismo.

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Ponte sob Chuva, après Hiroshige – Vincent van Gogh (1887, portanto 29 anos após a publicação das “Cem Vistas Célebres de Edo”)

A exposição oferece 30 gravuras. Dessas, uma dezena são novas impressões a partir das matrizes criadas por alguns dos maiores mestres dessa arte. Parece pouco. Mas ver um van Gogh ou um Monet basta para tirar o fôlego do observador. Pois essas gravuras tiraram o fôlego de van Gogh e de Monet.

O visitante verá também gravuras de artistas contemporâneos, tanto do Japão como do Brasil. Os brasileiros foram escolhidos anos atrás por Yutaka Toyota, em projeto conjunto com uma fundação. Entre eles, estão Claudio Tozzi, Antonio Dias, Gilberto Salvagor e o próprio Toyota, que também trouxe quatro dos oito blocos de madeira que compõem as matrizes usadas por ele para a composição de uma gravura feita especialmente para a mostra. A impressão de todas as gravuras foi feita por master printers japoneses, no Japão. A depender da técnica utilizada, cada tonalidade vista numa gravura corresponde a uma dessas matrizes, e são as sucessivas impressões justapostas sobre um mesmo suporte (papel) dessas várias matrizes que vão compondo progressivamente a imagem – do mundo que flutua na mente do artista.

A exposição está no lobby do Hotel Tivoli Moffarrej, na alameda Santos, 1437, São Paulo. E fica até Novembro.

Se eu pudesse, peregrinaria até lá todo dia, até o último dia.

Caio Leonardo

29 de Outubro de 2015

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