Uma Geração Perdida Assume o Comando

l.com.br/presidente-do-corinthians-e-intimidado-em-banheiro-e-deixa-festa-do-palmeiras/ cortava: “Estuma geração perdida”.

Naquele mesmo dia, a Sra. Stein jogou a mesma frase sobre o jovem Hemingway , que a eternizou no seu Paris é uma Festa. Os tempos são bem outros, mas a frase merece esta visita.

A geração que nasceu entre os anos 1960 e 1970 chegou ao poder. É a turma que está na casa entre os 40 e 60 anos. São os filhos da revolução sexual: a pílula anticoncepcional, que chegou ao mercado precisamente em 1960, abriu o caminho para o amor livre e o sexo antes do casamento, tornou velho o plano de nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer. As regras do relacionamento a dois foram sendo abandonadas. Não havia mais regras. Valia tudo.

Mas essa geração era criança nessa época. Alcançou a adolescência nos anos 1980. E foi nessa época que a liberdade sexual sofreu a contrarrevolução da AIDS. A liberdade sexual a partir de então era risco de morte, mas o casamento, as regras da vida a dois já não valiam mais. Namorar, casar era coisa muito antiga. Sem saber o que fazer, porque não havia um caminho predefinido como antigamente, tudo passava a exigir negociação. A busca do prazer pregada na década anterior começava a dar medo, e querer uma relação a dois dava mais medo ainda, porque a fórmula havia sido perdida, jogada fora.

No meio dos anos 1990, veio a revolução tecnológica. Com a internet, a rua entrou em casa. A casa deixou de ser “o asilo inviolável do indivíduo”, as salas de bate-papo derrubaram muros e as últimas convenções. Práticas sexuais antes secretas passaram a ser de conhecimento comum. As possibilidades de relacionamento sexual ganharam novos, perturbadores horizontes. Essa geração perdeu o rumo e as referências. Se a revolução sexual dos anos ´60 tinha sido um movimento social com um pensamento crítico a embasá-la, a revolução tecnológica abriu as portas da percepção sem qualquer reflexão. Informação demais, possibilidades demais, regra nenhuma. Diante da tela do computador estava um indivíduo que podia tudo e não compreendia nada do impacto desse poder sobre sua existência.

Essa geração foi educada no auge da ditadura e começou sua vida profissional nos anos da hiperinflação, quando era impossível planejar o dia seguinte. Viveu a transição do fim da Guerra Fria e a velocidade, o impacto, a intensidade e a extensão das novas relações comerciais, políticas e sociais sob o signo da globalização. Assistiu a meros doze anos de crescimento neste século. Fez tudo ruir estrondosamente.

Anthony Giddens disse: “Somos a primeira geração após o fim da natureza.” Também a mais solitária e, no Brasil, a mais historicamente inconsequente. Segure-se, pois é ela, agora, quem manda.

Caio Leonardo

(Texto anteriormente publicado no jornal Bom Dia. Revisto e alterado)

O Povo Eleito e o Mercado

O tal Mercado, de quem tanto se fala, não é muito mais do que um astrólogo porto-riquenho extravagante que, como todo vidente, combina com comparsas as suas previsões. No Brasil, fundiram recentemente três templos erguidos a ele.

É que há quem o leve a sério. De vez em quando, surgem uns questionadores, como alguns donos de transportadoras rodoviárias de carga, que criaram um culto paralelo, dia desses. Muita gente para lá imediatamente migrou a sua fé e passou a acreditar em caminhões como a salvação.

A crença nova andou relativamente bem para os novos zap-cerdotes, até os caminhões começarem a causar um problema dos diabos. Um tanto assim de brasileiros acreditou em sacrificar-se pelo novo deus sobre rodas, porque sentia que tinha perdido a aposta na dica anterior do Mercado – e alguém precisava voltar a falar mal dos filisteus. É que a turma que o Mercado botou no lugar dos filisteus tem deixado tudo muito pior do que… quando os filisteus tinha sido os eleitos.

Logo ficou claro que não eram os caminhões a verdade e a vida que os convertidos esperavam. O mundo deixou de girar, e a Lusitana de rodar, porque queriam era uma graninha do governo, que sairia tanto dos fiéis ao Mercado, quanto dos fiéis aos caminhoneiros, inclusive dos infiéis. Todo mundo vai perder, como previu uma filistéia.

Os seguidores do Mercado, voltemos a eles, dividem-se entre os citados comparsas, que ganham uns trocados, e os otários, de quem o Mercado tira um bom dinheiro. É bem parecido com a relação entre pastor, obreiro e fiel, só que o Mercado influencia a vida de quem nem acredita nele.

Hoje, a dica do Mercado e seus Comparsas é Bolsonaro. O que tinha de otário embarcando cedo nesse palpite do Mercado… Agora, então, é como se passassem a ter razão.

Não pergunte sobre 2016, nem sobre Temer. O Mercado e seus Comparsas fizeram muita gente apostar nessas ondas. Deu muito errado, mas faz parte da crença desse tipo de fiel jamais imputar a seu deus qualquer responsabilidade.

Preferem por a culpa em quem não acredita no Mercado. Recentemente, depois de muito, muito trabalho, conseguiram prender um filisteu bem famoso, porque o porto-riquenho e seus comparsas não gostam dele. E não há jeito de tirá-lo da cadeia antes de conseguirem emplacar sua próxima previsão.

O brasileiro é temente a seus deuses. O brasileiro é crente por disposição histórica. Crê fácil. Crê em quem ele teme, não em quem o ouve. A base da crença do brasileiro é clamar aos céus contra os seus – e nunca ser ouvido. Um deus que ouve é um deus que sangra: morte a ele. O brasileiro crê subservientemente, mas na estranha esperança de fazer do outro brasileiro seu servo. O brasileiro crê cruelmente. Sua crença sempre envolve o mal de alguém, uma crença que quase sempre vai acabar fazendo mal ao próprio crente.

Como quando, por orientação do Mercado, sacrificam em praça pública um presidente eleito.

Numa sociedade plural como a brasileira, com tantas crenças e tantos povos, nada pior do existir entre nós um povo que acredita ser o eleito e que não aceita ser eleito alguém que não seja do seu povo. Não entra na cabeça deles. Vai contra a orientação do Mercado. Tudo, menos alguém que não seja eleito por eles, como eles, à sua imagem e semelhança.

Melhor que isso, só se o eleito tratar os demais com o desprezo dedicado aos filisteus, aos debaixo. Bater nos de cima é contra a fé no Mercado.

Volta

O sol se põe em São Jorge

e nos despedimos da São Bento

tomando a direção de São João d’Aliança.

As crianças brincam no banco de trás,

o meu é 9

o meu é 5

e todos de olho nas placas dos carros que passam.

Essa tinha dois noves!

E assim foi a competição até São Gabriel.

Patrícia no banco da frente ganhou.

Dirijo noite adentro, Chapada afora,

volteando a curiosidade infinita da Valentina,

saboreando as gargalhadas gostosas do Samuel

– e tudo complicava o sono da Tata,

encaracolada a estibordo.

O rosa do sol já sumido do horizonte,

desce um suave silêncio sobre a popa,

Patrícia brinca na proa com as diferenças

entre Ella e Billy,

surge um alvoroço no leme

com as escalas de Sarah

e eu sorrio para as luzes na estrada.

À noite, aquela estrada é uma crença em luzes.

Stultifera Navis

A enorme e torta canoa

desce a corredeira.

Sacode e roda entre pedras e toras

rumo à catarata.

A canoa não vai vazia para o abismo.

Estão todos juntos.

Mas eles se acotovelam e se amontoam,

gritam e berram, vociferam

contra as árvores que estendem seus galhos.

Contra as margens do rio.

 

caio leonardo

22 de março de 2018

Adágio em Sol Menor

Preciso de pouco.

A vida é que tem me dado muito.

Minha alma cabe

sem esforço,

ainda que comprimida,

nesse cantinho estreito

embora ensolarado

entre Barcelona

e Saint Paul de Vence;

mas também se vira

entre Juquehy

e Paraty;

e aceita

sem relutar

um chão duro qualquer

tendo como travesseiro

dois Hemingways e um Cortázar.

Para me cobrir,

basta um Capote.

E se um dia

nem mais ler eu puder,

que me encontre recostado

entre damas-da-noite,

– as memórias me bastarão.

Mas quando nem mesmo

a memória me sobrar,

então que o acaso faça chover

sobre mim em São Vicente,

que a chuva de lá sempre foi

e sempre será

o meu mais suave acalanto.

Ela bastará,

garoa ou tempestade,

quando eu não saiba mais de mim.

Sem Nome

Esse pássaro gordo

marrom, comprido

de cauda longa e

cara de sujo de terra

apareceu de novo na pitangueira

pegada à minha janela

que fica fechada no calor eterno de Brasília.

Ele é um pássaro feio

mas incomum.

Feio e incomum.

Hoje é um dia feio e incomum,

e não sei que nome dar

a esse vizinho

nem ao que sinto e desejo

neste dia feio e incomum.

Mas que diazinho feio e incomum!

Vou xingar, mas nem chego perto de abrir a boca.

Devia tomar um captopril,

mas dona Marlene me traz melancia –

ela tem um ar curioso agora à tarde,

a dona Marlene.

O pássaro gordo e sujo adoraria

chafurdar nesse pratinho de melancia

sobre a mesa de trabalho:

seus pés escorregariam nos jornais

que rasguei mais cedo

e sua asa cor de sangue pisado

derrubaria

a água até agora intacta

mas que já atravessou esta sala pelo menos

três vezes

prefiguradamente. Como a outra de mais cedo.

Parece uma enorme e gelada

teia de aranha

essa trinca na tela do computador.

Se a mesa não ficasse colada à janela

eu a abriria

e faria algum som estúpido para o

pássaro gordo e marrom

com suas asas de sangue pisado

entrar e chafurdar na melancia.

Como a melancia.

A janela mantém o quintal calado.

O sol arde sobre a pitangueira.

(Mas que diazinho feio

e incomum!)

Qual é o santo nome daquele pássaro?

Quando diabos este dia vai terminar?

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

A janela fechada mantém o quintal calado,

a pitangueira está quieta,

o pássaro sem nome

está por aí,

carregando a sua feiúra incomum.

– caio leonardo

24.1.2018

Poema Que Me Dóis Aqui

Estou tão,

mas tão sozinho

nesta cidade,

que chega a doer

a espinha da escápula

o esplênio do pescoço

o latíssimo do dorso e

o rombóide menor.

Só não te mando um beijo

porque me dói

o zigomático maior e

o orbicular da boca.

Te deixo agora

que já me dói a língua

de tanto querer falar

e não falar

por não ter a tua bigorna

nem o teu martelo

pra vibrar cruel

com minhas saudades

Jornada Nebulosa

(Haikai no Renga)

Não há primavera
Na nebulosa de Órion
Mas, quem sabe, um dia…

O tempo não corre
Na nebulosa de Órion –
Quem conta seus dias?

Há um coração
Na nebulosa de Órion
Que é ela inteirinha

Há um véu de noiva
Na nebulosa de Órion
Bodas nas estrelas

Escapam de dentro
Da Nebulosa de Órion
Dez mil vagalumes

A corte Heian –
ó, Nebulosa de Órion! –
perdoará Genji?

Dez mil vagalumes
libertados pelo príncipe
luziram seu ombro

Aquele ombro nu
brilhou mais que o cinturão
de estrelas de Órion

Vagas como estrelas,
damas da corte Heian
recolhem seus leques.

Vagos são os lumes
nos aposentos Heian –
Vagos são seus lumes

caio leonardo

 

___________________

 

Clicando aqui você verá novas imagens da Nebulosa de Órion que foram divulgadas hoje, 16.1.2018, pelo Le Monde. Tive o impulso de sempre: compor um haikai – mas logo pensei que não há estações do ano na Nebulosa de Órion… Dessa constatação discutível, surgiu teimoso um primeiro haikai-sem-kigo, e esse haikai torto pediu outro que retratasse o enorme coração que parece ser a nebulosa, depois ainda outro que falasse de como tudo nela é delicado, diáfano, transparente, então foi que surgiu a imagem de estrelas brotando da nebulosa e elas me lembraram os vagalumes com que o príncipe Genji iluminou o aposento onde seu primo desnudava o ombro de uma dama da corte do período Heian, célebre cena escandalosa dos Contos de Genji, um haikai puxando outro, e me vi compondo um “haikai no renga”, um terceto encadeado no outro, algo que a tradição manda que seja uma obra coletiva, assim iam longe noite adentro os poetas no Japão feudal, uma longa jornada noite adentro, sem rumo nem destino.
Esta jornada começou em Brasília, passou por Paris, caiu na Nebulosa de Órion, que se tornou vagalumes num aposento no Japão do século XI… Você devia compor o próximo. Vem. Vamos.

 

Roda Pião

O jardim é um círculo

estreito viário urbano

o mato está alto. (Decrépito)

A linha corrugada da circunferência

já está refeita, branca, branca.

(Sepulcro caiado)

Homens de enxada na mão

capinam. Os três,

mais de sessenta – conjunto disjunto

composto de uniforme e urgências.

Um jaleco laranja está limpo demais. (Urgência)

A enxada ao final daquela manga folgada

dura de brim e pouco uso

não assusta o mato.

O rosto acima da gola é uma pedra escura

distinto

(Recém-saído de uma repartição

para sempre?). Agora ali

rodando parado

os pês mal firmados sobre a terra em desflor

que é aquela ilha-rotatória –

os carros girando em torno, girando,

(A classe média do Sudoeste

gira seu recesso de janeiro)

em torno do jaleco limpo

da enxada inútil –

são quase 11 horas na 303.

Ele ergue lentamente

a enxada à altura do quadril

a meio-pau (É o que pode)

e acena com ela para os dois

que atacam o mato com força e hábito:

O queixo se ergue em direção a eles

Os olhos estão escurecidos

O queixo se estende em direção a eles

Mas os lábios

os lábios se prendem, mordidos.

Um Haiku de Bashō

両の手に        (りやうのて に)

桃と桜や        (もとさくらや)

草の餅            (くさのもち)

ryo no te ni

momo to sakura ya

kusa no mochi

Bashō – anno 1692

tradução livre:

nas mãos, duas flores

pessegueira e cerejeira –

bolo de artemísia

transcriação:

na mão ter a dois

flores de cereja e pêssego

bolo de arroz

tradução livre e transcriação :

Caio Leonardo – 27.12.2017.

Nota à tradução:

Joaquim M. Palma*, na edição da obra completa de Matsuo Bashō que organizou e traduziu pela Assírio & Alvim, nomeada “O Eremita Viajante”, anota que Bashō refere-se, no primeiro verso, a uma fala de teatro Nô: “ryo no te ni hana” – ter duas flores nas mãos – que significa coisa boa, “uma vantagem”. Bashō fala da alegria de comer um “kusa no mochi”, um bolo de arroz feito com artemísia, típico da primavera. Compara essa alegria a ter as tais “duas flores nas mãos”, que também parece ter conotação erótica.

Na transcriação, busquei recuperar o ritmo do haiku e suas rimas. Há uma rima interna nas terceiras sílabas: no/to/no; que replico em ter/de/de. O acento no “de” do terceiro verso fica evidente, porque, não sendo ele “tônico”, o verso ficaria com quatro sílabas, não com as cinco canônicas do haiku (5/7/5).

Para o lugar de “pessegueiro” e cerejeira, por métrica e ritmo, preferi a metonímia com no nome da fruta:

_ _ _ sa/ku/ra/ya”

segue o mesmo ritmo e métrica de

_ _ _ ce/re/ja e/pê*

O kigo está na cerejeira, que indica primavera. Perde-se a redundância do kigo que há na referência ao bolo de artemísia, também típico da estação. Porém, a escolha por “arroz”, ingrediente típico do mochi, o bolinho a que Bashō se refere, vem permitir replicar a rima do primeiro verso com o último.

Em Bashō, a rima é:

_ _ _ te ni

_ _ _ _ _ _ _

_ _ _ mochi

Na transcriação, fica:

_ _ _ a dois

_ _ _ _ _ _ _

_ _ _ arroz

Com aquele “a dois”, recupero ainda o erotismo implícito na expressão citada por Bashō.

As rimas internas impuseram maior desafio e um sacrilégio:

ryo no _ _

momo to _ _ _ _

kusa no _ _

na mão ter _ _

flores de _ _ _ _

bolo de _ _

O sacrilégio está em jogar uma tônica no “de” do terceiro verso, sem o que ele ficaria com apenas quatro sílabas.

*Palma traduziu assim este mesmo haiku:

Bolo de arroz

nas duas mãos –

flores de pessegueiro e ameixieira

**Na métrica portuguesa, não se contam as sílabas após a última tônica.

Brasília e seus Elementos

O inverno em Brasília é a temporada da seca e da poeira. Poeira alta, que cobre tudo e todos.

Para quem vem a Brasília com pressa de aventureiro, a poeira, mesmo na seca, não tarda em virar lama.

Mas quem sabe o valor de andar à luz do dia, espana a poeira e segue sob o sol, que sempre volta, que sempre ilumina, que sempre expõe a tudo e a todos, mais dia menos dia, que não há dia sem sol em Brasília.

Quem pode andar à luz do dia em Brasília, que o faça de cabeça erguida, senhor da sua hombridade e da sua retidão.

Brasília é terra de forasteiros. Eu mesmo, um deles. Você, forasteiro, brasileiro atraído pela força centrípeta do Poder, ao vir a Brasília, ao pensar em Brasília, tenha em mente uma flanela, não uma aventura. Use a flanela diariamente, para espanar a poeira das ideias, de suas roupas, do seu ofício: para ela não acumular e impedir que enxergue a razão clara e límpida que o tenha trazido para cá. Para manter-se limpo, também.

Se a razão que o induzir a cruzar o País até Brasília não for límpida, nem clara: não venha. Não é bem-vindo. Siga e nunca mais volte.

Ao forasteiro, digo logo: evite a tentação do lago. Do lago e seus iates e velas e brilhos e bolhas disparados pescoços das Chandon. Lembre-se da poeira, peguenta e pronta para marcar seus passos. Água e poeira, nas mãos de um aventureiro, dão em lama.

Mas água e poeira, na mão de quem cuida, dão em argila e em arte e em utensílios e em vida bem vivida.

Brasília é a cidade das decisões e precisa de todo brasileiro, de cada brasileiro, da atenção de cada olhar e de cada mente, para que as decisões sejam mais bem construídas.

Aprenda a enxergar Brasília com seus próprios olhos. A poeira que paira sobre a cidade na seca vê passar no vento as páginas de jornal e de semanários que cobrem a vista de quem passa, que atrapalham a visão, em lugar de mostrar o caminho, o que acontece.

Venha com uma flanela, não com uma vassoura. Cuide primeiro de si e da sua conduta, da poeira que pespega a sua pele e a sua roupa. O seu carro – e aquele seu desejo de um carro melhor. Nada pior do que desejar um carro melhor, na cidade das decisões.

A vassoura vergastada Brasil afora contra Brasília, minha gente, já está operante Brasília adentro, não se engane. Ela vem varrendo, dia a dia, para ignomínia, para o opróbrio e a desonra, aqueles que se perdem nos vastos horizontes do planalto central.

Que sejam varridos, hoje e sempre. Que sejam desonrados, hoje e sempre.

E que mantenhamos todos a flanela contra a poeira.

Limpos, primeiro, nós mesmos. Em Brasília e fora dela.

*Texto publicado alhures em 20 de setembro de 2013

Outra Praia

Tarde fria de inverno

de tempo fechado,

de garoa mansa,

do marulho surdo, o mar quebrando,

do pé na areia,

do olhar no horizonte,

de sentar no chão com a malha grossa,

a bainha da malha molhada

e cheia de areia.

Tarde fria de inverno,

de sentir o maral no rosto serenado

de balançar o corpo, vaivém de mantra

Da melancolia da visão dos canais ao longe,

José Menino,

Três,

Embaré…

Da prancha que chega à areia sozinha,

o garoto lutando contra o frio

e contra as volutas inquietas do mar

(quer pegá-la de volta, tentar de novo,

até que uma vaca desabe

sobre sua cabeça morena.)

Dos contentores da Maersk,

desfilando solenes e misteriosos na barra;

da bola que passa

com três outros correndo atrás,

aos gritos –

o silêncio rumoroso da queda da tarde,

lenta e ensimesmada,

como olhos que se fecham em resignação.

Como estes meus olhos,

que se fecham em resignação.

Caio Leonardo

Pretor, Praetorius

Uma das notícias que dominaram as redes sociais esta terça-feira foi a internação para tratamento por dependência química de Andreas von Richthofen. O sobrenome é de triste fama no Brasil, todos sabemos. Muitos sabem também que esse sobrenome é famoso mundo afora por ser o do legendário Barão Vermelho. 

Menos gente sabe que Manfred von Richthofen, der Rote Baron, ostentava realmente o título de barão, que ele foi herói condecorado da 1a. Guerra Mundial e que registrou o recorde de 80 vitórias em batalhas aéreas. Menos sabido ainda é que houve outros dois von Richthofen heróis aviadores que lutaram pelos alemães naquela guerra. Um deles, seu irmão Lothar, alcançou 40 vitórias em batalhas aéreas. Manfred morreu em combate aos 26 anos. Lothar, com 28, num acidente aéreo. E o terceiro ás, Wolfram, foi Marechal-de-Campo da Luftwaffe e protagonizou várias das principais batalhas da II Guerra Mundial, da Invasão da Polônia ao fronte da Crimeia, passando pela guerra no Mediterrâneo. Morreu vítima de um tumor quando prisioneiro de guerra, logo depois da capitulação da Alemanha.

Registro esses fatos porque, no hospital, Andreas, já medicado, insistia em querer de volta a medalha que tinham tirado dele, quando chegou violento e agitado. O objeto foi devolvido, era uma medalha, mesmo, de ouro e com esta inscrição:

“Praetorius von Richthofen  1561 – 1961”

Obviamente, uma joia de família. Andreas, sujo, drogado, em farrapos, podia parecer desarvorado, mas sua árvore genealógica ainda lhe falava mais alto. Ir atrás do que significa aquela medalha revelou a este incurável curioso que Andreas não só é sobrinho-bisneto do Rote Baron, porém, mais do que isso, na verdade ele compõe a décima segunda geração da nobre Casa von Richthofen, criada (no sentido nobiliárquico) em 29 de julho de 1661 quando Johann Praetorius, Senhor de Rauske bei Striegau e de Hertwigswaldau bei Jauer, foi ordenado Cavaleiro “von Richthofen” pela Corte da Boêmia, então reino do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1581, ele ainda seria ordenado Cavaleiro da Corte da Prússia. 

Não é a esse Johann – até então “Praetorius”,  a partir de então “von Richthofen” – que a medalha de Andreas faz menção: ela comemora os 400 anos da elevação à nobreza de Paulus Praetorius, bisavô de Johannes, tido por isso como primeiro da estirpe. A Casa von Richthofen, portanto, conta hoje 456 anos.

Andreas, ele mesmo, conta hoje 30 anos, e leva consigo histórias demais, histórias bastantes para arquear seus ombros e histórias suficientes para jamais baixar sua cabeça diante de ninguém. Sua família é de nobres, guerreiros, intelectuais, diplomatas, políticos – e até hoje parentes seus ocupam posições de destaque no cenário alemão e europeu. Um tio seu foi embaixador da Alemanha em Londres até poucos anos atrás.

Pois esse talvez relutante aristocrata, que passou anos abaixo do mesmo radar que jamais deu trégua à sua irmã, foi encontrado maltrapilho e espaventado, tentando invadir uma casa abandonada. Levado ao hospital e lá medicado, ele se apegou não ao tabu da sua família nuclear, horrendamente despedaçada, mas sim ao tótem: à medalha que simboliza a Casa transcendente, esse Ente portentoso, edifício colossal de doze andares erguidos ao longo dos séculos com o sangue de seus antepassados, estrutura que agora se equilibra sobre os frágeis pilotis que são as pernas magras e debilitadas de um homem de 30 anos, que a imprensa decidiu tratar por “rapaz”.

A imprensa não se referiu a ele da maneira como em regra faz com os encontrados na mesma condição, isto é, como  “vagabundo”, “nóia” ou  “lixo humano”.  Andreas von Richthofen ter sido chamado de “rapaz” na imprensa da São Paulo de 2017  é a sutil reverberação do aristocrata que ele procurava na medalha dourada. 

O Rapaz von Richthofen tem diante de si, pode-se talvez propor, a chance de exercer um papel heróico, como lhe convém: O do fidalgo caído que foi resgatado e que relata seu drama com a esperança de incutir no pretor e nos cidadãos a curiosidade a respeito de quais outras histórias o crack esconde em praça pública.  

Porque é ouvindo histórias de vida que se pode encontrar, passo a passo, pessoa a pessoa, drama a drama, tragédia a tragédia, os muitos caminhos que precisam ser trilhados para fora da armadilha que é uma cracolândia. 

2 Aforismos Brasil Afora, Brasil Adentro

Um, meu; outro, ninguém sabe direito de quem.

Aforismo n. 1

A diferença entre investigação e perseguição é que, numa investigação, parte-se de algum crime até se encontrar alguém que o tenha cometido; numa perseguição, parte-se de alguém até se encontrar algum crime que ele tenha cometido.
Aforismo n. 2

“It ain’t what you don’t know that gets you into trouble; it’s what you know for sure that just ain’t so.” (Autoria disputada)

Que traduzo livremente assim:
“Não é o que você não sabe que põe você em encrenca; é o que você tem certeza de que sabe, mas que, bem, não é assim como você pensa.”