Nova ordem mundial.

Os EUA, a Rússia e, entre outros da recente onda nacionalista/conservadora, o Brasil, têm governos que são contra a prevalência de organismos internacionais sobre a soberania nacional – o tal fim do globalismo.

A China defende esses organismos internacionais, e mais: defende uma cooperação internacional em larga escala, como com seu projeto Belt and Road.

Os EUA e a Europa estão assistindo à sua decadência diante de uma China portentosa e imparável.

A Rússia vem trabalhando para desarticular OTAN, União Europeia e afundar os EUA. Com sucesso, haja vista seu papel no Brexit, na eleição de Trump e no posicionamento de Trump contra organismos internacionais, aí incluída a OTAN.

O plano da Rússia é o de instauração de uma Eurásia, de Vladivostok a Lisboa, nas palavras de Putin, em defesa da civilização cristã-sionista conservadora, nas palavras de Bannon.

O Plano da China é integrar o mundo para servir aos seus canais de comércio.

O Plano dos EUA muda a cada segundo, com sanções disparadas contra aliados, ex-aliados e inimigos; sem recursos para manter botas no chão e navios pelo mundo todo.

Nesse contexto, surge o coronavírus.

Cepa que surgiu na China e que a China soube conter, porque decide planejadamente e de cima para baixo.

O resto do mundo não decide assim: seus governos batem cabeça, a população quer, cada um, que a sua ideia de combate ao vírus prevaleça, essa coisa toda.

Pandemia foi prevista por várias vozes relevantes no cenário internacional, a não menos relevante tendo sido Bill Gates.

Agora, surgem vozes cobrando a China pela pandemia e a OMS, por não cobrar de Pequim a responsabilidade pela pandemia.

O recado estava dado? Quem não se preparou como governo errou? Alguma autoridade nacional de saúde não foi alertada para o risco? Quem está errado? De quem é a culpa?

Todas essas questões emperram a tomada de decisão necessária, enquanto a China segue firme para a recuperação de sua economia já no fim do segundo trimestre, e o mundo desaba para além da Grande Muralha.

Só há espaço para UMA CRISE: A pandemia

Só há espaço, na vida pessoal, para o cuidado de si, de quem está perto e, na extensão das capacidades de cada um, de quem está longe.

Só há espaço para se dar atenção a vozes e lideranças que mostrem respostas, soluções e norte.

Tudo o mais que se está discutindo no ambiente político é contingente, baixo e não interessa à população neste momento em que todos nós mais precisamos de Estado presente e atuante para equilibrar o impacto de uma crise concreta, real e incontornável.

O que interessa é como vamos comer e onde vamos dormir. Como a comida chegará a cada um de nós e como o teto será garantido. Como estaremos protegidos e o que podemos fazer para a proteção do outro.

O empresário e o empreendedor cuidam do seu negócio. Uma crise como esta extrapola a capacidade de ação de todo e qualquer negócio ou empreendimento. É para uma crise como esta que existe o Estado:

1) para informar a população sobre os riscos que corre, sobre em que estágio da pandemia se está, sobre o que está por vir e sobre como agir individual e coletivamente;

2) para tratar da população afetada, com todos os recursos de que dispuser e que puder mobilizar: não é hora de pensar na conta, a conta será paga por gerações que só existirão e progredirão, se esta geração sobreviver e superar esta crise;

3) para estudar e buscar solução para a pandemia; e aplicar essa solução em larga escala o mais rápido possível;

4) para alocar recursos de forma eficiente e capaz de responder aos desafios da crise para além da saúde: produção, distribuição e consumo de alimentos e bebidas; higiene pessoal e limpeza doméstica; teto e atenção a todos; reorganização do trabalho; reorganização da família, reorganização da logística das relações de troca;

5) para organizar e adaptar as forças produtivas em torno do bem comum, em especial, da contenção da pandemia: ponderar, adotar, avaliar, subvencionar, financiar e rever ações como isolamento, lockdown, protocolos de higiene e proteção, e plano de retomada gradual da vida no espaço público e no mundo do trabalho;

6) para sustentar empresas, empreendedores, trabalhadores e pessoas fora do mercado de trabalho, enquanto não seja possível retornar à dinâmica de mercado;

7) para oferecer segurança e ordem num momento em que ausentar-se, isolar-se é um ato cívico, humanitário, histórico.

Quem quer que esteja na esfera pública (fora da família e da empresa, dentro do Estado) deve estar ocupando o tempo dele/dela e o meu/seu com uma dessas sete finalidades.

Qualquer autoridade pública que desvie energia nesta hora não devia estar em posição de comando.

2020 é um ano para os grandes homens e para as grandes mulheres servirem a algo maior do que seus projetos pessoais.

2020 é o ano da Política entendida como a arte maior de pensar e construir o futuro.

Quem não tiver grandeza nem visão de futuro para o Brasil e para a humanidade, então que faça sua parte e isole-se.

Abracaixas

Ter apenas um assunto,

e esse assunto ser variações

sobre agressões a uma pessoa,

revela uma vida triste e encerrada,

consumida pelas próprias frustrações

transferidas na forma de ódio

àquele objeto

– àquele ser humano tornado objeto

pelo ressentimento e

pelo vazio existencial

a que se resume o que sobra de vida

àquele que tem apenas um assunto.

Passa da hora de libertar a mente

e o corpo dessa armadilha.

Não peço que mude de ideia,

mas que mude de assunto.

Abra outras caixinhas do universo.

Descubra o padre que descobriu o Tibet

(sim, isso aconteceu),

mergulhe

em mapas de lugares imaginários,

passeie

pelo Pantanal de Manoel de Barros,

cavalgue com o verdadeiro Genghis Khan,

o autor da modernidade,

penetre

a leveza sublime dos versos de Rumi,

mergulhe

no sono, ouvindo Roberta Flack –

_The First Time Ever I Saw Your Face_,

corra

9Km num parque que não conhece

e repare nas árvores.

Leia A Vida Secreta das Árvores

e A Vida Íntima dos Animais,

traga

para casa frutas e legumes

que nunca provou,

entre

no zoológico na volta do almoço

e avise

seus sócios de que vai se atrasar:

__ Estou em reunião com um unicórnio chinês. Ainda é segredo.

E, então, estenda o braço e sorria

para a Girafa:

Ela perdeu o parceiro ano passado.

caio leonardo, 11 de fevereiro de

2019

NOTAS ESPARSAS SOBRE A ESCRAVIDÃO IMPOSSÍVEL

(Lembranças distantes de leituras de Pierre Clastres)

Índios não-aculturados (que não foram contaminados pela cultura do branco) e que viviam em sua sociedade tradicional morriam ao serem escravizados. Não faziam as tarefas que lhes impunham. Morriam de desgosto.

O índio não reconhece a ideia de comando. Ninguém manda num índio.

O cacique é quem detém a fala, mas uma fala que é a das origens da tribo, suas lendas, seus costumes: ele carrega as representações que geraram e os mantêm juntos naquela sociedade. O cacique fala à tribo e pela tribo, mas não diz o que um ou outro índio ou índia deva fazer.

O pajé é o senhor da vida e da morte, o detentor do conhecimento e dos ritos de cura, nascimento e morte. O pajé não manda em ninguém. Os membros da tribo submetem-se à sua autoridade, mas não a suas ordens. Os índios só riem de duas coisas: do pajé e da onça. Eles riem daquilo de que têm medo. O pajé dá medo, porque ir ter com ele é porque se está com a vida a perigo – como quando aparece uma onça.

O índio não se submeteu à escravidão, porque não concebia que alguém mandasse nele.

Não foi porque era perguiçoso. Foi porque sequer entrava na cabeça dele a mera ideia de não ser livre.

(foto: Caetano Scannavino – Tribo Zoe)

Manoela On The Spot

Brasília vai a São Paulo, mas volta.

Calor e táxi sem ar-condicionado, depois de praça da Sé e rua da Glória ao meio-dia. Na Sé, para cumprir deveres de advogado; na Glória, à procura de um sashimi, que em Brasília não se come isso decentemente em lugar algum. São umas tripas que desmaiam no hashi. Sou traído pela memória, erro o caminho, o centro de São Paulo não me pertence mais, um estranho na sua própria cidade. Um táxi me resgata na Conselheiro Furtado, sigo para a Paulista.

_ O carro tem ar-condicionado? – eu, desesperado. Ele, acabrunhado:

_ Não tem, não senhor. Se o senhor quiser, eu coloco noutro carro.

Coloca a mim noutro carro. Pessoas vivem querendo me colocar aqui e ali. Sou um móvel a céu aberto. Quem manda andar sentado? A vida é que manda, e eu ando, e todos querem me colocar aqui ou ali.

No caminho, o motorista explica que o médico não deixa usar ar-condicionado, dorme mal à noite se usar. O desespero avança: suor e paletó, gravata e mormaço. No caminho, o motorista me mostra um ótimo lugar para almoçar, é lá onde ele come sempre. Eu tinha contado a ele que me perdera do sashimi, e que agradecia pelo resgate.

Olho o lugar onde ele sempre come com sincero interesse antropológico – mas que, por ser antropológico, não é um interesse autêntico e revela logo meu meio, meus gostos, essa coisa burguesa que já me dominou e não tem jeito. É possível, percebo, ser sincero sem ser autêntico. Ainda olho o lugar. O tempo anda lento como asfalto derretido. O carro não para, só anda lento no asfalto derretendo porque é São Paulo, então posso ver que estão lá no lugar onde o motorista come: a sinuca, a televisão, a lousa, o giz e o picadinho, que hoje é quinta-feira. Portas de alumínio recolhidas no teto, portas abertas ao calor da rua, nenhum refresco para o martírio do sol, só a cerveja que o sujeito imenso toma no gargalo, na porta, camiseta regata e chinelo. Bermuda. Ronaldo vai brilhar ali domingo que vem. Algumas garrafas vão cobrir de âmbar o chão da calçada. Talvez mesclado ao âmbar algum tom de vermelho, se o Corinthians perder.

_ Da próxima vez, apareça aqui, tem todo tipo de prato que você quiser – convida o motorista em tom de iniciado.

Fico imaginando que pratos todos eram aqueles. Belle meuniere, Osvaldo Aranha, Filet au poivre, esses nomes que estão em todos os cardápios desde 1960, e ao que se dá, em conjunto, o nome vazio de “cozinha internacional”, mas que é a cozinha do Suplemento Feminino do Estadão, contrabandeada nos últimos quarenta anos para todos os cardápios de um certo mundo ubíquo e invisível, mas um mundo onde se come. O que desanima não é o lugar ou a comida. Morar em Brasília é comer sempre mal. Eu até já estaria todo Pierre Clastres, não fosse o calor.

O calor pede porto seguro. Vou ao Spot, esse ícone paulistano a uma quadra de outro ícone, que é a avenida Paulista. Os vidros verdes-claros que são as paredes do Spot são um refresco para os olhos e a antecipação do refresco que é estar lá dentro. Lá dentro tem ar-condicionado e não tem televisão. Tem moças bonitas como as da televisão. Da bermuda com chinelo e camiseta, a cidade passa a Fendi e vinho tinto, no deltatê de uma bandeirada. Abandono o camarão à belle e me entrego camaleão às belles.

Entro, peço mesa e vou tomar um banho no lavabo. Tomo um banho no lavabo e, na volta à espera, encontro Tonico, que não via havia anos. Sempre encontro gente que não vejo há anos quando vou a São Paulo. Se não vivo lá há anos, é compreensível que quem quer que eu encontre não tenha sido visto… há anos. Uma senhora em cadeira de rodas entra pela porta lateral. Abro alas com a minha, e cedo minha preferência a ela. Tonico se agrada da gentileza, depois volta para sua gente. Ao fim do almoço, Tonico terá pago a minha conta para que eu saiba que ele também é gentil. Eu sabia, Tonico. Obrigado mais uma vez.

Uma boa mesa na porta lateral, e me espalho solitário num latifúndio de quatro lugares no restaurante lotado. Descanso os olhos nalgumas mesas. Abro a New Yorker que chegou mais de mês atrasada, Obama na capa como o Washington de Rembrandt Peale, capa histórica. Rembrandt Peale, quanto provincianismo em quem pintou os founding fathers. Passo os olhos no texto de um indiano: The Elephant. O gosto pelo multiculturalismo alimenta textos como aquele, em que “dados culturais” fazem a suposta graça da coisa. Pobreza e bicicletas com outro nome, nome indiano, exótico, multicultural. E nada mais.

Então, vem Manuela:

_ Você já escolheu?
_ Você é argentina?
_ Meu pai é espanhol.
_ Filet au poivre. E purê de batata. Antes, suco de tomate e uma água. Depois, Coca-cola.
_ Ok.
_ Qual o seu nome?

Ela responde.
_ E o seu?

Respondo.

Quanta tensão num diálogo tão sem graça quanto o elefante do indiano. Manuela tem uma beleza desconcertante, aqueles cabelos negros ondulados, alta e frágil, o sorriso doce e altivo, traços fortes e suaves – uma beleza vertida em oximoros. Manuela serve com sorrisos, ilumina meu dia com outra luz, não a daquele sol no lá fora, à espreita, formidável.

Eu tinha visto o sol nascer em Brasília, antes de pegar o avião às 9h15. Ver o nascer do sol revigora. Vi a lua nascer toda pós-cheia, agora que de volta a Brasília – ela, lua, toda amarela, subindo por detrás do palácio da Alvorada, alvorada selenita. Isso também revigora, quando não rouba o fôlego.

_ Você roubou meu fôlego, Manuela. Agora ponha coca-cola no lugar dele.

Manuela no lugar certo. Manuela que nem mais vou ver. Não trago na lembrança suas meias ou seu sapato. Manuela, eu tirei o seu retrato.

caio leonardo – 2009. publicado antes em 6loggers

Dos Aflitos e das Penas

– eu, pombo que vejo

o milho derramado

o passeio do velho, o canivete na curva,

a manga e a paina, a mancha da pitanga,

a folha ardendo e a folha dobrada,

o remanso e o fim da mansidão

– eu, pombo que voo baixo

atento ao bicho homem e ao lixo dele

(que apanho ao brigar por fêmea,

que tenho a asa ferida e o olho sujo)

declaro ser verdade e dou fé:

esta praça é a mesma e o que virá dói mais.

– eu, pombo detestado e proibido,

cassandra cansada de guerra,

que não conheço a fome porque como

da mão melancólica de quem se perde

e é tanta gente que se perde

que jamais faltará milho a pombo.

– eu, pombo do pós-estilingue,

da pós-política de higienização,

do pós-especismo,

em plena curva no ar,

de costas para o cimento lá embaixo,

por cima das poucas copas

num looping desengonçado para além das minhas asas –

pombo indo além das suas sandálias

(aquelas de que sempre suspeitei) -,

eu pombo e pássaro e vivo e atento,

desisto ou não desisto?

– eu, pombo ilustre do peito depenado,

o pombo impresso no olhar da mulher que passa e que decide

se sou a natureza ou um incômodo,

se mereço milho na mão ou bolsada mortal,

enquanto ela segue para o Plano

sob o sol que sempre arde no cerrado

e nas minhas penas.

– eu, pombo que sempre vou ser a ameaça

de desfazer o jogo de xadrez,

de cagar no seu quepe,

de não bicar o milho na sua mão,

de não fazer o que esperam de um bom pombo de praça.

– eu, que não sou Fernão, nem Hélio,

eu vejo o que vejo, ouço o que ouço,

leio todos os jornais carcomidos,

folheio os livros jogados no chão,

Eu, infestado de vocês e refestelado de mim,

sou o que dorme na cidade

e você o que não dorme,

sou o que comerá o milho da sua melancolia,

e eu durmo e dormirei é sobre o concreto

ao lado do Caverna,

eu olho e oro pelo sorriso vivido e tímido do Caverna,

pela sua história que não ouso imaginar,

pelo tempo que levou para vir a pé de São Paulo a Brasília,

eu olho e oro pelos seus passos infinitos,

pelo seus vincos de sol na cara.

ave, Caverna!

o sábio dono de nada, mas colecionador de chapéus.

ave, Caverna!

pombo sem penas do lago Sul,

com seu andar recurvado,

um carrinho torto de mercado

e aqueles óculos de Raul.

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caio leonardo, après Zé Geraldo

O Feminino e o Mito

Os homens estão em farrapos, rastejam na lama, armas ao chão. A nação está derrotada. Todos com pavor de quem assumirá o poder após uma vitória manchada de sangue e ódio. Homens e mulheres de bem fogem para o exterior. “A agonia da espera faz que desejem a chegada do inimigo”. Surge a carruagem.

Sim, carruagem. Estamos em 1871, na cena de abertura da novela “Bola de Sebo”, de Guy de Maupassant. O exército da França foi derrotado; os soldados da Prússia invadem o país. “Bola de Sebo” é uma prostituta decadente, corpulenta. Ela entra na carruagem lotada de personagens da alta classe. Todos na mesma situação, e nada diminui o desprezo que sentem por ela. Partem. Ao anoitecer, param numa estalagem, que descobrem estar tomada por soldados prussianos. São presos e humilhados. O comandante se encanta com “Bola de Sebo”, que imediatamente o odeia, para surpresa geral. Indignado, ele afirma que todos morrerão caso ela não durma com ele aquela noite. Os homens e mulheres de bem passam a implorar sua ajuda. Ela lhes dá um voto de confiança e se entrega, a contragosto, ao oficial. Salva os que a menosprezavam. E volta a ser tratada com o nojo de sempre logo que os homens e mulheres de bem se veem livres do perigo.

Outra mulher negligenciada foi criada por Bertolt Brecht e Kurt Weil, no fim da década de 1920: Jenny Pirata (“Seeräuber Jenny”), uma faxineira de hotel barato em Londres revoltada pelo modo como é tratada pelos hóspedes. Jenny sonha ser a líder de piratas que invadirão a cidade num navio negro, e matarão todos a mando dela. Brecht inspirou-se na ladra irlandesa Jenny Diver, que roubava na Londres do século 18. “Jenny Pirata” surge como canção na Ópera dos Três Vinténs e é interpretada pela personagem Polly Peachum, namorada e filha de ladrão.

Na Ópera do Malandro, Chico Buarque compõe uma personagem inspirada na Bola de Sebo de Maupassant, na faxineira pirata de Brecht e em Madame Satã, o lendário travesti carioca. Chico transforma a estalagem do Maupassant num Zepelim. Os canhões libertadores do navio pirata de Brecht tornam-se os opressores do Zepelim. A compassiva prostituta de Maupassant e a revoltosa faxineira de Brecht misturam-se no oprimido, libertário, humilhado e violento Genival, vulgo Geni — boa de apanhar, de cuspir.

Quando Nina Simone interpreta a sua Pirate Jenny, ela usa a faxineira de Brecht, mas a coloca num hotel do Sul dos Estados Unidos. O Sul da segregação racial. Essa quarta Jenny sonha com canhões assestados contra os racistas da cidade. O modo como Nina encerra a canção é um assombro poderoso, um susto na plateia que, por um segundo interminável, se sente executada.

Nina podia ser tão explosiva que o dono de um bar no Village em Nova York, onde cantava, decidiu contratar seguranças para defender os clientes dos ataques dela. Seus ataques eram físicos e musicais. Não era confortável ser branco na plateia desse ícone dos direitos dos negros. Em “Four Women”, que compôs em 1966, Nina retrata quatro negras conforme os estereótipos da segregada sociedade que combatia. A primeira é Aunt Sarah, negra velha do costado forte de quem aguentou muito castigo e dor na vida. Depois vem Sephronia, a mestiça perdida entre dois mundos, filha do estupro da mãe negra pelo pai branco e rico. A terceira é Sweet Thing, a morena queimada de sol, a bela prostituta que se aproveita dos clientes. Ao final, surge Peaches, de pele marrom e atitude desafiadora, que não se submete ao papel da mulher tradicional (“I’ll kill the first mother I see”).

O labirinto de mulheres violentadas somado à vertigem da cena da derrota de uma nação pela violência, simbólica ou não, das armas, serve para rascunhar o ambiente que se vive atualmente no Brasil de antes das eleições de 2018.

As mulheres são agora a maioria dos eleitores e podem definir o vencedor. Há 100 anos, entretanto, Celina Guimarães Viana era a primeira mulher brasileira a votar numa eleição. A então Lei Eleitoral do Estado do Rio Grande do Norte dispunha inovadoramente que o direito ao voto seria exercido sem distinção de sexo.

“Ao destino lhe agradam as repetições, as variantes, as simetrias”, disse Borges. Numa ironia que pode vir a ser trágica, o dispositivo da lei que permitiu que Celina votasse foi seu Artigo 17.

———–

Caio Leonardo Bessa Rodrigues – @caioleonardobr

Caio Leonardo é advogado, atua em relações governamentais, e escreve quinzenalmente no Ema.ranhados.

Sera tamen

Se penso antes de falar,

se penso antes de escrever,

se decido não falar,

se concluo que não é prudente escrever,

se o que projeto adiante me aturde,

se o que vejo em volta me desconcerta,

se de manhã não canto no chuveiro,

se ao chegar ao escritório não cubro de sorrisos e carinhos e atenções a todos,

se adio abrir os jornais,

se me perco em conversas angustiadas com almas angustiadas,

se me esqueço de ler,

se me esqueço de escrever,

se me doem as costas e prefiro calar,

é porque não há mais liberdade para nada disso.

E não há mais liberdade para isso.

Não há mais liberdade.

E que isto fique claro

a cada poema sobre formigas

a cada parágrafo sobre futebol,

a cada palavra,

a cada palavra não dita.

caio leonardo

28 de julho de 2019

A Era de Tinitus

Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Jo 1,6

Em 15 de julho de 2000, ouvi João Gilberto no Barbican. Fiquei no corredor atrás da última fileira, e era como se ele estivesse bem ao meu lado, sentado do jeito dele, paletó gravata e violão. A acústica da sala oferece essas intimidades. Tinha lido Chega de Saudade, do Ruy Castro, livro saboroso que orientou o quanto pôde meus ouvidos para entender o que o baiano fizera e fazia para ser tão extraordinário. Foi uma noite de educação dos sentidos.

À saída, no imenso foyeur, escondida num canto, sozinha, entretida com as próprias mãos, Angelica Huston. Parei no longe dela em que eu estava, um grande vazio, só nós. Ela deu aquele sorriso letal com os olhos baixos mas fixos em mim. Sorri de volta com a reverência de um Gomes à sua beleza única. Foi uma noite de educação dos sentidos.

Semana passada, enquanto ainda era possível viver, me lembrei dessa noite formadora. É que tinha achado um audiolivro sobre como Ouvir e Entender Música de Concerto, e as palestras foram me remetendo àquela orquestra toda que João Gilberto encaçapava no seu violão – lá ele a mantinha em silêncio à vista da mente da plateia, como potência e fúria encolhidas entre os seus acordes sincopados, seu ritmo feito de pausas, seus sussurros de vida boa à beira da praia. Vinha sendo uma semana de educação dos sentidos.

O silenciamento de João é a ruptura da caixa de ressonância daquele velho violão, e é o derramamento, a céu e olhos e ouvidos abertos, de toda a dissonância cacofônica daquela até agorinha escondida orquestra, orquestra que explode em fúria, antes potência, agora ato – e a música que tocam os despejados de João é o oposto extremo do Brasil que ele inventou.

Tenho tinitus desde cedo na vida. O meu é um som agudo e estridente, uma polifonia imitativa com uma camada de chiado sobre outra de zunido – soa como se eu vivesse um tempo em que tivesse sido extinta a Rádio MEC do Rio e sobrado, no mostrador do motobras do táxi amarelo que cruza a Rio Branco, um ruído fora de sintonia, ininterrupto, latente, que, se o tédio permitir, invade o cérebro.

Boa música compensa tinitus, mas João saiu do ar e os olhos já não podem ver.

Na Avenida

O garoto deixa cair a perna do muro.

 

Deve ser o 8.

Ele avança passo firme até o meio-fio.

Estica o braço.

 

É o 23.

Faz que não para o motorista.

 

O motorista freia, para e abre

a porta de saída –

que ainda era a da frente.

O garoto e o motorista se ameaçam

com os olhos

pelo tempo da descida de uma senhora:

sacola de plástico quadriculada,

acelga e bengala amanhecida.

Ela se agarra onde pode.

O último degrau é o abismo.

Os dois aguardam o gongo

enquanto ela aterrissa:

albatroz-de-sobrancelha-negra

de lenço na cabeça.

As asas balançam na direção da

Rangel Pestana.

 

O câmbio berra, engasga e

o 23 ruge em direção à praça do Correio.

O garoto sente passar o calor do motor,

a porta da frente se fecha com estrondo.

Os olhos se largam: empate.

 

O garoto dá cinco passos de costas e

finca de novo a sola do bamba no muro –

no último muro de casarão

na Presidente Wison.

As costas no muro,

a palma das mãos entre as costas

e o muro.

Ele sente alívio e incômodo:

no frio do muro branco,

nas rugas grossas do muro chapiscado.

Faz sombra a mangueira

que vem de dentro do casarão.

 

O garoto recosta, com cuidado,

a sua cabeça no muro, e aplica

um olhar sem direção, ausente.

 

Ausente, nada.

No outro lado da avenida,

de um certo sexto andar,

Gisela pode estar espiando.

O olhar transita

daqueles seis andares do edifício Itu

para os doze andares do São Rafael… Lá,

mora a professora Mari!… O garoto

deixa cair a perna do muro.

_______

D. hominis

A mosca varejeira entrou pela biblioteca – 

mais um parágrafo

                                e a angústia acabava.

A mosca varejeira descobriu minha presença –

o parágrafo ficou mais distante.

A mosca varejeira decidiu pelo meu cabelo –

a angústia se esgotou em raiva.

A mosca varejeira faz um barulho danado,

não demorou e já era o bicho nocivo da casa velha, lá em São Vicente.

Inimiga antiga.

A mosca varejeira que fazia um barulho danado levou um voleio da edição de bolso das Selected Short Stories de Guy de Maupassant.

E aquele parágrafo morreu ali, abatido pela dúvida insondável:

O que ela queria?

Talvez, que eu lhe abrisse a janela

ou lhe desse atenção – sua vida são sete dias

sem companhia; eu, que passei

tantas vezes sete dias sem companhia,

não me importo. Mas e ela?

Uma vida adulta que começou pela cópula

e se estendeu pelo nada. A dela. Ou a minha?

Sua vida foi voar, zumbir,

pertubar um sujeito angustiado, quieto no seu canto e que procurava palavras.

Nunca uma banana. Nunca o gosto ainda fresco de iogurte grego na lâmina de alumínio.

A mosca varejeira agora é aquela angústia que saiu do parágrafo e foi impressa,

como mancha,

na topo da capa amarela, debaixo do pé do pinguim.

……….

Caio Leonardo