TRÊS ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE DE ARTHUR

Uma única vez, estive no escritório do prof. Fabio Konder Comparato, de quem tinha sido aluno. O assunto não era acadêmico – ele nunca teria tido motivo para me receber por algo do gênero. Estava lá, com gente grande, para pedir-lhe um parecer.

A uma certa altura, uma personagem foi citada, não me lembro qual, e ele então comentou, não com a gravidade que o define, mas com uma expressão entre tristeza e pânico:

__ Com ele aconteceu o que não desejaria para o meu pior inimigo: Ele perdeu o filho.

Década de ‘90. Foi nesta cena que comecei a me dar conta da dor dos meus próprios pais com o que aconteceu a mim mesmo, aos 22 anos.

___________

Drummond perdeu a filha, Julieta, a pessoa que mais amou em sua vida. Morreu uma semana depois, de tristeza.

—————-

Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

Chico Buarque

________

O Verão de Empédocles

the-four-elements-1472-grangerNão se completou uma lua sequer. Em 25 de janeiro, ela minguava pelo quarto dia, e a terra varreu Brumadinho. A lua então veio de ser nova, ainda nem era crescente, quando desceu a água e subiu o fogo sobre o Rio de Janeiro. Amanhã, a lua alcançará o quarto crescente, mas, antes disso, hoje a tragédia caiu do ar, em São Paulo. Fecha-se um ciclo trágico dos quatro elementos imutáveis da natureza: a terra, a água, o fogo e o ar.

Empédocles (490-430aC) é que concebeu a natureza assim, e ele entendia que esses quatro elementos não se moviam por si, mas pela oposição de duas forças: Amor e Ódio. O equilíbrio entre elas é que permite que a vida siga em harmonia, e isto vale também para a vida em sociedade.

Há Ódio demais circulando por este país. Mais Amor, por favor. A lunação atual só se fecha daqui a oito dias. Mais amor, por favor. Se não for por filosofia, ame por superstição. Mais amor, por favor.

_____

Ilustração: Toalha de praia

Breve e Necessário Passeio pelos Parques da Cidade

Ter apenas um assunto,

e esse assunto ser variações

em agressões a uma pessoa,

revela uma vida triste e encerrada,

consumida pelas próprias frustrações transferidas na forma de ódio àquele objeto – àquele ser humano tornado objeto

pelo ressentimento e

pelo vazio existencial

a que se resume o que sobra de vida

àquele que tem apenas um assunto.

Liberte-se da dor de ser quem você se tornou.

Não peço que mude de ideia,

mas que mude de assunto.

Abra outras caixinhas do universo.

Descubra o padre que descobriu o Tibet

(sim, isso aconteceu),

megulhe

em mapas de lugares imaginários,

passeie

pelo Pantanal de Manoel de Barros,

cavalgue com o verdadeiro Genghis Khan,

o autor da modernidade,

penetre

na leveza sublime dos versos de Rumi,

mergulhe

no sono, ouvindo Roberta Flack –

“The First Time Ever I Saw Your Face”,

corra

9Km num parque que não conhece

e repare nas árvores.

Leia A Vida Secreta das Árvores,

e A Vida Íntima dos Animais.

Traga

para casa frutas e legumes

que nunca provou.

Entre

no zoológico na volta do almoço,

e avise

seus sócios de que vai se atrasar:

__ Estou em reunião com um unicórnio chinês. Ainda é segredo.

E, então, estenda o braço e sorria

para a Girafa:

Ela perdeu o parceiro ano passado.

caio leonardo, 11 de fevereiro de

2019

Para que vivemos juntos?

É preciso ser absolutamente moderno, disse Rimbaud. Ninguém é moderno todo o tempo, respondeu Adorno, décadas depois. Os processos, os rumos, os encaminhamentos é que indicam se alguém, um grupo, uma sociedade, um governo, uma geração, um século, uma Era – se conduz com reflexão sobre para onde vai, vão, vamos, estão indo.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos que se veem hoje são conduzidos por certezas demais, certezas que haviam sido abandonadas pela reflexão.

A reflexão, ao que parece, foi ela mesma abandonada para dar lugar a certezas. Estamos abandonando a modernidade – cuja natureza é reflexiva, para Giddens.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos preponderantes na nossa atualidade movem-se pela noção de que tudo estava errado no caminho que vinha sendo trilhado para mudar o que estava errado.

As certezas atuais que decorrem dessa noção vêm sendo tais que reforçam exatamente tudo o que gerou e alimentava aquilo que estava errado.

São certezas que alimentam a violência; são certezas que aumentam a desigualdade, são certezas que, no entanto, trazem algo de novo e que nos leva para um caminho que nunca antes traçamos: As certezas preponderantes de 2019 constróem uma sociedade não apenas desigual, porque isso sempre foi, mas, sim, uma sociedade abertamente, convencidamente, orgulhosamente, franca, sarcástica, mordaz e apaixonadamente cruel.

Ou fazemos uma reflexão sobre essa crueldade – não para justificá-la, porque certezas não pedem justificativa, mas sim para superá-la -, ou a razão de vivermos como sociedade, como nação, estará perdida.

O Evangelho Segundo Don Teodoro

Todo parece tan natural, como siempre que no se sabe la verdad.
Júlio Cortázar, “Carta a una Señorita en Paris”

Em Buenos Aires, bebe-se Pepsi – agora entendo que, de quando em quando, aconteça de um rapaz vomitar coelhinhos num elevador da calle Suipacha. A cerveja Quilmes caiu em merecida desgraça, mas ainda pode ser vista pela noite de Palermo Soho em roupa de marca, um modelo deselegante em vermelho e dourado, onde se lê um desesperado Imperial. Nessas ocasiões, se for outono, é possível que a lua apareça de madrugada e nesse momento um rapaz de barba universitária tropeçará na longa cauda da noite ao atravessar a rua, e esbarrará na mesa da esquina oposta. Ele quer a todo custo que acendam seu cigarro. Seja gentil.

Não ficou claro quando Fernet Branca subiu para as mesas da Recoleta, mas o fato é que hoje está por todo lado, e todos a bebem, menos a classe alta, observou Pablo para depois conceder que também os jovens da classe alta bebem Fernet Branca, porém com Coca-Cola – não Pepsi. Não me pergunte por quê, eu estava intrigado com a camisa 8 de não sei qual volante obscuro do Estrela Vermelha que emoldurava uma Patrícia ainda de cabelos longos, recostada na mesa redonda de canto do La Brigada e ouvindo o rosto adolescente e tímido da filha do Pablo a defender ferozmente os Kirschner.

Os destinos da Quilmes e da Fernet, a subversão das relações de poder entre Coca e Pepsi, esses detalhes que denunciam a lealdade dos portenhos aos mundos estranhos de Borges e Bioy-Casares, tudo talvez estivesse nos preparando, a mim e à Patrícia, para o surgimento de Don Teodoro, 80 anos, taxista, último sorriso registrado provavelmente em 1978. Foi com Don Teodoro que descobrimos que o Tigre é o programa mais lindo para um domingo de sol, e não San Telmo. “Se soubesse que iam a San Telmo, não os teria deixado entrar”.

Don Teodoro é aquele para quem toda a imprensa está vendida a Cristina. Para quem o Malba, uma coleção *privada* (dito entre os dentes), é nada comparado ao Museu de Arte de Buenos Aires. Para quem a coisa certa a se fazer é contratar um motorista que saiba das coisas por 600 pesos, e rodar a cidade com ele por cinco horas, ou talvez não cinco horas, mas nunca tomem esse ônibus de dois andares, neles não se vê nada e só se vai a lugares estúpidos.

Don Teodoro, rugas de pedra e voz de V8, alma curtida de polêmica y calles, é quem afirma, em plena avenida Libertador e sem tomar fôlego:

“Pelé es mayor que Maradona. Os vi jugar a los dos y Pelé es un señor. Lo hizo todo, y es un señor. Maradona? Maradona tiene veinte hijos.”

Uma Terrena Comédia

Toda alma que cala e é covarde,

bem aquém do Aqueronte, como arde!

no primeiro dos círculos do inferno.

O braseiro – que brida quem tiver no

seu poder o dizer que chega o inverno –

ele queima a quem dói saber que ouviu –

por ouvir, mas fingir que não ouviu –

o gemido tão tétrico e sutil

de uma voz que se engasga ao perguntar:

o que queres do mundo, meu Brasil?

O Futuro é Aqui

“O Futuro Chegou”, de Domenico de Masi, termina com um capítulo sobre o Brasil, país que ele dá como exemplo, para o MUNDO, de sociedade do futuro, por ser tolerante e solidária.

Vim abraçar vocês e dizer que o futuro não vai nos abandonar. O destino é feito de sorte e virtude, disse um filósofo. A sorte está lançada. A gente vai ter a virtude de fazer com que nosso destino seja o de manter alto o exemplo de sociedade em reconstrução pela solidariedade e o olhar atento para esse brasileiro e essa brasileira ao seu lado, ao longe, onde for, como for. Ninguém vai ser esquecido.

O Brasil não vai se tornar as Filipinas de um Rodrigo Duterte. Pesquisem sobre Rodrigo Duterte, antes que seja tarde. Antes de domingo.

Não vamos nos tornar um fracasso civilizacional depois de termos nos inventado tão lindamente.

Moro num país tropical. E aqui minha gente é alegre e amorosa, mesmo diante da sua história de adversidades.

Ser patriota, no Brasil, tenho certeza de que você se lembra: é ser samba e batucada, beijo na boca e imaginação, cultura do abraço e da mão estendida.

Ser patriota é viver Manuel de Barros, entender Guimarães Rosa (quem mais pode entendê-lo, senão um veraz brasileiro?).

O ser-tão brasileiro é o amor por Diadorim; não o diabo no meio da rua, no redemunho.

Ser brasileiro é chorar diante da miséria da mãe brasileira; é se alegrar com a chegada do amigo; é saber – e como já cansou repetir isto : é saber o que é saudade. É ficar orgulhoso de ver que a menina da periferia foi para Harvard e agora é deputada federal. A mais bela notícia destas eleições.

O nome destas eleições é Tábata Amaral. A novidade é ela. A redenção é ela. Ela é o sinal do futuro. Ela, não ele. Ele, não.

O Brasil é brasileiro hoje e sempre. Este fim de semana, a brasileira vai sorrir docemente para o brasileiro, o ilustre passageiro verá o belo tipo faceiro que ele tem ao seu lado. E não vai acreditar que ele quase morreu de bronquite.

Este domingo é pra gente encher a cara de Rhum Creosotado, num reencontro curativo depois destes anos e dias de sentimento tão pouco nosso.

Porque nós vamos voltar a nos olhar com carinho e divertidamente este fim de semana.

Você e eu vamos ser o brasileiro e a brasileira que a Constituição descreve no seu artigo 3°: esta gente que existe como república para construir uma sociedade livre, justa e solidária.

Solidária. Livre, justa e solidária.

Livre.

Justa.

E solidária

Amorosa. Gregária. A sociedade do tamo junto. Uma sociedade alegre como não há outra no mundo.

Nós nos viramos – um pelo outro. Não viro as costas a ninguém. É antipatriótico. Não é brasileiro. Não é coisa da gente.

Todas as cartas de amor são ridículas, esclareceu o poeta. Esta é uma ridícula carta de amor a você.

Que este domingo você vá me encontrar por entre automóveis, ruas e avenidas, milhões de buzinas tocando sem cessar.

Que você venha toda de branco, toda molhada e despenteada, que maravilha, que coisa linda que é o meu amor.

Domingo, a gente se beija.

ANOTAÇOES PARA O SETE DE OUTUBRO

“… as they sink,

Donward to darkness, on extended wings”

Wallace Stevens, Sunday Morning

Eleições põem pessoas no poder não para acertar contas com o passado, porque essa é a atribuição dos tribunais. Os tribunais têm trabalhado muito estes anos e vão continuar trabalhando para fazer a justiça pela qual todos gritamos.

Eleições servem para outra coisa: Dar rumo e direção para o futuro.

_______

Política é uma arte. Precisamos recuperar a dimensão de arte da política.

Uma decisão política é uma obra de arte quando todos entendem por que aquela é a melhor solução possível – e a aceitam como solução e como rumo para todos.

A arte da política é a de

    entender os problemas da sua gente e da sua terra
    estabelecer prioridades
    buscar soluções
    aproximar quem pensa diferente para afinar as soluções
    construir entendimentos
    fazer a solução encontrada ser eficiente e eficaz com o apoio de quem é afetado por ela
    acompanhar sua execução constantemente para (i) avaliar resultados e (ii) aperfeiçoar o modelo.

A política feita assim é a mais nobre arte. Precisamos aprendê-la e vivenciá-la.

Para que essa arte da política funcione é preciso que o cidadão (você, eu) acompanhe, compreenda, opine e interfira nas decisões tomadas por aqueles que seu voto elege.

______

O melhor político é o que ouve e une de tal forma que não precisa usar sua autoridade.

O melhor político ouve antes de falar, e seu comando é uma ordem que veio de todos os que foram ouvidos

Quando todos são ouvidos e chegam ao consenso possível sobre determinado problema, o comando e a autoridade vêm de todos.

Política não é o exercício da autoridade.

Política não deve ser reduzida a comando e controle.

__________

A política é a arte de olhar para o futuro.

Vingança não é futuro. Vingança é um tormento do passado. O Brasil é um país atormentado pelo seu passado e incapaz de enxergar que há quem esteja lhe oferecendo um caminho para o futuro.

Futuro não se constrói com revanche nem com a entrega do poder a quem diz que vai resolver tudo à bala.

É um erro votar em quem pode fechar as portas ao diálogo e à colaboração na construção de respostas.

________

O brasileiro precisa voltar a se ver como parte de um povo que se quer bem, que quer o bem do seu conterrâneo. O brasileiro precisa voltar a amar a sua terra e a sua gente.

O Brasil precisa de compaixão, que é saber sentir a dor do outro e querer o melhor para si e para o outro.

Cuidemos de celebrar e alimentar as delícias de ser brasileiro; e a de manter um olhar atento a quem está afastado das delícias de ser brasileiro.

Amanhã, vote em quem respeite a cultura da alegria que define o brasileiro; vote em quem se preparou e tem a oferecer uma visão de futuro para o País.

Uma Geração Perdida Assume o Comando

l.com.br/presidente-do-corinthians-e-intimidado-em-banheiro-e-deixa-festa-do-palmeiras/ cortava: “Estuma geração perdida”.

Naquele mesmo dia, a Sra. Stein jogou a mesma frase sobre o jovem Hemingway , que a eternizou no seu Paris é uma Festa. Os tempos são bem outros, mas a frase merece esta visita.

A geração que nasceu entre os anos 1960 e 1970 chegou ao poder. É a turma que está na casa entre os 40 e 60 anos. São os filhos da revolução sexual: a pílula anticoncepcional, que chegou ao mercado precisamente em 1960, abriu o caminho para o amor livre e o sexo antes do casamento, tornou velho o plano de nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer. As regras do relacionamento a dois foram sendo abandonadas. Não havia mais regras. Valia tudo.

Mas essa geração era criança nessa época. Alcançou a adolescência nos anos 1980. E foi nessa época que a liberdade sexual sofreu a contrarrevolução da AIDS. A liberdade sexual a partir de então era risco de morte, mas o casamento, as regras da vida a dois já não valiam mais. Namorar, casar era coisa muito antiga. Sem saber o que fazer, porque não havia um caminho predefinido como antigamente, tudo passava a exigir negociação. A busca do prazer pregada na década anterior começava a dar medo, e querer uma relação a dois dava mais medo ainda, porque a fórmula havia sido perdida, jogada fora.

No meio dos anos 1990, veio a revolução tecnológica. Com a internet, a rua entrou em casa. A casa deixou de ser “o asilo inviolável do indivíduo”, as salas de bate-papo derrubaram muros e as últimas convenções. Práticas sexuais antes secretas passaram a ser de conhecimento comum. As possibilidades de relacionamento sexual ganharam novos, perturbadores horizontes. Essa geração perdeu o rumo e as referências. Se a revolução sexual dos anos ´60 tinha sido um movimento social com um pensamento crítico a embasá-la, a revolução tecnológica abriu as portas da percepção sem qualquer reflexão. Informação demais, possibilidades demais, regra nenhuma. Diante da tela do computador estava um indivíduo que podia tudo e não compreendia nada do impacto desse poder sobre sua existência.

Essa geração foi educada no auge da ditadura e começou sua vida profissional nos anos da hiperinflação, quando era impossível planejar o dia seguinte. Viveu a transição do fim da Guerra Fria e a velocidade, o impacto, a intensidade e a extensão das novas relações comerciais, políticas e sociais sob o signo da globalização. Assistiu a meros doze anos de crescimento neste século. Fez tudo ruir estrondosamente.

Anthony Giddens disse: “Somos a primeira geração após o fim da natureza.” Também a mais solitária e, no Brasil, a mais historicamente inconsequente. Segure-se, pois é ela, agora, quem manda.

Caio Leonardo

(Texto anteriormente publicado no jornal Bom Dia. Revisto e alterado)

O Povo Eleito e o Mercado

O tal Mercado, de quem tanto se fala, não é muito mais do que um astrólogo porto-riquenho extravagante que, como todo vidente, combina com comparsas as suas previsões. No Brasil, fundiram recentemente três templos erguidos a ele.

É que há quem o leve a sério. De vez em quando, surgem uns questionadores, como alguns donos de transportadoras rodoviárias de carga, que criaram um culto paralelo, dia desses. Muita gente para lá imediatamente migrou a sua fé e passou a acreditar em caminhões como a salvação.

A crença nova andou relativamente bem para os novos zap-cerdotes, até os caminhões começarem a causar um problema dos diabos. Um tanto assim de brasileiros acreditou em sacrificar-se pelo novo deus sobre rodas, porque sentia que tinha perdido a aposta na dica anterior do Mercado – e alguém precisava voltar a falar mal dos filisteus. É que a turma que o Mercado botou no lugar dos filisteus tem deixado tudo muito pior do que… quando os filisteus tinha sido os eleitos.

Logo ficou claro que não eram os caminhões a verdade e a vida que os convertidos esperavam. O mundo deixou de girar, e a Lusitana de rodar, porque queriam era uma graninha do governo, que sairia tanto dos fiéis ao Mercado, quanto dos fiéis aos caminhoneiros, inclusive dos infiéis. Todo mundo vai perder, como previu uma filistéia.

Os seguidores do Mercado, voltemos a eles, dividem-se entre os citados comparsas, que ganham uns trocados, e os otários, de quem o Mercado tira um bom dinheiro. É bem parecido com a relação entre pastor, obreiro e fiel, só que o Mercado influencia a vida de quem nem acredita nele.

Hoje, a dica do Mercado e seus Comparsas é Bolsonaro. O que tinha de otário embarcando cedo nesse palpite do Mercado… Agora, então, é como se passassem a ter razão.

Não pergunte sobre 2016, nem sobre Temer. O Mercado e seus Comparsas fizeram muita gente apostar nessas ondas. Deu muito errado, mas faz parte da crença desse tipo de fiel jamais imputar a seu deus qualquer responsabilidade.

Preferem por a culpa em quem não acredita no Mercado. Recentemente, depois de muito, muito trabalho, conseguiram prender um filisteu bem famoso, porque o porto-riquenho e seus comparsas não gostam dele. E não há jeito de tirá-lo da cadeia antes de conseguirem emplacar sua próxima previsão.

O brasileiro é temente a seus deuses. O brasileiro é crente por disposição histórica. Crê fácil. Crê em quem ele teme, não em quem o ouve. A base da crença do brasileiro é clamar aos céus contra os seus – e nunca ser ouvido. Um deus que ouve é um deus que sangra: morte a ele. O brasileiro crê subservientemente, mas na estranha esperança de fazer do outro brasileiro seu servo. O brasileiro crê cruelmente. Sua crença sempre envolve o mal de alguém, uma crença que quase sempre vai acabar fazendo mal ao próprio crente.

Como quando, por orientação do Mercado, sacrificam em praça pública um presidente eleito.

Numa sociedade plural como a brasileira, com tantas crenças e tantos povos, nada pior do existir entre nós um povo que acredita ser o eleito e que não aceita ser eleito alguém que não seja do seu povo. Não entra na cabeça deles. Vai contra a orientação do Mercado. Tudo, menos alguém que não seja eleito por eles, como eles, à sua imagem e semelhança.

Melhor que isso, só se o eleito tratar os demais com o desprezo dedicado aos filisteus, aos debaixo. Bater nos de cima é contra a fé no Mercado.

Volta

O sol se põe em São Jorge

e nos despedimos da São Bento

tomando a direção de São João d’Aliança.

As crianças brincam no banco de trás,

o meu é 9

o meu é 5

e todos de olho nas placas dos carros que passam.

Essa tinha dois noves!

E assim foi a competição até São Gabriel.

Patrícia no banco da frente ganhou.

Dirijo noite adentro, Chapada afora,

volteando a curiosidade infinita da Valentina,

saboreando as gargalhadas gostosas do Samuel

– e tudo complicava o sono da Tata,

encaracolada a estibordo.

O rosa do sol já sumido do horizonte,

desce um suave silêncio sobre a popa,

Patrícia brinca na proa com as diferenças

entre Ella e Billy,

surge um alvoroço no leme

com as escalas de Sarah

e eu sorrio para as luzes na estrada.

À noite, aquela estrada é uma crença em luzes.

Stultifera Navis

A enorme e torta canoa

desce a corredeira.

Sacode e roda entre pedras e toras

rumo à catarata.

A canoa não vai vazia para o abismo.

Estão todos juntos.

Mas eles se acotovelam e se amontoam,

gritam e berram, vociferam

contra as árvores que estendem seus galhos.

Contra as margens do rio.

 

caio leonardo

22 de março de 2018

Adágio em Sol Menor

Preciso de pouco.

A vida é que tem me dado muito.

Minha alma cabe

sem esforço,

ainda que comprimida,

nesse cantinho estreito

embora ensolarado

entre Barcelona

e Saint Paul de Vence;

mas também se vira

entre Juquehy

e Paraty;

e aceita

sem relutar

um chão duro qualquer

tendo como travesseiro

dois Hemingways e um Cortázar.

Para me cobrir,

basta um Capote.

E se um dia

nem mais ler eu puder,

que me encontre recostado

entre damas-da-noite,

– as memórias me bastarão.

Mas quando nem mesmo

a memória me sobrar,

então que o acaso faça chover

sobre mim em São Vicente,

que a chuva de lá sempre foi

e sempre será

o meu mais suave acalanto.

Ela bastará,

garoa ou tempestade,

quando eu não saiba mais de mim.

Sem Nome

Esse pássaro gordo

marrom, comprido

de cauda longa e

cara de sujo de terra

apareceu de novo na pitangueira

pegada à minha janela

que fica fechada no calor eterno de Brasília.

Ele é um pássaro feio

mas incomum.

Feio e incomum.

Hoje é um dia feio e incomum,

e não sei que nome dar

a esse vizinho

nem ao que sinto e desejo

neste dia feio e incomum.

Mas que diazinho feio e incomum!

Vou xingar, mas nem chego perto de abrir a boca.

Devia tomar um captopril,

mas dona Marlene me traz melancia –

ela tem um ar curioso agora à tarde,

a dona Marlene.

O pássaro gordo e sujo adoraria

chafurdar nesse pratinho de melancia

sobre a mesa de trabalho:

seus pés escorregariam nos jornais

que rasguei mais cedo

e sua asa cor de sangue pisado

derrubaria

a água até agora intacta

mas que já atravessou esta sala pelo menos

três vezes

prefiguradamente. Como a outra de mais cedo.

Parece uma enorme e gelada

teia de aranha

essa trinca na tela do computador.

Se a mesa não ficasse colada à janela

eu a abriria

e faria algum som estúpido para o

pássaro gordo e marrom

com suas asas de sangue pisado

entrar e chafurdar na melancia.

Como a melancia.

A janela mantém o quintal calado.

O sol arde sobre a pitangueira.

(Mas que diazinho feio

e incomum!)

Qual é o santo nome daquele pássaro?

Quando diabos este dia vai terminar?

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

A janela fechada mantém o quintal calado,

a pitangueira está quieta,

o pássaro sem nome

está por aí,

carregando a sua feiúra incomum.

– caio leonardo

24.1.2018