Céu de Giz

Ao pé do morro do Elefante,

na Chapada dos Veadeiros,

a caminho de São Jorge,

a noite seria escura, madrugada fria,

luz tímida de fogueira,

galhos retorcidos, capoeira.

 

Seria noite escura,

as gentes eram espigas que surgiam da lenha ardente

e se procuravam porque era festa

e em festa a gente se procura,

e aquela gente balançava,

porque era festa,

porque era noite,

noite sem lua,

noite que seria escura.

 

Veio o sorriso de Jai, a caipirinha de melancia,

a mãe e a filha, e os espíritos tantos

que dançavam apesar da música

que era boa como o scotch goiano

que me aquecia a mão.

 

Seria escura a noite,

não fosse aquela estrela no ombro do horizonte.

Na Chapada, as estrelas brotam do chão,

como os cristais.

 

E do chão o olhar foi subindo

subindo pelas frestas da noite

no ombro infinito do horizonte da savana

As estrelas, aquilo se expandiu,

a cabeça rodou do leste ao longe,

e voltou àquela primeira estrela-planeta –

ponto fixo no mar agitado.

 

Já não era noite escura,

a quase náusea de imensidão cedeu,

e dei outra volta pelo céu do cerrado.

Apeei onde a vereda era tomada de uma poeira

que se alargava e se espremia,

poeira espalhada,

levantada de carro e cavalo,

mas no céu,

poeira do calcário da terra no céu,

pó de pedra de trilha

suspenso no insondado:

a Via Láctea no Alto Paraíso.

Saiba como observar a chuva de meteoros da madrugada desta quinta-feira

Não era noite escura,

e eu já contava onze riscos no céu,

onze  enquanto dançavam.

Quando contei o que contava,

uma indignação astronômica percorreu a capoeira

e os tufos espigados tiraram os olhos do fogo

e foram buscar giz no céu.

Um giz fugaz.

Um giz raro

que corta e

marca e

some

na lousa do universo.

 

A música da festa parou

por incompetência e sorte:

aquela gente que se procurava

que se balançava e fogueirava

parou.

 

Na noite que era de ser escura,

as Perseidas cruzavam o assombro que nos cobria.

 

caio leonardo

inverno de 2016

foto: https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/08/confira-8-imagens-impressionantes-da-chuva-de-meteoros-perseidas/

O Golpe Subliminar

Nem presidencialismo, nem parlamentarismo. O Brasil é o único país no mundo em que o centro do poder político está no Judiciário.

A judicialização da política pelo Legislativo e pelo Executivo acabou por transferir o eixo de Poder da República para o Supremo. Sim, o presidente da Câmara tem a presidente da República como refém, mas isso é circunstancial e personalíssimo. A transição de poder para o Supremo, no entanto, é institucional.

A centralidade política do Supremo Tribunal Federal vem sendo ensaiada há anos pelo pensamento neoconstitucionalista que divide a corte. Gilmar Mendes interpretou o neoconstitucionalismo alemão a seu modo, para horror de Canotilho, e atribuiu por via jurisprudencial à Corte poderes que nenhuma outra no mundo detém. Joaquim Barbosa, Barroso e Marco Aurélio Mello, entre outros, aderiram a esse pensamento e endossa(ra)m esse empoderamento.

O neoconstitucionalismo de Gilmar Mendes tem como corolário o STF como a última voz em tudo na República. Foi emblemática nesse sentido sua fala ao término do julgamento de recurso em que se discutia a quem caberia a última palavra sobre a extradição de Cesare Battisti. O Corte decidiu majoritariamente que tal decisão caberia ao Presidente da República, contra a posição de Mendes, que declarou: “Hoje, o Supremo se apequenou”. Apequenou-se porque permitia, ali, que outro Poder, que não o Supremo, pudesse ter última palavra sobre alguma questão na República.

Tudo andaria de modo aceitável, se o Supremo se circunscrevesse à função de fazer cumprir a Lei e a Constituição. Porém, não é assim. Sob o neoconstitucionalismo, a Corte Suprema julga com base em princípios constitucionais escritos e não escritos: não julga, como se espera, apenas com base na lei. O exemplo máximo disso foi a decisão a favor do casamento homoafetivo. Sem entrar no mérito da questão de fundo, o que importa politicamente é que, ali, o Supremo decidiu contra texto expresso da Constituição Federal, com base justamente em princípios constitucionais. Ou seja, o Supremo colocou-se acima da Lei Máxima.

Bem de acordo com essa postura, os neoconstitucionalistas falam não em Estado de Direito, mas em Estado Constitucional, que é precisamente aquele regido por princípios etc… Porém, não é isso que diz logo o art. 1º da Constituição Federal:

“Art. 1º A República Federativa do Brasil (…) constitui-se em Estado Democrático de Direito (…)”

Ora, o Estado Democrático de Direito é aquele submetido à lei, que é o comando estabelecido pelo Legislativo e sancionado pelo Executivo. Ao Judiciário, nesse sistema, como inferido acima, cabe fazer cumprir a lei. A Suprema Corte brasileira vai além disso no que interpreta, alterando-as, tanto a lei como a própria Constituição.

Atentos apenas a suas rusgas, Congresso e Planalto acatam o desvio do Supremo para o centro do Poder. Enquanto o debate político no Brasil sopesa a dúvida hamletiana sobre ser ou não ser golpe o processo de Impedimento da Presidente da República, corre em paralelo essa tomada de poder que vem sendo construída passo a passo, como a boa – e a má – jurisprudência.

A fala recente de Marco Aurélio Mello explicita esse entendimento, que não é jurídico: é político. Declarou o ministro que mesmo a decisão do Senado sobre o Impedimento pode ser judicializada e julgada pelo Supremo. Essa posição específica pode vir a ser minoritária na Corte, mas está em consonância com o pensamento neoconstitucionalista.

Tudo considerado, o fato é que o Supremo Tribunal Federal mudou o regime político brasileiro. Seus membros, ao longo das últimas duas décadas, desferiram um golpe de Estado subliminar do qual resultou que a Corte assumiu a última instância de Poder. Saímos do Estado Democrático de Direito e caímos no Estado Constitucional, sem qualquer consulta, sem qualquer questionamento, sem qualquer risco de vermelhos e amarelos entrarem em confronto.

Caio Leonardo

14 de abril de 2016

 

 

Para Onde Vai o Brasil?

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Ninguém enfrenta uma tempestade com pedras na mão

 

O País vive instabilidade política, social e institucional num ambiente econômico de recessão. Uma crise ética e moral deflagrada na classe política contaminou a todos: as regras de conduta social foram abandonadas, reina uma fratrifobia – o medo pânico do que pensa seu próprio irmão, vizinho, colega de trabalho ou de escola, concidadão, cliente, paciente, comensal (porque nem os modos à mesa escaparam).

Os brasileiros se odeiam.

Aonde isto vai nos levar?

É tanta informação sendo processada todo o tempo, que é preciso enormes simplificações para, ao menos, tentar alçar os olhos acima do cipoal que amarra as visões do Brasil, e dali entrever, pela copa de árvores (de decisão) o que está no horizonte.

O que se segue é uma tentativa de responder àquela pergunta. O glossário adotado inclui uma oposição fácil de compreender entre “amarelos” e “vermelhos”, que se refere aos dois grandes conjuntos de movimentos sociais que se têm alternado na ocupação das Ruas com agendas políticas conflitantes. “As Ruas” são o conjunto de manifestações urbanas; “o Campo”, os movimentos rurais.

Não são analisados os interesses de outro partido que não o PMDB, por este ser, em última análise, a força política cujas motivações são centrais na origem, na evolução atual e no deslinde desta crise. Ou seja, é o único que realmente interessa na definição dos rumos do País.

Não é feita menção à mídia e às redes sociais. As reações aqui imputadas a vermelhos e amarelos pressupõem a influência daquelas sobre estes. Tampouco é feita menção aos interesses que movem a mídia e/ou as opacas estruturas de fabricação subliminar de notícias sem substrato fático que permeiam as redes sociais.

“Lava Jato” é o termo sob o qual está, aqui, referida toda a judicialização atual da política que não esteja sob a autoridade do Supremo Tribunal Federal

A leitura das tendências é crua e cruel, como estes Tempos.

Tudo fica resumido a três grandes cenários: 1. Dilma fica; 2. Dilma cai, Temer assume; e 3. Caem Ambos, Eleições são Antecipadas

1. DILMA FICA

Se Dilma não vier a ser impedida, o Governo mais provavelmente continuará refém do Congresso, das Ruas e de uma Lava Jato em expansão, se o STF não lhe impuser foco

1.1 A  projeção mais provável para um cenário em que Dilma não impedida não faça a concessão extrema de deixar o Governo é a de um governo sem aderência social nem política conduzido até o fim com alto custo econômico, social e institucional.

Há dois caminhos para Dilma conceder deixar o Governo: a renúncia ou a aprovação da PEC de antecipação de eleições, uma hipótese já ventilada e que seria uma saída honrosa para Dilma.

1.2 A pior projeção desse cenário é a de ruptura institucional.

O nível de tensão atual poderia alcançar o patamar de conflagração – no braço, nas Ruas, no Campo – do qual o País está muito próximo, com escaramuças verbais aqui, agressões pontuais ali, hostilizações por todo lado.

O País estaria na rota da convulsão social. Dilma não teria sustentação política – talvez nem institucional – para decretar Estado de Defesa e conter os extremos de amarelos e vermelhos.

1.3  A projeção mais improvável é a de o Governo atual, se mantido, conseguir recompor sua base política e social, de modo a refundar-se e repor o País num rumo equilibrado e definido. Improvável, porém possível.

2. DILMA IMPEDIDA, TEMER PRESIDENTE

Se Dilma for impedida e assumir Temer, a classe política tende a se acalmar. Temer é considerado um líder moderado e fiel. Fora da classe política, três processos serão fundamentais: Ruas, Campo e Lava Jato. Ruas e Campo poderão se alevantar por Dilma e/ou por Moro.

Bater nos vermelhos é historicamente do ofício. Mas bater nos amarelos exige uma boa desculpa. Para Temer, será importante que os vermelhos tomem Ruas e Campo, porque este seria motivo bastante para decretar Estado de Defesa. Temer teria apoio político para decretá-lo, mas também provavelmente apoio dos amarelos, até que estes se dêem conta do que isso significa para eles mesmos.

Em Estado de Defesa, o vermelhos seriam contidos à força – o que, em si, agradaria os amarelos – mas, ao mesmo tempo, permitiria impedir QUALQUER reunião, inclusive as dos amarelos. Impedir reunião dos amarelos seria fundamental para barrar a Lava Jato, objetivo central do movimento do PMDB de desembarque do Governo em Março.

Para conter a Lava Jato, já está em curso o processo de desconstrução da imagem do juiz Moro, para o qual ele mesmo vem contribuindo com sua parcela de erros.

Com Temer no comando, Moro terá de escolher entre cair para cima ou para baixo. Para cima, com todas as homenagens, ao ser nomeado talvez até para o STJ, sem escala, a depender do momento. Para baixo, por afastamento fundado no abuso de autoridade ou incurso em crime de violação da lei de interceptações telefônicas.

O que importa nesse cenário é que Moro muito provavelmente cairá se firmar pé na Lava Jato sob Temer. O MPF e a PF seriam contidos por rearranjos internos a que governos conservadores estão habituados.

Mas a Lava Jato também é instrumental para Temer e o seu PMDB (porque, como se sabe, há outros). Antes de ser contida,  interessa a Temer que saiam de cena  Cunha, um sério empecilho imediato, e Lula, um empecilho a médio prazo. A queda de Lula já estaria precificada na decretação do Estado de Defesa – quem bate em Dilmistas, bate em Lulistas.

Se a pressão para um acordo de paz assim o exigir, poderá cair também um cacique tucano, e o candidato à vaga, hoje, é Aécio, porque “vingaria” Lula (e Dilma?) e porque interessa a injunções internas a seu próprio partido.

Nesse entretempo, Temer comporia o ministério estelar e liberal que vem prometendo, mas talvez viessa a fazer concessões à esquerda (políticas sociais) num discurso de união nacional.

Nesse quadro, Temer dificilmente deixaria de encerrar seu mandato tampão, mantido pela mesma ordem política que terá sido brevemente posta em questão entre 2015/2016.

3. CAEM DILMA E TEMER, ELEIÇÕES ANTECIPADAS

Se ficarem vagos os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, quem quer que assuma terá a incumbência de chamar eleições em 90 dias. O primeiro na linha sucessória nesse caso, é o  presidente da Câmara. Se vaga a presidência da Câmara, assume o presidente do Senado. Se vaga a presidência do Senado, assume o presidente do Supremo Tribunal Federal.

Todos os cargos na linha sucessória de Dilma estão nas mãos do PMDB, com exceção do Supremo. Se caem Dilma e Temer, o seguinte na linha sucessória, hoje, é Eduardo Cunha, presidente da Câmara. Se Cunha for cassado, o que é provável e interessa a todo o espectro político não submetido à sua influência direta, assume Renan Calheiros, presidente do Senado. Renan também pode ser cassado, mas sua queda não interessa à classe política: Renan é visto como uma liderança moderada e fiel, assim como Temer.

3.1 Cunha e Renan, se alçados à presidência interina da República, poderão decretar Estado de Defesa, se entenderem necessário, para conterem eventual resistência a seus nomes por parte da sociedade civil. É pouco provável que vermelhos ou amarelos apoiem um ou outro, mas Cunha não se importaria com isso. Renan, sim. A diferença entre os dois é o uso que podem fazer de seus instrumentos de poder.

3.1.1 Renan provavelmente cuidaria de desincumbir-se de chamar eleições com a brevidade constitucional.

3.1.2 Cunha talvez ficasse mais concentrado no exercício da presidência do que na transição.

3.2 A projeção mais improvável é o de a Lava Jato fazer larga limpeza no quadro político atual. Se a judicialização da política chegar às consequências mais óbvias, haja vista (apenas) os réus que hoje se defendem no STF, caberia ao (ou à) presidente da própria Corte assumir a Presidência da República, igualmente com o dever de convocar eleições.

Uma desordem política dessa envergadura desafia qualquer entendimento. Teriam ruído os alicerces dos interesses que sustentam as análises anteriores. O Brasil tem episódios de predominância do Legislativo – no Império tardio, no próprio governo Dilma -, a permear o que é uma história de hegemonia do Executivo. Porém, o Poder Executivo ser transferido de fato e de direito para o Judiciário seria uma novidade absoluta.

Uma novidade absoluta, mas não absurda. O STF, sob a influência primeira e persistente de Gilmar Mendes, inaugurou uma interpretação neoconstitucionalista única, segundo a qual a Corte detém a última palavra sobre tudo na República. O Parlamento entregou há muito tempo seus conflitos internos ao Supremo, a quem recorre como o filho ao pai quando briga com o irmãozinho. Nos últimos anos, o Parlamento mantém uma relação psicologicamente regressiva com o Supremo. E o Supremo mantém uma relação opressiva sobre o Executivo, ordenando que faça isto ou aquilo, com base na interpretação que queira dar a princípios constitucionais, escritos ou não.

Em vista disso, não é impossível que duas projeções como estas possam ser lançadas:

3.2.1 Numa projeção romântica, diante de crise institucional limítrofe com a ruptura e do desmoronamento das estruturas partidárias em vigor, o Supremo poderia definir novas regras para as eleições, impondo uma reforma partidária/eleitoral que viesse a fazer com que a gestão de partidos políticos e o investimento em eleições deixassem de ser um negócio e passasse a ser um ônus para quem queira dedicar-se à vida pública. Candidaturas independentes, quem sabe.

3.2.2 Numa projeção menos romântica, haveria uma ascensão de corpos políticos intermédios e o provável incensamento de algum perfil berlusconiano ou abertamente autoritário. A ala conservadora seguiria com mais vigor em sua curva ascendente atual e a esquerda perder-se-ia  nos usuais rachas internos, agora alijada do poder que exerceu nos últimos 14 anos.

—-

O cenário 1. é  o mais instável.

O cenário 2. é o mais provável.

O cenário 3. é o mais improvável.

A projeção 3.1.1, entre as improváveis, é o mais indesejável, porque não é de se esperar de Cunha uma muito necessária moderação àquela altura.

A projeção 3.1.2, entre as improváveis, é menos imponderável, Renan muito provavelmente conduziria o processo eleitoral com a destreza que o caracteriza.

A projeção 3.2.1 é, ao mesmo tempo, num cenário de terra arrasada, a mais desejável e a mais improvável.

A projeção 3.2.2 funciona, também, como projeção para o cenário 1.

A projeção 3.2.2 funciona parcialmente para o cenário 2: a ascensão conservadora e a decadência progressista valem também para este, porém a política seguirá caracterizada pela predominância do atual PMDB – com, talvez, a exclusão de Cunha.

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“Governar” é termo com origem náutica – significa navegar, conduzir o navio. No Brasil de hoje, o mar está agitado, mas a tempestade ainda está no horizonte. Ninguém está seguro. Ninguém confia no capitão nem no contramestre. Ninguém confia em ninguém. Marinheiros de amarelo odeiam os marinheiros de vermelho e vice-versa.

Nada disso sugere que a sociedade brasileira vá saber o que fazer quando a procela desabar sobre sua cabeça. Sobre as nossas cabeças.

Ninguém enfrenta uma tempestade com pedras na mão.

Caio Leonardo

2.Abril.2016

 Caminho de Konlé

Toca a meia-noite da passagem de ano, e a pessoa está sozinha. Num carro. Numa rua sem saída. Procurando uma vaga inexistente. Que não existe nem ali, nem em qualquer outra parte da ilha onde essa pessoa está. Sim, essa pessoa está numa ilha. Sozinha. Mas só ela está sozinha, porque toda a ilha está em festa. Gritos e rojões e brindes e gente alegre por todo lado. Menos naquela rua sem vaga e sem saída, à meia-noite, na passagem de ano.

A pessoa sou eu. Dei meia-volta e segui até a entrada da rua sem saída. Saí dali rindo de mim:

“You started the year with bad decisions” – fui repetindo para mim, com várias entonações, cada vez mais tenebrosamente britânicas. No carro. Sozinho.

Mais vinte minutos – que são vinte minutos para quem estava no trânsito fazia hora e meia, tentando atravessar 5km? 5km de gente, levas e levas de famílias, de rapazes, de meninas, de crianças de colo misturadas a baldes de cerveja e sacos de gelo e oferendas a Iemanjá; 5km de gente indo em direção ao mar.

Mas que são outros vinte minutos, quando se tem um ano novinho de tudo, começado ali mesmo, inteirinho pela frente? Mais vinte minutos e encontrei um carro que manobrava para sair de um vaga. Três carros logo se enfileiraram atrás de mim. Eu podia sentir que o primeiro orava, o segundo rogava pragas e o terceiro, mais pragmático, buzinava.
Contra todos!, estacionei. Estava a longos três quarteirões da casa aonde ia.

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*

O povo agora voltava da praia.

Aquele povo todo. Todas as cadeiras de rodas e todos os carinhos de bebê já vendidos no Brasil estavam vindo da praia, empurrados por tios, pais, genros, noras, netos, todos bêbados. E quem não empurrava uma coisa, puxava outra. Puxava o carrinho de compras com as garrafas, as bolsas e a blusa que a mãe tinha mandado levar; puxava restos de rituais em que só acreditavam ali, àquela hora; puxava a saia para baixo, a calça para cima; puxava o marido bêbado, puxava um samba, puxava fumo.
E eu, na contramão.

Abri uma picada a golpes de Feliz Ano Novo, com-licenças e perdões, e ouvia de volta eventualmente o oposto disso. Nenhum estranho me abraçou chorando – se acreditasse em sinais, esse seria o de que a sorte pudesse estar mudando.

A casa então apareceu, majestosa e iluminada – do lado de lá do mar de gente. E o mar de gente estava agitado, logo tudo aquilo seria uma enorme ressaca. Os fogos da meia-noite davam lugar ao barulho surdo das ondas brancas, espumantes, uma arrebentaçãode calças e vestidos e camisas e escolhas desastrosas em branco, peças do tecido de esperanças fugazes de ano novo, que logo amanheceriam debaixo da cama ou da pia, debaixo do chuveiro ou de lamentações – é 2016 no Brasil.

Parei. Contemplei por um minuto a correnteza fazer o seu arrasto, enquanto recuperava o fôlego. Tomei posição, mergulhei. Atravessei a arrebentação com braçadas indecisas.

Ao chegar ao outro lado, um portão me ordenou que parasse. Um portão alto, solene, novamente branco, mas de um outro branco, um branco de solidez, de porto seguro – finalmente. Suado, descabelado, aturdido, procurei a campainha em meio à parede de hera, chamei e, antes de dizer alguma coisa pelo interfone – algo como meu nome ou “socorro” – tudo se abriu.

Lá dentro, longe ainda um pouco da rua, ombrelones cobriam mesas onde pessoas sentadas conversavam numa animação serena. Um enorme cisne inflável navegava pela piscina – crianças na água, adultos no champagne. Subi o aclive suave que levava a todos, procurando o primeiro rosto conhecido. O de Gatsby, talvez.

Encontrei o de Prisciliana.

Fui recebido com um sorriso imenso e um abraço afetuoso, distribuímos desejos para 2016 e, como uma cortina que cai, entramos.

**

cisne

**

——–
*Photo by Jon Baird, via artdoxa.com https://www.artdoxa.com/jonbaird/large?page=5

**Foto Kris Rezende: Gabriel navega sobre o cisne na casa de Prisciliana Aflalo, em 1º de janeiro de 2016.

Um Tom Nada Leblon, Nada Jobim

“Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague”

Chico Buarque

Há cada vez mais entusiastas entre os brasileiros. Entusiastas de nada de muito bom, já que de muito bom nada tem acontecido por aqui. Digo “entusiastas” pensando em Voltaire:

“Não há o que ganhar [ao discutir] com um entusiasta”.

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“Entusiasta” vem de termo grego que significa “tomado por uma divindade”. Basicamente, o entusiasta é um possuído.

A frase de Voltaire está nas suas Lèttres Anglaises, um comentário a respeito de seu contato com um quaker. “Quaker”, mal traduzindo, é algo como “aquele que se sacode”. Os quakers eram (e são) cristãos que, no que interessa aqui, não admitiam padres, pastores, qualquer autoridade religiosa ou política, nem qualquer ascendência social de alguém sobre seus membros, ou “amigos” – o nome oficial dos quakers é Sociedade Religiosa de Amigos, ou Igreja dos Amigos.

Numa reunião de quakers – seu culto – qualquer um dos presentes podia tomar a palavra. A palavra era de quem se sentisse imbuído da presença de deus – noutras palavras, quem estivesse possuído ou entusiasmado. E esse entusiasmo se manifestava por meio de espasmos não muito diferentes em natureza, mas definitivamente diferentes em ritmo, daqueles que o brasileiro reconhece na umbanda. Esses espasmos é que deram a eles o apelido de “quakers”, os que sacodem.

Eram quakers os puritanos que fugiram da perseguição religiosa na Inglaterra e chegaram à América no Mayflower. Os quakers, por não reconhecerem qualquer autoridade, tratavam a todos como iguais – não porque se importassem com desigualdade e sim porque, na atitude de não tirar o chapéu diante de alguém de família nobre, e esse era o caso de Voltaire, estariam afirmando a autoridade única de deus. Claro que essa turma não era bem-vinda na monarquia inglesa de privilégios e rapapés.

Para os quakers todos eram iguais, porque não reconheciam ninguém acima deles. Abaixo era outra história. E foi esse senso peculiar de igualdade que os fez selar, dali para o futuro, o destino dos índios norteamericanos.

Pois o Brasil anda tomado de quakers. Mas um tipo tropicalizado de quaker. Pessoas entusiasmadas com suas crenças políticas. Uma Sociedade de Amigos que, quando um deles fica possuído, passa a tratar de Política. Amigos entre eles lá, que, como o quaker de Voltaire, não respeitam ninguém quando querem impor suas ideias prontas a quem não seja da sua turma – no caso brasileiro, a quem não tenha comprado as mesmas ideias na banca de revistas. Os daqui, adotam como credo não só as ideias que compram, mas também o tom de quem as escreve e publica, um tom belicoso, um tom de confrontação, um tom histérico, um tom grosseiro, um tom assim, nada Leblon, nada Jobim.

O exótico membro daquela Igreja dos Amigos que Voltaire encontrou em Londres comporta-se na essência como aqueles entusiastas com que Chico Buarque se deparou ontem em pleno Leblon: uma ação entre amigos que, já que estavam lá e já que estavam bêbados, então nada melhor a fazer do que tratar sem respeito a todos e impor suas frases – tão feitas como versículos da Bíblia – ao maior compositor da Música Popular Brasileira, a um ícone da liberdade contra a ditadura, a um homem sem o qual ser brasileiro seria ser muito menos.

Mas os exóticos quakers tropicais, como bons sacolejadores, não reconhecem valor a quem não seja dos seus, falam em espasmos e dentre eles toma a palavra aquele que estiver mais raivosamente possuído. Aos quakers da hora, que não têm cabeça para a política, apenas falam de “política” quando perdem a cabeça, a eles Chico Buarque respondeu com elegância e simpatia, sem no entanto fazer concessões.

A empáfia dos quakers brasileiros pode ser entendida se analisarmos o fundamento religioso dos quakers ingleses, que está em Pedro 2:9:

“Mas vós sois a geração eleita,
o sacerdócio real,
a nação santa,
um povo peculiar*,
para que anuncieis as virtudes
daquele que vos chamou das trevas
para a sua maravilhosa luz”

É de se supor que os quakers que foram pregar ontem no Leblon tenham saído dali alardeando entre si coisa não muito diferente dessa passagem de Pedro.  Em lugar de “geração eleita”, algo como “Nós somos foda”; em lugar de “sacerdócio real”, algo como “Quem manda nessa porra somos nós”; em lugar de “nação santa”, algo como “Eu sou brasileiro!” – como se o próprio Brasil não fosse Chico; e, por fim, em lugar de “povo peculiar”, algo como “Gente de bem”.

É fácil antecipar um ou dois nomes cujas trevas esses quakers confundam com uma maravilhosa luz, assim como é fácil antecipar até onde pode ir sua pregação.

Caio Leonardo

*”Peculiar” é como consta da King James’s Bible.

De Te Fabiola Narratur

Mutato nomine, de te fabula narratur – Horacio*

Recentemente, uma história acabou com muitas reputações: a da Saveiro como carro feito para aventuras, a da chave-de-boca como instrumento de vandalismo, a de concunhados como apenas o chato à mesa de Natal, a de maridos traídos como vítimas e a de amigos de maridos traídos como a voz da sensatez. Esposas adúlteras nunca tiveram boa reputação. Mas da cena que gerou esse strike reputacional, apenas um nome ficou marcado: o da mulher adúltera. E esse nome está hoje por toda parte.

A cena é a de um homem e uma mulher flagrados saindo de um motel pelo marido traído, acompanhado de um amigo dele, que tudo filma. A cena ganhou as redes sociais, e em toda  conversa, sobre o assunto que fosse, surgia uma referência à cena ou apenas ao nome daquela mulher.

O nome dela ganhou vida própria, tornou-se metonímia, metáfora, caiu no opróbio. O País ri com ele. A cada menção à cena ou ao nome, uma sentença, uma pedrada – na mulher adúltera. Havia um homem igualmente adúltero ali, seu nome, embora citado, não teve a mesma repercussão. Dele, fala-se apenas que está “acima do peso”, essa expressão que transforma uma medida física numa régua social.

Adultério é uma conduta reprovável, como toda conduta envolta em mentira e engano, mas deixou de ser crime no Brasil. No entanto, as pedradas vieram mesmo assim. E apenas sobre a mulher.

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Cristo e a Mulher Adúltera, Pieter Bruegel, o velho, 1565 – The Courtauld Gallery

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O que a reação a esses fatos diz sobre o Brasil?

Todos sabemos que o Brasil vive, e sempre viveu, um Estado de Exceção, que não garante igual direito a todos. Também sabemos todos que há Estados paralelos aqui, que exercem o monopólio da violência em seus territórios, que se sobrepõem ao do Estado oficial – leis marciais que vigem nos submundos.

Porém, a reação aos fatos narrados aqui revelam o Estado paralelo que faz vigorar aqui uma certa jurisprudência temida da shari’a, o direito muçulmano, ou, para ficarmos em casa, o texto literal de Deuteronômio 22, do Velho Testamento.

O brasileiro médio, tão crítico e tão escandalizado com os horrores perpetrados “pelos muçulmanos”, revelou-se alegre e animadamente adepto do apedrejamento de mulheres adúlteras – uma pena não aplicada, aqui, ao homem que comete adultério. No Deuteronômio, pelo menos, a pena era para os dois…

Mas o Estado (oficial) brasileiro tem lá as suas leis. O que dizem as leis sobre esses tais fatos? Elas dizem que, sim, foram cometidos vários crimes.

Sem ordem de valor entre quais sejam mais graves, aparentemente foram cometidos, numa análise bem inicial, os seguintes crimes:

1) injúria;

2) difamação;

3) dano;

4) ameaça;

5) constrangimento ilegal;

6) lesão corporal.

Os colegas criminalistas certamente encontrarão mais. No campo civil, há outros ilícitos, do dano material ao moral.

Se adultério ainda fosse crime, estaria configurado o exercício arbitrário das próprias razões – esse, sim, um crime.

Não, não existe legítima defesa da honra. Não estamos no Rio de Janeiro de dezembro de 1976.

Mas ainda atiramos a primeira, a segunda, a milésima, a milionésima, a indecente e criminosa pedra.

Caio Leonardo

*Mudando o nome, a fábula narra a tua história

Um Mundo Flutua pelos Arredores da Avenida Paulista

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Jovem Dama Soprando um Apito – Utamaro Kitagawa (1753 -1806 – Edo)

Os príncipes imperiais do Japão estão no Brasil, e trouxeram um presente suntuoso: Uma mostra de Ukiyo-e.

Ukiyo-e significa literalmente “imagens do mundo flutuante”, esse mundo flutuante sendo ora a fragilidade ritual da sensualidade do ambiente das gueixas, o hedonismo da era Edo; ora instantâneos da vida na cidade ou da relação do homem com a natureza.

Ukiyo-e toma forma por meio de gravuras cuja excelência técnica alcançou níveis de preciosidade, com grandes mestres desde o século XVII até o XIX. Pois esses grandes mestres estão aqui. Hokusai, Harunobu, Hiroshigue, Utamaro… A exposição é aberta com aquela que é a obra mais icônica da arte japonesa: A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai.

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A Grande Onda de Kanagawa – Hokusai Katsushika (1760 – 1849 – Edo)

No seu tempo, muitas das gravuras do gênero serviram de posters e propaganda de espetáculos de teatro ou de bordéis, algo a que, na França do século XIX, Toulouse-Lautrec viria a se dedicar.

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Chuva Repentina sobre a Ponte Shin-Ohashi e Atake, Hiroshige Utagawa (1797-1858 – Edo)

Toulouse-Lautrec é apenas um grande artista ocidental do século XIX cujo nome pode estar numa mesma frase em que o Japão seja citado. Peças vindas do Japão invadiram a Europa naquele século. Nas suas Cartas a Theo, Van Gogh reiteradamente refere-se à influência dessa arte japonesa sobre seu olhar e suas composições, ao ponto de transpor para óleo sobre tela algumas gravuras, como “Chuva Repentina sobre a Ponte Shin-Ohashi e Atake”, um Hiroshige que compõe as celebradas “Cem Vistas Célebres de Edo” (1858). Van Gogh colecionava ukiyo-e. Mais de uma centena de gravuras. À época, surgiram dois termos: “Japonaiserie”, para referir-se a itens vindos do Japão; e “Japonisme”, para designar a influência de temas japoneses sobre artistas da época, em especial os ligados ao Impressionismo.

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Ponte sob Chuva, après Hiroshige – Vincent van Gogh (1887, portanto 29 anos após a publicação das “Cem Vistas Célebres de Edo”)

A exposição oferece 30 gravuras. Dessas, uma dezena são novas impressões a partir das matrizes criadas por alguns dos maiores mestres dessa arte. Parece pouco. Mas ver um van Gogh ou um Monet basta para tirar o fôlego do observador. Pois essas gravuras tiraram o fôlego de van Gogh e de Monet.

O visitante verá também gravuras de artistas contemporâneos, tanto do Japão como do Brasil. Os brasileiros foram escolhidos anos atrás por Yutaka Toyota, em projeto conjunto com uma fundação. Entre eles, estão Claudio Tozzi, Antonio Dias, Gilberto Salvagor e o próprio Toyota, que também trouxe quatro dos oito blocos de madeira que compõem as matrizes usadas por ele para a composição de uma gravura feita especialmente para a mostra. A impressão de todas as gravuras foi feita por master printers japoneses, no Japão. A depender da técnica utilizada, cada tonalidade vista numa gravura corresponde a uma dessas matrizes, e são as sucessivas impressões justapostas sobre um mesmo suporte (papel) dessas várias matrizes que vão compondo progressivamente a imagem – do mundo que flutua na mente do artista.

A exposição está no lobby do Hotel Tivoli Moffarrej, na alameda Santos, 1437, São Paulo. E fica até Novembro.

Se eu pudesse, peregrinaria até lá todo dia, até o último dia.

Caio Leonardo

29 de Outubro de 2015

Pardon, Simone

simonedebeauvoir505_112912031304_0 Pourquois moi?

O ENEM de 2015 demonstra que o analfabetismo funcional não atinge apenas os estudantes, mas a Nação inteira.

É constrangedor ver a quantidade de gente que não consegue interpretar um texto.

Um povo que não consegue distinguir “sentido denotativo” de “sentido conotativo” num texto é um povo funcionalmente analfabeto.

E povo, aqui, não é usado no sentido conotativo de “gente pobre”, “gente humilde”; povo, aqui, é usado no sentido denotativo de “conjunto de pessoas ligadas por laços territoriais, culturais ou religiosos”.

Ou seja, o povo brasileiro, nós todos, somos incapazes de discutir um texto a partir do sentido que esse texto tenha ou possa ter.

É constrangedor ver a quantidade de gente que acredita que, na citação feita a obra sua no ENEM, Simone de Beauvoir renegava a genitália como elemento de distinção entre homem e mulher.

É constrangedor ver que o texto de Simone de Beauvoir foi interpretado como se referido ao debate sobre homossexualidade.

Como hoje é sábado e segunda é feriado, lá vai:

Antes de tudo: pronuncia-se “Bovoárr”.

Agora, ao texto.

Beauvoir não fala ali de homossexualidade.

Beauvoir não fala ali que a sexualidade é algo que se escolhe ou que, ao contrário, é algo que não se escolhe.

Beauvoir não fala ali que ninguém nasce com o sexo ou a sexualidade definido ou indefinido.

Beauvoir não fala ali de opção sexual.

Beauvoir ali está falando disto e só disto: do papel social imposto à mulher.

Quando Beauvoir diz que “ninguém nasce mulher”, ela quer dizer que ninguém nasce sendo o que a sociedade espera que seja o papel de uma mulher:

*ninguém nasce submisso;
*ninguém nasce para cuidar da casa;
*ninguém nasce para casar, ter filhos e dedicar-se exclusivamente a isso;
*ninguém nasce para ganhar menos do que os outros só por ser homem ou só por ser mulher.

Ao dizer que “ninguém nasce mulher”, Beauvoir está afirmando que de ninguém se pode exigir desde o nascimento que faça isto ou aquilo, assim ou assado, apenas por ter nascido com este ou aquele sexo.

Ela quer dizer que uma mulher tem a liberdade de decidir:

*se quer ou não se casar,
*se quer ou não ter filhos, se quer ou não ter uma casa,
*se quer ou não cuidar dessa casa ou de qualquer outra casa,
*se quer ou não estudar, trabalhar, ir pelo mundo afora,
*se quer aprender a cozinhar,
*se quer cozinhar em casa ou num grande restaurante – ou até mesmo num pequeno restaurante, ou
* se prefere assistir TV comendo pipoca de pantufas num sábado de carnaval.

O debate que cabe aqui, portanto, é sobre o valor que a nossa sociedade dá ou pretende dar à ideia de que cabe ao homem e à mulher papéis na sociedade que são específicos e determinados de antemão.

Querem debater sobre o que Beauvoir realmente quis dizer?

Caio Leonardo

31 de outubro de 2015

Vitrúvio Revisitado

un-accessibility-logo[Novo Símbolo de Acessibilidade da ONU]

Marcus Vitruvius Pollio não é alguém com ideias fáceis de ultrapassar. Para superá-las, seria preciso mudar (quase) todas as cidades do mundo e (quase) tudo que há nelas.

Vitrúvio foi contemporâneo Júlio César e de Augusto, o césar que elevou Roma ao ponto central em que ainda se encontra no desenho da cultura do Ocidente. Entre 29 a.C. e 23 a.C., depois de ganhar uma pensão do imperador Augusto, Vitrúvio escreveu e lhe dedicou De Architectura, obra em dez volumes que, mais de mil e trezentos anos depois, viria se firmar, pelas mãos de pensadores renascentistas da corte dos Médici, como as bases clássicas não só daquilo que entendemos por arquitetura, mas também do que por engenharia e por urbanismo. Vitrúvio estabeleceu princípios e, mais do que isso, concebeu as proporções que deviam nortear uma construção. Para isso, partiu do corpo humano. Mas não de um corpo qualquer, não da multiplicidade de tipos humanos, mas sim de uma ideia de corpo humano matemática e geometricamente proporcional.

Leonardo da Vinci eternizou esse corpo num desenho facilmente reconhecível ainda hoje. Inserido num círculo e num quadrado que se sobrepõem, aparece um homem de proporções perfeitas, a não ser, talvez, pelo detalhe de exibir quatro pernas e quatro braços, com os quais toca quatro pontos do círculo, que representa o divino/macrocosmos, e quatro pontos do quadrado, que representa a terra/microcosmos. A esse desenho foi dado o merecido nome de “Homem Vitruviano”, o “espelho do universo”. A regra era clara: Todos os elementos de uma construção e de uma cidade deviam seguir a perfeição daquelas proporções – da altura à largura de uma fachada, da posição à proporção dos degraus de uma escada.

Leonardo da Vinci - Uomo vitruviano.jpg

Aquele Leonardo não anteviu a dor de cabeça que esse desenho daria a este Leonardo.

Ao definirem o Homem Vitruviano como a proporção ideal, Vitruvio e Leonardo acabaram por definir igualmente o usuário que todo construtor teria em mente. Toda a variedade da experiência física e sensorial humana ficava ali – e dali para o mundo – reduzida ao esplendor de um corpo único, preciso, idealizado.

Passaram-se outros quinhentos e tantos anos até que tomadores de decisão se dessem conta de que usar o Homem Vitruviano como padrão tinha legado uma cidade excludente, inatingível por muitos daqueles que divergem das proporções clássicas por serem mais altos, mais baixos, mais gordos, com pernas curtas, com braços longos, sem braços, sem aquele pênis, por não ficarem em pé, por não usarem cabelo comprido: de uma forma ou de outra, é bem raro um ser humano de verdade seguir aquelas proporções.

Surgiu daí a noção de acessibilidade: o belo, sólido e útil concebido por Vitrúvio – e recuperado por Leonardo e seus contemporâneos – era inútil para muitos, porque opunha barreiras a seu uso aos que não tocavam de braços e pernas estendidos aqueles quatro pontos do círculo. Mas é compreensível que a ideia de sociedade inclusiva fazia nenhum sentido num Renascimento que convivia com a Inquisição de Torquemada. Só veio fazer sentido no fim da segunda metade do século XX.

Estávamos já em 1980 quando a acessibilidade foi pensada a partir das necessidades de quem portava uma deficiência. Evoluímos para o conceito de desenho universal, que deveria atender todas as incapacidades, ainda que temporárias, como a gravidez, a infância, a velhice – três das muitas proporções esquecidas por Vitruvius.

Se o arquiteto romano circunscrevera a perfeição, a ONU num primeiro momento, circunscreveu a deficiência. Nisso, cometeu o mesmo erro do romano, que foi o de pensar num modelo específico: o símbolo ainda vigente de acessibilidade é aquele que representa uma pessoa em cadeira de rodas dentro, também, de uma circunferência. A cadeira de rodas remete a apenas uma das cinco deficiências básicas.

Pois agora, na metade da segunda década do século XXI, as Nações Unidas divulgam um novo Símbolo Universal de Acessibilidade. Ele retoma, sim, o “Homem Vitruviano”, mas a partir de uma perspectiva completamente outra.

A ONU descarta o modelo centrado numa deficiência específica, a motora, mas não cai na armadilha de buscar abrigar todas as deficiências: o novo símbolo expressa a ideia de um mundo aberto a todos a partir das suas habilidades. Noutras palavras, a ONU aposenta o conceito de deficiência e passa a empregar o conceito de habilidade.

A mudança conceitual é imensa. O desenho (design, se preferirem) pensado com um olhar sobre o cada um pode fazer (habilidade), em vez de um olhar sobre o que não pode fazer (deficiência) permite antever ambientes, objetos, produtos, informações desenhados para atender as variadas formas com que uma pessoa preferirá utilizá-los.

Aquele Leonardo desenhou um homem. O símbolo da ONU representa uma pessoa. E essa pessoa que se move para todos os lados, que está em todos os cantos, que é centro e circunferência, mas não submetido a um mundo quadrado, surge para moldar o terreno – em tantos sentidos – por onde poderá desfilar toda a variedade que marca a experiência de estar vivo.

O Teatro abre suas portas. A senhora J. sobe vaporosamente a escada de mármore à esquerda; o senhor C. prefere conduzir pela sensual rampa sinuosa à direita a sua carrozzina de duas rodas com seis giroscópios. Menos mal que o aplicativo de audiodescrição em tempo real satisfez as exigências feitas por M. A. para dirigir O Rinoceronte. Noite de estreia. O crítico T.J., já está postado na fileira H e liga o prompter transparente com tradução simultânea para linguagem de sinais. A estrela S. espera que ele esteja de bom humor.

Abrem-se as cortinas para um novo espetáculo.

caio Leonardo

4.8.2015

Um Conto de Duas Cidadelas

O Brasil é uma mãe estranha que prefere ficar deitada no berço a educar seus filhos que não fogem à luta.

Os filhos briguentos da pátria andam cheios de indignação embora nunca tenham tido alguma dignidade para perder.

O medo de uma gerou várias presidências que agora terçam canetas sacadas de três lados da praça, enquanto no quarto lado o Panteão da República, cansado que só, sentado no banco de concreto, parece picar fumo, frágil matuto com o olhar perdido sobre pedras portuguesas.

Soldados desconhecidos loucos pela fama travam uma guerra cibernética armados de pios e posts, protegidos por cidadelas tecnológicas cercadas de batatas fritas, coca-cola, um eventual cigarro e muitos equívocos.

O IP, azul-amarelo ou vermelho, é o símbolo desses Brasis.

Há brasileiros demais sonhando com castelos brancos; execrando o branco do vestido bordado da menina negra; chutando santas de toda cor; ceifando e martelando cruzes; defendendo o indefensável à destra e à sinistra; são brasileiros que atacam a mão na bola do time de lá e não enxergam o carrinho por trás do time de cá, que lincham moral e civicamente em nome da pátria, da família e da propriedade ou em nome do que quer que surja como o oposto de propriedade, família e patriotadas.

De peito enfunado e olhar raivoso, os filhos de Pindorama estão decididos a tomar de volta o seu lugar no bananal das republiquetas latino-americanas.

Se essa é a língua que entendem, que ouçam este Cantinflas a desancar uns e outros. .

Caio Leonardo

Breve Manifesto em Defesa d’A Gente

Breve Manifesto em Defesa d’ A Gente
(para o Thiago Jabor, como uma desculpa)

Atire a primeira crase aquele que nunca invejou -ou pior,
temeu! – o uso pronominal do “one” ou do “uno”, que a gramática portuguesa não registra.

Pois não temos? Temos!

“A gente”: pronome reto singular NEUTRO. Um singular singular, porque sempre é singular, mesmo quando é plural.

“A gente” é evidentemente um pronome, no que “substitui o nome de um ser [e o situa] em relação à pessoa gramatical do discurso”.

“A gente” não é meramente um “nós” em clave ignara. É um fenômeno linguístico talvez único.

A pessoa de “a gente” é ambígua, complexa, vaga, rica: é ora uma terceira reflexiva neutra, ora a tal primeira do plural. É terceira conforme substitua, estranhamente, uma primeira pessoa modesta ou esquiva; é terceira, também, quando substitui um ente indefinido; mas é primeira quando substitua mais de uma pessoa entre as quais esteja eu, mas não necessariamente eu, se é que me entende.

Importa, aqui, (poderia dizer: “importa pra gente”) ressaltar o registro neutro desse pronome. “A gente” é neutro, tanto que não é neutra, embora possa ser, se quem fala é feminino: ou seja, sendo terceira pessoa, adota o gênero da primeira…

Quando neutra, é reflexiva (no sentido de filosófico, não gramatical) da mesma forma como “uno” e “es” é: é uma terceira pessoa projetada para além do eu, porque pode ser, a um só tempo, eu (“A gente escreve por melancolia…”), tu (“A gente não tem mais o que fazer?) ou aquele ele-ela sem gênero (“A gente anda triste pelas ruas com essa situação toda”).

“A gente” é um pronome que surgiu do gênio da… gente brasileira, que reinventa a língua, expande a língua, mostra a língua para os gramáticos.

O fato semântico-semiótico-gramatical é que, enquanto “one is” e “uno es”, a gente é o que a gente quiser que a gente seja.

E olha que eu nem incluí Você nesta confusão. Você sabe, Você, de vez em quando, se comporta como a gente: às vezes, neutro; às vezes, como eu; às vezes, como tu; às vezes, até como nós!

A gente e Você são duas válvulas de escape para uma língua presa. Uma lingua que quem entende é só a gente – Você e eu.

Caio Leonardo​

Imigrantes derrota Aécio

Não, não há erro de concordância no título. Aécio foi derrotado não por nordestinos famintos, mas por uma rodovia. Ou várias. E todas privatizadas.

Para refutar a hipótese de um Norte-Nordeste vitorioso por si, importa registrar que mais da metade dos votos em Dilma vieram das Regiões onde Aécio venceu: Sul, Sudeste e Centro-Oeste (30 milhões, de 54 milhões).

SUL

Dilma venceu no interior do Rio Grande do Sul e do Paraná, embora tenha perdido no total desses dois Estados.

SUDESTE

Dilma venceu em vários Municípios de São Paulo, que lhe deu 8 milhões de votos, ou 25% do seu eleitorado.

A votação de Dilma no Estado de São Paulo equivale à soma das populações (não só dos eleitores) das 12 maiores cidades paulistas, excluída a capital, ou o equivalente à totalidade dos eleitores da própria capital.

CENTRO-OESTE

No Centro-Oeste, onde Aécio venceu e que é o menor colégio eleitoral dentre as regiões (10 milhões), Dilma teve 42% dos votos.

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Assim tendo sido, se somarmos Sul, Sudeste e
Centro-Oeste, Dilma recebeu dali perto de 30 milhões de votos. No Norte-Nordeste, terá recebido 24 milhões de votos.

Pode-se dizer que o Brasil inteiro votou em Dilma, mas nem todo o Brasil votou em Aécio. O Norte-Nordeste, de fato, não votou nele – e cabe a ele e ao seu partido reavaliar sua abordagem daquela região.

Porém, foi no Sudeste que Aécio perdeu a eleição. Era a sua seara. A diferença de 3 milhões de votos poderia ter sido nivelada com Minas e Rio de Janeiro, que foram os Estados que tiraram a vitória dele. Ou apenas por São Paulo.

Para entender isso, basta registrar que, em São Paulo, 20% não votaram nem num, nem noutro. 20% do colegiado paulista representa mais de 5 milhões de votos. Como, repita-se, a diferença foi da ordem de 3 milhões de votos, São Paulo, sozinho, poderia ter dado a vitória a Aécio, mas se absteve.

Tudo considerado, teria sido possível, sim, uma vitória de Aécio sem o Norte e o Nordeste, se Rio e Minas tivessem ido em seu socorro, ou se São Paulo não tivesse tido tão larga abstenção. Mas uma vitória assim teria efetivamente mostrado uma maioria de eleitorado de costas para as duas regiões mais pobres do País. Um dos muitos recados das urnas é que os conservadores seduziram menos do que estava a seu alcance – e muito menos daquilo que não se importaram em alcançar.

Os paulistas farão melhor, portanto, em não imputar a outro Estado ou região a derrota de Aécio. Em lugar de apontar dedos “aos” imigrantes, melhor que os apontem à Imigrantes, à Dutra, à Fernão Dias, à Bandeirantes, rotas de fuga dos que preferiram não votar.

MapaEleitoral

Mapa de votação por municípios. Tons de vermelho são vitórias de Dilma; tons de azul, vitórias de Aécio.

Caio Leonardo

27.outubro.2014
Caio Leonardo

Tons de Outubro

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A frase que define a razão dos movimentos políticos vistos na largada para segundo turno é: “Voto não tem dono”.

Dilma Rousseff acenou não reconhecer a representatividade de seus adversários, ao dizer isso. Não reconheceu, em consequência, que há agendas em conflito com sua condução do Governo Federal.  É lugar-comum constatar que Dilma não ouve. Mas ela vai além com essa frase, porque demonstra que não sabe ouvir e que não pretende ouvir.

Essa atitude é a que explica a adesão geral a Aécio Neves. Nenhum grupo político em sã consciência de suas pretensões de poder – no melhor dos casos, de avanço em suas agendas – vai querer gravitar em torno de um perfil como o de Dilma.

A presidente está sozinha, como, parece, sempre quis estar. Restam apenas as afinidades ideológicas e aquelas cujo fisiologismo permite manter um pé em cada canoa. Ninguém a incomodá-la com divergências, ideias, nem com soluções que não tenham tido origem em sua mente, sitiada pela arrogância violenta tão comum nos inseguros alçados a uma posição de comando.

Dilma, se derrotada, terá sido vítima de si mesma. Se vitoriosa, terá os piores quatro anos que um presidente já teve em nossa história, com uma maioria, sim, mas uma tal que a odeia e teme, evita e, reciprocamente, não ouve.

Com novo mandato a Dilma, o Parlamento tenderá a voltar-se para si mesmo, decidir por si, afastando-se do Palácio do Planalto, de mármores que lembram cada vez mais marfim.

Com Aécio, o Parlamento retornará à política tradicional – nada de “Nova Política”. A configuração da Câmara dos Deputados pós-5 de outubro hoje, no entreturnos das eleições presidenciais, sugere 3/5 de base de apoio a Dilma, com Aécio podendo contar com 1/5. Esse quadro, o tucano reverteria com facilidade, versado nas artes da negociação partidária. Dilma, porém, terá imensa dificuldade em mantê-lo, vitimada pela fadiga de material imposta por ela mesma à máquina que dá tração entre Executivo e Legislativo.

A agenda do PSDB segue sendo sem imaginação, não inspira, nem mostra rumo transformador de uma realidade ainda a exigir muita mudança em todas as suas nuances. O PSDB não consegue pensar o Estado para fora dos muros das repartições, não o vê como agente transformador e vê seus mandatos como compromissos com a contenção de gastos públicos, ao que chamam de “eficiência”. Eficiência, no entanto, é fazer mais e melhor para atender prioridades estabelecidas em diagnósticos tão precisos quanto amplos daquilo de que necessita o País – sua economia, sua gente, seu meio ambiente, suas instituições – para se projetar no futuro como uma sociedade justa e solidária, como preconiza nossa Constituição.

A agenda de Dilma tem como norte um Estado regulador, transformador de realidades. No entanto, a presidente descarrilou da agenda dos anos Lula no setor externo; experimentou na gestão econômica – com resultados medíocres, senão perigosos -; gesticulou atabalhoadamente com incentivos e benefícios fiscais, com resultados contraditórios e, não raro, com profundos impactos negativos colaterais (petróleo x açúcar; máquinas x estradas); avançou receosa na agenda institucional – em especial, na de combate a corrupção, que andou melhor sob Lula -; e falhou em sua própria especialidade: energia.

Não há tragédias, nem tangos à frente. Apenas anos medíocres para aquilo de que o País realmente, estruturalmente, socialmente precisa. Podemos assistir a uma melhora no ambiente de negócios, mas será sem remorsos com eventual – e previsível – aumento da concentração de renda em anos de Aécio. Ou podemos patinar raivosamente, com as instituições em rusgas internas e entre elas, em mais quatro anos de Dilma.

Caio Leonardo

Avanço Conservador Salvo pelo Gonzo

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Do Departamento de Agressões Não Tão Gratuitas

Xico Sá não é Kurt Vonnegut, mas queria ser. Não é Hunter S. Thompson, mas queria ser. Não escreve coisa alguma memorável ou digna de nota, mas pagavam pelo que despejava num caderno de esportes até ontem, quando pediu demissão e, com isso, fez o maior gesto a seu alcance para o futuro do jornalismo, mas na direção oposta à desejada, ao abrir mais um tanto as comportas para a onda conservadora que beija e balança o Brasil, a imprensa e, em particular, a Folha de S. Paulo.

Pediu demissão porque queria declarar voto e não deixaram. No mesmo dia, deixaram Gregorio Duvivier declarar o seu. Para a mesma candidata. No mesmo jornal.

Xico Sá saiu da Folha para entrar no Twitter. Tem muitos amigos e seguidores. Seu gesto foi apropriado pelas duas campanhas, com sinais invertidos. Por isso, Xico volta hoje, triunfal no seu fracasso, com algo como uma “carta aos brasileiros” em que fala aos mortos e às militâncias digitais com tom e conteúdo a emular forçadamente os beatniks, usando referências fáceis, o que não impediu tropeços – como reduzir No Country for Old Men a um filme dos Cohen; como esquecer o Whitman sob o Salinger que cita sem inspiração, nem propósito; como invocar espíritos à semelhança de quem se imola em praça pública, alçando a si mesmo a um martírio ingênuo – e pretensioso. Xico está cheio de si. Holden Caulfield, que ele cutuca, diria, baixando a cabeça:

“He’s a lousy phony…”

O rescaldo desse burburinho é que os jornais e as revistas do País seguem sem declarar voto; as revistas e os jornais do País seguem publicando matérias contra uma candidatura e escondendo criteriosamente tudo que há contra a outra; colunistas seguem escrevendo o que querem, se souberem escrever; uma voz, ainda que menor, sai da cena cada vez mais monocórdia da imprensa escrita; e as redes sociais seguem fazendo o que lhes cabe: alimentar discursos autoritários à esquerda e à direita, e reforçar seu papel de veículo do extermínio da possibilidade, da viabilidade mesma de um entendimento comum do que seja a verdade.

Caio Leonardo

14.10.2014

Mural da História

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Estamos em 1947 pelas lentes da Life. Plínio Salgado, Gaspar Dutra, Harry Truman: o “trio fascista” surge em muros pichados pelos comunistas de Prestes, numa São Paulo que, naquele ano, tinha seu primeiro prefeito negro. Negro e socialista: Paulo Lauro. Mas Socialista com “Ç”, que o dele era o do Partido Social Progressista, nome promissor, mas não comprometido, liderado que era por um certo Adhemar de Barros. Paulo Lauro prefeitou por um ano, nomeado pelo próprio Adhemar.

Em 1938, Paulo Lauro havia ganhado fama por ter conseguido absolver o réu confesso do infame Massacre do Restaurante Chinês, de nome Arias de Oliveira, garçom que fora despedido dias antes dos fatos pelo cruel Ho Fong, proprietário do inglório Órion, na rua Wenceslau Brás. Para Paulo Lauro, alguém que não seu cliente havia distribuído pauladas noturnas noutros dois garçons, em seguida esganado o chinês e, escada acima, sobre a cama do casal, esmagado as vísceras de Akiu Fong, esposa do patrão, que se negara a contar onde estavam o dinheiro e as joias.

Assim foi que Arias deixou de roubar, por não achar o cofre, mas matou. Arias foi primeiramente absolvido, o que elegeu Paulo Lauro, mas depois acabou condenado e preso, o que não impediu que, de prefeito, Lauro chegasse a Deputado Federal. 

Adhemar de Barros tinha seu lado Arias. Cofre por cofre, os públicos padeceram mais em suas mãos, porém o dele próprio tampouco se pode dizer que tenha ficado intacto como o de Ho Fong.

Quanto ao trio, Truman, que fez duo com Dutra em Washington, também era dado a roubos, e matou infinitamente mais orientais do que Arias. Dutra não fez fama com roubos, mas, uma vez morto e pavimentado, passou a matar e muito. Dos três pichados, Plínio, que não levou fama com roubo ou morte, era o único fascista à vera.

A nêmesis de Plínio era Prestes, que tinha estado preso, não por roubar ou matar, mas por conspirar, e era então senador. Na foto se lê: “Sem P.C.B. não há democracia”.  

Prestes foi cassado no ano seguinte… Seus comunistas, que picharam o muro de ’47, perderam o rumo com a queda do Muro de ’89.

Quanto a Plínio, este, discretamente, é mantido vivo pelas mortes e roubos que campeiam em São Paulo, e norteia vitorioso o pensamento majoritário do paulistano até hoje.