Avanço Conservador Salvo pelo Gonzo

holden-caulfield-thinks-you-re-a-phony (1)

Do Departamento de Agressões Não Tão Gratuitas

Xico Sá não é Kurt Vonnegut, mas queria ser. Não é Hunter S. Thompson, mas queria ser. Não escreve coisa alguma memorável ou digna de nota, mas pagavam pelo que despejava num caderno de esportes até ontem, quando pediu demissão e, com isso, fez o maior gesto a seu alcance para o futuro do jornalismo, mas na direção oposta à desejada, ao abrir mais um tanto as comportas para a onda conservadora que beija e balança o Brasil, a imprensa e, em particular, a Folha de S. Paulo.

Pediu demissão porque queria declarar voto e não deixaram. No mesmo dia, deixaram Gregorio Duvivier declarar o seu. Para a mesma candidata. No mesmo jornal.

Xico Sá saiu da Folha para entrar no Twitter. Tem muitos amigos e seguidores. Seu gesto foi apropriado pelas duas campanhas, com sinais invertidos. Por isso, Xico volta hoje, triunfal no seu fracasso, com algo como uma “carta aos brasileiros” em que fala aos mortos e às militâncias digitais com tom e conteúdo a emular forçadamente os beatniks, usando referências fáceis, o que não impediu tropeços – como reduzir No Country for Old Men a um filme dos Cohen; como esquecer o Whitman sob o Salinger que cita sem inspiração, nem propósito; como invocar espíritos à semelhança de quem se imola em praça pública, alçando a si mesmo a um martírio ingênuo – e pretensioso. Xico está cheio de si. Holden Caulfield, que ele cutuca, diria, baixando a cabeça:

“He’s a lousy phony…”

O rescaldo desse burburinho é que os jornais e as revistas do País seguem sem declarar voto; as revistas e os jornais do País seguem publicando matérias contra uma candidatura e escondendo criteriosamente tudo que há contra a outra; colunistas seguem escrevendo o que querem, se souberem escrever; uma voz, ainda que menor, sai da cena cada vez mais monocórdia da imprensa escrita; e as redes sociais seguem fazendo o que lhes cabe: alimentar discursos autoritários à esquerda e à direita, e reforçar seu papel de veículo do extermínio da possibilidade, da viabilidade mesma de um entendimento comum do que seja a verdade.

Caio Leonardo

14.10.2014

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