A Cunha que Emperra a Saída

FIRJAN e FIESP entronizaram Michel Temer hoje, em matéria de página inteira em todos os grandes jornais, assinada pelos respectivos presidentes. Temer foi ungido na posição que já era a sua, a de chefe do Poder Moderador, encargo de Pedro I e II no parlamentarismo do Império.

A unção empresarial de Temer indica o caminho aceitável para o desfecho da atual crise política. Porém, essa porta de saída ainda está emperrada.

O Baixo Clero da Câmara, essa horda de minions em torno do seu malvado chefe, pode até manter-se caninamente dócil aos desígnios de Eduardo Cunha, mas o próprio PMDB não quer um cenário com Dilma fora e esse presidente da Câmara.

O TCU está de armas assestadas contra o Planalto, e jatos impetuosos varrem a cena política, mas num caso e noutro já está evidente que há intocáveis. Com o apoio dado à sua serenidade majestática num momento de desvario político, Temer não cai com Dilma. Mesmo porque nada surgiu contra ele.
Na remota hipótese de Temer cair, Cunha teria 90 dias para chamar eleições. Não ficaria no cargo, mas conduziria o processo eleitoral. Se chamarem eleições, Lula pode voltar como candidato, o que poderia romper de vez o fio que mantém o tecido social lassamente unido. Melhor deixar Temer onde está.
Mas o novo ungido também sabe que assumir com Cunha na presidência da Câmara será a continuação da crise, com o Executivo submetido aos humores de uma Câmara Baixa merecedora de seu cognome.
As conversas em Brasília estão intensas. O Palácio do Jaburu nunca esteve tão frequentado. Tem sido constante o agito de valets diante do gradil palaciano à espera daqueles que conspiram por governabilidade, pela estabilidade politico-institucional e por uma saída equilibrada.
Mas porta emperrada com cunha não se abre.
Caio Leonardo

A Hora do Brasil

O País enfrenta uma crise política grave o bastante para o Parlamento aceitar sacrificar a economia para não se alinhar com o Governo.

O País está sacudido, há muita poeira levantada, muito barulho, muita tensão. É hora de deixar de lado interesses e enxergar o quadro político como ele é.

Agora, importa apenas o movimento das grandes peças. E elas ficaram resumidas a poucas: Temer, Renan, Cunha, cada vez menos Lula. O único movimento relevante de Dilma seria o de sua saída voluntária, numa demonstração de espírito público e compromisso com a democracia – no sentido de não dar azo a uma alternativa de exceção. Nenhum outro partido ou grupo político pode, hoje, interferir decisivamente no deslinde desta crise, senão através do alinhamento com o PMDB.

O País está, de novo, nas mãos do PMDB, como sempre que é preciso manter a estabilidade institucional.

Esta crise deixa claro que eleição é o caminho para o Poder, mas o Poder não é legitimado exclusivamente pelo voto. Lição dolorosa e tardia. É preciso introjetar na consciência política brasileira que, além de pelo voto, a legitimação de um Governo se dá pelo ser responsável (accountable) e eficiente. Mas nenhum Governo é responsável nem eficiente, se não se comunica. Se não se comunica os cidadãos, com suas instâncias internas, com suas bases sociais, partidárias e políticas, e com as outras instâncias de Poder.

Um governo deve deixar claro e comunicar, passo a passo, o diagnóstico que faz do País, que problemas enxerga. Deve construir soluções ouvindo e dialogando com aqueles afetados por tais problemas e construir com eles soluções que otimizem resultados ou mitiguem riscos. Deve comunicar como as soluções serão implementadas, em que tempo e a que custo. Deve comunicar como evoluem as ações para implementar tais soluções e o tempo até o próximo passo. Isso permite, por exemplo, que o cidadão entenda por que não tem SUS na sua cidade, mas também que melhoria chegará para a atenção à sua saúde e em que tempo.

Deixar o cidadão no escuro é trazer a escuridão para si.

Este Governo, se fez, faz ou faria, não comunicou. Ao não comunicar, permitiu que outra narrativa se estabelecesse: a da sua inércia, da sua inépcia, da sua ineficiência, da sua incompetência e da sua arrogância.

Hoje, essa narrativa norteia o entendimento de 71% da população e praticamente de todo o Congresso Nacional. A base governista, na prática – e nos sussurros de corredor – abandonou um Planalto que não cumpre acordos – e não se fala aqui de acordos escusos, mas de acordos em torno do que seja equilibrado ser feito naquele momento, consideradas todas as forças políticas, sociais e econômicas afetadas pela decisão acordada.

Não há governo que se sustente num quadro assim.

Tudo considerado, o que estamos vendo é o processo político de construção de um caminho de transição para um governo de serenamento e reorganização política e econômica.

Esperança é moeda fraca na política, e esta é mais uma opinião sem peso num mar revolto delas, mas custa pouco dizer que é hora de agir com grandeza; que o melhor cenário seria a chefe de Governo informar o Estado da Nação, fazer um balanço do que foi feito e do que está em curso, reconhecer que, embora siga firme em suas convicções do que seja melhor para o Brasil, ela não tem condições políticas de seguir conduzindo o País e assim abrir caminho para a formação de novo governo, sem sobressaltos.

Porém, o cenário mais provável é que, diante de uma plateia irritada com a demora e a postura dos jogadores, aquelas quatro peças pretas ainda precisem de alguns poucos lances para impor cheque-mate às duas últimas brancas, antes de se iniciar novo jogo político – sem que se vire o tabuleiro.

Caio Leonardo

Vitrúvio Revisitado

un-accessibility-logo[Novo Símbolo de Acessibilidade da ONU]

Marcus Vitruvius Pollio não é alguém com ideias fáceis de ultrapassar. Para superá-las, seria preciso mudar (quase) todas as cidades do mundo e (quase) tudo que há nelas.

Vitrúvio foi contemporâneo Júlio César e de Augusto, o césar que elevou Roma ao ponto central em que ainda se encontra no desenho da cultura do Ocidente. Entre 29 a.C. e 23 a.C., depois de ganhar uma pensão do imperador Augusto, Vitrúvio escreveu e lhe dedicou De Architectura, obra em dez volumes que, mais de mil e trezentos anos depois, viria se firmar, pelas mãos de pensadores renascentistas da corte dos Médici, como as bases clássicas não só daquilo que entendemos por arquitetura, mas também do que por engenharia e por urbanismo. Vitrúvio estabeleceu princípios e, mais do que isso, concebeu as proporções que deviam nortear uma construção. Para isso, partiu do corpo humano. Mas não de um corpo qualquer, não da multiplicidade de tipos humanos, mas sim de uma ideia de corpo humano matemática e geometricamente proporcional.

Leonardo da Vinci eternizou esse corpo num desenho facilmente reconhecível ainda hoje. Inserido num círculo e num quadrado que se sobrepõem, aparece um homem de proporções perfeitas, a não ser, talvez, pelo detalhe de exibir quatro pernas e quatro braços, com os quais toca quatro pontos do círculo, que representa o divino/macrocosmos, e quatro pontos do quadrado, que representa a terra/microcosmos. A esse desenho foi dado o merecido nome de “Homem Vitruviano”, o “espelho do universo”. A regra era clara: Todos os elementos de uma construção e de uma cidade deviam seguir a perfeição daquelas proporções – da altura à largura de uma fachada, da posição à proporção dos degraus de uma escada.

Leonardo da Vinci - Uomo vitruviano.jpg

Aquele Leonardo não anteviu a dor de cabeça que esse desenho daria a este Leonardo.

Ao definirem o Homem Vitruviano como a proporção ideal, Vitruvio e Leonardo acabaram por definir igualmente o usuário que todo construtor teria em mente. Toda a variedade da experiência física e sensorial humana ficava ali – e dali para o mundo – reduzida ao esplendor de um corpo único, preciso, idealizado.

Passaram-se outros quinhentos e tantos anos até que tomadores de decisão se dessem conta de que usar o Homem Vitruviano como padrão tinha legado uma cidade excludente, inatingível por muitos daqueles que divergem das proporções clássicas por serem mais altos, mais baixos, mais gordos, com pernas curtas, com braços longos, sem braços, sem aquele pênis, por não ficarem em pé, por não usarem cabelo comprido: de uma forma ou de outra, é bem raro um ser humano de verdade seguir aquelas proporções.

Surgiu daí a noção de acessibilidade: o belo, sólido e útil concebido por Vitrúvio – e recuperado por Leonardo e seus contemporâneos – era inútil para muitos, porque opunha barreiras a seu uso aos que não tocavam de braços e pernas estendidos aqueles quatro pontos do círculo. Mas é compreensível que a ideia de sociedade inclusiva fazia nenhum sentido num Renascimento que convivia com a Inquisição de Torquemada. Só veio fazer sentido no fim da segunda metade do século XX.

Estávamos já em 1980 quando a acessibilidade foi pensada a partir das necessidades de quem portava uma deficiência. Evoluímos para o conceito de desenho universal, que deveria atender todas as incapacidades, ainda que temporárias, como a gravidez, a infância, a velhice – três das muitas proporções esquecidas por Vitruvius.

Se o arquiteto romano circunscrevera a perfeição, a ONU num primeiro momento, circunscreveu a deficiência. Nisso, cometeu o mesmo erro do romano, que foi o de pensar num modelo específico: o símbolo ainda vigente de acessibilidade é aquele que representa uma pessoa em cadeira de rodas dentro, também, de uma circunferência. A cadeira de rodas remete a apenas uma das cinco deficiências básicas.

Pois agora, na metade da segunda década do século XXI, as Nações Unidas divulgam um novo Símbolo Universal de Acessibilidade. Ele retoma, sim, o “Homem Vitruviano”, mas a partir de uma perspectiva completamente outra.

A ONU descarta o modelo centrado numa deficiência específica, a motora, mas não cai na armadilha de buscar abrigar todas as deficiências: o novo símbolo expressa a ideia de um mundo aberto a todos a partir das suas habilidades. Noutras palavras, a ONU aposenta o conceito de deficiência e passa a empregar o conceito de habilidade.

A mudança conceitual é imensa. O desenho (design, se preferirem) pensado com um olhar sobre o cada um pode fazer (habilidade), em vez de um olhar sobre o que não pode fazer (deficiência) permite antever ambientes, objetos, produtos, informações desenhados para atender as variadas formas com que uma pessoa preferirá utilizá-los.

Aquele Leonardo desenhou um homem. O símbolo da ONU representa uma pessoa. E essa pessoa que se move para todos os lados, que está em todos os cantos, que é centro e circunferência, mas não submetido a um mundo quadrado, surge para moldar o terreno – em tantos sentidos – por onde poderá desfilar toda a variedade que marca a experiência de estar vivo.

O Teatro abre suas portas. A senhora J. sobe vaporosamente a escada de mármore à esquerda; o senhor C. prefere conduzir pela sensual rampa sinuosa à direita a sua carrozzina de duas rodas com seis giroscópios. Menos mal que o aplicativo de audiodescrição em tempo real satisfez as exigências feitas por M. A. para dirigir O Rinoceronte. Noite de estreia. O crítico T.J., já está postado na fileira H e liga o prompter transparente com tradução simultânea para linguagem de sinais. A estrela S. espera que ele esteja de bom humor.

Abrem-se as cortinas para um novo espetáculo.

caio Leonardo

4.8.2015

Um Conto de Duas Cidadelas

O Brasil é uma mãe estranha que prefere ficar deitada no berço a educar seus filhos que não fogem à luta.

Os filhos briguentos da pátria andam cheios de indignação embora nunca tenham tido alguma dignidade para perder.

O medo de uma gerou várias presidências que agora terçam canetas sacadas de três lados da praça, enquanto no quarto lado o Panteão da República, cansado que só, sentado no banco de concreto, parece picar fumo, frágil matuto com o olhar perdido sobre pedras portuguesas.

Soldados desconhecidos loucos pela fama travam uma guerra cibernética armados de pios e posts, protegidos por cidadelas tecnológicas cercadas de batatas fritas, coca-cola, um eventual cigarro e muitos equívocos.

O IP, azul-amarelo ou vermelho, é o símbolo desses Brasis.

Há brasileiros demais sonhando com castelos brancos; execrando o branco do vestido bordado da menina negra; chutando santas de toda cor; ceifando e martelando cruzes; defendendo o indefensável à destra e à sinistra; são brasileiros que atacam a mão na bola do time de lá e não enxergam o carrinho por trás do time de cá, que lincham moral e civicamente em nome da pátria, da família e da propriedade ou em nome do que quer que surja como o oposto de propriedade, família e patriotadas.

De peito enfunado e olhar raivoso, os filhos de Pindorama estão decididos a tomar de volta o seu lugar no bananal das republiquetas latino-americanas.

Se essa é a língua que entendem, que ouçam este Cantinflas a desancar uns e outros. .

Caio Leonardo

Solitude II

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Two lips by the tulips,
blow sharps and flats: hat and jacket
paint pink-red the jazz.

caio leonardo

photo: Central Park, NYC, July 13, 2010

haiku:                   Brasília, July 13, 2015

Solitude I

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News spread on the bench,
cardigan, cap, re-tired eyes –
Flowers still dazzle the day.

Caio Leonardo

photo: Central Park, NYC, July 13, 2010

haiku: Brasília, July 13, 2015

Sobre Anões e Senadores

Há pouco tempo, uma delegação venezuelana veio ao Brasil e reuniu-se com o MST sem antes dialogar com as autoridades brasileiras. Dilma expressou desconforto com a situação (o que não é pouca coisa em diplomacia) e pediu explicações ao Embaixador da Venezuela.

O protocolo internacional de uma visita em território venezuelano de senadores brasileiros a líderes opositores ao Governo de lá exige tratativas anteriores entre os chanceleres de ambos os países, de modo a autorizar a missão. Isso não foi feito adequadamente pela “delegação de senadores” que aterrissou em Caracas e mal conseguiu sair do aeroporto.

A situação criada por aqueles senadores assemelha-se àquela criada pela autoridade venezuelana que se encontrou com o MST, só que inversa: uma delegação brasileira chega à Venezuela e quer falar com grupos políticos locais, sem mais. Não pode.

A Presidente expressa “constrangimento”. Em linguagem diplomática, isso significa: “A turma daqui pisou na bola, mal aí”.

A Constituição Federal trata dos princípios que o Brasil segue em suas relações internacionais. O segundo deles é a “prevalência dos direitos humanos. Foi em defesa desses direitos que os senadores marcharam para a Venezuela. Gol dos senadores!

Mas os princípios seguintes fazem o jogo virar – constrangedoramente.

O terceiro é a “autodeterminação dos povos”. A Venezuela, mal ou bem, elegeu seu presidente. Isso significa que o povo venezuelano, em sua maioria, determinou por si mesmo (aqui, a tal autodeterminação) quem quer que chefie seu Estado e seu Governo.

O quarto princípio a reger constitucionalmente as relações do Brasil com outros Países é a “não-intervenção”. O Brasil não pode, mesmo que a maioria do nosso povo assim o quisesse, por meio de seus Poderes Constituídos, invadir Cuba ou a Coreia do Norte, porque são países comunistas. O Brasil não pode intervir na ordem interna de um País. E quando senadores brasileiros, portanto representantes de um dos Poderes Constituídos, entram em solo venezuelano para intervir em assuntos políticos de lá, esses senadores estão violando a Constituição.

Por fim, no que interessa aqui, vem o quinto princípo, dos dez que há ao art. 4o da nossa lei maior: “igualdade entre os Estados”. O Brasil não é melhor do que a Venezuela. Os senadores brasileiros não estão, para efeito de nossas relações internacionais, acima das autoridades venezuelanas. A prepotência individual, que funciona para o público interno, não funciona no plano internacional.

Os senadores brasileiros em missão à Venezuela constrangem o Brasil e se ridicularizam perante a opinião pública e no meio diplomático.

Um diplomata israelense uma vez disse que o Brasil era um “anão diplomático”. A analogia é ofensiva às pessoas afetadas pelo nanismo. À parte isso, os senadores brasileiros confirmam o diagnóstico do israelense.

Caio Leonardo

A Duquesa e seu Tempo

Ser livre é, também, permitir-se construir compromissos – e, dada a natureza dos compromissos, respeitá-los. Ser livre a qualquer custo é ser oprimido não pelo outro, mas por uma ideia. Nós somos a geração mais infeliz da História – empatada, talvez, com a que viveu a peste na Europa – justamente porque, no curso do nosso Tempo, sobrevieram duas revoluções e duas contrarrevoluções: ‪#‎a‬ revolução sexual (que rompeu com a tradição e os modelos de relacionamento), #a contrarrevolução (involuntária) da AIDS (que trouxe o terror para a intimidade e a suspeição no trato com o corpo do Outro), #a revolução tecnológica (que dizimou todas as barreiras de espaço, de éthos e morais, abrindo as portas para a disseminação de todas as práticas e todos os jogos antes mantidos em segredo, tudo a tornar indesejável e impraticável a assunção de qualquer forma – porque não há mais formas – de compromisso a dois) e, por fim, #a contrarrevolução com discurso revolucionário, que é a bandeira dos homossexuais em defesa do casamento (uma busca pela forma como afirmação da identidade. De uma forma que é um compromisso, uma negação voluntária à liberdade no nível pessoal que é, ao mesmo tempo, um grito de liberdade no âmbito social, das instituições). Nesse contexto, a defesa que se lê pelas redes sociais da conduta de Camilla Parker-Bowles, duquesa da Cornualha, que traiu seu marido com o príncipe e agora trai o mesmo príncipe que se tornou seu marido, soa como um recuo aos anos 1960, quando ela era bela e jovem. É uma defesa que afirma uma libertação equivocada da mulher, porque alimentadora de um ethos que reproduz e marca a angústia do nosso tempo: a negação do compromisso. À falta de um modelo preestabelecido de relacionamento, já que todos foram negados nos mesmos 1960, o que resta hoje é a tensão entre, de um lado, a liberdade de cada um de fazer o que se quer, sem atenção ao Outro – e nisso reside, em grande parte, a infelicidade da nossa geração – e, de outro lado, a autonomia (o poder de ditar as próprias regras) de cada dois de arranjarem-se de comum acordo, definindo os limites da relação, permitindo, nessa combinação, que ambos se mantenham abertos a outros (desfrutar momentos na superfície do desejo e do encantamento), que ambos se mantenham fiéis (darem-se por encontrados um no outro, auto-suficientes diante da opressão da possibilidade de infinitas escolhas) ou que ambos se mantenham leais (manterem-se um ao outro como centro, mas permitindo-se abrir-se a prazeres fugazes). Qualquer desses compromissos podem ser desfeitos sem que seus termos sejam desprezados. Camilla não fez isso. Camila agiu como este subproduto da revolução sexual: a mônada (um ser que vive isolado do mundo) libertária que despreza o outro. Não há nada de grande no seu gesto. O discurso que a defende baseado em que ela confrontou as regras da Corte e impôs-se a um meio castrador não resiste ao fato de que ela se beneficiou dessa Corte, desejou essa Corte, confrontou regras (ao ser amante do príncipe) para viver nessa Corte e agora, ao sair dela, quer 350 milhões de libras como compensação. Não há nada de novo no arrivismo da duquesa. Nem há em sua conduta um norte de libertação feminina. É apenas mais uma alma pequena no grand monde, que definitivamente não aponta uma saída, muito menos um modelo, para esta geração. Caio Leonardo

Breve Manifesto em Defesa d’A Gente

Breve Manifesto em Defesa d’ A Gente
(para o Thiago Jabor, como uma desculpa)

Atire a primeira crase aquele que nunca invejou -ou pior,
temeu! – o uso pronominal do “one” ou do “uno”, que a gramática portuguesa não registra.

Pois não temos? Temos!

“A gente”: pronome reto singular NEUTRO. Um singular singular, porque sempre é singular, mesmo quando é plural.

“A gente” é evidentemente um pronome, no que “substitui o nome de um ser [e o situa] em relação à pessoa gramatical do discurso”.

“A gente” não é meramente um “nós” em clave ignara. É um fenômeno linguístico talvez único.

A pessoa de “a gente” é ambígua, complexa, vaga, rica: é ora uma terceira reflexiva neutra, ora a tal primeira do plural. É terceira conforme substitua, estranhamente, uma primeira pessoa modesta ou esquiva; é terceira, também, quando substitui um ente indefinido; mas é primeira quando substitua mais de uma pessoa entre as quais esteja eu, mas não necessariamente eu, se é que me entende.

Importa, aqui, (poderia dizer: “importa pra gente”) ressaltar o registro neutro desse pronome. “A gente” é neutro, tanto que não é neutra, embora possa ser, se quem fala é feminino: ou seja, sendo terceira pessoa, adota o gênero da primeira…

Quando neutra, é reflexiva (no sentido de filosófico, não gramatical) da mesma forma como “uno” e “es” é: é uma terceira pessoa projetada para além do eu, porque pode ser, a um só tempo, eu (“A gente escreve por melancolia…”), tu (“A gente não tem mais o que fazer?) ou aquele ele-ela sem gênero (“A gente anda triste pelas ruas com essa situação toda”).

“A gente” é um pronome que surgiu do gênio da… gente brasileira, que reinventa a língua, expande a língua, mostra a língua para os gramáticos.

O fato semântico-semiótico-gramatical é que, enquanto “one is” e “uno es”, a gente é o que a gente quiser que a gente seja.

E olha que eu nem incluí Você nesta confusão. Você sabe, Você, de vez em quando, se comporta como a gente: às vezes, neutro; às vezes, como eu; às vezes, como tu; às vezes, até como nós!

A gente e Você são duas válvulas de escape para uma língua presa. Uma lingua que quem entende é só a gente – Você e eu.

Caio Leonardo​

Chove na Varanda

Queria poder dar a alguém
O amor que eu tenho pela chuva.
Olhares que troco com as nuvens,
Conversas com gotas que dançam.

Sonho sonhos que só com ela,
Ouço o que ela diz com atenção,
Deixo meu rosto na janela,
Largo meu corpo na varanda.

As luzes ficam embaçadas,
Os vidros, a minha visão.
Tudo é como fazer amor,

Quando chove no meu terraço.
Entregue silente a ninguém,
abre-se a ela o meu abraço.

Caio Leonardo, na varanda escura e molhado de chuva

Dia do Pi, a celebração da Ordem no Caos

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Eu também vou celebrar hoje o Dia do Pi. Farei um brinde às 9h26’53” – da noite, claro, que hoje é sábado.

Todo ano tem Dia do Pi, um Pi de até 4 decimais (3,1415). Mas o Dia do Pi deste ano é histórico, porque ocorre apenas a cada cem anos. Nele, teremos um instante com um Pi com 10 decimais: 3,141592653, donde o meu brinde. Só o viverei uma vez (em 2115, teria 151 anos – que preguiça)

Este artigo da New Yorker chama a atenção para, entre tantos outros, este aspecto do Pi: ele é ordem no caos. É uma razão infinita, que nunca encontra padrão de repetição; infinita, mas derivada (historicamente) da realidade lógica da geometria do círculo.

Digo historicamente, porque o Pi foi primeiro descoberto “dentro do círculo”. Mas ele está no espaço e também está no tempo, como se viu depois. Está no espaço geométricamente considerado; e está no tempo na dimensão dos ciclos. O círculo revela o Pi no espaço; ciclos revelam o Pi no tempo. O Pi está no ciclo da nossa respiração, lembra o artigo de Steven Strogatz.

Este Dia do Pi, no Brasil, cai entre uma sexta e um domingo em que nossa respiração está fora de ciclo, curta, entrecortada, o caos bate à porta, toma o espaço das ruas e define este nosso tempo.

Farei um brinde esta noite ao Pi, guardião de círculos e ciclos, senhor do Tempo e do Espaço. Que inspirado nele, ou ignorando-o completamente (como o fazemos ao respirar), encontremos Ordem no Caos.

Caio Leonardo

Arte: Cristian Iles Vasile

Março de 2015 ou Notas sobre a Volatilidade da Nitroglicerina

Em novembro, 3 legendas disputavam protagonismo político no Brasil: PSB, PSDB e PT. Hoje, esse tal protagonismo é monopolizado por uma única legenda: PMDB.

O PSDB mergulhou na inação que lhe é peculiar. Dois ex-candidatos da legenda à presidência da República ocupam assentos (modo de dizer) no Senado. E não usam da palavra, não esclarecem sua posição, não apontam um caminho. Serra e Aécio não mostram a que vieram. Cássio Cunha Lima foi o primeiro a usar o termo impeachment fora e dentro do Parlamento. Aloyzio Nunes declara que quer ver Dilma sangrar. Nada nessas posturas indica compromisso com o País. Nem mesmo com uma incipiente que seja, inarticulada que seja estratégia de tomada de poder.

O PSB, que quase tomou o lugar do PSDB no 2º turno das eleições presidenciais em 2014, recolheu-se a uma insignificância, mal se ouvem seus sinais vitais.

O PT não se entende com o Planalto – mas nisso está alinhado com todo o País. E tampouco entende-se consigo mesmo. As duas faces de Janos que o caracteriza se bicam todo o tempo: a que articulou o projeto de poder tendo como princípio a legalidade revolucionária (vale tudo pela causa) e a que pregava a ética na política. Uma está encarcerando a outra.

No vácuo impossível de poder, surge devastador e onipresente o PMDB, que tem a presidência do Senado, a da Câmara – e, lá, a presidência da CPI que catalisa as atenções da Nação – e a Chefia de Estado. Sim, a função de Chefe de Estado – que é, internamente, a de compor um governo, uma base de sustentação política – é exercido também pelo PMDB, na pessoa do Vice-Presidente da República.

O PMDB, hoje, não é Oposição, nem apoia a Situação. Hoje, o PMDB – e o PMDB de Eduardo Cunha – é o que mais próximo de Governo o Brasil tem. É a vontade dele – a agenda dele – que prevalece.

O Brasil vive uma crise política, com um Executivo que não governa. E uma crise social, com uma tensão a ser liberada nos Idos de Março.

A incapacidade da Chefe de Governo comunicar-se com o Parlamento e com a população criou a tensão política e social. A economia dá sinais de fadiga devido a vários fatores, que convergem para – e se agravam com – a sua má condução pela Presidente da República.

Se temos um Executivo apoplético, o Senado assiste constrangido a um presidente que perdeu o controle sobre suas circunstâncias e não pensa mais politicamente. Apenas atira para todo lado.

Em meio a tudo isso, temos o que era impensável para um analista até setembro de 2014: uma Câmara dos Deputados protagonista.

A presidente está ilhada e refém de apetites vorazes, mas o Congresso também segue atenazado por uma investigação sem fim nem paradeiro. A maior empresa do País agoniza.

Nesse quadro de instabilidade econômica, política e social, duas manifestações de cores opostas são convocadas para a mesma semana. A primeira, convocada para contrastar a segunda. Nada de bom surgirá destes Idos de Março.

Ainda na vertente de emparedamento do Executivo, Mercadante passou o dia de hoje (11 de março) no foco dos boatos de fritura. Enquanto isso, em paralelo, o Planalto começou, muito tardiamente, a enviar novos emissários políticos para construir pontes e apaziguar o quadro. Os interlocutores políticos mudaram – embora não oficialmente. Temer volta ao núcleo duro. Kassab, Aldo Rebelo e Eliseu Padilha, homem de Temer, são os novos nomes. São sinais ao centro, à direita e à esquerda. São ministros visitando o Congresso e suas bases.

Que não seja tarde demais. Porque o Brasil não pode se permitir retrocessos, nem rupturas que em nada servirão a seu povo, mas tão somente a apetites descompromissados com o País e a ânimos sinceramente exaltados de lado a lado – todos cobertos de razão, mas a um passo de perdê-la.

Um Caminho para o Brasil

Hoje é 9 de março de 2015, e o Governo perdeu o contato com os cidadãos, com o Parlamento e não consegue apresentar uma narrativa consistente sobre a realidade que estamos vivendo no Brasil.

Essa narrativa não tem como ser construída numa Torre de Marfim. É preciso que o Governo faça sua autocrítica e dialogue com seus críticos. Mais do que isso: é preciso que o Governo dialogue na construção de cenários e de soluções com aqueles que serão impactados, positiva ou negativamente, pelas medidas que serão tomadas.

O Governo precisa voltar a se comunicar com os cidadãos, com trabalhadores, com empresários e com o Parlamento.

Faltam pontes – pontes políticas. O Governo precisa ir ao Parlamento ANTES de tomar medidas – e ouvi-lo; precisa ir ao setor privado, com transparência – e ouvi-lo; precisa ouvir as divergentes vozes que falam pelos trabalhadores. Uma vez construída uma solução, o Governo precisa explicar as medidas aos cidadãos, explicar onde estamos e para onde se está querendo ir.

É preciso que o Governo faça uma autocrítica em público e de público. Que assuma ter andado mal aqui e ali, e que pretende consertar com isto e aquilo – ouvindo a todos os implicados.

O Brasil precisa de uma narrativa que o explique. E de líderes que construam uma narrativa que faça sentido para todos. Não se trata de criar consenso ou pensamento único, mas sim de todos concordarem que o vestido é azul e preto, ou branco e dourado, dependendo da luz. Hoje, ninguém concorda sequer que se trata de um vestido. É preciso deixar claro, enfim, qual é a situação atual da economia e das contas públicas. É preciso deixar claro aonde se quer levar o País. No que vamos investir. No que será preciso cortar investimentos – e por quê.

O Brasil só sairá desta crise com Comunicação e Pontes, feitas a partir de Autocrítica e por meio de Diálogo e Construção Conjunta de Soluções.

O isolamento atual do Palácio do Planalto só tem efeitos deletérios sobre tudo o que se construiu – e foi muito o que construímos! – desde 1988.

Sobre Panelas, Janelas, Ruas e Caminhos

As panelas e os gritos são legítimas expressões de uma visão do quadro geral brasileiro. Não é a única, nem a majoritária, mas é legítima. Ninguém pode ser obrigado a concordar com qualquer governo.

As panelas e os gritos não são as únicas expressões legítimas de visão do quadro geral brasileiro. Há outras, majoritárias ou não, igualmente legítimas.
Ninguém pode ser obrigado a concordar com quem faz barulho, apenas por que o fazem.

A única expressão ilegítima é aquela que prega solução não institucional para uma crise (séria) de governabilidade.

O Governo Dilma não conseguiu formar maioria no Parlamento. Isto é grave. Se estivéssemos em regime parlamentarista, novas eleições estariam sendo convocadas pelo Chefe do Estado. Mas nosso regime é presidencialista. Nele, o mandato do Chefe de Estado e de Governo, ambos encarnados na mesma pessoa do Presidente da República, não pode ser encurtado, a não ser por licença (um encurtamento branco), renúncia, impugnação de mandato, impeachment ou falecimento.

A saúde da nossa presidente vai bem – e não há nada que a convença a passar quatro anos sabáticos na Universidade de Pequim -, então licença, por ora, está descartada. E seu falecimento, também, mas a vida é frágil. A vida sob pressão, fragilíssima.

Renúncia está descartada. Ela mesma disse que não renuncia, nem se mata – não teremos um segundo Getúlio. No entanto, se Dilma renunciasse, assumiria Michel Temer até 31.12.2018.

A ação de impugnação de mandato só poderia ter sido movida até 15 dias da diplomação. Estamos a meses dela. Precluiu. Mas dependeria de prova de abuso de poder econômico, corrupção ou fraude. Se tivesse sido movida e a ela dado provimento, Dilma e Temer cairiam, e teriam lugar novas eleições – das quais, é sempre bom lembrar, Lula poderia participar como candidato.

Não há base para impeachment: crime comissivo previsto na Lei de Crimes de Responsabilidade (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l1079.htm). Não há impeachment por incompetência, inépcia, imperícia ou omissão (no Parlamentarismo, na prática, há). A CPI da Petrobras tem o firme intento de encontrar ligação da presidente com algum crime. Se um crime vier a ser imputável a ela, poderemos assistir a um processo de impeachment.

Na hipótese ainda remota de impeachment, é bom esclarecer que quem assume, de novo, é Michel Temer.

Toda alternativa fora das hipóteses acima implica ruptura da ordem constitutional. É golpe. Não há legitimidade em golpe dado numa democracia – e vivemos numa, com as instituições funcionando tanto que vemos escândalos todo dia, escândalos dos quais nada se saberia, se não estivéssemos, bem, numa democracia, com as instituições funcionando. É assim o círculo virtuoso de uma República onde o Estado de Direito funciona.

Gente graúda está na cadeia. Gente graúda está sendo investigada. Sem democracia, nada disso estaria acontecendo – e nada disso aconteceu antes de alcançarmos o atual estágio de maturidade das instituições, um estágio que se perderia com a regressão a um regime sustentado por um golpe.

Não, não existe “intervenção militar constitucional”. O art. 142 da Constituição Federal autoriza o Presidente da República, o Presidente do Congresso, o Presidente da Câmara, o Presidente do Senado ou o Presidente do Supremo Tribunal Federal a solicitar ação das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem. Alguém aí quer Dilma, Eduardo Cunha, Renan Calheiros ou Lewandowski chamando o Exército para impor a lei e a ordem? Para, por exemplo, impedir manifestações?

Os líderes políticos brasileiros estão sob sério questionamento. E não estão respondendo à altura do momento histórico. Alguém precisa pensar saídas institucionais com grandeza e firmeza de propósito.

E esse alguém é Você e sou eu e somos todos nós. Não dá para delegar, nem para agir como manada, como uma maria-vai-com-as-outras num tema tão sensível como o do futuro deste País, que está, sim, sob risco.

Hora de sermos responsáveis e de nos colocarmos à altura do que a História exige de nós. E esse “nós” somos, repito, Você e eu e todos e cada um dos que vivem neste e deste País

Imagem e Ação Política na Rede – Um breve diálogo com Ana Maria Bierrenbach

No Facebook.

 Ana Maria Bierrenbach: Outro dia eu postei imagens (que depois soube que eram falsas) de uma situação de violência contra um bebê, supostamente perpetrada por um membro do ISIS. Mas mudei de ideia e deletei o post em seguida, mantendo, porém, o comentário. Deletei a imagem porque me pareceu que, ao compartilhá-la, estaria reproduzindo, eu mesma, de alguma forma, aquele horror, e indo ao encontro dos interesses desses bárbaros. Há poucos dias, um amigo, Caio Leonardo, fez um apelo a que parássemos de reproduzir as imagens da destruição do patrimônio histórico e artistico no museu de Mosul, basicamente pela mesma razão: seria esse, precisamente, o interesse desses criminosos. Enfim, eu estava com essa questão na cabeça quando hoje me deparei com este artigo do Le Monde: http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/02/26/regarder-l-horreur-en-face_4584183_3232.html

A reflexão fundamental é a seguinte: será que o holocausto teria ocorrido se, naquela época, as pessoas tivessem tido acesso àquelas imagens? Será que a situação atual, de imagens encenadas com o objetivo de atrair e não de repelir, é comparável?

Caio Leonardo: Há uma diferença crucial entre, de um lado, a vítima divulgar a atrocidade – e esse seria o caso de um Dachau que ganhasse a Rede – e, de outro, o perpetrador da atrocidade espetacularizá-la. A primeira tem poder libertador. A segunda é a consumação de uma das pequenas vitórias que, no caso do ISIS, alimentam a sedução de novos adeptos pela via da viralização. Pessoas querem se ver no centro do espetáculo da aldeia global – para recuperar uma expressão quase abandonada. Do jeito que for: com seu gato, com seu filho, caindo de skate, cortando pescoços ou destruindo a História. Divulgar imagens dessa segunda natureza é alimentar um monstro caricato, narcísico e sem limites na sua sanha de épater l’Occident. E cada nova monstruosidade pedirá outra maior para superar a anterior em impacto.

 

Ana Maria Bierrenbach: Mas nós, que não somos (pelo menos por enquanto), vítimas diretas, e nem perpetradores, ficamos de espectadores passivos?

Caio Leonardo: Quem pode fazer alguma coisa tem informação e meios – e esses são os Estados-Nações envolvidos ou interessados no conflito. Ao reproduzirmos essas imagens, nos alinhamos com o projeto de um ISIS, nossa crítica ingênua constitui massa de manobra. Podemos e devemos discutir aquilo a que temos acesso, mas sem reproduzir imagens do interesse de entes que são inimigos da civilização que nos envolve e que cabe a nós consertar e defender.

Mais: nós somos vítimas, sim, porque aquelas peças são nossa História, como Humanidade, e aqueles reféns mortos são nossa imagem e semelhança de Ocidentais: é a nós que querem atingir.