Imagem e Ação Política na Rede – Um breve diálogo com Ana Maria Bierrenbach

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 Ana Maria Bierrenbach: Outro dia eu postei imagens (que depois soube que eram falsas) de uma situação de violência contra um bebê, supostamente perpetrada por um membro do ISIS. Mas mudei de ideia e deletei o post em seguida, mantendo, porém, o comentário. Deletei a imagem porque me pareceu que, ao compartilhá-la, estaria reproduzindo, eu mesma, de alguma forma, aquele horror, e indo ao encontro dos interesses desses bárbaros. Há poucos dias, um amigo, Caio Leonardo, fez um apelo a que parássemos de reproduzir as imagens da destruição do patrimônio histórico e artistico no museu de Mosul, basicamente pela mesma razão: seria esse, precisamente, o interesse desses criminosos. Enfim, eu estava com essa questão na cabeça quando hoje me deparei com este artigo do Le Monde: http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/02/26/regarder-l-horreur-en-face_4584183_3232.html

A reflexão fundamental é a seguinte: será que o holocausto teria ocorrido se, naquela época, as pessoas tivessem tido acesso àquelas imagens? Será que a situação atual, de imagens encenadas com o objetivo de atrair e não de repelir, é comparável?

Caio Leonardo: Há uma diferença crucial entre, de um lado, a vítima divulgar a atrocidade – e esse seria o caso de um Dachau que ganhasse a Rede – e, de outro, o perpetrador da atrocidade espetacularizá-la. A primeira tem poder libertador. A segunda é a consumação de uma das pequenas vitórias que, no caso do ISIS, alimentam a sedução de novos adeptos pela via da viralização. Pessoas querem se ver no centro do espetáculo da aldeia global – para recuperar uma expressão quase abandonada. Do jeito que for: com seu gato, com seu filho, caindo de skate, cortando pescoços ou destruindo a História. Divulgar imagens dessa segunda natureza é alimentar um monstro caricato, narcísico e sem limites na sua sanha de épater l’Occident. E cada nova monstruosidade pedirá outra maior para superar a anterior em impacto.

 

Ana Maria Bierrenbach: Mas nós, que não somos (pelo menos por enquanto), vítimas diretas, e nem perpetradores, ficamos de espectadores passivos?

Caio Leonardo: Quem pode fazer alguma coisa tem informação e meios – e esses são os Estados-Nações envolvidos ou interessados no conflito. Ao reproduzirmos essas imagens, nos alinhamos com o projeto de um ISIS, nossa crítica ingênua constitui massa de manobra. Podemos e devemos discutir aquilo a que temos acesso, mas sem reproduzir imagens do interesse de entes que são inimigos da civilização que nos envolve e que cabe a nós consertar e defender.

Mais: nós somos vítimas, sim, porque aquelas peças são nossa História, como Humanidade, e aqueles reféns mortos são nossa imagem e semelhança de Ocidentais: é a nós que querem atingir.

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