Volta

O sol se põe em São Jorge

e nos despedimos da São Bento

tomando a direção de São João d’Aliança.

As crianças brincam no banco de trás,

o meu é 9

o meu é 5

e todos de olho nas placas dos carros que passam.

Essa tinha dois noves!

E assim foi a competição até São Gabriel.

Patrícia no banco da frente ganhou.

Dirijo noite adentro, Chapada afora,

volteando a curiosidade infinita da Valentina,

saboreando as gargalhadas gostosas do Samuel

– e tudo complicava o sono da Tata,

encaracolada a estibordo.

O rosa do sol já sumido do horizonte,

desce um suave silêncio sobre a popa,

Patrícia brinca na proa com as diferenças

entre Ella e Billy,

surge um alvoroço no leme

com as escalas de Sarah

e eu sorrio para as luzes na estrada.

À noite, aquela estrada é uma crença em luzes.

Stultifera Navis

A enorme e torta canoa

desce a corredeira.

Sacode e roda entre pedras e toras

rumo à catarata.

A canoa não vai vazia para o abismo.

Estão todos juntos.

Mas eles se acotovelam e se amontoam,

gritam e berram, vociferam

contra as árvores que estendem seus galhos.

Contra as margens do rio.

 

caio leonardo

22 de março de 2018

Adágio em Sol Menor

Preciso de pouco.

A vida é que tem me dado muito.

Minha alma cabe

sem esforço,

ainda que comprimida,

nesse cantinho estreito

embora ensolarado

entre Barcelona

e Saint Paul de Vence;

mas também se vira

entre Juquehy

e Paraty;

e aceita

sem relutar

um chão duro qualquer

tendo como travesseiro

dois Hemingways e um Cortázar.

Para me cobrir,

basta um Capote.

E se um dia

nem mais ler eu puder,

que me encontre recostado

entre damas-da-noite,

– as memórias me bastarão.

Mas quando nem mesmo

a memória me sobrar,

então que o acaso faça chover

sobre mim em São Vicente,

que a chuva de lá sempre foi

e sempre será

o meu mais suave acalanto.

Ela bastará,

garoa ou tempestade,

quando eu não saiba mais de mim.

Haikai de Cabeceira

Grampo de cabelo

surge no criado-mudo:

A tua presença.

Sem Nome

Esse pássaro gordo

marrom, comprido

de cauda longa e

cara de sujo de terra

apareceu de novo na pitangueira

pegada à minha janela

que fica fechada no calor eterno de Brasília.

Ele é um pássaro feio

mas incomum.

Feio e incomum.

Hoje é um dia feio e incomum,

e não sei que nome dar

a esse vizinho

nem ao que sinto e desejo

neste dia feio e incomum.

Mas que diazinho feio e incomum!

Vou xingar, mas nem chego perto de abrir a boca.

Devia tomar um captopril,

mas dona Marlene me traz melancia –

ela tem um ar curioso agora à tarde,

a dona Marlene.

O pássaro gordo e sujo adoraria

chafurdar nesse pratinho de melancia

sobre a mesa de trabalho:

seus pés escorregariam nos jornais

que rasguei mais cedo

e sua asa cor de sangue pisado

derrubaria

a água até agora intacta

mas que já atravessou esta sala pelo menos

três vezes

prefiguradamente. Como a outra de mais cedo.

Parece uma enorme e gelada

teia de aranha

essa trinca na tela do computador.

Se a mesa não ficasse colada à janela

eu a abriria

e faria algum som estúpido para o

pássaro gordo e marrom

com suas asas de sangue pisado

entrar e chafurdar na melancia.

Como a melancia.

A janela mantém o quintal calado.

O sol arde sobre a pitangueira.

(Mas que diazinho feio

e incomum!)

Qual é o santo nome daquele pássaro?

Quando diabos este dia vai terminar?

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

A janela fechada mantém o quintal calado,

a pitangueira está quieta,

o pássaro sem nome

está por aí,

carregando a sua feiúra incomum.

– caio leonardo

24.1.2018

Poema Que Me Dóis Aqui

Estou tão,

mas tão sozinho

nesta cidade,

que chega a doer

a espinha da escápula

o esplênio do pescoço

o latíssimo do dorso e

o rombóide menor.

Só não te mando um beijo

porque me dói

o zigomático maior e

o orbicular da boca.

Te deixo agora

que já me dói a língua

de tanto querer falar

e não falar

por não ter a tua bigorna

nem o teu martelo

pra vibrar cruel

com minhas saudades

Jornada Nebulosa

(Haikai no Renga)

Não há primavera
Na nebulosa de Órion
Mas, quem sabe, um dia…

O tempo não corre
Na nebulosa de Órion –
Quem conta seus dias?

Há um coração
Na nebulosa de Órion
Que é ela inteirinha

Há um véu de noiva
Na nebulosa de Órion
Bodas nas estrelas

Escapam de dentro
Da Nebulosa de Órion
Dez mil vagalumes

A corte Heian –
ó, Nebulosa de Órion! –
perdoará Genji?

Dez mil vagalumes
libertados pelo príncipe
luziram seu ombro

Aquele ombro nu
brilhou mais que o cinturão
de estrelas de Órion

Vagas como estrelas,
damas da corte Heian
recolhem seus leques.

Vagos são os lumes
nos aposentos Heian –
Vagos são seus lumes

caio leonardo

 

___________________

 

Clicando aqui você verá novas imagens da Nebulosa de Órion que foram divulgadas hoje, 16.1.2018, pelo Le Monde. Tive o impulso de sempre: compor um haikai – mas logo pensei que não há estações do ano na Nebulosa de Órion… Dessa constatação discutível, surgiu teimoso um primeiro haikai-sem-kigo, e esse haikai torto pediu outro que retratasse o enorme coração que parece ser a nebulosa, depois ainda outro que falasse de como tudo nela é delicado, diáfano, transparente, então foi que surgiu a imagem de estrelas brotando da nebulosa e elas me lembraram os vagalumes com que o príncipe Genji iluminou o aposento onde seu primo desnudava o ombro de uma dama da corte do período Heian, célebre cena escandalosa dos Contos de Genji, um haikai puxando outro, e me vi compondo um “haikai no renga”, um terceto encadeado no outro, algo que a tradição manda que seja uma obra coletiva, assim iam longe noite adentro os poetas no Japão feudal, uma longa jornada noite adentro, sem rumo nem destino.
Esta jornada começou em Brasília, passou por Paris, caiu na Nebulosa de Órion, que se tornou vagalumes num aposento no Japão do século XI… Você devia compor o próximo. Vem. Vamos.

 

Roda Pião

O jardim é um círculo

estreito viário urbano

o mato está alto. (Decrépito)

A linha corrugada da circunferência

já está refeita, branca, branca.

(Sepulcro caiado)

Homens de enxada na mão

capinam. Os três,

mais de sessenta – conjunto disjunto

composto de uniforme e urgências.

Um jaleco laranja está limpo demais. (Urgência)

A enxada ao final daquela manga folgada

dura de brim e pouco uso

não assusta o mato.

O rosto acima da gola é uma pedra escura

distinto

(Recém-saído de uma repartição

para sempre?). Agora ali

rodando parado

os pês mal firmados sobre a terra em desflor

que é aquela ilha-rotatória –

os carros girando em torno, girando,

(A classe média do Sudoeste

gira seu recesso de janeiro)

em torno do jaleco limpo

da enxada inútil –

são quase 11 horas na 303.

Ele ergue lentamente

a enxada à altura do quadril

a meio-pau (É o que pode)

e acena com ela para os dois

que atacam o mato com força e hábito:

O queixo se ergue em direção a eles

Os olhos estão escurecidos

O queixo se estende em direção a eles

Mas os lábios

os lábios se prendem, mordidos.

Brasília e seus Elementos

O inverno em Brasília é a temporada da seca e da poeira. Poeira alta, que cobre tudo e todos.

Para quem vem a Brasília com pressa de aventureiro, a poeira, mesmo na seca, não tarda em virar lama.

Mas quem sabe o valor de andar à luz do dia, espana a poeira e segue sob o sol, que sempre volta, que sempre ilumina, que sempre expõe a tudo e a todos, mais dia menos dia, que não há dia sem sol em Brasília.

Quem pode andar à luz do dia em Brasília, que o faça de cabeça erguida, senhor da sua hombridade e da sua retidão.

Brasília é terra de forasteiros. Eu mesmo, um deles. Você, forasteiro, brasileiro atraído pela força centrípeta do Poder, ao vir a Brasília, ao pensar em Brasília, tenha em mente uma flanela, não uma aventura. Use a flanela diariamente, para espanar a poeira das ideias, de suas roupas, do seu ofício: para ela não acumular e impedir que enxergue a razão clara e límpida que o tenha trazido para cá. Para manter-se limpo, também.

Se a razão que o induzir a cruzar o País até Brasília não for límpida, nem clara: não venha. Não é bem-vindo. Siga e nunca mais volte.

Ao forasteiro, digo logo: evite a tentação do lago. Do lago e seus iates e velas e brilhos e bolhas disparados pescoços das Chandon. Lembre-se da poeira, peguenta e pronta para marcar seus passos. Água e poeira, nas mãos de um aventureiro, dão em lama.

Mas água e poeira, na mão de quem cuida, dão em argila e em arte e em utensílios e em vida bem vivida.

Brasília é a cidade das decisões e precisa de todo brasileiro, de cada brasileiro, da atenção de cada olhar e de cada mente, para que as decisões sejam mais bem construídas.

Aprenda a enxergar Brasília com seus próprios olhos. A poeira que paira sobre a cidade na seca vê passar no vento as páginas de jornal e de semanários que cobrem a vista de quem passa, que atrapalham a visão, em lugar de mostrar o caminho, o que acontece.

Venha com uma flanela, não com uma vassoura. Cuide primeiro de si e da sua conduta, da poeira que pespega a sua pele e a sua roupa. O seu carro – e aquele seu desejo de um carro melhor. Nada pior do que desejar um carro melhor, na cidade das decisões.

A vassoura vergastada Brasil afora contra Brasília, minha gente, já está operante Brasília adentro, não se engane. Ela vem varrendo, dia a dia, para ignomínia, para o opróbrio e a desonra, aqueles que se perdem nos vastos horizontes do planalto central.

Que sejam varridos, hoje e sempre. Que sejam desonrados, hoje e sempre.

E que mantenhamos todos a flanela contra a poeira.

Limpos, primeiro, nós mesmos. Em Brasília e fora dela.

*Texto publicado alhures em 20 de setembro de 2013

Outra Praia

Tarde fria de inverno

de tempo fechado,

de garoa mansa,

do marulho surdo, o mar quebrando,

do pé na areia,

do olhar no horizonte,

de sentar no chão com a malha grossa,

a bainha da malha molhada

e cheia de areia.

Tarde fria de inverno,

de sentir o maral no rosto serenado

de balançar o corpo, vaivém de mantra

Da melancolia da visão dos canais ao longe,

José Menino,

Três,

Embaré…

Da prancha que chega à areia sozinha,

o garoto lutando contra o frio

e contra as volutas inquietas do mar

(quer pegá-la de volta, tentar de novo,

até que uma vaca desabe

sobre sua cabeça morena.)

Dos contentores da Maersk,

desfilando solenes e misteriosos na barra;

da bola que passa

com três outros correndo atrás,

aos gritos –

o silêncio rumoroso da queda da tarde,

lenta e ensimesmada,

como olhos que se fecham em resignação.

Como estes meus olhos,

que se fecham em resignação.

Caio Leonardo

2 Aforismos Brasil Afora, Brasil Adentro

Um, meu; outro, ninguém sabe direito de quem.

Aforismo n. 1

A diferença entre investigação e perseguição é que, numa investigação, parte-se de algum crime até se encontrar alguém que o tenha cometido; numa perseguição, parte-se de alguém até se encontrar algum crime que ele tenha cometido.
Aforismo n. 2

“It ain’t what you don’t know that gets you into trouble; it’s what you know for sure that just ain’t so.” (Autoria disputada)

Que traduzo livremente assim:
“Não é o que você não sabe que põe você em encrenca; é o que você tem certeza de que sabe, mas que, bem, não é assim como você pensa.”

Praça de Maio

Há uma escalada autoritária em curso e sem direção. Os freios não freiam e os contrapesos não contrapesam. Nenhum poder hoje é exercido no seu limite constitucional. Não há comedimento, porque perderam as medidas. 

O Brasil não vive um Estado Democrático de Direito, porque este é, por definição, regido pela lei. Mas a lei hoje é o que seu operador quer que seja, seja o que for que queira. As pequenas autoridades investiram-se de poderes sem limite. As altas autoridades perderam o limite da decência no uso das suas atribuições.

Não é de novo a corrupção, não é disputa partidária. É perda de rumo num País em que qualquer um manda naquilo para o que seu nariz apontar. As instituições perderam, cada uma, seu senso de propósito.

De todo lado e a toda hora surge um ato de redenção, um gesto grandiloquente, um arroubo: é a decisão judicial não pedida, o enquadramento penal por analogia, a emenda testudinata, o veto pronto a se desvetar, a operação policial desenhada para ser celebrada no churrasco de sábado, a nova declaração do senhor ministro do Supremo Tribunal Federal sobre um processo em que ele próprio oficia.

Tudo que não pode, podem, se permitem. E todos em conflito uns com os outros. Não é Situação e Oposição. A Corte abandonou a cortesia, a lhaneza, no Parlamento não se parlamenta, não há diálogo, e a votação perdida na Comissão é transferida para alguma Turma de Tribunal. E é Judiciário contra Ministério Públio contra Polícia Federal contra Tribunal de Contas contra Ministérios contra Parlamentares contra Ministério Público contra Judiciário, e assim se remexe a serpente que morde o próprio rabo.

O Brasil mergulha num Estado de Excesso. Excesso de poder, de espetáculo, de virulência, de irreflexão. As inimizades figadais são tantas e tão ubíquas que esta hoje é uma sociedade cirrótica. 

Não há Ordem, nem possibilidade de Ordem no horizonte. É por isso também Estado de Exceção, mas não por falta e, sim, por excesso de liberdade, liberdade na aplicação da lei, porque a tal lei, esperança de Ordem, é o que a pequena autoridade diz que é e não o que está escrito. 

Ou voltamos à letra da Lei, seja qual for a lei, apenas porque lei é, ou a jornada democrática conhecerá seu fim. Esta cada vez mais perto a madrugada, sempre uma madrugada, que pode bem ser esta de 17 de maio de 2017, na qual surgirá um salvador cuja história sabemos desde já que nunca será contada.

A Musa Impassível

“A Musa Impassível”, Victor Brecheret, 1923 – Pinacoteca do Estado de São Paulo

 

Quando Eldorado ainda era Xiririca, surgiu Francisca Júlia. Em 1891, ela ganhou São Paulo aos 20 anos, como poetisa e crítica literária. Fez sucesso antes mesmo de seu primeiro livro ser publicado. No Brasil do século 19, obviamente não haveria de ser fácil uma mulher firmar-se como poeta. Como era Brasil, as dificuldades que ela enfrentou precisavam conter, em algum ponto, uma dose qualquer de histrionismo: Dois escritores de renome se esbofetearam na imprensa sem saberem que por causa dela. João Ribeiro assinou como Maria Azevedo um ataque a Raimundo Correia, que ele achou que usasse “Francisca Júlia” como pseudônimo.

Nem passou pela pena do poeta que a pena de uma poetisa pudesse aquilo tudo.

Francisca Júlia foi grande, foi intensa, misteriosa, melancólica, foi parnasiana, foi simbolista e, se não chegou a ser modernista, os modernistas a achavam grande.

A crítica literária parece ser unânime quanto à altura que ela alcançou como parnasiana – seus contemporâneos a incensavam. Suas rimas internas são cristais em que o leitor tropeça surpreso no caminho, e seus enjambements são desfiladeiros curvos que o levarão vertiginosamente ao reverso do verso seguinte.

Sua abertura ao simbolismo, no entanto, marcou a entrada do esotérico em sua vida. E foi doloroso.

Com 35 anos, deixou de escrever e de frequentar as rodas literárias, o misticismo foi tomando espaço no seu pensamento. (Arrisco imaginar, da distância imensa que há entre mim e o que foi a sua vida, que o desapego pregado pelo budismo possa ter tido algum papel nesse seu recolhimento). Não foi uma vida tranquila, intelectual e espiritualmente, a que decidiu ter. Mudou-se para o interior, foi morar com a mãe, deu aulas, cuidou da casa. E com a mãe voltou a São Paulo em 1908 e, lá, um ano depois, casou-se com um poema.

Ah, se não é um poema o tanto que há de sublime em alguém se apaixonar pelo telegrafista da estação do Lajeado, na Estrada de Ferro da Central do Brasil; ele, um senhor de 45 anos que atendia por Philadelpho Edmundo –  ou, talvez, por Sr. Munster, sobrenome que causa a saborosa dúvida de ter ele sido anglo ou saxão. Imaginar como a poetisa encontrou essa personagem seria insondável, se não se soubesse que a mãe dela havia sido transferida para a escola que ficava na tal estação do Lajeado, a atual Guaianazes.

Francisca Júlia afastou-se dos poetas, mas se casou como poeta e morreu poeticamente, horas depois do marido, por overdose de calmantes.

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa

O enterro de Francisca Julia e Philadelpho tornou-se um acontecimento nos meios literários, já acossados pelos modernistas. Era 1920. A história registra a presença de Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti…

Três anos depois, estava pronta a homenagem dos modernistas à parnasiana: uma escultura de Victor Brecheret, em mármore, que levava o nome de um poema dela, A Musa Impassível. “Mármores” é o nome do seu primeiro livro, que é onde está aquele poema. A Musa Impassível, que viera em Mármores, ao mármore voltava.

A escultura ficou junto à sua lápide no cemitério do Araçá, esquecida, até que a filha de Brecheret, Sandra,  numa passagem por lá, deu-se conta de que aquela era obra do pai, isso em 1992. Em 2006, a Musa foi levada à Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde foi restaurada.

___________

Estive diante da Musa Impassível, a de mármore, cinco anos depois da sua chegada à Pinacoteca. O que vi foram 2,80m de formidável feminilidade, que se inicia com a sutileza doce do pé esquerdo levemente soerguido e apoiado para trás no bloco em que ela se sustenta, ela um losango do qual brotam volumes que revelam a expressão arrebatadora do corpo dessa musa coberto por um manto entre evanescente e pesadamente úmido, o tecido se apegando aos joelhos unidos que dali desenham o vértice que se abre para caber os imensos quadris que abrigam o ventre protraído que vai se fechando no torso que suporta seios impossivelmente eretos que conformam o colo que faz surgir a cabeça que é onde, só então, surge o único elemento impassível da musa: seu rosto. E é do alto do seu pescoço que o olhar despenca numa linha afirmativamente sinuosa, guiada pelas abas das vestes que se derramam coladas ao centro, e que são os lábios unidos, repousados, de uma portentosa vulva.

_____________

Musa Impassível
I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

(1895)

Como Esperar Sentado na Toscana

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O voo Florença-Paris tinha sido cancelado. A companhia aérea decidiu embarcar os passageiros por Pisa. Todos foram transportados de uma cidade a outra de ônibus. Todos, menos um. O ônibus não era acessível.

Tentaram uma van. Demonstrei, meio descadeirado, que tampouco. Sorrisos, lamentos. Que esperasse. Esperei.

Esperei tanto, que achei que tivessem desistido de mim. Não estranharia.

Dividindo comigo o latifúndio que era o estacionamento deserto, uma banda de rock se entediava a dois tropeços de mim. Eram quatro, cara de atropelados pela noite, sentados sobre caixas de som, instrumentos, coisas de saltimbancos. Não sei se chegavam ou se partiam. Esperávamos. Três desembarques depois, já éramos uma família – dessas em que ninguém conversa com ninguém.

Eu estava tranquilo, sei esperar, de alguma forma iam resolver aquilo. Um tailleur verde-claro vinha falar comigo, lamentava a demora, eu respondia com um sorriso: Não tenho pressa. E os saltos altos iam de volta. Surgia um quepe com crachá, soprava um Scusi… E sumia.

A banda, no seu silêncio de Sepultura, talvez competisse comigo para ver quem escapava primeiro do estacionamento que estava de novo vazio. Batia um vento surdo quando o Jaguar ultrapassou a cancela distante e deu uma volta solene pelo pátio.

Rock stars, pensei.

O Jaguar passou pelo embarque, pelo desembarque, se aproximou e parou diante de…mim. Esta era a hora em que uma baqueta podia ter caído no chão. O tailleur e o quepe se perfilaram. Ele se adiantou, abriu a porta, sorriu e me convidou a entrar.

Virei para os roqueiros, que riam desestrelados, e lhes disse, rindo ainda mais:

__ This is how you lose a flight.

 

O MEDO E A ORDEM

O seu golpe é medo

O seu gorpe é medo

O seu gorp'é medo

o seu gorpe medrÔ

o ser gorPe medrÔ

osser gorPE medrO

ossergorP E medrO/ 
                O/             
               r/
              d/
             e/
            m/
            
          E
           
        P/
       r/
      o/
     g/
    r/
   e/
  s/
 s/
o/

Caio Leonardo
24.9.2008