Luzes, Trevas e 25 de Dezembro

Persas e hindus celebravam em nome de Mitra a vitória do sol sobre as trevas, no solstício de inverno, o dia mais curto do ano, 21 de dezembro no hemisfério norte. Essa é a mesma data em que os celtas celebram o Sol Criança, e crêem ter sido a data de nascimento do rei Arthur, no castelo de Tintagel, daí a celebração de Alban Arthuan (“a luz de Arthur”), uma das quatro “luzes” (Albans) em que se divide o ano celta.

Com Aureliano, os romanos passaram a celebrar o Deus Sol Invictus, inspirados no mitraísmo, pela mesma razão solar, porém em 25 de dezembro. Constantino, o imperador que tornou o cristianismo a religião do Império Romano, antes disso cunhava suas moedas com a efígie do jovem e imberbe Sol Invictus. Há quem sustente que vem daí os cristãos celebrarem o nascimento do deus feito homem em 25 de dezembro. Em 25 de Kislev (não exatamente dezembro, mas esses meses não raro se sobrepõem) os judeus celebram o milagre do óleo, que queimou miraculosamente não por um, mas por oito dias na menorah do Templo após a sua liberação por Judas Macabeus.

As festas em torno do solstício inspiraram o Natal; e o Natal norte-americano tem em alguma dose influenciado, desde o advento do Sionismo, a festa do Hannukah, com crianças recebendo presentes, em vez da tradicional gelt, ao cabo do oitavo dia de celebração, entre queijos e vinhos, em homenagem ao triunfo de Judite sobre Holofernes.

Seja pela religação com os astros, seja pela religação com seu deus, seja pela religação com seus ancestrais, seja até mesmo só por haver motivos alheios para festa: celebremos, cada um a seu modo, esta época do ano – porque todo rito de passagem serve a dar sentido à vida.

Feliz Natal. Chag sameach. Que a luz vença as trevas.

caio leonardo bessa rodrigues
em 23 de dezembro de 2008

Imigrantes derrota Aécio

Não, não há erro de concordância no título. Aécio foi derrotado não por nordestinos famintos, mas por uma rodovia. Ou várias. E todas privatizadas.

Para refutar a hipótese de um Norte-Nordeste vitorioso por si, importa registrar que mais da metade dos votos em Dilma vieram das Regiões onde Aécio venceu: Sul, Sudeste e Centro-Oeste (30 milhões, de 54 milhões).

SUL

Dilma venceu no interior do Rio Grande do Sul e do Paraná, embora tenha perdido no total desses dois Estados.

SUDESTE

Dilma venceu em vários Municípios de São Paulo, que lhe deu 8 milhões de votos, ou 25% do seu eleitorado.

A votação de Dilma no Estado de São Paulo equivale à soma das populações (não só dos eleitores) das 12 maiores cidades paulistas, excluída a capital, ou o equivalente à totalidade dos eleitores da própria capital.

CENTRO-OESTE

No Centro-Oeste, onde Aécio venceu e que é o menor colégio eleitoral dentre as regiões (10 milhões), Dilma teve 42% dos votos.

_____

Assim tendo sido, se somarmos Sul, Sudeste e
Centro-Oeste, Dilma recebeu dali perto de 30 milhões de votos. No Norte-Nordeste, terá recebido 24 milhões de votos.

Pode-se dizer que o Brasil inteiro votou em Dilma, mas nem todo o Brasil votou em Aécio. O Norte-Nordeste, de fato, não votou nele – e cabe a ele e ao seu partido reavaliar sua abordagem daquela região.

Porém, foi no Sudeste que Aécio perdeu a eleição. Era a sua seara. A diferença de 3 milhões de votos poderia ter sido nivelada com Minas e Rio de Janeiro, que foram os Estados que tiraram a vitória dele. Ou apenas por São Paulo.

Para entender isso, basta registrar que, em São Paulo, 20% não votaram nem num, nem noutro. 20% do colegiado paulista representa mais de 5 milhões de votos. Como, repita-se, a diferença foi da ordem de 3 milhões de votos, São Paulo, sozinho, poderia ter dado a vitória a Aécio, mas se absteve.

Tudo considerado, teria sido possível, sim, uma vitória de Aécio sem o Norte e o Nordeste, se Rio e Minas tivessem ido em seu socorro, ou se São Paulo não tivesse tido tão larga abstenção. Mas uma vitória assim teria efetivamente mostrado uma maioria de eleitorado de costas para as duas regiões mais pobres do País. Um dos muitos recados das urnas é que os conservadores seduziram menos do que estava a seu alcance – e muito menos daquilo que não se importaram em alcançar.

Os paulistas farão melhor, portanto, em não imputar a outro Estado ou região a derrota de Aécio. Em lugar de apontar dedos “aos” imigrantes, melhor que os apontem à Imigrantes, à Dutra, à Fernão Dias, à Bandeirantes, rotas de fuga dos que preferiram não votar.

MapaEleitoral

Mapa de votação por municípios. Tons de vermelho são vitórias de Dilma; tons de azul, vitórias de Aécio.

Caio Leonardo

27.outubro.2014
Caio Leonardo

Canção do Levante

Caboclo que sessas sob o sol,
Já se vão desoras
de mancornar
os que alcunham de mandriões
os esportulários antes trambecados
por veredas hoje descangadas.

Olha as almas que tranam o rubicão da bonança
tangidas pelo aracati benfazejo
que bafeja
este albor de século.

Motejam o teu mourejar.
Rezingam o roborar do teu costado.
Lobrigam no breu da bem-aventurança,
apeançados com teu novo vigor.

Joeira pela urupema
o jaspe,
sessado e lustrado,
que ornará neste lustro
os altares deste bom povo,
lombilhado,
lonqueado.

Joeira pela urupema
o que te enfronda
e confronta o sandejar
dos da ribalta.
Que alto é o teu horizonte,
para além das pretermitências
que assombram o dia santo.

Joeira pela urupema
o sal da terra,
e deixa esvair-se
o esgar provecto
que aqui já não tem tempo,
nem lugar.

 

Caio Leonardo

21.10.2014

 

 

Leitura de Canção do Levante pelo autor:

Bright-White Powder My Wig, Mr. Turner

Esta é uma boa noite para Turner, suas tempestades, seus mares em ressaca, seus naufrágios. Talvez mitigue o excesso de calor e a escassez d’água.

Avatar de Caio Leonardo

Este é “Norham Castle at Sunrise”, William Mallord Turner foi o homem que o pintou, entre 1835 e 1840. A primeira vez que vi um Turner foi em 1995, na Tate Gallery, em Londres, e foram logo vários, havia uma ala inteira dedicada a ele – mas não entendi por quê. Achei-o insosso, indefinido, apático: inglês. Não gosto do amarelo tanto quanto Turner gosta; e gosto menos ainda de suas associações com o vermelho, tão usuais nos óleos de Turner.

Porém, insosso e indefinido era, constatei depois, o meu olhar ainda romântico, ainda não preparado para um pintor que foi impressionista quarenta anos antes de Monet. De 1829 a 1837, os óleos de Turner mudaram cada vez mais profundamente na direção de representarem efeitos de luz, em detrimento dos aspectos figurativos do que fosse o objeto de sua pintura. Foi essa mudança, essa nova fase, que fez dele um precursor do impressionismo…

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Tons de Outubro

tonsdeoutubro

A frase que define a razão dos movimentos políticos vistos na largada para segundo turno é: “Voto não tem dono”.

Dilma Rousseff acenou não reconhecer a representatividade de seus adversários, ao dizer isso. Não reconheceu, em consequência, que há agendas em conflito com sua condução do Governo Federal.  É lugar-comum constatar que Dilma não ouve. Mas ela vai além com essa frase, porque demonstra que não sabe ouvir e que não pretende ouvir.

Essa atitude é a que explica a adesão geral a Aécio Neves. Nenhum grupo político em sã consciência de suas pretensões de poder – no melhor dos casos, de avanço em suas agendas – vai querer gravitar em torno de um perfil como o de Dilma.

A presidente está sozinha, como, parece, sempre quis estar. Restam apenas as afinidades ideológicas e aquelas cujo fisiologismo permite manter um pé em cada canoa. Ninguém a incomodá-la com divergências, ideias, nem com soluções que não tenham tido origem em sua mente, sitiada pela arrogância violenta tão comum nos inseguros alçados a uma posição de comando.

Dilma, se derrotada, terá sido vítima de si mesma. Se vitoriosa, terá os piores quatro anos que um presidente já teve em nossa história, com uma maioria, sim, mas uma tal que a odeia e teme, evita e, reciprocamente, não ouve.

Com novo mandato a Dilma, o Parlamento tenderá a voltar-se para si mesmo, decidir por si, afastando-se do Palácio do Planalto, de mármores que lembram cada vez mais marfim.

Com Aécio, o Parlamento retornará à política tradicional – nada de “Nova Política”. A configuração da Câmara dos Deputados pós-5 de outubro hoje, no entreturnos das eleições presidenciais, sugere 3/5 de base de apoio a Dilma, com Aécio podendo contar com 1/5. Esse quadro, o tucano reverteria com facilidade, versado nas artes da negociação partidária. Dilma, porém, terá imensa dificuldade em mantê-lo, vitimada pela fadiga de material imposta por ela mesma à máquina que dá tração entre Executivo e Legislativo.

A agenda do PSDB segue sendo sem imaginação, não inspira, nem mostra rumo transformador de uma realidade ainda a exigir muita mudança em todas as suas nuances. O PSDB não consegue pensar o Estado para fora dos muros das repartições, não o vê como agente transformador e vê seus mandatos como compromissos com a contenção de gastos públicos, ao que chamam de “eficiência”. Eficiência, no entanto, é fazer mais e melhor para atender prioridades estabelecidas em diagnósticos tão precisos quanto amplos daquilo de que necessita o País – sua economia, sua gente, seu meio ambiente, suas instituições – para se projetar no futuro como uma sociedade justa e solidária, como preconiza nossa Constituição.

A agenda de Dilma tem como norte um Estado regulador, transformador de realidades. No entanto, a presidente descarrilou da agenda dos anos Lula no setor externo; experimentou na gestão econômica – com resultados medíocres, senão perigosos -; gesticulou atabalhoadamente com incentivos e benefícios fiscais, com resultados contraditórios e, não raro, com profundos impactos negativos colaterais (petróleo x açúcar; máquinas x estradas); avançou receosa na agenda institucional – em especial, na de combate a corrupção, que andou melhor sob Lula -; e falhou em sua própria especialidade: energia.

Não há tragédias, nem tangos à frente. Apenas anos medíocres para aquilo de que o País realmente, estruturalmente, socialmente precisa. Podemos assistir a uma melhora no ambiente de negócios, mas será sem remorsos com eventual – e previsível – aumento da concentração de renda em anos de Aécio. Ou podemos patinar raivosamente, com as instituições em rusgas internas e entre elas, em mais quatro anos de Dilma.

Caio Leonardo

Avanço Conservador Salvo pelo Gonzo

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Do Departamento de Agressões Não Tão Gratuitas

Xico Sá não é Kurt Vonnegut, mas queria ser. Não é Hunter S. Thompson, mas queria ser. Não escreve coisa alguma memorável ou digna de nota, mas pagavam pelo que despejava num caderno de esportes até ontem, quando pediu demissão e, com isso, fez o maior gesto a seu alcance para o futuro do jornalismo, mas na direção oposta à desejada, ao abrir mais um tanto as comportas para a onda conservadora que beija e balança o Brasil, a imprensa e, em particular, a Folha de S. Paulo.

Pediu demissão porque queria declarar voto e não deixaram. No mesmo dia, deixaram Gregorio Duvivier declarar o seu. Para a mesma candidata. No mesmo jornal.

Xico Sá saiu da Folha para entrar no Twitter. Tem muitos amigos e seguidores. Seu gesto foi apropriado pelas duas campanhas, com sinais invertidos. Por isso, Xico volta hoje, triunfal no seu fracasso, com algo como uma “carta aos brasileiros” em que fala aos mortos e às militâncias digitais com tom e conteúdo a emular forçadamente os beatniks, usando referências fáceis, o que não impediu tropeços – como reduzir No Country for Old Men a um filme dos Cohen; como esquecer o Whitman sob o Salinger que cita sem inspiração, nem propósito; como invocar espíritos à semelhança de quem se imola em praça pública, alçando a si mesmo a um martírio ingênuo – e pretensioso. Xico está cheio de si. Holden Caulfield, que ele cutuca, diria, baixando a cabeça:

“He’s a lousy phony…”

O rescaldo desse burburinho é que os jornais e as revistas do País seguem sem declarar voto; as revistas e os jornais do País seguem publicando matérias contra uma candidatura e escondendo criteriosamente tudo que há contra a outra; colunistas seguem escrevendo o que querem, se souberem escrever; uma voz, ainda que menor, sai da cena cada vez mais monocórdia da imprensa escrita; e as redes sociais seguem fazendo o que lhes cabe: alimentar discursos autoritários à esquerda e à direita, e reforçar seu papel de veículo do extermínio da possibilidade, da viabilidade mesma de um entendimento comum do que seja a verdade.

Caio Leonardo

14.10.2014

Mural da História

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Estamos em 1947 pelas lentes da Life. Plínio Salgado, Gaspar Dutra, Harry Truman: o “trio fascista” surge em muros pichados pelos comunistas de Prestes, numa São Paulo que, naquele ano, tinha seu primeiro prefeito negro. Negro e socialista: Paulo Lauro. Mas Socialista com “Ç”, que o dele era o do Partido Social Progressista, nome promissor, mas não comprometido, liderado que era por um certo Adhemar de Barros. Paulo Lauro prefeitou por um ano, nomeado pelo próprio Adhemar.

Em 1938, Paulo Lauro havia ganhado fama por ter conseguido absolver o réu confesso do infame Massacre do Restaurante Chinês, de nome Arias de Oliveira, garçom que fora despedido dias antes dos fatos pelo cruel Ho Fong, proprietário do inglório Órion, na rua Wenceslau Brás. Para Paulo Lauro, alguém que não seu cliente havia distribuído pauladas noturnas noutros dois garçons, em seguida esganado o chinês e, escada acima, sobre a cama do casal, esmagado as vísceras de Akiu Fong, esposa do patrão, que se negara a contar onde estavam o dinheiro e as joias.

Assim foi que Arias deixou de roubar, por não achar o cofre, mas matou. Arias foi primeiramente absolvido, o que elegeu Paulo Lauro, mas depois acabou condenado e preso, o que não impediu que, de prefeito, Lauro chegasse a Deputado Federal. 

Adhemar de Barros tinha seu lado Arias. Cofre por cofre, os públicos padeceram mais em suas mãos, porém o dele próprio tampouco se pode dizer que tenha ficado intacto como o de Ho Fong.

Quanto ao trio, Truman, que fez duo com Dutra em Washington, também era dado a roubos, e matou infinitamente mais orientais do que Arias. Dutra não fez fama com roubos, mas, uma vez morto e pavimentado, passou a matar e muito. Dos três pichados, Plínio, que não levou fama com roubo ou morte, era o único fascista à vera.

A nêmesis de Plínio era Prestes, que tinha estado preso, não por roubar ou matar, mas por conspirar, e era então senador. Na foto se lê: “Sem P.C.B. não há democracia”.  

Prestes foi cassado no ano seguinte… Seus comunistas, que picharam o muro de ’47, perderam o rumo com a queda do Muro de ’89.

Quanto a Plínio, este, discretamente, é mantido vivo pelas mortes e roubos que campeiam em São Paulo, e norteia vitorioso o pensamento majoritário do paulistano até hoje.

Os Homens que Queriam Ser Reis

 

Rudyard Kipling narra a estória de dois aventureiros britânicos que planejaram tornar-se reis do Kafiristão, um canto do Afeganistão, munidos de filosofia maçônica e vinte rifles Martini-Henry. Aquilo de os dois não temerem os deuses locais impressionou,  angariaram uma legião de apoiadores. Um deles assumiu o trono. Ofereceram uma jovem em casamento. Ele gostou; ela, não muito: ficou aterrorizada com a ideia de dormir com um deus e, diante de todos, recebeu a tentativa de beijo com uma mordida. O rei-deus sangrou. Foi quando os sacerdotes ao lado gritaram: “Ele sangra! Não é Deus nem Diabo, mas só um homem!”.

Numa Copa já famosa por uma mordida, ontem foi o dia de ver sangrarem aqueles a quem é imposta a condição de deuses. A seleção brasileira expôs para além de qualquer dúvida sua condição humana. Perdeu e perdeu de goleada. E, ao perder de goleada, finalmente se liberta, e da pior maneira, da maldição da Mística da Canarinho, essa que impôs durante décadas a obrigação unicamente brasileira de ganhar, ganhar sempre, ganhar bem e a jogar bonito. Nenhum outro País no mundo exige qualquer coisa parecida com isso de sua camisa. Até a lei, que é a lei, proíbe a exigência de obrigação impossível.

Pois o Brasil sangrou. O Brasil mostrou sua humanidade. “Não sois máquinas, homens é que sois”, grita o lugar-comum inevitável. E o sangue vertido era vermelho, não um óleo lubrificante.

O placar de 8 de julho é, sim, libertador. Confere liberdade para aqueles a quem a carreira alça ao maior dos infernos esportivos – um inferno que há de ter tido seu fim na tarde de ontem no Mineirão, o inferno de ser escalado para envergar a camisa sagradamente maldita da seleção brasileira.

Sagrada e maldita. Sagrada, porque venerada. Venerada por devotos cruéis, que não pedem a seus deuses, mas deles exigem o cumprimento da promessa da vitória e não uma vitória qualquer, mas a vitória com espetáculo. Sagrada e maldita. Maldita, porque aquele que a vestir não pode errar. Se errar, será execrado em praça pública. Barbosa, Zico, Julio César, Felipe Melo.

O placar de 8 de julho é libertador, porque não há como apontar culpado. É um placar maior do que qualquer falha individual, maior do que qualquer esquema tático. Um placar construído, vejam só, por um time superior ao do Brasil. Sim, eles existem! E tampouco eles são deuses. Mas é preciso também dizer que foi um placar construído pelo terror pânico que tomou os deuses ensanguentados ao se virem homens e saberem que suas vidas, a partir daquele momento, seriam infernos para si e suas famílias até o fim de seus dias. Barbosa.

Os 7 gols de 8 de julho libertaram Barbosa. Mas há de libertar também todo e qualquer que tenha usado ou que venha a usar a camisa da seleção brasileira. A Mística da Canarinho foi quem sangrou. Porque a Mística da Canarinho, como toda mística, não passa de crendice. E, nesse caso, de uma crença cruel.

A camisa da seleção brasileira tem história e ontem mais um capítulo foi inscrito nela. O capítulo em que foi deixado claro a todo o Mundo e, em especial, aos brasileiros, que ninguém é infalível e de ninguém pode ser exigido infalibilidade. Sim, lembrem-se de Francisco, o papa: Ele renegou a única infalibilidade vigente.

No conto de Kipling, o homem que queria ser rei, em fuga, despenca de uma ponte de corda que é rompida a golpes de espada pelo povo irado do Kafiristão. O narrador é convencido da estória contada pelo aventureiro que sobreviveu, no que este retira de dentro de um saco imundo uma cabeça ainda coroada, porém decepada.

O Brasil não é o Kafiristão. Tem em comum com ele ser uma terra de crenças equivocadas, é verdade. Mas que 8 de julho de 2014 seja a data da libertação do brasileiro desse torpor coletivo em torno de uma Mística que se desfez diante de um adversário maior. O Brasil sangrou. Viva o Brasil.

Caio Leonardo

A COPA É DO MUNDO!

A COPA É DO MUNDO!

Acabou a repressão. A festa está nas ruas. O mundo a trouxe de fora e o brasileiro foi lembrado de quem é e do que gosta.

A Copa é do Mundo. A apropriação dela pela FIFA e as consequências disso devem ser criticadas, sim. No entanto, não existe movimento global de congraçamento, movimento civilizatório mesmo, que chegue perto do que é a Copa, que é do Mundo.

Vou ver Equador x Suíça. Brasília está coalhada de estrangeiros. Vou ver a festa. O jogo pouco importa. Aprendi isso no voo que peguei segunda-feira (9.6) de Paris para Brasília. Gente do mundo todo no avião, vindo para a Copa que é, Vocês sabem, do Mundo. Atrás de mim, dois ingleses de origem indiana. Vinham para ver… Suíça x Equador.

Tenho direito a acompanhante, coisas de quem rola por aí numa nave espacial. Perguntei à turma do escritório quem queria ir. Diogo Karl é quem vai comigo.

Vamos com autorização para estacionamento especial no vidro do carro. Se me preocupo se vão vandalizar meu carro? Não. É só um carro.

Ninguém vai me reprimir, ninguém vai reprimir minha vontade de participar do maior congraçamento da humanidade.

E vai ser lindo ver uma multidão de suíços e uma multidão de equatorianos como protagonistas da mesma festa. Onde mais isto aconteceria? Onde dois países tão completamente diferentes em todos os sentidos estariam juntos para festejar?

E recebidos por uma multidão de brasileiros, com a participação de ingleses, paquistaneses, angolanos, alemães, italianos.

E com 3 bilhões de pessoas assistindo!

E, no meio disso tudo, num estádio lindo, na Brasília onde moro (e que, 7 anos atrás, exibia um estádio de paróquia), lá estarei eu. E o Diogo Karl.

Blues para Jonas e Jerry

29 de janeiro de 2010, para o filho do seo Raul

Quando meu pai morreu, a missa de 7º dia foi na Matriz de São Vicente. Fiquei de ler a elegia que tinha preparado, mas me atrapalhei com o microfone e ninguém me ouviu, apesar dos cutucões que o padre Paulo me dava, eu todo lá concentrado e inaudível, ridículo e devastado, poeta amador a toda prova. Semana passada, morreu Jerome David Salinger, Jerry para os pouquíssimos íntimos, escritor cujo estilo busco decifrar como um filho a seu pai, imitando gestos, procurando a própria identidade no mestre. Dei de presente dois natais seguidos “O Apanhador no Campo de Centeio” à Maria Antonia, minha sobrinha, coitada.

A notícia da morte de Salinger surgiu à tarde, mas, de manhã, no táxi que peguei no Brasília Alvorada pra ir ao escritório no Brasil 21, vi, no bolso da porta, espremido atrás de um livro que fala mal do Sarney, outro de capa cinza, letras gelo, que diziam “O Ap…” A corrida toda transcorrera em silêncio até ali, silêncio quebrado com a pergunta sobre se alguém tinha esquecido o livro que mostrei . Era do taxista, mesmo. A ideia de o livro não estar perdido, de que havia um leitor ao meu lado, me encheu de uma alegria de nefelibata, que deu lugar ao que sempre se pensava quando se pensava em Salinger: como vai ser quando ele morrer? Há coisas dele escondidas? Continuou escrevendo esses anos todos?

Escrevi para amigos:
“Morreu JD Salinger. O dia que eu tanto temia chegou. Chegou antes da sua reconciliação com a humanidade. Antes de ele permitir que pudéssemos ler mais dele. Salinger foi o mestre consumado da hipotipose e do diálogo natural, superando seu predecessor, F. Scott Fitzgerald. Ninguém o superou até hoje nessas duas artes. A terceira em que era excelente, a construção de personagens infantis. Mas aqui ele tem quem esteja à sua altura: Guimarães Rosa. E só.
E agora? Ele destruiu tudo que escreveu a partir de 1960? Seguiu escrevendo? Morto, não vai mais se incomodar com a leitura acadêmica ou estereotipada que o afligiu ao ponto da reclusão, e terá permitido acesso a um legado escondido? A morte de Salinger é algo como o Apocalipse. Agora vamos saber se o mundo acabou ou se outro é que surgirá”.
Herdei esses exageros da minha mãe, Laura.

Dos contos reunidos em “Nine Stories”, o mais comentado parece ser “A perfect day for bananafish”, mas “For Esmé with Love and Squalor” e “Teddy” é que são meus preferidos: complexas construções narrativas que não deixam entrever os andaimes, as escadas, a carpintaria toda que exigiram para estarem ali, com o frescor das coisas de Salinger.

No Orkut, quem diria, tive acesso a outros contos dele não reunidos nos quatro únicos títulos publicados “oficialmente” em livro; e também a “Hapworth 16, 1924”. Eram raridades. No dia da morte de Salinger, o Twitter ofereceu tudo a todos em poucos minutos. Porém, ainda fica a angústia da dúvida sobre se haverá mais o que ler dele.

O Pira, em homenagem a esse mestre, postou para os Valami Lesz (legendário lista de discussão virtual),o poema “Funeral Blues”, de W. H. Auden. O Pira é Henrique d’Arce, que é de Piracicaba, então está explicado. Estudamos juntos no Largo São Francisco. Hoje, ele mora em Londres e dá aulas de inglês. Nos encontramos em dezembro do ano passado. Tomamos umas “pints”, enquanto eu engraxava botas, num pub barulhento e sujo em Cavendish Square.

Naquela noite, outro taxi nos levou ao Soho. Chovia uma triste chuva de resignação. Dali partimos para um breve passeio pelas memórias de uma Londres fin-de-siècle, feita de Bar Itália e Neal’s Yard; High Holborn e Sarastro, cujo dono sempre me recebia com uma taça de champagne e uma conversa absurda, porque eu não entendia coisa alguma do seu cockney com sotaque cipriota. Fiquei sabendo então que o dono morrera no ano anterior.

No poema de Auden, o autor dispensa as estrelas, manda apagar o céu, embrulhar a lua e desmantelar o sol, porque seu amor morreu. Pira e eu temos, como tanta gente, esse amor por Salinger. Lá entre os Valamis, Pira, que fez aniversário ontem, veio com Funeral Blues para Salinger, mas também para si mesmo, que ele perdeu o pai recentemente. Juntei meu balde despejado ao dele, e postei na lista a tradução que fiz desse mesmo poema. Tradução que li na Matriz de São Vicente, em 1997, como fecho da elegia a Jonas Rodrigues.

Blues de Funeral

Esquece as horas, corta o telefone.

Cala co’um osso o cão e sua fome.

Silêncio ao piano: co’um surdo tambor,

Traz o féretro, deixa entrar a dor.

Sobre as cabeças, aviões gemam sem porto,

Anunciando lá de cima: Ele está morto.

Põe um laço de crepe nas alvas pombas da praça

E note o guarda com luvas negras, aquele que passa.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Meus dias úteis e meu domingo em festa,

Meu meio-dia e a meia-noite, minha prosa e canção;

Pensei que esse amor fosse para sempre; mas, não.

Estrelas não é mais preciso: apaga o céu.

Embrulha a lua e desmantela o sol;

Esvazia o oceano, derruba a mata;

Pois tudo agora não vale mais nada”.

Caio Leonardo, filho de Jonas, leitor de Jerry

29 de janeiro de 2010

BLANCHE, COM DOIS TÊS

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Woody Allen criou um trança-pé extraordinário com seu Blue Jasmine, filme que bebe largamente em Tennessee Williams.

Eli Nunes, esse grande barman de Brasília, para minha sorte compunha o ambiente de uma longa tarde de boa e solitária mesa em que eu lia Williams para decifrar Allen. Pedi a ele que  preparasse sua versão de Blue Moon, e ela veio com Jack Daniel’s, suco de limão, goma de açúcar e Curaçao Blue ou soda limonada, acompanhados de um cubo de abacaxi e outras citricidades. Enquanto ele preparava o drink, pesquisei pelo celular a receita clássica, que merece um poema:

Blue Moon: Malibu,

suco de Abacaxi,

Curaçao Blue  – (on top),

um splash de Grenadine,

um triângulo de abacaxi

e cerejas, para decorar. 

Blue Moon é um drink para dias quentes. A receita clássica é refrescante – e leve . O que não deixa de ser intrigante, porque, na cena de abertura de A Streetcar Named Desire (em português, ora Um Bonde Chamado Desejo, ora Uma Rua Chamada Pecado), Tennessee Williams faz uma “mulher negra” aconselhar um “marinheiro” de passagem a não aceitar o Blue Moon do boteco da esquina, o Four Deuces, porque quem o bebia não voltava para casa sobre os dois pés.

De Eli a Elia. Concluo que devia haver uma versão bem forte desse coquetel na calorenta New Orleans de meados dos anos 1940, época e lugar em que Tennessee Williams situa Um Bonde Chamado Desejo. A primeira montagem de peça para o teatro foi dirigida em 1947 por Elia Kazan. Jessica Tandy como Blanche Dubois e Marlon Brando como Stanley Kowalsky. Jessica, que ressurgiria décadas depois em Titanic, tinha então 36 anos. Brando, 24. Em 1949, no West End de Londres, Vivien Leigh, dirigida por seu marido, Laurence Olivier, faria o papel de Blanche. Quando, em 1951, Elia Kazan levou o texto para o cinema, trouxe consigo Leigh e Brando, e assim os três juntos fizeram história na dramaturgia.

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Kazan introduziu nas duas versões, tanto a do Teatro, como a do cinema, o naturalismo de Stanislavsky na composição de papéis à primeira vista melodramáticos. Melodrama e naturalismo são opostos, mas Kazan encontrou o tom e a maneira de conferir naturalidade àqueles personagens que se tornaram dois ícones da dramaturgia norte-americana: Blanche Dubois, a Southern belle vitimada por uma tragédia amorosa, destituída de tudo da sua juventude de bem-nascida, entregue a autoilusões, devastada por crises nervosas e pelo álcool, que se refugia na casa da irmã mais nova, tentando conter seu caminho em direção à loucura; e Stanley Kowalski, o antagonista de Blanche, que fará de tudo para proteger dela seu pequeno mundo regado a pôquer, boliche, cerveja, amigos e um amor irascível, desregrado, violento e ciclotímico por sua esposa Stella, irmã de Blanche.

Em 2009, Cate Blanchett foi Blanche Dubois no teatro. E imagino que o deva ter feito com tamanha força, que Woody Allen decidiu reinventar Blanche para que só Blanchett brilhasse, sem um contraponto forte como o do Kowalski de Tennessee Williams. Verdade ou não, foi assim ou de outra forma que, em 2013, surgiu Blue Jasmine.

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Em sua recriação, Allen estabelece claramente para Jasmine o mesmo conflito interior de Blanche: a mulher sofisticada e arruinada que, em fuga do seu passado e da sua loucura, se confronta com o ambiente rasteiro onde vive a irmã com seu marido grosseirão.

Mas Allen faz outras transposições bem mais sutis.

Blue Moon deixa de ser um drink a ser evitado e passa a ser a música que não sai da cabeça de Jasmine, trauma relacionado à perda do marido e, com ele, a do mundo glamoroso a que antes pertencia em Nova York. Na peça de Tennessee Williams, Blanche também é assombrada por uma música que a remete à cena que pôs fim a seus anos dourados em Laurel, sua cidade. A música de Blanche é Varsouviana, ao som da qual ela dançara com seu marido numa festa, momentos antes de ele tirar a própria vida com um tiro ao saber que ela descobrira que ele era gay. A Motion Picture Association não permitiu essa referência a homossexualismo na versão cinematográfica de 1951.

A peça de Williams é toda permeada de jazz, assim também o filme de Woody Allen. Na peça, Blanche, que tentara delirantemente enganar a todos em volta, canta imersa na banheira pedaços de Paper Moon, cuja letra diz “não seria faz-de-conta, se Você acreditasse em mim”. Allen usa a canção Blue Moon para o mesmo efeito. O que era líquido em Williams torna-se lírico em Allen.

“Jasmine”  também aparece no texto original em inglês da peça. Ao ser perguntada por Stella como Stanley havia se comportado na primeira conversa a sós com Blanche, esta responde que ele não é do tipo que cai por perfume de jasmim (“He’s not just the sort that goes for jasmine perfume!”).

Blue… Allen brinca com o sentido de “triste” que essa palavra tem. Na peça, Williams fecha quase todas as cenas dando indicação de que um “blue piano” vem da rua e toma o ambiente (esse efeito de música e sons vindos da rua perpassa toda a peça, mas o “blue piano” é o elemento recorrente). Blue piano. Blue jazz. Blue Jasmine: um triste perfume, o que resta de uma mulher.

Allen também recria a cena em que Williams retrata Blanche conhecendo um homem, Mitch, que ela imagina que possa ser seu salvador – alguém que vá levá-la de volta ao topo. Allen faz dois jogos interessantes. O Mitch de Williams torna-se Dwight em Allen: dois nomes cheios de consoantes e apenas uma – e a mesma – vogal. O sobrenome de Jasmine é French (francês), enquanto o de Blanche é francês (Dubois). Jasmine e Blanche dão muita importância a essa relação com a França e ambas mentem ao se apresentarem, o que as levará, ambas, à ruína total.

Allen só tem interesse em Blanche. Ele não recria Kowalski: divide-o em dois personagens e com isso reduz à metade seu impacto. Kowalski é dividido em Augie e Chili.

Augie é o ex-marido de Ginger. Ginger é a irmã de Jasmine. Augie perdeu a bolada que ganhara na loteria ao investir com Hal, o criminoso de colarinho branco novaiorquino com quem Jasmine era casada.

Chili é o garotão que namora Ginger.

Augie e Chili são apenas uma caricatura do seu arquétipo, Kowalski.

Na peça de Williams, Kowalski, a certa altura, assume ser ninguém mas declara-se “rei de sua casa”, “como todo homem”, numa defesa contra o desprezo que Blanche demonstra ter por ele. No filme de Allen, o grande projeto de Chili é bem diferente e emasculado: a casa em jogo não é dele, ele quer morar na casa de Ginger, mas a chegada de Jasmine põe tudo em risco.

Já Augie só quer saber de remoer a perda da bolada.

Ginger, a irmã de Jasmine, não é, de modo algum, a subserviente Stella. Ginger e Stella, dois nomes de bebida… Stella, irmã de Blanche, aceita tudo de Kowalski; mas Ginger trai Chili, que volta para ela submisso mesmo depois de traído, atitude que seria impensável para Kowalski.

Em Williams, há uma enorme tensão sexual entre Blanche e Kowalski, que atinge o clímax na cena antológica que se resolve num estupro velado. Em Allen, Chili nem sequer merece maior atenção de Jasmine, cujo foco é encontrar sua salvação noutro homem, um bem de vida – como Dwight. Aqui, Allen faz a trama perder em tensão dramática entre personagens para aumentar a profundidade da tragédia de uma personagem apenas, Jasmine, e com isso centrar tudo na performance de Cate Blanchett.

Allen transpõe a estória da Costa Leste para a Oeste; de Nova Orleans para São Francisco. De uma cidade moralmente decadente em 1940 para uma cidade financeiramente arruinada pela crise econômica mundial de 2008. De Leste a Oeste, em Williams e em Allen, os “residentes” estão acomodados às suas circunstâncias. São as “forasteiras” Blanche e Jasmine que buscam, na sua loucura gerada pela queda da “alta sociedade”, instilar o desconforto a quem está à sua volta e impor a todos seu modo de vida perdido. As duas, sem sucesso.

Imagem

Williams criou um papel feminino fortíssimo, emblemático, arquetípico, ainda num mundo dominado por valores e personagens masculinos. Allen transpõe esse papel para um mundo em que a mulher é posta no centro de toda e qualquer narrativa. Quando surgiu no papel de Kowalski, Brando, ao estabelecer a então nova abordagem metodológica na composição da personagem, instado por Elia Kazan, causou uma convulsão estética na Broadway do pós-guerra. Na versão de Allen, cabe ao homem o papel de boçal, cumprido por um perfeitamente esquecível Bobby Cannavale.

Cate Blanchett, “the outstanding actress of our day” (epíteto atribuído a Vivien Leigh), impõe uma assustadora carga expressiva a Jasmine, uma atuação que vai marcar sua carreira como um ponto alto difícil de ser superado – por ela e por toda outra atriz viva. Blanchett é Blanche, superlattivamente.

Allen, no entanto, talvez maravilhado – quem não? – com sua estrela, perde o controle da direção em algumas cenas. Em especial, a da chegada de Jasmine de volta à casa de Ginger depois de ser abandonada por Dwight. Seu desenrolar é artificial, não se sustenta como Ginger e Chili não reagem à loucura de Jasmine, embora tenham todos os elementos diante de si para perceber que algo está muito errado com ela.

Williams dá a Blanche o destino que era dado aos loucos em 1947: a internação. Allen dá a Jasmine o fim que Foucault legou aos loucos: a praça.

Imagem

Blue Moon, a música que atormenta Jasmine, tem melodia de Rodgers e curiosamente recebeu três letras de Hart, para três diferentes projetos cinematográficos, nenhuma delas publicada, tudo antes de chegar à versão que hoje é um standard. Eric Clapton e Rod Stewart incluíram, nas suas interpretações, alguns versos que não constam das mais clássicas. Eles a encerram com: “Life was a bitter cup for the saddest of all men” (“A vida era um copo amargo para o mais triste de todos os homens”).  Blanche e Jasmine, the saddest of all women.

Caio Leonardo

Ave Palavra: Grogoló

caburé

“No Paranoá,

o grogoló da barragem

bole o caburé”

caio leonardo

_______

Grogoló é um hapax legomenon, ou seja, um termo que ocorreu (foi registrado) uma única vez – neste caso, não apenas uma única vez num determinado texto ou numa obra específica (o que bastaria para fazer dele igualmente um hapax), mas sim uma única vez em toda a história da língua portuguesa. Uma busca no Google não registra seu uso. Mas o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo atravessa “grogoló” entre “grito” e “grogue”, página 693. É ali que está dito que grogoló apareceu uma única vez em literatura romanceada (LR); e ainda oferece este contexto saboroso:

“O ermo como que alargado com o trilili dos grilos, com o sapear da saparia e o grogoló da enxurrada crescia na grota”. 

Grogoló é, claramente, uma onomatopeia. Substantivo masculino, significa “som produzido por água que corre aos borbotões”. Com o haikai acima, grogoló não muito gloriosamente deixa de ser um hapax, digamos, absoluto. Ainda não está a salvo do oblívio, porque deste não está o próprio ignorado autor deste blog. Porém, um passo torto adiante foi dado para que grogoló volte à vida.

Salve uma palavra do esquecimento. Use-a.

Caio Leonardo

imagem: http://blogdovitinhoguia.blogspot.com.br/ (visitem!)

Ourivesaria Papíria

.LaPalabra

Valéria Bico de Penna – há cinco minutos

“Perdeu-se uma

palavra

de boa linhagem

A casa não é mais a mesma sem o seu

latim.

Da última vez em que foi vista

passeava com um tipo,

que a deixou escapar numa voluta.

O tipo também desapareceu,

inofensivo,

como uma palavra tolerada pela gerência.

Palavra perdida,

que falta faz

a sua prosódia alongada e suave,

seu ditongo ascendente

que dava garbo e pose

a quem a domasse em público.

Como roçavam docemente

suas sibilantes

nos lábios de quem soubesse

trata-la com jeito.”

nahuatl

Marco Antonio Vieira – há duas semanas

“Alguém, por favor, adote

esta palavra abandonada.

Foi encontrada por acaso

na rua

sobre uma folha úmida de jornal.

Com ela,

o pincel de um ourives asteca

ornaria um pendente de amate,

mas está esquecida, envelhecida

sem cuidado,

quase letra morta.”

Elyezer Sturm und Drang – há 1 minuto (editado)

“Procura-se uma onomatopeia

para uma criança triste.

Pode ser velha,

se for um frufru.

Ou na linha do tiki-taka.

Não precisa ter saúde,

pode padecer de neologismo

(ser blafântica ou pistinoica).

Não importa de onde venha,

mas que venha logo,

em tempo de fazer

o próximo verão.”

Procurem

…….Perderam-se

…………….Adotem –

eu suplico não permitam que abandonem

palavras.

caio leonardo

Sorveteria Itanhaem, 15 de novembro, esquina com 11 de junho

[ilustrações:

(1) http://www.freewebs.com/movimientosextosol/nombresennahuatl.htm

(2) http://www.proel.org/index.php?pagina=alfabetos/nahuatl

Concerto ao Ar Livre

 

 

Eu gosto de trompete e a culpa é de Telemann. Acho que foi no salão nobre da São Francisco, pompa, academia e veludo, num dos concertos que a TV Cultura gravava ali, que topei com esse nome pela primeira vez. Achei divertido, meio tecnológico, meio heróico, coisa de ouvido de criança educado por Hannah Barbera e Marvel Comics. Telemann em vida foi mais famoso que seus amigos Bach e Haendel, o que não é pouca coisa. Quem conhece sua obra vai achar estranho eu gostar de trompete por causa dele, que compôs de tudo, e, no meio de tudo, alguma coisa para trompete. Mas foi essa alguma coisa que acabei achando na Musical Box. 

A Musical Box, que não existe mais, ficava na praça Villaboim, assim como eu. Eu sempre ficava lá nos fins de semana. A praça era um pedaço de Paris em São Paulo, uma Saint Germain des Prés tomado de judeus e descolados. A praça no centro era um pequeno jardim em que crianças e mães e babás brincavam e cuidavam, espalhadas pelos bancos que surgiam aqui e ali, nos caminhos sinuosos demarcados por canteiros de poucas flores em chão de terra batida. Árvores pequenas se equilibravam nos canteiros, um pouco intimidadas por aquela que tomava a cena, de tronco largo e que subia alta, com galhos que irradiavam por todo a praça lá embaixo, oferecendo sombra e lentidão a uma São Paulo que parava debaixo dela para respirar e dar bom dia ao vizinho da rua Rio de Janeiro ou Pernambuco. Essa árvore recobria a banca de revistas que ficava, e fica, em frente ao sinal de trânsito e a faixa de pedestres, que levava até mim, figura incrustada nalguma mesa do Caffè Romano, taça de vinho tinto esquecida sobre a mesa e quase sempre o cappelini ao molho branco que vinha com um toque um tanto snob de salmão e caviar. Vinho é ainda hoje um gosto por adquirir; mas permanece o hábito de sempre pedir o mesmo prato nos mesmos lugares. 

Devo à praça Villaboim parte da educação dos meus sentidos, aquela que depende de um contato com o andar de cima. Ali na Musical Box, uma “loja de discos” comum, não fosse a qualidade do que vendia, encontrei de tudo que me ensinou a ouvir o que já havia lido ser bom, mas não sabia por quê. Charlie Parker, Dinah Washington, mais óbvias; coisas escondidas que descobri ali mesmo, como Eleni Karaindrou e sua trilha para Ulysses’ Gaze, um bálsamo; coisas tétricas como Gorécki e seu lamento para o holocausto (mamo, nie placz…); coisas mundanas como Pet Shop Boys; líricas e momentosas como The Smiths – estou falando da década de 1990, eu sempre atrasado dez anos em tudo. The Smiths me ensinou a encontrar poesia no universo homossexual, passo que foi tão difícil para mim como encontrar poesia no som da língua espanhola. Educação dos sentidos e para o Outro.

O sentido do gosto foi apurado no Caffè Romano, que também não existe mais. Ali, aprendi, por exemplo, o gosto de cada licor, um por um trazidos a mim na garrafa, para ler o rótulo e aprender sobre ele, almoço após almoço. As garrafas vinham das prateleiras em vidro e espelhos e cores, tudo emoldurado de alguma forma que a coisa resplandecia em dourado, especialmente com a luz do meio da tarde iridescendo tudo que havia atrás do balcão, ele mesmo no entanto sóbrio e revestido de couro marrom escuro em capitonê.

Maraska, se querem saber. Maraska se tornou o meu preferido entre os licores. E quando veio a guerra dos Bálcãs, morri de medo que, entre tanta desgraça, Zadar tivesse sido destruída, e então Maraska nunca mais. Foi só em Brasília, quase uma década depois, que um casal de diplomatas, ela linda como aquela gente de Hrvatska nasce para ser, me presenteou com uma garrafa de Maraska, que portanto ainda existe, e está aqui do meu lado para provar, nos dois sentidos:

Original
MARASCHINO 
LIKER OD ORIGINALNOG DESTILATA VISJNE MARASKE

 

Na entressafra, fiquei com Drambuie, que aprendi a beber com gelo picado em vaso corto noutro café, em frente ao palácio real de Madrid em obras, enquanto a doce e sorridente Louise passeava por ali em volta, investigando maravilhas, 1997. 

Eu preferia a mesa que ficava ao lado da parede de vidro, de ponta a ponta da entrada do Caffè, de onde podia ver a vida passar, as jovens senhoras e seus cachorrinhos, as lições de elegância no gesto e no trato que aquela gente me deu. Sônia Gonçalves, a grande dama do mundo da moda, num certo domingo de sol, ela toda de branco trazendo flores do campo nos braços, Sônia sempre com flores, reclamava que estavam todos de preto num dia lindo como aquele. Era 16 de agosto de 1992, e o Brasil pedia o impeachment de Collor.

Não, não aprendi nada na praça Villaboim sobre vinhos. Isso foi com o Roberto Smeraldi, que também foi quem me ensinou o que é e me ofereceu bottarga, o que basta para eu dever eterna gratidão a ele, se não a devesse por tanto mais. A praça Villaboim me abriu os ouvidos e apurou meu gosto, corrigiu meus gestos e minhas roupas, baixou o tom da minha voz e me ensinou a olhar como quem sabe. Fernando Moraes, o escritor; Maurício Machado, o último dândi; um dia, Paulo Freire; um dia, Milton Santos; muitas vezes, Fernando Henrique Cardoso e Ruth; uma vez, Patrícia Pillar ainda solteira e sozinha na mesa ao lado; várias vezes, a torcida do Corínthians descendo em direção ao Pacaembu, ou de lá voltando; e quando eu corria até lá no meio da semana para o almoço, podia ver as estudantes da FAAP, que davam a sincera e precisa impressão de que aquela faculdade só admitia meninas, e meninas lindas, charmosas, bem vestidas e de tanto bom gosto, que nunca me davam bola. Que tipo de prova era um vestibular da FAAP?

Na praça eu lia Cortázar e a coisa toda saía de prumo, com aquele estranhamento que Julio conferia a tudo e a todos. Para lá eu seguia depois de achar alguma coisa nova na livraria Cultura, ou na Duas Cidades, que também não existe mais, porém ficava mais para o centro, na Bento de Freitas. Eu sempre com livros no colo na Villaboim, como sempre em todo lugar. Eduquei os olhos atulhados de esquerdismo, a doença blablablá do comunismo, para aprender a mesclar o olhar crítico a esse mundo outro da burguesia paulistana, sua sofisticação cosmopolita, seus mundos de sons, saberes, sabores. Quanto tateei por ali, em tantos sentidos…

Eu chegava sozinho, almoçava no Caffè, depois ia para o Nabuco, que, claro, não existe mais. Pegava uma mesa na calçada, e começava a festa. Não precisava marcar nada com ninguém. As pessoas simplesmente vinham e a mesa ia crescendo. Várias vezes passei mais de onze horas num mesmo dia ali na praça, as mesas sendo juntadas depois separadas, conforme o povo ia a vinha. Assim era que, às dezenas, pessoas cultas, divertidas e, a partir de algum momento, irremediavelmente borrachas enchiam de novas referências e novos prazeres meus ouvidos e olhos atentos ou embriagados, quando eu mesmo não oferecia meu tato e minha boca embriagados a alguma moça incauta, todo mundo sabe que São Paulo é um perigo.

Com o rumo que me dei, perdi a praça. Na Villaboim, eu hoje não existo mais. Em Brasília não tem praça, não tem charme, não tem elegância, não tem jovens senhoras passeando com seus cachorrinhos do lado de lá da porta de vidro. A falta que faz essa coisa “cidade”, que Brasília não tem. Olho agora pela janela, vejo o horizonte, os ciprestes, os pinheiros e os abetos que me separam do palácio da Alvorada e do lago Norte. Uma visão plácida, com este céu de tirar o fôlego com sua imensidão. Mas não vejo uma alma, a não ser aqueles dois na lancha pequena que passa agora. Deve ser o Claudinho.

 
 
caio leonardo
 
*texto publicado em 16 de maio de 2009, em 6loggers.com, projeto de escrevinhação coletivo hoje merecidamente extinto  por falta de leitores e de escritores

Simetrias existenciais

predio-torto-santos-g-20091031

Em Santos, o terreno é pantanoso, cede. Por essas e outras, muitos prédios erguidos na orla da praia na década de ’70 são famosamente inclinados. “Eles se cumprimentam”, vai dizer um caiçara. A cidade é cortada por canais feitos para drenar o terreno, numerados do Sul para o Norte da ilha. Na esquina da praia com o Canal 4, fica um desses prédios, enorme, na minha memória ainda amarelo, que correu o risco de desabar e precisou ter sua base, dizia uma lenda, congelada.

Mas minha memória é esquerda e põe no térreo dele um restaurante estiloso chamado Cibus, que na verdade ficava noutra avenida. Fui descobrir recentemente que “cibus” é “comida” em latim. Ou seja, o lugar chic de Santos chamava-se “Restaurante Comida” – algo como um edifício chamar-se “Prédio”, o que Santos não demora a oferecer. Na avenida Ana Costa fica o Edifício Palazzo. Palazzo em italiano…

No térreo de verdade daquele edifício no Canal 4, ainda funciona um bar que é assumidamente uma espelunca, outra palavra latina, que significa “caverna”. Santos tem o seu Cavern Club. Passei ali noites inesquecíveis, outras de que não me lembro, algumas que é melhor nem lembrar. Ali, vi e ouvi tocar várias gerações de roqueiros locais, liderados por essa força da natureza que é Julinho Bittencourt. A turma do Charlie Brown tocava lá. Pelado, o baterista, sempre aparecia. Meu irmão,Allex Bessa, também tocou seu teclado naquele palco apertado. Nome do lugar? “Bar do Torto”. Eis aí um nome perfeito.

——-

Este foi um fim de semana pantanoso para mim, aqui em brasília. Passei todo ele com dores fortes no ombro e no pescoço. Para consertar, tentei congelar a base da dor com um emplastro. Adiantou pouco. Não conseguiria cumprimentar ninguém. Fiquei dois dias na minha caverna, sem sair do prédio, meio que pelado, e tudo que fiz foi comida (em latinha) e, entre um canal e outro, ouvir a entrevista a Elvis Costello do roqueiro Lou Reed, aquele bardo torto.

Santos não sai de mim.