D. hominis

A mosca varejeira entrou pela biblioteca – 

mais um parágrafo

                                e a angústia acabava.

A mosca varejeira descobriu minha presença –

o parágrafo ficou mais distante.

A mosca varejeira decidiu pelo meu cabelo –

a angústia se esgotou em raiva.

A mosca varejeira faz um barulho danado,

não demorou e já era o bicho nocivo da casa velha, lá em São Vicente.

Inimiga antiga.

A mosca varejeira que fazia um barulho danado levou um voleio da edição de bolso das Selected Short Stories de Guy de Maupassant.

E aquele parágrafo morreu ali, abatido pela dúvida insondável:

O que ela queria?

Talvez, que eu lhe abrisse a janela

ou lhe desse atenção – sua vida são sete dias

sem companhia; eu, que passei

tantas vezes sete dias sem companhia,

não me importo. Mas e ela?

Uma vida adulta que começou pela cópula

e se estendeu pelo nada. A dela. Ou a minha?

Sua vida foi voar, zumbir,

pertubar um sujeito angustiado, quieto no seu canto e que procurava palavras.

Nunca uma banana. Nunca o gosto ainda fresco de iogurte grego na lâmina de alumínio.

A mosca varejeira agora é aquela angústia que saiu do parágrafo e foi impressa,

como mancha,

na topo da capa amarela, debaixo do pé do pinguim.

……….

Caio Leonardo

Dodecaedro Dodecafônico

Fale de mim, Tempo.

Conte de mim.

Não que eu queira ouvir as histórias que sei

ou as que esqueci.

Conte o que fez de mim

enquanto descobria Raymond Carver;

o que esculpiu na minha carne

enquanto eu preparava a infindável refeição.

Sussurre o que não percebi que acontecia

em volta:

fale da minha ingenuidade obcecante.

Estou contente com o que sou,

apenas que ouvir outras vozes do Tempo

faz do homem um dodecaedro,

a vida vista e vivida por doze faces

que ouvem doze vozes dodecafônicas.

Diga, Tempo, o que tiver a dizer,

que a chuva está passando

e com ela vai a melancolia.

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caio leonardo 1° de maio de 2019

Sobriedade e Poder

Kublai Khan dominou o mundo e a China, que era maior que o mundo; levou conhecimento, cultura e riqueza de extremo a extremo da Rota da Seda, com mão pesada sobre os governantes e as cortes que não se resignavam à sua ordem, mas com tolerância à cultura, aos costumes e às religiões de cada povo submetido ao Império Mongol. A China não seria a China e a Europa não seria a Europa sem o legado do seu império.*

Kublai Khan bebia muito.

……….

Winston Churchill conduziu uma ilha acuada diante do exército mais poderoso da Europa. Foi maior líder político conservador do século 20.

Winston Churchill bebia famosamente.

………

“Dom Pedro II falava alemão, italiano, espanhol, francês, latim, hebraico e tupi-guarani. Lia grego, árabe, sânscrito e provençal. Fez traduções do grego, do hebraico, do árabe, do francês, do alemão, do italiano e do inglês.”** Sob sua coroa, o Brasil cresceu 4,81% ao ano em média.

Dom Pedro II era um grande bebedor de cachaça.

……….

Lula bebia cachaça, e fez o Brasil crescer 4% ao ano em média, de 2003 a 2010.

…………

O atual ocupante do primeiro cargo da República toma fanta laranja e é o maior erro que o Brasil cometeu em toda a sua história.

Não há, nem haverá, coisa alguma que o faça deixar de ser, por um segundo, em toda a sua vida, com a consistência de sempre, uma pessoa tão cheia de ressentimento, com nenhum entendimento sobre o presente, sem qualquer lampejo de ideia sobre para onde conduzir afirmativamente o Brasil, no que lhe cabe, para um futuro.

Nem que bebesse.

___________________

*Leitura iluminadora: Gengis Khan and The Making of the Modern World, de Jack Weatherford

**Furtei daqui: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2012v2n30p101

Oração

Laura dormia a esta hora

depois de mamar em Carolina Augusta –

a mais bela cachopa de Rio Frio,

mocinha órfã de Trás-Os-Montes,

a mais nova mãe de Vila Ventura,

destino d’além-mar de uma alma forte,

mas não aventureira -,

tudo sob o olhar curioso e ciumento de Maria,

primogênita

a quem aquela criança chamaria de Taminha

pelos tempos dos tempos.

No alpendre, Antonio,

do sorriso maroto

e do cenho fechado,

guardava as galinhas e os ovos –

os olhos sobre a fronteira da estrada para Uchoa,

lama aberta no descampado,

a eternidade da pequenidão

daquela vila de terra vermelha,

noventa e dois anos atrás.

……….

caio leonardo, no abril de 2019,

filho de Laura, neto de Carolina Augusta,

sobrinho de Maria, que Maria nunca foi –

ou era Carminha ou era Taminha -,

neto de Antonio

A Vida Secreta da Morte

Ele não come carne.

Ela não come peixe.

Eles se dão flores?

Ele não come ovos.

Ela não come foie-gras.

Eles se dão flores?

Um bouquet de rosas

é um filet à chateubriand

Um bouquet de flores do campo

é uma terrine de foie-gras

Um bouquet de copos-de-leite

são copos de leite

Um bouquet de girassóis

são ovos pochés:

Todos são iguais na morte a serviço do homem.

O boi morre pelos rapazes e as meninas do futebol.

As rosas morrem pela aniversariante entediada.

O ganso morre pelo senhor desembargador.

As flores do campo morrem pela menina com apendicite.

Os ovos morrem pelo bolo da noiva.

Os copos-de-leite morrem para encenar a pureza que não está na noiva.

Vida alimenta-se de vida.

Tudo o mais é disfarce.

Menos o bouquet de flores.

O bouquet de flores é um assassínio indecoroso.

As Línguas como Vontade e Representação

Dois amigos meus inventaram línguas, Gavin Adams e Guian de Bastos. A língua dos Adams era (ainda será?) falada entre ele e sua irmã, as raízes no gaélico, no inglês e no irlandês, coisas das Ilhas de onde sua família viera. Sei que Abergavenny existe por causa dele. Decorei e consigo pronunciar Llanfairpwllgrwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch por uma nunca longínqua influência dele.
 
Já o Guian inventou a língua de Vaspara, a história de Vaspara, a geografia de Vaspara e até o jornal local, que certo dia, nos primeiros anos dos 1900, publicou uma pequena nota sobre um concurso de balonismo ocorrido na capital, tudo muito colorido, sereno e aventureiro, não fosse a delegação do Brasil e suas impertinências. A Faculdade de Letras da USP, se for mesmo uma academia com alguma dignidade, guarda o notável estudo sobre a gramática da língua de Vaspara, que inclui a tradução desse artigo, tradução e estudo elaborados na penúltima década dos mesmos 1900, pela hoje doutora Claudia Santana Martins.
 
Gavin mora de mim quase à mesma distância que há entre o País de Gales e Vaspara. Guian mais perto. Mais perto do País de Gales, em Amsterdam. E Vaspara inteira mora dentro dele. Já Claudinha mora na São Paulo do Gavin, e eu morro de saudades de tudo e todos.
 
Hoje, recebi os “podcasts da semana” da New Yorker. Um deles é uma entrevista com David Peterson, o cabra endiabrado que criou não uma, porém DUAS línguas para Game of Thrones: Valyrian e Dothraki. Tenho certeza de que meus amigos vão se deliciar com isso. Todos os meus amigos. Inclusive o Ser Leo, que, pelo que me lembro, e me lembro de nada na vida, despreza o seriado: nos dias de hoje, não dobrar os joelhos perante a Khaleesi é o mesmo que uma mãe não ir ver o filho desfilar no 7 de Setembro.
 

TRÊS ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE DE ARTHUR

Uma única vez, estive no escritório do prof. Fabio Konder Comparato, de quem tinha sido aluno. O assunto não era acadêmico – ele nunca teria tido motivo para me receber por algo do gênero. Estava lá, com gente grande, para pedir-lhe um parecer.

A uma certa altura, uma personagem foi citada, não me lembro qual, e ele então comentou, não com a gravidade que o define, mas com uma expressão entre tristeza e pânico:

__ Com ele aconteceu o que não desejaria para o meu pior inimigo: Ele perdeu o filho.

Década de ‘90. Foi nesta cena que comecei a me dar conta da dor dos meus próprios pais com o que aconteceu a mim mesmo, aos 22 anos.

___________

Drummond perdeu a filha, Julieta, a pessoa que mais amou em sua vida. Morreu uma semana depois, de tristeza.

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Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

Chico Buarque

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O Verão de Empédocles

the-four-elements-1472-grangerNão se completou uma lua sequer. Em 25 de janeiro, ela minguava pelo quarto dia, e a terra varreu Brumadinho. A lua então veio de ser nova, ainda nem era crescente, quando desceu a água e subiu o fogo sobre o Rio de Janeiro. Amanhã, a lua alcançará o quarto crescente, mas, antes disso, hoje a tragédia caiu do ar, em São Paulo. Fecha-se um ciclo trágico dos quatro elementos imutáveis da natureza: a terra, a água, o fogo e o ar.

Empédocles (490-430aC) é que concebeu a natureza assim, e ele entendia que esses quatro elementos não se moviam por si, mas pela oposição de duas forças: Amor e Ódio. O equilíbrio entre elas é que permite que a vida siga em harmonia, e isto vale também para a vida em sociedade.

Há Ódio demais circulando por este país. Mais Amor, por favor. A lunação atual só se fecha daqui a oito dias. Mais amor, por favor. Se não for por filosofia, ame por superstição. Mais amor, por favor.

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Ilustração: Toalha de praia

Breve e Necessário Passeio pelos Parques da Cidade

Ter apenas um assunto,

e esse assunto ser variações

em agressões a uma pessoa,

revela uma vida triste e encerrada,

consumida pelas próprias frustrações transferidas na forma de ódio àquele objeto – àquele ser humano tornado objeto

pelo ressentimento e

pelo vazio existencial

a que se resume o que sobra de vida

àquele que tem apenas um assunto.

Liberte-se da dor de ser quem você se tornou.

Não peço que mude de ideia,

mas que mude de assunto.

Abra outras caixinhas do universo.

Descubra o padre que descobriu o Tibet

(sim, isso aconteceu),

megulhe

em mapas de lugares imaginários,

passeie

pelo Pantanal de Manoel de Barros,

cavalgue com o verdadeiro Genghis Khan,

o autor da modernidade,

penetre

na leveza sublime dos versos de Rumi,

mergulhe

no sono, ouvindo Roberta Flack –

“The First Time Ever I Saw Your Face”,

corra

9Km num parque que não conhece

e repare nas árvores.

Leia A Vida Secreta das Árvores,

e A Vida Íntima dos Animais.

Traga

para casa frutas e legumes

que nunca provou.

Entre

no zoológico na volta do almoço,

e avise

seus sócios de que vai se atrasar:

__ Estou em reunião com um unicórnio chinês. Ainda é segredo.

E, então, estenda o braço e sorria

para a Girafa:

Ela perdeu o parceiro ano passado.

caio leonardo, 11 de fevereiro de

2019

Para que vivemos juntos?

É preciso ser absolutamente moderno, disse Rimbaud. Ninguém é moderno todo o tempo, respondeu Adorno, décadas depois. Os processos, os rumos, os encaminhamentos é que indicam se alguém, um grupo, uma sociedade, um governo, uma geração, um século, uma Era – se conduz com reflexão sobre para onde vai, vão, vamos, estão indo.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos que se veem hoje são conduzidos por certezas demais, certezas que haviam sido abandonadas pela reflexão.

A reflexão, ao que parece, foi ela mesma abandonada para dar lugar a certezas. Estamos abandonando a modernidade – cuja natureza é reflexiva, para Giddens.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos preponderantes na nossa atualidade movem-se pela noção de que tudo estava errado no caminho que vinha sendo trilhado para mudar o que estava errado.

As certezas atuais que decorrem dessa noção vêm sendo tais que reforçam exatamente tudo o que gerou e alimentava aquilo que estava errado.

São certezas que alimentam a violência; são certezas que aumentam a desigualdade, são certezas que, no entanto, trazem algo de novo e que nos leva para um caminho que nunca antes traçamos: As certezas preponderantes de 2019 constróem uma sociedade não apenas desigual, porque isso sempre foi, mas, sim, uma sociedade abertamente, convencidamente, orgulhosamente, franca, sarcástica, mordaz e apaixonadamente cruel.

Ou fazemos uma reflexão sobre essa crueldade – não para justificá-la, porque certezas não pedem justificativa, mas sim para superá-la -, ou a razão de vivermos como sociedade, como nação, estará perdida.

O Evangelho Segundo Don Teodoro

Todo parece tan natural, como siempre que no se sabe la verdad.
Júlio Cortázar, “Carta a una Señorita en Paris”

Em Buenos Aires, bebe-se Pepsi – agora entendo que, de quando em quando, aconteça de um rapaz vomitar coelhinhos num elevador da calle Suipacha. A cerveja Quilmes caiu em merecida desgraça, mas ainda pode ser vista pela noite de Palermo Soho em roupa de marca, um modelo deselegante em vermelho e dourado, onde se lê um desesperado Imperial. Nessas ocasiões, se for outono, é possível que a lua apareça de madrugada e nesse momento um rapaz de barba universitária tropeçará na longa cauda da noite ao atravessar a rua, e esbarrará na mesa da esquina oposta. Ele quer a todo custo que acendam seu cigarro. Seja gentil.

Não ficou claro quando Fernet Branca subiu para as mesas da Recoleta, mas o fato é que hoje está por todo lado, e todos a bebem, menos a classe alta, observou Pablo para depois conceder que também os jovens da classe alta bebem Fernet Branca, porém com Coca-Cola – não Pepsi. Não me pergunte por quê, eu estava intrigado com a camisa 8 de não sei qual volante obscuro do Estrela Vermelha que emoldurava uma Patrícia ainda de cabelos longos, recostada na mesa redonda de canto do La Brigada e ouvindo o rosto adolescente e tímido da filha do Pablo a defender ferozmente os Kirschner.

Os destinos da Quilmes e da Fernet, a subversão das relações de poder entre Coca e Pepsi, esses detalhes que denunciam a lealdade dos portenhos aos mundos estranhos de Borges e Bioy-Casares, tudo talvez estivesse nos preparando, a mim e à Patrícia, para o surgimento de Don Teodoro, 80 anos, taxista, último sorriso registrado provavelmente em 1978. Foi com Don Teodoro que descobrimos que o Tigre é o programa mais lindo para um domingo de sol, e não San Telmo. “Se soubesse que iam a San Telmo, não os teria deixado entrar”.

Don Teodoro é aquele para quem toda a imprensa está vendida a Cristina. Para quem o Malba, uma coleção *privada* (dito entre os dentes), é nada comparado ao Museu de Arte de Buenos Aires. Para quem a coisa certa a se fazer é contratar um motorista que saiba das coisas por 600 pesos, e rodar a cidade com ele por cinco horas, ou talvez não cinco horas, mas nunca tomem esse ônibus de dois andares, neles não se vê nada e só se vai a lugares estúpidos.

Don Teodoro, rugas de pedra e voz de V8, alma curtida de polêmica y calles, é quem afirma, em plena avenida Libertador e sem tomar fôlego:

“Pelé es mayor que Maradona. Os vi jugar a los dos y Pelé es un señor. Lo hizo todo, y es un señor. Maradona? Maradona tiene veinte hijos.”

Uma Terrena Comédia

Toda alma que cala e é covarde,

bem aquém do Aqueronte, como arde!

no primeiro dos círculos do inferno.

O braseiro – que brida quem tiver no

seu poder o dizer que chega o inverno –

ele queima a quem dói saber que ouviu –

por ouvir, mas fingir que não ouviu –

o gemido tão tétrico e sutil

de uma voz que se engasga ao perguntar:

o que queres do mundo, meu Brasil?

O Futuro é Aqui

“O Futuro Chegou”, de Domenico de Masi, termina com um capítulo sobre o Brasil, país que ele dá como exemplo, para o MUNDO, de sociedade do futuro, por ser tolerante e solidária.

Vim abraçar vocês e dizer que o futuro não vai nos abandonar. O destino é feito de sorte e virtude, disse um filósofo. A sorte está lançada. A gente vai ter a virtude de fazer com que nosso destino seja o de manter alto o exemplo de sociedade em reconstrução pela solidariedade e o olhar atento para esse brasileiro e essa brasileira ao seu lado, ao longe, onde for, como for. Ninguém vai ser esquecido.

O Brasil não vai se tornar as Filipinas de um Rodrigo Duterte. Pesquisem sobre Rodrigo Duterte, antes que seja tarde. Antes de domingo.

Não vamos nos tornar um fracasso civilizacional depois de termos nos inventado tão lindamente.

Moro num país tropical. E aqui minha gente é alegre e amorosa, mesmo diante da sua história de adversidades.

Ser patriota, no Brasil, tenho certeza de que você se lembra: é ser samba e batucada, beijo na boca e imaginação, cultura do abraço e da mão estendida.

Ser patriota é viver Manuel de Barros, entender Guimarães Rosa (quem mais pode entendê-lo, senão um veraz brasileiro?).

O ser-tão brasileiro é o amor por Diadorim; não o diabo no meio da rua, no redemunho.

Ser brasileiro é chorar diante da miséria da mãe brasileira; é se alegrar com a chegada do amigo; é saber – e como já cansou repetir isto : é saber o que é saudade. É ficar orgulhoso de ver que a menina da periferia foi para Harvard e agora é deputada federal. A mais bela notícia destas eleições.

O nome destas eleições é Tábata Amaral. A novidade é ela. A redenção é ela. Ela é o sinal do futuro. Ela, não ele. Ele, não.

O Brasil é brasileiro hoje e sempre. Este fim de semana, a brasileira vai sorrir docemente para o brasileiro, o ilustre passageiro verá o belo tipo faceiro que ele tem ao seu lado. E não vai acreditar que ele quase morreu de bronquite.

Este domingo é pra gente encher a cara de Rhum Creosotado, num reencontro curativo depois destes anos e dias de sentimento tão pouco nosso.

Porque nós vamos voltar a nos olhar com carinho e divertidamente este fim de semana.

Você e eu vamos ser o brasileiro e a brasileira que a Constituição descreve no seu artigo 3°: esta gente que existe como república para construir uma sociedade livre, justa e solidária.

Solidária. Livre, justa e solidária.

Livre.

Justa.

E solidária

Amorosa. Gregária. A sociedade do tamo junto. Uma sociedade alegre como não há outra no mundo.

Nós nos viramos – um pelo outro. Não viro as costas a ninguém. É antipatriótico. Não é brasileiro. Não é coisa da gente.

Todas as cartas de amor são ridículas, esclareceu o poeta. Esta é uma ridícula carta de amor a você.

Que este domingo você vá me encontrar por entre automóveis, ruas e avenidas, milhões de buzinas tocando sem cessar.

Que você venha toda de branco, toda molhada e despenteada, que maravilha, que coisa linda que é o meu amor.

Domingo, a gente se beija.

ANOTAÇOES PARA O SETE DE OUTUBRO

“… as they sink,

Donward to darkness, on extended wings”

Wallace Stevens, Sunday Morning

Eleições põem pessoas no poder não para acertar contas com o passado, porque essa é a atribuição dos tribunais. Os tribunais têm trabalhado muito estes anos e vão continuar trabalhando para fazer a justiça pela qual todos gritamos.

Eleições servem para outra coisa: Dar rumo e direção para o futuro.

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Política é uma arte. Precisamos recuperar a dimensão de arte da política.

Uma decisão política é uma obra de arte quando todos entendem por que aquela é a melhor solução possível – e a aceitam como solução e como rumo para todos.

A arte da política é a de

    entender os problemas da sua gente e da sua terra
    estabelecer prioridades
    buscar soluções
    aproximar quem pensa diferente para afinar as soluções
    construir entendimentos
    fazer a solução encontrada ser eficiente e eficaz com o apoio de quem é afetado por ela
    acompanhar sua execução constantemente para (i) avaliar resultados e (ii) aperfeiçoar o modelo.

A política feita assim é a mais nobre arte. Precisamos aprendê-la e vivenciá-la.

Para que essa arte da política funcione é preciso que o cidadão (você, eu) acompanhe, compreenda, opine e interfira nas decisões tomadas por aqueles que seu voto elege.

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O melhor político é o que ouve e une de tal forma que não precisa usar sua autoridade.

O melhor político ouve antes de falar, e seu comando é uma ordem que veio de todos os que foram ouvidos

Quando todos são ouvidos e chegam ao consenso possível sobre determinado problema, o comando e a autoridade vêm de todos.

Política não é o exercício da autoridade.

Política não deve ser reduzida a comando e controle.

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A política é a arte de olhar para o futuro.

Vingança não é futuro. Vingança é um tormento do passado. O Brasil é um país atormentado pelo seu passado e incapaz de enxergar que há quem esteja lhe oferecendo um caminho para o futuro.

Futuro não se constrói com revanche nem com a entrega do poder a quem diz que vai resolver tudo à bala.

É um erro votar em quem pode fechar as portas ao diálogo e à colaboração na construção de respostas.

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O brasileiro precisa voltar a se ver como parte de um povo que se quer bem, que quer o bem do seu conterrâneo. O brasileiro precisa voltar a amar a sua terra e a sua gente.

O Brasil precisa de compaixão, que é saber sentir a dor do outro e querer o melhor para si e para o outro.

Cuidemos de celebrar e alimentar as delícias de ser brasileiro; e a de manter um olhar atento a quem está afastado das delícias de ser brasileiro.

Amanhã, vote em quem respeite a cultura da alegria que define o brasileiro; vote em quem se preparou e tem a oferecer uma visão de futuro para o País.

Uma Geração Perdida Assume o Comando

A geração que nasceu entre os anos 1960 e 1970 chegou ao poder. É a turma que está na casa entre os 40 e 60 anos. São os filhos da revolução sexual: a pílula anticoncepcional, que chegou ao mercado precisamente em 1960, abriu o caminho para o amor livre e o sexo antes do casamento, tornou velho o plano de nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer. As regras do relacionamento a dois foram sendo abandonadas. Não havia mais regras. Valia tudo.

Mas essa geração era criança nessa época. Alcançou a adolescência nos anos 1980. E foi nessa época que a liberdade sexual sofreu a contrarrevolução da AIDS. A liberdade sexual a partir de então era risco de morte, mas o casamento, as regras da vida a dois já não valiam mais. Namorar, casar era coisa muito antiga. Sem saber o que fazer, porque não havia um caminho predefinido como antigamente, tudo passava a exigir negociação. A busca do prazer pregada na década anterior começava a dar medo, e querer uma relação a dois dava mais medo ainda, porque a fórmula havia sido perdida, jogada fora.

No meio dos anos 1990, veio a revolução tecnológica. Com a internet, a rua entrou em casa. A casa deixou de ser “o asilo inviolável do indivíduo”, as salas de bate-papo derrubaram muros e as últimas convenções. Práticas sexuais antes secretas passaram a ser de conhecimento comum. As possibilidades de relacionamento sexual ganharam novos, perturbadores horizontes. Essa geração perdeu o rumo e as referências. Se a revolução sexual dos anos ´60 tinha sido um movimento social com um pensamento crítico a embasá-la, a revolução tecnológica abriu as portas da percepção sem qualquer reflexão. Informação demais, possibilidades demais, regra nenhuma. Diante da tela do computador estava um indivíduo que podia tudo e não compreendia nada do impacto desse poder sobre sua existência.

Essa geração foi educada no auge da ditadura e começou sua vida profissional nos anos da hiperinflação, quando era impossível planejar o dia seguinte. Viveu a transição do fim da Guerra Fria e a velocidade, o impacto, a intensidade e a extensão das novas relações comerciais, políticas e sociais sob o signo da globalização. Assistiu a meros doze anos de crescimento neste século. Fez tudo ruir estrondosamente.

Anthony Giddens disse: “Somos a primeira geração após o fim da natureza.” Também a mais solitária e, no Brasil, a mais historicamente inconsequente. Segure-se, pois é ela, agora, quem manda.

Caio Leonardo

(Texto anteriormente publicado no jornal Bom Dia. Revisto e alterado)