Um Tom Nada Leblon, Nada Jobim

“Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague”

Chico Buarque

Há cada vez mais entusiastas entre os brasileiros. Entusiastas de nada de muito bom, já que de muito bom nada tem acontecido por aqui. Digo “entusiastas” pensando em Voltaire:

“Não há o que ganhar [ao discutir] com um entusiasta”.

voltaire

“Entusiasta” vem de termo grego que significa “tomado por uma divindade”. Basicamente, o entusiasta é um possuído.

A frase de Voltaire está nas suas Lèttres Anglaises, um comentário a respeito de seu contato com um quaker. “Quaker”, mal traduzindo, é algo como “aquele que se sacode”. Os quakers eram (e são) cristãos que, no que interessa aqui, não admitiam padres, pastores, qualquer autoridade religiosa ou política, nem qualquer ascendência social de alguém sobre seus membros, ou “amigos” – o nome oficial dos quakers é Sociedade Religiosa de Amigos, ou Igreja dos Amigos.

Numa reunião de quakers – seu culto – qualquer um dos presentes podia tomar a palavra. A palavra era de quem se sentisse imbuído da presença de deus – noutras palavras, quem estivesse possuído ou entusiasmado. E esse entusiasmo se manifestava por meio de espasmos não muito diferentes em natureza, mas definitivamente diferentes em ritmo, daqueles que o brasileiro reconhece na umbanda. Esses espasmos é que deram a eles o apelido de “quakers”, os que sacodem.

Eram quakers os puritanos que fugiram da perseguição religiosa na Inglaterra e chegaram à América no Mayflower. Os quakers, por não reconhecerem qualquer autoridade, tratavam a todos como iguais – não porque se importassem com desigualdade e sim porque, na atitude de não tirar o chapéu diante de alguém de família nobre, e esse era o caso de Voltaire, estariam afirmando a autoridade única de deus. Claro que essa turma não era bem-vinda na monarquia inglesa de privilégios e rapapés.

Para os quakers todos eram iguais, porque não reconheciam ninguém acima deles. Abaixo era outra história. E foi esse senso peculiar de igualdade que os fez selar, dali para o futuro, o destino dos índios norteamericanos.

Pois o Brasil anda tomado de quakers. Mas um tipo tropicalizado de quaker. Pessoas entusiasmadas com suas crenças políticas. Uma Sociedade de Amigos que, quando um deles fica possuído, passa a tratar de Política. Amigos entre eles lá, que, como o quaker de Voltaire, não respeitam ninguém quando querem impor suas ideias prontas a quem não seja da sua turma – no caso brasileiro, a quem não tenha comprado as mesmas ideias na banca de revistas. Os daqui, adotam como credo não só as ideias que compram, mas também o tom de quem as escreve e publica, um tom belicoso, um tom de confrontação, um tom histérico, um tom grosseiro, um tom assim, nada Leblon, nada Jobim.

O exótico membro daquela Igreja dos Amigos que Voltaire encontrou em Londres comporta-se na essência como aqueles entusiastas com que Chico Buarque se deparou ontem em pleno Leblon: uma ação entre amigos que, já que estavam lá e já que estavam bêbados, então nada melhor a fazer do que tratar sem respeito a todos e impor suas frases – tão feitas como versículos da Bíblia – ao maior compositor da Música Popular Brasileira, a um ícone da liberdade contra a ditadura, a um homem sem o qual ser brasileiro seria ser muito menos.

Mas os exóticos quakers tropicais, como bons sacolejadores, não reconhecem valor a quem não seja dos seus, falam em espasmos e dentre eles toma a palavra aquele que estiver mais raivosamente possuído. Aos quakers da hora, que não têm cabeça para a política, apenas falam de “política” quando perdem a cabeça, a eles Chico Buarque respondeu com elegância e simpatia, sem no entanto fazer concessões.

A empáfia dos quakers brasileiros pode ser entendida se analisarmos o fundamento religioso dos quakers ingleses, que está em Pedro 2:9:

“Mas vós sois a geração eleita,
o sacerdócio real,
a nação santa,
um povo peculiar*,
para que anuncieis as virtudes
daquele que vos chamou das trevas
para a sua maravilhosa luz”

É de se supor que os quakers que foram pregar ontem no Leblon tenham saído dali alardeando entre si coisa não muito diferente dessa passagem de Pedro.  Em lugar de “geração eleita”, algo como “Nós somos foda”; em lugar de “sacerdócio real”, algo como “Quem manda nessa porra somos nós”; em lugar de “nação santa”, algo como “Eu sou brasileiro!” – como se o próprio Brasil não fosse Chico; e, por fim, em lugar de “povo peculiar”, algo como “Gente de bem”.

É fácil antecipar um ou dois nomes cujas trevas esses quakers confundam com uma maravilhosa luz, assim como é fácil antecipar até onde pode ir sua pregação.

Caio Leonardo

*”Peculiar” é como consta da King James’s Bible.

De Te Fabiola Narratur

Mutato nomine, de te fabula narratur – Horacio*

Recentemente, uma história acabou com muitas reputações: a da Saveiro como carro feito para aventuras, a da chave-de-boca como instrumento de vandalismo, a de concunhados como apenas o chato à mesa de Natal, a de maridos traídos como vítimas e a de amigos de maridos traídos como a voz da sensatez. Esposas adúlteras nunca tiveram boa reputação. Mas da cena que gerou esse strike reputacional, apenas um nome ficou marcado: o da mulher adúltera. E esse nome está hoje por toda parte.

A cena é a de um homem e uma mulher flagrados saindo de um motel pelo marido traído, acompanhado de um amigo dele, que tudo filma. A cena ganhou as redes sociais, e em toda  conversa, sobre o assunto que fosse, surgia uma referência à cena ou apenas ao nome daquela mulher.

O nome dela ganhou vida própria, tornou-se metonímia, metáfora, caiu no opróbio. O País ri com ele. A cada menção à cena ou ao nome, uma sentença, uma pedrada – na mulher adúltera. Havia um homem igualmente adúltero ali, seu nome, embora citado, não teve a mesma repercussão. Dele, fala-se apenas que está “acima do peso”, essa expressão que transforma uma medida física numa régua social.

Adultério é uma conduta reprovável, como toda conduta envolta em mentira e engano, mas deixou de ser crime no Brasil. No entanto, as pedradas vieram mesmo assim. E apenas sobre a mulher.

Christ_and_the_Woman_Taken_in_Adultery_Bruegel

Cristo e a Mulher Adúltera, Pieter Bruegel, o velho, 1565 – The Courtauld Gallery

___

O que a reação a esses fatos diz sobre o Brasil?

Todos sabemos que o Brasil vive, e sempre viveu, um Estado de Exceção, que não garante igual direito a todos. Também sabemos todos que há Estados paralelos aqui, que exercem o monopólio da violência em seus territórios, que se sobrepõem ao do Estado oficial – leis marciais que vigem nos submundos.

Porém, a reação aos fatos narrados aqui revelam o Estado paralelo que faz vigorar aqui uma certa jurisprudência temida da shari’a, o direito muçulmano, ou, para ficarmos em casa, o texto literal de Deuteronômio 22, do Velho Testamento.

O brasileiro médio, tão crítico e tão escandalizado com os horrores perpetrados “pelos muçulmanos”, revelou-se alegre e animadamente adepto do apedrejamento de mulheres adúlteras – uma pena não aplicada, aqui, ao homem que comete adultério. No Deuteronômio, pelo menos, a pena era para os dois…

Mas o Estado (oficial) brasileiro tem lá as suas leis. O que dizem as leis sobre esses tais fatos? Elas dizem que, sim, foram cometidos vários crimes.

Sem ordem de valor entre quais sejam mais graves, aparentemente foram cometidos, numa análise bem inicial, os seguintes crimes:

1) injúria;

2) difamação;

3) dano;

4) ameaça;

5) constrangimento ilegal;

6) lesão corporal.

Os colegas criminalistas certamente encontrarão mais. No campo civil, há outros ilícitos, do dano material ao moral.

Se adultério ainda fosse crime, estaria configurado o exercício arbitrário das próprias razões – esse, sim, um crime.

Não, não existe legítima defesa da honra. Não estamos no Rio de Janeiro de dezembro de 1976.

Mas ainda atiramos a primeira, a segunda, a milésima, a milionésima, a indecente e criminosa pedra.

Caio Leonardo

*Mudando o nome, a fábula narra a tua história

Um Mundo Flutua pelos Arredores da Avenida Paulista

utamaro_800600

Jovem Dama Soprando um Apito – Utamaro Kitagawa (1753 -1806 – Edo)

Os príncipes imperiais do Japão estão no Brasil, e trouxeram um presente suntuoso: Uma mostra de Ukiyo-e.

Ukiyo-e significa literalmente “imagens do mundo flutuante”, esse mundo flutuante sendo ora a fragilidade ritual da sensualidade do ambiente das gueixas, o hedonismo da era Edo; ora instantâneos da vida na cidade ou da relação do homem com a natureza.

Ukiyo-e toma forma por meio de gravuras cuja excelência técnica alcançou níveis de preciosidade, com grandes mestres desde o século XVII até o XIX. Pois esses grandes mestres estão aqui. Hokusai, Harunobu, Hiroshigue, Utamaro… A exposição é aberta com aquela que é a obra mais icônica da arte japonesa: A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai.

images

A Grande Onda de Kanagawa – Hokusai Katsushika (1760 – 1849 – Edo)

No seu tempo, muitas das gravuras do gênero serviram de posters e propaganda de espetáculos de teatro ou de bordéis, algo a que, na França do século XIX, Toulouse-Lautrec viria a se dedicar.

Hiroshige_Atake_sous_une_averse_soudaine

Chuva Repentina sobre a Ponte Shin-Ohashi e Atake, Hiroshige Utagawa (1797-1858 – Edo)

Toulouse-Lautrec é apenas um grande artista ocidental do século XIX cujo nome pode estar numa mesma frase em que o Japão seja citado. Peças vindas do Japão invadiram a Europa naquele século. Nas suas Cartas a Theo, Van Gogh reiteradamente refere-se à influência dessa arte japonesa sobre seu olhar e suas composições, ao ponto de transpor para óleo sobre tela algumas gravuras, como “Chuva Repentina sobre a Ponte Shin-Ohashi e Atake”, um Hiroshige que compõe as celebradas “Cem Vistas Célebres de Edo” (1858). Van Gogh colecionava ukiyo-e. Mais de uma centena de gravuras. À época, surgiram dois termos: “Japonaiserie”, para referir-se a itens vindos do Japão; e “Japonisme”, para designar a influência de temas japoneses sobre artistas da época, em especial os ligados ao Impressionismo.

vanGoghafterHiroghige

Ponte sob Chuva, après Hiroshige – Vincent van Gogh (1887, portanto 29 anos após a publicação das “Cem Vistas Célebres de Edo”)

A exposição oferece 30 gravuras. Dessas, uma dezena são novas impressões a partir das matrizes criadas por alguns dos maiores mestres dessa arte. Parece pouco. Mas ver um van Gogh ou um Monet basta para tirar o fôlego do observador. Pois essas gravuras tiraram o fôlego de van Gogh e de Monet.

O visitante verá também gravuras de artistas contemporâneos, tanto do Japão como do Brasil. Os brasileiros foram escolhidos anos atrás por Yutaka Toyota, em projeto conjunto com uma fundação. Entre eles, estão Claudio Tozzi, Antonio Dias, Gilberto Salvagor e o próprio Toyota, que também trouxe quatro dos oito blocos de madeira que compõem as matrizes usadas por ele para a composição de uma gravura feita especialmente para a mostra. A impressão de todas as gravuras foi feita por master printers japoneses, no Japão. A depender da técnica utilizada, cada tonalidade vista numa gravura corresponde a uma dessas matrizes, e são as sucessivas impressões justapostas sobre um mesmo suporte (papel) dessas várias matrizes que vão compondo progressivamente a imagem – do mundo que flutua na mente do artista.

A exposição está no lobby do Hotel Tivoli Moffarrej, na alameda Santos, 1437, São Paulo. E fica até Novembro.

Se eu pudesse, peregrinaria até lá todo dia, até o último dia.

Caio Leonardo

29 de Outubro de 2015

Pardon, Simone

simonedebeauvoir505_112912031304_0 Pourquois moi?

O ENEM de 2015 demonstra que o analfabetismo funcional não atinge apenas os estudantes, mas a Nação inteira.

É constrangedor ver a quantidade de gente que não consegue interpretar um texto.

Um povo que não consegue distinguir “sentido denotativo” de “sentido conotativo” num texto é um povo funcionalmente analfabeto.

E povo, aqui, não é usado no sentido conotativo de “gente pobre”, “gente humilde”; povo, aqui, é usado no sentido denotativo de “conjunto de pessoas ligadas por laços territoriais, culturais ou religiosos”.

Ou seja, o povo brasileiro, nós todos, somos incapazes de discutir um texto a partir do sentido que esse texto tenha ou possa ter.

É constrangedor ver a quantidade de gente que acredita que, na citação feita a obra sua no ENEM, Simone de Beauvoir renegava a genitália como elemento de distinção entre homem e mulher.

É constrangedor ver que o texto de Simone de Beauvoir foi interpretado como se referido ao debate sobre homossexualidade.

Como hoje é sábado e segunda é feriado, lá vai:

Antes de tudo: pronuncia-se “Bovoárr”.

Agora, ao texto.

Beauvoir não fala ali de homossexualidade.

Beauvoir não fala ali que a sexualidade é algo que se escolhe ou que, ao contrário, é algo que não se escolhe.

Beauvoir não fala ali que ninguém nasce com o sexo ou a sexualidade definido ou indefinido.

Beauvoir não fala ali de opção sexual.

Beauvoir ali está falando disto e só disto: do papel social imposto à mulher.

Quando Beauvoir diz que “ninguém nasce mulher”, ela quer dizer que ninguém nasce sendo o que a sociedade espera que seja o papel de uma mulher:

*ninguém nasce submisso;
*ninguém nasce para cuidar da casa;
*ninguém nasce para casar, ter filhos e dedicar-se exclusivamente a isso;
*ninguém nasce para ganhar menos do que os outros só por ser homem ou só por ser mulher.

Ao dizer que “ninguém nasce mulher”, Beauvoir está afirmando que de ninguém se pode exigir desde o nascimento que faça isto ou aquilo, assim ou assado, apenas por ter nascido com este ou aquele sexo.

Ela quer dizer que uma mulher tem a liberdade de decidir:

*se quer ou não se casar,
*se quer ou não ter filhos, se quer ou não ter uma casa,
*se quer ou não cuidar dessa casa ou de qualquer outra casa,
*se quer ou não estudar, trabalhar, ir pelo mundo afora,
*se quer aprender a cozinhar,
*se quer cozinhar em casa ou num grande restaurante – ou até mesmo num pequeno restaurante, ou
* se prefere assistir TV comendo pipoca de pantufas num sábado de carnaval.

O debate que cabe aqui, portanto, é sobre o valor que a nossa sociedade dá ou pretende dar à ideia de que cabe ao homem e à mulher papéis na sociedade que são específicos e determinados de antemão.

Querem debater sobre o que Beauvoir realmente quis dizer?

Caio Leonardo

31 de outubro de 2015

Ave Palavra: Grogoló

caburé

“No Paranoá,

o grogoló da barragem

bole o caburé”

caio leonardo

_______

Grogoló é um hapax legomenon, ou seja, um termo que ocorreu (foi registrado) uma única vez – neste caso, não apenas uma única vez num determinado texto ou numa obra específica (o que bastaria para fazer dele igualmente um hapax), mas sim uma única vez em toda a história da língua portuguesa. Uma busca no Google não registra seu uso. Mas o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo atravessa “grogoló” entre “grito” e “grogue”, página 693. É ali que está dito que grogoló apareceu uma única vez em literatura romanceada (LR); e ainda oferece este contexto saboroso:

“O ermo como que alargado com o trilili dos grilos, com o sapear da saparia e o grogoló da enxurrada crescia na grota”. 

Grogoló é, claramente, uma onomatopeia. Substantivo masculino, significa “som produzido por água que corre aos borbotões”. Com o haikai acima, grogoló não muito gloriosamente deixa de ser um hapax, digamos, absoluto. Ainda não está a salvo do oblívio, porque deste não está o próprio ignorado autor deste blog. Porém, um passo torto adiante foi dado para que grogoló volte à vida.

Salve uma palavra do esquecimento. Use-a.

Caio Leonardo

imagem: http://blogdovitinhoguia.blogspot.com.br/ (visitem!)

Simetrias existenciais

predio-torto-santos-g-20091031

Em Santos, o terreno é pantanoso, cede. Por essas e outras, muitos prédios erguidos na orla da praia na década de ’70 são famosamente inclinados. “Eles se cumprimentam”, vai dizer um caiçara. A cidade é cortada por canais feitos para drenar o terreno, numerados do Sul para o Norte da ilha. Na esquina da praia com o Canal 4, fica um desses prédios, enorme, na minha memória ainda amarelo, que correu o risco de desabar e precisou ter sua base, dizia uma lenda, congelada.

Mas minha memória é esquerda e põe no térreo dele um restaurante estiloso chamado Cibus, que na verdade ficava noutra avenida. Fui descobrir recentemente que “cibus” é “comida” em latim. Ou seja, o lugar chic de Santos chamava-se “Restaurante Comida” – algo como um edifício chamar-se “Prédio”, o que Santos não demora a oferecer. Na avenida Ana Costa fica o Edifício Palazzo. Palazzo em italiano…

No térreo de verdade daquele edifício no Canal 4, ainda funciona um bar que é assumidamente uma espelunca, outra palavra latina, que significa “caverna”. Santos tem o seu Cavern Club. Passei ali noites inesquecíveis, outras de que não me lembro, algumas que é melhor nem lembrar. Ali, vi e ouvi tocar várias gerações de roqueiros locais, liderados por essa força da natureza que é Julinho Bittencourt. A turma do Charlie Brown tocava lá. Pelado, o baterista, sempre aparecia. Meu irmão,Allex Bessa, também tocou seu teclado naquele palco apertado. Nome do lugar? “Bar do Torto”. Eis aí um nome perfeito.

——-

Este foi um fim de semana pantanoso para mim, aqui em brasília. Passei todo ele com dores fortes no ombro e no pescoço. Para consertar, tentei congelar a base da dor com um emplastro. Adiantou pouco. Não conseguiria cumprimentar ninguém. Fiquei dois dias na minha caverna, sem sair do prédio, meio que pelado, e tudo que fiz foi comida (em latinha) e, entre um canal e outro, ouvir a entrevista a Elvis Costello do roqueiro Lou Reed, aquele bardo torto.

Santos não sai de mim.

O Baile na Rua Aurora

BartôByHopper

Acho que foi o Sandor Ney, ou talvez o Georges Jazzar, mas alguém jogou no grupo de discussão a novidade de que tinha descoberto um bom restaurante peruano na improvável rua Aurora, registrada em verso, prosa, canção e boletins de ocorrência. Começou um alvoroço. Não podia ser aquela  rua Aurora, piroca dentro, piroca fora. Mas em que altura? Perto do Bar Leo? É seguro? Fica na Boca do Lixo? Ainda existe a Boca do Lixo?

Enquanto eles discutiam isso em São Paulo, eu, de Brasília, comecei um passeio vertiginoso via Google Street View. Apeei meu cavalo virtual na esquina da avenida Rio Branco com a Aurora e comecei a descê-la em direção à Vieira de Carvalho, que é o que se poderia chamar de “área nobre” dali. Foi, mesmo, um dia. Ali surgiu o Rubaiyat, ali ficava o mais antigo restaurante de São Paulo.

Mas no hoje do meu passeio por aquela lente panóptica, a Aurora apresentava suas velhas credenciais logo na esquina com a Rio Branco: um American Bar, senha para inferninho. Sigo adiante e, passadas umas portas sem pistas, mas que escondem muita história, surge no nº 427 um hotel talvez chamado Lugus (difícil dizer, a imagem da placa é aguardentemente distorcida). O hotel é vizinho de uma venda, um mercadinho sem nome nem número, de parede azul, com duas portas, uma delas aberta, já são 9h30 ou 10 da manhã no instantâneo que me guia. Para dentro da porta aberta, movimento, clientes, objetos, caixa registradora, comércio. Para dentro da porta fechada, por trás de uma cortina de ferro vazada em losangos, uma década de fórmicas, madeiras e ferros empilhados, coisas sem uso esquecidas na sombra, mas visíveis da rua. Meu olhar atravessa a porta de volta para a rua por entre os losangos de ferro e se depara com o que jaz na soleira do mercadinho azul, sem nome, da rua Aurora, sem número.

Naquela soleira, estirado sobre a pedra preta polida típica dos degraus de construções no centro de São Paulo, jaz a figura de um homem de passado violento, ocupação incerta e futuro mais ainda, coberto de blue jeans de corpo e alma, alma alugada para a boêmia.

Sobre os olhos, enormes óculos escuros que remetem a Raul mas num degradante marrom degradê; as canelas exibem meias beiges combinando com o mocassim marrom que faz dele outro Paco perdido no fim de uma noite suja, acolhido pela indiferença do pouco comércio diurno de uma rua que vive da madrugada e seus pecados. O braço direito dele, manga arregaçada, aponta desmaiado para a sarjeta que está a metro e meio, mas inteira dentro dele.

A noite deve ter recebido como um astro aquele alter ego de Bartô Galeno, colete azul escuro de cantor de rádio, de caminhoneiro garboso, garantia de atenção das moças e dos garçons nos shows de strip tease do teatro Orion, na altura do 753. Não deve ter sido fácil percorrer aqueles trezentos metros até a soleira do mercadinho, tropeçando na letra de “No Toca Fita do Meu Carro”, com a boca encharcada de “Que Amor Danado que Arranjei”. Boca entregue ao vazio de uma noite de moças trocadas por Old Eight e Fogo Paulista. Mario de Andrade, que morava no 320, passaria por ele e poetaria: “Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paissandu deixem meu sexo”.

Desacordado, mal percebe que ele é o bêbado que se apoiou nos losangos de ferro e por eles desceu até a soleira, se ajeitou como pôde e agora está, para sempre, capturado pelo olho que tudo vê, em todo lugar. 

Uma fiorino para em frente ao mercado e esconde a porta aberta da vista desconfiada do porteiro da garagem em frente. Um garoto passa correndo com um saco plástico na mão, olhos vidrados. O vento seco arrasta a poeira da calçada e irrita os olhos da senhora que vem de cabeça baixa da Santa Ifigênia, sacola na mão – pilhas e lâmpadas e soquetes. Uma lasca de reboco se solta sob o sol. O caixa do mercado ajeita o troco, entediado. Um silêncio entre carros toma o ar por um instante. O leite de coco espera na prateleira a validade expirar. A rua expira e renasce, outra vez aurora.

Bartô se move, geme. O apontador de bicho muda o passo e o rumo, para não dar com ele. Doem as costas, dói o joelho, dói Malena que o proibiu de ser caminhoneiro, depois o deixou, e ele entrou na bebida em lugar de partir para a boleia. Agora é figura fácil na Aurora, ninguém nem se importa, ele jogado de novo no chão pela manhã. A rua é assim. Ele é assim. Tantos são. Não se meta.

O peruano, bem, o peruano fui descobrir trinta metros dali, sem placa na porta, sem qualquer indicação de que ali houvesse um restaurante. Sem número. Descoberto por exclusão: só pode ser ali o 451. Os de São Paulo acabaram indo lá e gostando, é bom e barato, me contam. O Rinconcito Peruano fica escondido no alto de uma escadaria estreita, onde se respira um sonho imigrante de vida nova e bem-aventurança, que contrasta com o registro fotográfico, geográfico, urbano, degradante daquele corpo que, no entanto, ainda agora assombra, não mais a rua, mas a soleira virtual de um mercadinho azul, sem nome, ao lado do hotel da mesma rua Aurora, na altura do 427.
427

Caio Leonardo

(clique no link, vá ao Street View e veja por si)

Mais do Mesmo, Antes do Fim de Tudo

O fim do mundo já aconteceu talvez mais vezes do que as pre-visões que fazem a graça de estar vivo neste fim… de ano. O zunzunzum em torno de 2012 é um patrocínio das redes sociais e de um gosto pelo banal, por qualquer ideia mal formada, porém repetível até o absurdo, adquirido pelas mídias desesperadas por sobrevivência num mercado sempre mutante – no caso delas, para o mal ou, mais hodiernamente, para o fim. O mundo em que as mídias tradicionais surgiram, de fato, acabou. O novo mundo da revolução tecnológica oferece-lhes um piso móvel, viscoso, oblíquo, de comportamento caótico, o perfeito oposto à certeza bucólica da banca da esquina. Essas mídias contam agora com a fascinação que a leitura escatológica do calendário maia possa exercer sobre leitores.

Praticamente todos os meios de comunicação vêm divertindo seus leitores com o “fim do mundo”, um tal que ninguém nele acredita, a ponto de várias empresas usarem a coisa como mote de publicidade de seus produtos. Festas estão sendo marcadas para celebrá-lo. Uma cidade na França está cercada pela polícia, por causa do abrigo ali feito para agasalhar os apocalípticos.

The Economist, a venerável revista inglesa que os brasileiros aprendemos a odiar, semana sim, semana não, conforme o tratamento que dê a este nosso Gigante recem-acordado, aparece desta vez com o gráfico abaixo, que mostra umas tantas predições malogradas de fim de mundo:

Fins do Mundo

Pois bem. Esta é a má notícia: o mundo vai, mesmo, acabar. É inexorável. Pode acabar ainda hoje, 20 de dezembro de 2012, basta que uma descarga de raios gama, vindo dos confins da galáxia, atravesse e reduza a nada nossa atmosfera e tudo o mais que aqui existe. Para que um grande asteróide choque-se com o planeta, pelo menos até agora, basta que ele exista e venha em nossa direção, o que só será percebido pelos nossos bravos cientistas uma ou duas semanas antes do impacto. Se uma coisa ou outra não acontecer, um dia certamente o sol morrerá. Muito antes disso, terá engolido os três primeiros planetas do seu sistema, nosotros inclusos. Isso tudo bem sabemos quase todos.

Agora chego com a ladainha ambiental. Bem antes de o sol engordar, terão acabado na Terra o ferro, o hélio, o silício, o granito, o mármore; a diversidade biológica, o atual patrimônio genético; talvez as montanhas todas terão sido reduzidas a montículos, depois da extração de tudo que nelas se contenha; a água doce natural; e o que mais se possa agregar nessa conta de tudo o que o homem (e a mulher) extraem da natureza – tudo feito e desfeito, quem diria?, como se não houvesse amanhã.

A lenga-lenga ambiental é o grande calendário contemporâneo de um “fim do mundo” causado pelo homem. Porém, nem mesmo a mais correta agenda ambiental impedirá a consumação dos dias, porque assim é o universo, percebido já por Fernando Pessoa, na sua Tabacaria:

“Ele [o dono da Tabacaria] morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.”

Qual a conclusão disso tudo, o carpe diem? Bem, façam como preferirem. De minha parte, sigo essa mesma filosofia do Pessoa via Álvaro de Campos, e o faço mais por concordância do que por adesão:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Que isso quer dizer? Que a vida não tem sentido, apenas direção – e ela dirige-se para a morte. Todo o resto é construção da imaginação humana. Usar a imaginação para viver bem, lançar um olhar generoso e de veneração a tudo quanto existe, vivo ou não vivo; oferecer um legado, em lugar de deixar uma lacuna: Isto bastará, mas não terá sido fácil.

 

Caio Leonardo, um dia antes

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker

Aqui, um complemento ao comentário sobre a lista dos Melhores Livros de 2012.

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker.

No liame acima, Você encontrará a crítica de James Wood a Hilary Mantel, publicada pela New Yorker. Wood demonstra o porquê de Mantel merecer a atenção que tem tido:

“As a novelist, Mantel has the maddeningly unteachable gift of being interesting.”

Baci,

Caio Leonardo