TRÊS ANOTAÇÕES SOBRE A MORTE DE ARTHUR

Uma única vez, estive no escritório do prof. Fabio Konder Comparato, de quem tinha sido aluno. O assunto não era acadêmico – ele nunca teria tido motivo para me receber por algo do gênero. Estava lá, com gente grande, para pedir-lhe um parecer.

A uma certa altura, uma personagem foi citada, não me lembro qual, e ele então comentou, não com a gravidade que o define, mas com uma expressão entre tristeza e pânico:

__ Com ele aconteceu o que não desejaria para o meu pior inimigo: Ele perdeu o filho.

Década de ‘90. Foi nesta cena que comecei a me dar conta da dor dos meus próprios pais com o que aconteceu a mim mesmo, aos 22 anos.

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Drummond perdeu a filha, Julieta, a pessoa que mais amou em sua vida. Morreu uma semana depois, de tristeza.

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Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

Chico Buarque

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O Verão de Empédocles

the-four-elements-1472-grangerNão se completou uma lua sequer. Em 25 de janeiro, ela minguava pelo quarto dia, e a terra varreu Brumadinho. A lua então veio de ser nova, ainda nem era crescente, quando desceu a água e subiu o fogo sobre o Rio de Janeiro. Amanhã, a lua alcançará o quarto crescente, mas, antes disso, hoje a tragédia caiu do ar, em São Paulo. Fecha-se um ciclo trágico dos quatro elementos imutáveis da natureza: a terra, a água, o fogo e o ar.

Empédocles (490-430aC) é que concebeu a natureza assim, e ele entendia que esses quatro elementos não se moviam por si, mas pela oposição de duas forças: Amor e Ódio. O equilíbrio entre elas é que permite que a vida siga em harmonia, e isto vale também para a vida em sociedade.

Há Ódio demais circulando por este país. Mais Amor, por favor. A lunação atual só se fecha daqui a oito dias. Mais amor, por favor. Se não for por filosofia, ame por superstição. Mais amor, por favor.

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Ilustração: Toalha de praia

Breve e Necessário Passeio pelos Parques da Cidade

Ter apenas um assunto,

e esse assunto ser variações

em agressões a uma pessoa,

revela uma vida triste e encerrada,

consumida pelas próprias frustrações transferidas na forma de ódio àquele objeto – àquele ser humano tornado objeto

pelo ressentimento e

pelo vazio existencial

a que se resume o que sobra de vida

àquele que tem apenas um assunto.

Liberte-se da dor de ser quem você se tornou.

Não peço que mude de ideia,

mas que mude de assunto.

Abra outras caixinhas do universo.

Descubra o padre que descobriu o Tibet

(sim, isso aconteceu),

megulhe

em mapas de lugares imaginários,

passeie

pelo Pantanal de Manoel de Barros,

cavalgue com o verdadeiro Genghis Khan,

o autor da modernidade,

penetre

na leveza sublime dos versos de Rumi,

mergulhe

no sono, ouvindo Roberta Flack –

“The First Time Ever I Saw Your Face”,

corra

9Km num parque que não conhece

e repare nas árvores.

Leia A Vida Secreta das Árvores,

e A Vida Íntima dos Animais.

Traga

para casa frutas e legumes

que nunca provou.

Entre

no zoológico na volta do almoço,

e avise

seus sócios de que vai se atrasar:

__ Estou em reunião com um unicórnio chinês. Ainda é segredo.

E, então, estenda o braço e sorria

para a Girafa:

Ela perdeu o parceiro ano passado.

caio leonardo, 11 de fevereiro de

2019

Para que vivemos juntos?

É preciso ser absolutamente moderno, disse Rimbaud. Ninguém é moderno todo o tempo, respondeu Adorno, décadas depois. Os processos, os rumos, os encaminhamentos é que indicam se alguém, um grupo, uma sociedade, um governo, uma geração, um século, uma Era – se conduz com reflexão sobre para onde vai, vão, vamos, estão indo.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos que se veem hoje são conduzidos por certezas demais, certezas que haviam sido abandonadas pela reflexão.

A reflexão, ao que parece, foi ela mesma abandonada para dar lugar a certezas. Estamos abandonando a modernidade – cuja natureza é reflexiva, para Giddens.

Os processos, os rumos, os encaminhamentos preponderantes na nossa atualidade movem-se pela noção de que tudo estava errado no caminho que vinha sendo trilhado para mudar o que estava errado.

As certezas atuais que decorrem dessa noção vêm sendo tais que reforçam exatamente tudo o que gerou e alimentava aquilo que estava errado.

São certezas que alimentam a violência; são certezas que aumentam a desigualdade, são certezas que, no entanto, trazem algo de novo e que nos leva para um caminho que nunca antes traçamos: As certezas preponderantes de 2019 constróem uma sociedade não apenas desigual, porque isso sempre foi, mas, sim, uma sociedade abertamente, convencidamente, orgulhosamente, franca, sarcástica, mordaz e apaixonadamente cruel.

Ou fazemos uma reflexão sobre essa crueldade – não para justificá-la, porque certezas não pedem justificativa, mas sim para superá-la -, ou a razão de vivermos como sociedade, como nação, estará perdida.

O Evangelho Segundo Don Teodoro

Todo parece tan natural, como siempre que no se sabe la verdad.
Júlio Cortázar, “Carta a una Señorita en Paris”

Em Buenos Aires, bebe-se Pepsi – agora entendo que, de quando em quando, aconteça de um rapaz vomitar coelhinhos num elevador da calle Suipacha. A cerveja Quilmes caiu em merecida desgraça, mas ainda pode ser vista pela noite de Palermo Soho em roupa de marca, um modelo deselegante em vermelho e dourado, onde se lê um desesperado Imperial. Nessas ocasiões, se for outono, é possível que a lua apareça de madrugada e nesse momento um rapaz de barba universitária tropeçará na longa cauda da noite ao atravessar a rua, e esbarrará na mesa da esquina oposta. Ele quer a todo custo que acendam seu cigarro. Seja gentil.

Não ficou claro quando Fernet Branca subiu para as mesas da Recoleta, mas o fato é que hoje está por todo lado, e todos a bebem, menos a classe alta, observou Pablo para depois conceder que também os jovens da classe alta bebem Fernet Branca, porém com Coca-Cola – não Pepsi. Não me pergunte por quê, eu estava intrigado com a camisa 8 de não sei qual volante obscuro do Estrela Vermelha que emoldurava uma Patrícia ainda de cabelos longos, recostada na mesa redonda de canto do La Brigada e ouvindo o rosto adolescente e tímido da filha do Pablo a defender ferozmente os Kirschner.

Os destinos da Quilmes e da Fernet, a subversão das relações de poder entre Coca e Pepsi, esses detalhes que denunciam a lealdade dos portenhos aos mundos estranhos de Borges e Bioy-Casares, tudo talvez estivesse nos preparando, a mim e à Patrícia, para o surgimento de Don Teodoro, 80 anos, taxista, último sorriso registrado provavelmente em 1978. Foi com Don Teodoro que descobrimos que o Tigre é o programa mais lindo para um domingo de sol, e não San Telmo. “Se soubesse que iam a San Telmo, não os teria deixado entrar”.

Don Teodoro é aquele para quem toda a imprensa está vendida a Cristina. Para quem o Malba, uma coleção *privada* (dito entre os dentes), é nada comparado ao Museu de Arte de Buenos Aires. Para quem a coisa certa a se fazer é contratar um motorista que saiba das coisas por 600 pesos, e rodar a cidade com ele por cinco horas, ou talvez não cinco horas, mas nunca tomem esse ônibus de dois andares, neles não se vê nada e só se vai a lugares estúpidos.

Don Teodoro, rugas de pedra e voz de V8, alma curtida de polêmica y calles, é quem afirma, em plena avenida Libertador e sem tomar fôlego:

“Pelé es mayor que Maradona. Os vi jugar a los dos y Pelé es un señor. Lo hizo todo, y es un señor. Maradona? Maradona tiene veinte hijos.”

Uma Terrena Comédia

Toda alma que cala e é covarde,

bem aquém do Aqueronte, como arde!

no primeiro dos círculos do inferno.

O braseiro – que brida quem tiver no

seu poder o dizer que chega o inverno –

ele queima a quem dói saber que ouviu –

por ouvir, mas fingir que não ouviu –

o gemido tão tétrico e sutil

de uma voz que se engasga ao perguntar:

o que queres do mundo, meu Brasil?

O Povo Eleito e o Mercado

O tal Mercado, de quem tanto se fala, não é muito mais do que um astrólogo porto-riquenho extravagante que, como todo vidente, combina com comparsas as suas previsões. No Brasil, fundiram recentemente três templos erguidos a ele.

É que há quem o leve a sério. De vez em quando, surgem uns questionadores, como alguns donos de transportadoras rodoviárias de carga, que criaram um culto paralelo, dia desses. Muita gente para lá imediatamente migrou a sua fé e passou a acreditar em caminhões como a salvação.

A crença nova andou relativamente bem para os novos zap-cerdotes, até os caminhões começarem a causar um problema dos diabos. Um tanto assim de brasileiros acreditou em sacrificar-se pelo novo deus sobre rodas, porque sentia que tinha perdido a aposta na dica anterior do Mercado – e alguém precisava voltar a falar mal dos filisteus. É que a turma que o Mercado botou no lugar dos filisteus tem deixado tudo muito pior do que… quando os filisteus tinha sido os eleitos.

Logo ficou claro que não eram os caminhões a verdade e a vida que os convertidos esperavam. O mundo deixou de girar, e a Lusitana de rodar, porque queriam era uma graninha do governo, que sairia tanto dos fiéis ao Mercado, quanto dos fiéis aos caminhoneiros, inclusive dos infiéis. Todo mundo vai perder, como previu uma filistéia.

Os seguidores do Mercado, voltemos a eles, dividem-se entre os citados comparsas, que ganham uns trocados, e os otários, de quem o Mercado tira um bom dinheiro. É bem parecido com a relação entre pastor, obreiro e fiel, só que o Mercado influencia a vida de quem nem acredita nele.

Hoje, a dica do Mercado e seus Comparsas é Bolsonaro. O que tinha de otário embarcando cedo nesse palpite do Mercado… Agora, então, é como se passassem a ter razão.

Não pergunte sobre 2016, nem sobre Temer. O Mercado e seus Comparsas fizeram muita gente apostar nessas ondas. Deu muito errado, mas faz parte da crença desse tipo de fiel jamais imputar a seu deus qualquer responsabilidade.

Preferem por a culpa em quem não acredita no Mercado. Recentemente, depois de muito, muito trabalho, conseguiram prender um filisteu bem famoso, porque o porto-riquenho e seus comparsas não gostam dele. E não há jeito de tirá-lo da cadeia antes de conseguirem emplacar sua próxima previsão.

O brasileiro é temente a seus deuses. O brasileiro é crente por disposição histórica. Crê fácil. Crê em quem ele teme, não em quem o ouve. A base da crença do brasileiro é clamar aos céus contra os seus – e nunca ser ouvido. Um deus que ouve é um deus que sangra: morte a ele. O brasileiro crê subservientemente, mas na estranha esperança de fazer do outro brasileiro seu servo. O brasileiro crê cruelmente. Sua crença sempre envolve o mal de alguém, uma crença que quase sempre vai acabar fazendo mal ao próprio crente.

Como quando, por orientação do Mercado, sacrificam em praça pública um presidente eleito.

Numa sociedade plural como a brasileira, com tantas crenças e tantos povos, nada pior do existir entre nós um povo que acredita ser o eleito e que não aceita ser eleito alguém que não seja do seu povo. Não entra na cabeça deles. Vai contra a orientação do Mercado. Tudo, menos alguém que não seja eleito por eles, como eles, à sua imagem e semelhança.

Melhor que isso, só se o eleito tratar os demais com o desprezo dedicado aos filisteus, aos debaixo. Bater nos de cima é contra a fé no Mercado.

Volta

O sol se põe em São Jorge

e nos despedimos da São Bento

tomando a direção de São João d’Aliança.

As crianças brincam no banco de trás,

o meu é 9

o meu é 5

e todos de olho nas placas dos carros que passam.

Essa tinha dois noves!

E assim foi a competição até São Gabriel.

Patrícia no banco da frente ganhou.

Dirijo noite adentro, Chapada afora,

volteando a curiosidade infinita da Valentina,

saboreando as gargalhadas gostosas do Samuel

– e tudo complicava o sono da Tata,

encaracolada a estibordo.

O rosa do sol já sumido do horizonte,

desce um suave silêncio sobre a popa,

Patrícia brinca na proa com as diferenças

entre Ella e Billy,

surge um alvoroço no leme

com as escalas de Sarah

e eu sorrio para as luzes na estrada.

À noite, aquela estrada é uma crença em luzes.

Stultifera Navis

A enorme e torta canoa

desce a corredeira.

Sacode e roda entre pedras e toras

rumo à catarata.

A canoa não vai vazia para o abismo.

Estão todos juntos.

Mas eles se acotovelam e se amontoam,

gritam e berram, vociferam

contra as árvores que estendem seus galhos.

Contra as margens do rio.

 

caio leonardo

22 de março de 2018

Adágio em Sol Menor

Preciso de pouco.

A vida é que tem me dado muito.

Minha alma cabe

sem esforço,

ainda que comprimida,

nesse cantinho estreito

embora ensolarado

entre Barcelona

e Saint Paul de Vence;

mas também se vira

entre Juquehy

e Paraty;

e aceita

sem relutar

um chão duro qualquer

tendo como travesseiro

dois Hemingways e um Cortázar.

Para me cobrir,

basta um Capote.

E se um dia

nem mais ler eu puder,

que me encontre recostado

entre damas-da-noite,

– as memórias me bastarão.

Mas quando nem mesmo

a memória me sobrar,

então que o acaso faça chover

sobre mim em São Vicente,

que a chuva de lá sempre foi

e sempre será

o meu mais suave acalanto.

Ela bastará,

garoa ou tempestade,

quando eu não saiba mais de mim.

Sem Nome

Esse pássaro gordo

marrom, comprido

de cauda longa e

cara de sujo de terra

apareceu de novo na pitangueira

pegada à minha janela

que fica fechada no calor eterno de Brasília.

Ele é um pássaro feio

mas incomum.

Feio e incomum.

Hoje é um dia feio e incomum,

e não sei que nome dar

a esse vizinho

nem ao que sinto e desejo

neste dia feio e incomum.

Mas que diazinho feio e incomum!

Vou xingar, mas nem chego perto de abrir a boca.

Devia tomar um captopril,

mas dona Marlene me traz melancia –

ela tem um ar curioso agora à tarde,

a dona Marlene.

O pássaro gordo e sujo adoraria

chafurdar nesse pratinho de melancia

sobre a mesa de trabalho:

seus pés escorregariam nos jornais

que rasguei mais cedo

e sua asa cor de sangue pisado

derrubaria

a água até agora intacta

mas que já atravessou esta sala pelo menos

três vezes

prefiguradamente. Como a outra de mais cedo.

Parece uma enorme e gelada

teia de aranha

essa trinca na tela do computador.

Se a mesa não ficasse colada à janela

eu a abriria

e faria algum som estúpido para o

pássaro gordo e marrom

com suas asas de sangue pisado

entrar e chafurdar na melancia.

Como a melancia.

A janela mantém o quintal calado.

O sol arde sobre a pitangueira.

(Mas que diazinho feio

e incomum!)

Qual é o santo nome daquele pássaro?

Quando diabos este dia vai terminar?

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

Hoje não acaba tão cedo.

A janela fechada mantém o quintal calado,

a pitangueira está quieta,

o pássaro sem nome

está por aí,

carregando a sua feiúra incomum.

– caio leonardo

24.1.2018

Poema Que Me Dóis Aqui

Estou tão,

mas tão sozinho

nesta cidade,

que chega a doer

a espinha da escápula

o esplênio do pescoço

o latíssimo do dorso e

o rombóide menor.

Só não te mando um beijo

porque me dói

o zigomático maior e

o orbicular da boca.

Te deixo agora

que já me dói a língua

de tanto querer falar

e não falar

por não ter a tua bigorna

nem o teu martelo

pra vibrar cruel

com minhas saudades

Jornada Nebulosa

(Haikai no Renga)

Não há primavera
Na nebulosa de Órion
Mas, quem sabe, um dia…

O tempo não corre
Na nebulosa de Órion –
Quem conta seus dias?

Há um coração
Na nebulosa de Órion
Que é ela inteirinha

Há um véu de noiva
Na nebulosa de Órion
Bodas nas estrelas

Escapam de dentro
Da Nebulosa de Órion
Dez mil vagalumes

A corte Heian –
ó, Nebulosa de Órion! –
perdoará Genji?

Dez mil vagalumes
libertados pelo príncipe
luziram seu ombro

Aquele ombro nu
brilhou mais que o cinturão
de estrelas de Órion

Vagas como estrelas,
damas da corte Heian
recolhem seus leques.

Vagos são os lumes
nos aposentos Heian –
Vagos são seus lumes

caio leonardo

 

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Clicando aqui você verá novas imagens da Nebulosa de Órion que foram divulgadas hoje, 16.1.2018, pelo Le Monde. Tive o impulso de sempre: compor um haikai – mas logo pensei que não há estações do ano na Nebulosa de Órion… Dessa constatação discutível, surgiu teimoso um primeiro haikai-sem-kigo, e esse haikai torto pediu outro que retratasse o enorme coração que parece ser a nebulosa, depois ainda outro que falasse de como tudo nela é delicado, diáfano, transparente, então foi que surgiu a imagem de estrelas brotando da nebulosa e elas me lembraram os vagalumes com que o príncipe Genji iluminou o aposento onde seu primo desnudava o ombro de uma dama da corte do período Heian, célebre cena escandalosa dos Contos de Genji, um haikai puxando outro, e me vi compondo um “haikai no renga”, um terceto encadeado no outro, algo que a tradição manda que seja uma obra coletiva, assim iam longe noite adentro os poetas no Japão feudal, uma longa jornada noite adentro, sem rumo nem destino.
Esta jornada começou em Brasília, passou por Paris, caiu na Nebulosa de Órion, que se tornou vagalumes num aposento no Japão do século XI… Você devia compor o próximo. Vem. Vamos.

 

Roda Pião

O jardim é um círculo

estreito viário urbano

o mato está alto. (Decrépito)

A linha corrugada da circunferência

já está refeita, branca, branca.

(Sepulcro caiado)

Homens de enxada na mão

capinam. Os três,

mais de sessenta – conjunto disjunto

composto de uniforme e urgências.

Um jaleco laranja está limpo demais. (Urgência)

A enxada ao final daquela manga folgada

dura de brim e pouco uso

não assusta o mato.

O rosto acima da gola é uma pedra escura

distinto

(Recém-saído de uma repartição

para sempre?). Agora ali

rodando parado

os pês mal firmados sobre a terra em desflor

que é aquela ilha-rotatória –

os carros girando em torno, girando,

(A classe média do Sudoeste

gira seu recesso de janeiro)

em torno do jaleco limpo

da enxada inútil –

são quase 11 horas na 303.

Ele ergue lentamente

a enxada à altura do quadril

a meio-pau (É o que pode)

e acena com ela para os dois

que atacam o mato com força e hábito:

O queixo se ergue em direção a eles

Os olhos estão escurecidos

O queixo se estende em direção a eles

Mas os lábios

os lábios se prendem, mordidos.