O Povo Eleito e o Mercado

O tal Mercado, de quem tanto se fala, não é muito mais do que um astrólogo porto-riquenho extravagante que, como todo vidente, combina com comparsas as suas previsões. No Brasil, fundiram recentemente três templos erguidos a ele.

É que há quem o leve a sério. De vez em quando, surgem uns questionadores, como alguns donos de transportadoras rodoviárias de carga, que criaram um culto paralelo, dia desses. Muita gente para lá imediatamente migrou a sua fé e passou a acreditar em caminhões como a salvação.

A crença nova andou relativamente bem para os novos zap-cerdotes, até os caminhões começarem a causar um problema dos diabos. Um tanto assim de brasileiros acreditou em sacrificar-se pelo novo deus sobre rodas, porque sentia que tinha perdido a aposta na dica anterior do Mercado – e alguém precisava voltar a falar mal dos filisteus. É que a turma que o Mercado botou no lugar dos filisteus tem deixado tudo muito pior do que… quando os filisteus tinha sido os eleitos.

Logo ficou claro que não eram os caminhões a verdade e a vida que os convertidos esperavam. O mundo deixou de girar, e a Lusitana de rodar, porque queriam era uma graninha do governo, que sairia tanto dos fiéis ao Mercado, quanto dos fiéis aos caminhoneiros, inclusive dos infiéis. Todo mundo vai perder, como previu uma filistéia.

Os seguidores do Mercado, voltemos a eles, dividem-se entre os citados comparsas, que ganham uns trocados, e os otários, de quem o Mercado tira um bom dinheiro. É bem parecido com a relação entre pastor, obreiro e fiel, só que o Mercado influencia a vida de quem nem acredita nele.

Hoje, a dica do Mercado e seus Comparsas é Bolsonaro. O que tinha de otário embarcando cedo nesse palpite do Mercado… Agora, então, é como se passassem a ter razão.

Não pergunte sobre 2016, nem sobre Temer. O Mercado e seus Comparsas fizeram muita gente apostar nessas ondas. Deu muito errado, mas faz parte da crença desse tipo de fiel jamais imputar a seu deus qualquer responsabilidade.

Preferem por a culpa em quem não acredita no Mercado. Recentemente, depois de muito, muito trabalho, conseguiram prender um filisteu bem famoso, porque o porto-riquenho e seus comparsas não gostam dele. E não há jeito de tirá-lo da cadeia antes de conseguirem emplacar sua próxima previsão.

O brasileiro é temente a seus deuses. O brasileiro é crente por disposição histórica. Crê fácil. Crê em quem ele teme, não em quem o ouve. A base da crença do brasileiro é clamar aos céus contra os seus – e nunca ser ouvido. Um deus que ouve é um deus que sangra: morte a ele. O brasileiro crê subservientemente, mas na estranha esperança de fazer do outro brasileiro seu servo. O brasileiro crê cruelmente. Sua crença sempre envolve o mal de alguém, uma crença que quase sempre vai acabar fazendo mal ao próprio crente.

Como quando, por orientação do Mercado, sacrificam em praça pública um presidente eleito.

Numa sociedade plural como a brasileira, com tantas crenças e tantos povos, nada pior do existir entre nós um povo que acredita ser o eleito e que não aceita ser eleito alguém que não seja do seu povo. Não entra na cabeça deles. Vai contra a orientação do Mercado. Tudo, menos alguém que não seja eleito por eles, como eles, à sua imagem e semelhança.

Melhor que isso, só se o eleito tratar os demais com o desprezo dedicado aos filisteus, aos debaixo. Bater nos de cima é contra a fé no Mercado.

Categorias:Breves & Semibreves

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