Do Livro de Oras de Antônio Ribeiro Bessa

Ai, como é pequena a minha vila. Perdeu-se Helena, a velha cabrita

Ai, como é pequena a minha velha. Um balde que seja, e ela chora.

Ai, como é pequeno o meu olho, é com ele que escolho, no alto da montanha, no telescópio que herdei da guerra, o que hoje verei para além da minha terra

Ai, como Júpiter é longe!

_Xô, Ganiméda, vá cagar no mato que estou cá a filosofar, cadela do inferno, só lhe faltam outras duas cabeças!

jÓ, lá, que é Júpiter, meu deus, senhor do meu destino. Jove, faço este sacrifício. Hoje vai Calista, porque já mal põe ovos, o senhoire não há de se opôire. Toma! Depois lavo as mãos.

É que mal, e muito, cá estamos, a Carolina Augusta acorcundada e gemente, os poucos cabritos muito alegres e brincalhões, o senhor os perdoe, é de sua natureza, e a verdade é que, vai e vem, eu até os xingo, mas não com palavrões, tento metê-los em ordem, e grito:

_ Vá-te, querubim abençoado! Pára com isso, ungido do senhor! Vou-te tosar as tetas, se não te aquietares, Eurovina!

Pois é assim.

Mas senhor Júpiter não mais o vejo, espia que me distraio. Um tostão e já o alcanço. Partiu-se de onde estava, se ergueu sobre essas nuvens que vieram a dar cá no Brasil e me sabem a Rio Frio ou OPorto. A saber também andará um dia a polícia a vir cá, sei dos meus pecados, mas as gentes do Rio Frio, pequena que é a aldeia, hão de sumir do mapa, não as gentes, minto, a aldeia, igual àqui nesta Vila Ventura, quadrado eterno ensimesmado e benfazejo, cantinho dentre cantinhos nem cantados desse mundo.

As gentes d’OPorto que cantem os meus bessas. Eu cá sou silêncio e abrigo e sonho e outros tormentos.

Por isso, oro:

Ó senhor deus Júpiter,

olhá-lo por um instante que seja é um alento

(é nesse momento

que sinto como é pequena –

essa minha vila)

É um alento o seu sacrifício e toda dor que sente,

no corpo, ó Júpiter,

ao atrair e engolir para dentro do teu próprio corpo

todos esses corpos celestes

que, à sua falta, espatifariam os príncipes da noite,

essa suas quatro pedrinhas,

suas bolas de gude que rolam eternas no veludo azul –

Cuida da nossa vilha,

Vênus, Terra, Marte e Mercúrio.

irmão mais velho,

deus meu do nosso lugar.

O universo foi generoso ao postá-lo onde está

e assim permitir a vida – mesmo que haja consequências, porque, hom’essa, ai que há consequências, olha o que é conviver com Ádila e Procópio, o meu inferno, meus outros. É a vida. Eu, pelo menos, tenho esse entendimento maior da vida, o meu é muito maior do que o do Procópio, isso sim, não é que seja de disputar qualquer coisa, ele que fique com os ovos, mas tenho esse entendimento maior por ter sua graça em mente, não essa cruz que carregam quem mal-me-quer. Por isso oro em seu intento, rei do céu escuro, oro noite após noite, ainda que chova, Jove, e como chovia nos Trás-os-Montes de Carolina Augusta, assim como chove e chovia no meu OPorto, mas nem montes nem portos nem Ádilas nem Procópios: aqui na Vila Ventura que de mim tudo anda a tirar, mas a mim me deu Taminha e Lica, eu seguro leve meu telescópio e sou o Universo refeito em mim – um seu penhorado refilho.

_ Sai, Branquinha, olha tuas penas na barra da minha calça! Sai!, que ora é hora de orar.

Onde está? Onde está, meu deus? Giro, giro, giro, que gira esse giro pelo universo…

Aí está, maroto. Ainda tenho muito a jamais dizer.

Está lá?

Pois oiça só mais este tantinho.

Caio Leonardo

14 de outubro de 2024

(fonte da foto: https://cidadeselugares.blogspot.com/2009/07/vila-ventura.html)

Deixe um comentário