HOW SOON IS NOW?

Roger Dean cover for Relayer

SOON
Jon Anderson

Soon, oh soon the light
Pass within and soothe this endless night
And wait here for you
Our reason to be here

Soon, oh soon the time
All we move to gain will reach and calm
Our heart is open
Our reason to be here
Long ago, set into rhyme

Soon, oh soon the light
Ours to shape for all time, ours the right
The sun will lead us
Our reason to be here

LOGO
Jon Anderson

Logo, ah, logo a luz
Passa assim! e cura a eterna noite
Espera o que vem
Por isso estou aqui

Logo, ah, logo a vez
De quem leva o ganho vai chegar
O peito aberto
Por isso estou aqui

Longa dor, sinto em teu olhar

Logo, ah, logo a luz
A nós cabe o rumo: nós, a lei
O sol me guia
Por isso estou aqui!

———

Em 1974, criou-se uma conhecida heresia que consiste em extirpar os dezesseis primeiros do total de vinte e dois minutos de The Gates of Delirium, primeira faixa do lado A de Relayer, sétimo álbum do Yes, primeiro depois da saída de Rick Wakeman. A música é uma alegoria ao romance Guerra e Paz, de Tolstói. Até alcançar os 16’, ela progride para um caos ruidoso, embora elaborado, que retrata uma batalha nas guerras napoleônicas. A banda então faz uma ponte que ralenta tudo quase até o silêncio, para dar lugar a uma melodia suave, cantável – uma transição que expõe o talento de Allan White, Steve Howe e Chris Squire. A partir dali, para desenhar a paz que chega depois da guerra, Howe usa cítara elétrica ao executar uma linha melódica sideral que culmina nos vocais agudos de Jon Anderson, que também assina a letra. Esses seis últimos minutos foram lançados (lancetados?) como single com o nome Soon*. A depender das tuas cores no verdadeiro palio di Siena que são as brigas entre fãs de bandas diferentes, essa canção é ou um dos momentos mais transcendentes ou mais piegas da história do rock.

Relayer fez sucesso, marcou época e ajudou, acredito, a fazer de Anderson essa figura angelical e precursora da New Age, ele inteiro e a família junto sendo dedicados a causas do planeta. Em sua página no Facebook, Anderson aparece festejando o recém-lançado documentário da filha sobre uma comunidade indígena em Dakota (Sioux), com a qual ele próprio e a esposa passaram um tempo anos antes. Na mesma página há um vídeo de agradecimento ao coronavírus por nos ter feito parar e pensar no que somos e fazemos.**

É de perder o fio da meada. Não sei bem o que me levou a querer ouvir essa música ontem… Ah! Sim. Facebook. Jon Anderson apareceu entre as figuras públicas cujo perfil na rede eu poderia pensar em seguir, de acordo com o algoritmo do Vale do Simplismo. Tinha deletado tanta gente antes…: de Jack DeJohnette a John Travolta; de Claire Daines a Anne Leibowitz. Mas então surgiu Jon Anderson, a filha, o documentário, os índios, a gratidão ao coronavírus e acabei me lembrando da coisa toda em torno de Soon.

Assisti ao show de Anderson em São Paulo, na década de ‘90. Lembro, coitado, do tanto que insistiram em que ele estripasse Relayer e consumasse de novo o tal ritual herético. Pois foi. Muito, mas muito a contragosto, Anderson parou o show, calou a banda e avisou que cantaria à capella. E cantou. Enquanto cantava, ficou fazendo com as mãos umas volutas infantis, imitando um maestro e regendo o público, a quem, com isso, chamava abertamente de tosco. Soon é a Creep, é a Smells Like Teen Spirit, é a O Bêbado e a Equilibrista do velho Jon: O sucesso que ele não suporta ter que carregar para o decurso dos séculos.

Anderson, se fosse torturado ao ponto de novamente cantá-la em 2020, seria recebido por uma outra audiência, outros ouvidos, seriam outros até mesmo os ouvidos que a conhecem desde 1974, como é o meu caso, eu que a ouvi por obra e graça dos irmãos Negreiros, Ricardo e Gilberto, que sempre tinham os melhores e mais novos discos em casa – a casa da esquina da Freitas Guimarães com a Messia Açu, um portal que levava a nós, calungas, à swinging London pela ponta de uma agulha sobre pratos giratórios de vinil.

Éramos cinco; os Negreiros, sete. Não resisto à tentação de dizer que, pelo menos na média, éramos seis. No correr dos anos ’70 e ’80, as adolescências das nossas duas famílias chegavam e partiam em biografias que se cruzavam. A coisa não ficou sem romance, mas a Laís não se casou com o Ricardo; a Leila não se casou com o Gilberto; o Luiz não se casou com a Bia; e eu, pobre de mim, só escrevo isto aqui para ter como aparecer na história, porque o que interessa é que foi esse intercâmbio discográfico e a amizade do mais novo dos Negreiros, Fernando, com o mais novo dos Bessas Rodrigues, Xande, que fez surgir um Rick Wakeman brasileiro, que se assina Allex Bessa*** e se tornou tecladista, compositor, arranjador e baluarte do rock progressivo.

Coadjuvante sem fala nesse mundo, fui atrás daqueles últimos seis minutos d’Os Portões do Delírio. Reaparecia a ideia de fazer uma versão da letra. Era madrugada, o sono não vinha. Peguei a letra, compus a versão. E o que aconteceu então foi que a letra acabou inevitavelmente invadida pela quarentena e suas circunstâncias.

Em 1984 (o ano, não a outra distopia), Jim Morrissey perguntava How Soon is Now? Minha adolescência estava na curva descendente e o drama da solidão que Morrissey descrevia era assim: Tem esse lugar que dá pra você ir e encontrar alguém para amar de verdade, mas aí você vai e fica na sua, e vai embora na sua e vai pra casa e chora e quer morrer.**** Era triste. Mas na distopia de 2020, na curva ascendente da pandemia, sair de casa é cair numa arena de gladiadores e gritar Ave, César, os que morrem te saúdam! só que com a voz abafada atrás de uma sufocante máscara de pano, o inimigo mortal sendo qualquer coisa à sua volta: a maçaneta, o botão do elevador, o filho do vizinho, a mão do frentista – não o frentista inteiro, não o chumbo na gasolina, não o ar poluído, não o vira-latas que passa: não, todos esses estão redimidos, o inimigo é apenas a mão do frentista, a mão da moça do caixa, a mão que balançou o berço. O inimigo está nas extremidades, nos pontos de tangência, no ar que invade a sala quando algum tresloucado desperta e abre as janelas, pálido de espanto. Não estamos na Peste de Camus, estamos na Náusea de Sartre.

Está trancada a rua da amargura. Animais selvagens tomam as cidades. Num prenúncio desse quadro, o cavalo Remorex venceu sem jóquei nada menos do que o próprio _pálio de Siena no ano passado.***** Tudo parecia normal, como sempre que não se sabe a verdade, teria murmurado Cortázar. Um mundo sem humanos se prefigurava, enquanto Matteo Salvini, o líder da extrema-direita italiano, aplaudia no Twitter: Pazzesco, incredibile, fantástico!

Hoje, os que se ocupam de tentar sobreviver mergulham na sua própria versão de Xavier de Maistre, com o universo reduzido a uma recorrente viagem ao redor do quarto de dormir ou da cela na Papuda; ao redor de qualquer dos círculos do inferno, todos e cada um sendo uma mônada embasbacada diante da Tela Ubíqua, os olhos esbugalhados, laranja mecânica sem chapéu-coco, obrigada a sofrer com as imagens e os áudios do escândalo do dia, com a censura ao bom-senso, com a bestialidade se impondo, sem esperança de que alguém perca por um instante a ilusão e descubra estar sob a vigência, não de um Estado de Exceção, mas sim do mais total ilusionismo. E os dedos postam e postam e postam: O mundo como vontade e prestidigitação.

Concluo sem esforço, porque desprezo o ativista que rompe o isolamento, que todo homem é uma ilha, dependente e sob ataque do mar de telas e medos que o cerca por todos os lados. O ruído desse mar não vem de fora, lá faz um silêncio de abandono. Vem da mesma tela em que disputo agora, neste instante, a tua atenção. Então, vai daqui não uma reza, mas esta pequena heresia, e que ela, em seu pecado original de ser ou não ser piegas, ocupe um pouco do teu Tempo, por isso estou aqui, e que logo, ah…, logo a luz passe assim!, e cure esta eterna noite.

________

Caio Leonardo, no Oitavo Dia do Maio do Primeiro Ano da Pandemia.

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* Soon, vídeo oficial https://youtu.be/cGtjr-U5bT4

** Obrigado, coronavírus https://www.facebook.com/TheJonAnderson/videos/230322224820992

*** Allex Bessa no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCLm68qTYiP3hD0rWQX0qW8w

**** There’s a club/ if you’d like to go/ you could meet somebody/ who really loves you./ So you go and you stand on your own,/and you leave on your own,/ and you go home,/ and you cry/ and you want to die…” How Soon Is Now, The Smiths https://www.youtube.com/watch?v=hnpILIIo9ek

***** Em 2019, o palio di Siena foi vencido pela contrada della Selva, apesar de o jóquei ter caído do cavalo na primeira volta. O cavalo Remorex continuou correndo sozinho, perdeu colocações, mas passou à frente de três e ganhou no fotochart. Foi algo como se a final do Brasileirão fosse um Palmeiras e Corinthians e, aos 45′ do segundo tempo, entrasse em campo um porco ou um gavião que pusesse a bola pra dentro. Nada menos que isso. O primeiro ministro do Interior da Itália, o ultradireitista Matteo Salvini, estava assistindo e comentou “Pazzesco, incredíbile, fantástico!“. Confira: https://youtu.be/RqvjOkO1Y1Y

Um comentário em “HOW SOON IS NOW?”

  1. Demais meu caro, esta analogia de sons dos soons breves que passaram nas nossas vida, mas que volta e meia tocam no nosso Deezer, e nestes breves 6 minutos nos fazem viajar no tempo…aloha!!!

    Curtido por 1 pessoa

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