Sobriedade e Poder

Kublai Khan dominou o mundo e a China, que era maior que o mundo; levou conhecimento, cultura e riqueza de extremo a extremo da Rota da Seda, com mão pesada sobre os governantes e as cortes que não se resignavam à sua ordem, mas com tolerância à cultura, aos costumes e às religiões de cada povo submetido ao Império Mongol. A China não seria a China e a Europa não seria a Europa sem o legado do seu império.*

Kublai Khan bebia muito.

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Winston Churchill conduziu uma ilha acuada diante do exército mais poderoso da Europa. Foi maior líder político conservador do século 20.

Winston Churchill bebia famosamente.

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“Dom Pedro II falava alemão, italiano, espanhol, francês, latim, hebraico e tupi-guarani. Lia grego, árabe, sânscrito e provençal. Fez traduções do grego, do hebraico, do árabe, do francês, do alemão, do italiano e do inglês.”** Sob sua coroa, o Brasil cresceu 4,81% ao ano em média.

Dom Pedro II era um grande bebedor de cachaça.

……….

Lula bebia cachaça, e fez o Brasil crescer 4% ao ano em média, de 2003 a 2010.

…………

O atual ocupante do primeiro cargo da República toma fanta laranja e é o maior erro que o Brasil cometeu em toda a sua história.

Não há, nem haverá, coisa alguma que o faça deixar de ser, por um segundo, em toda a sua vida, com a consistência de sempre, uma pessoa tão cheia de ressentimento, com nenhum entendimento sobre o presente, sem qualquer lampejo de ideia sobre para onde conduzir afirmativamente o Brasil, no que lhe cabe, para um futuro.

Nem que bebesse.

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*Leitura iluminadora: Gengis Khan and The Making of the Modern World, de Jack Weatherford

**Furtei daqui: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2012v2n30p101

Oração

Laura dormia a esta hora

depois de mamar em Carolina Augusta –

a mais bela cachopa de Rio Frio,

mocinha órfã de Trás-Os-Montes,

a mais nova mãe de Vila Ventura,

destino d’além-mar de uma alma forte,

mas não aventureira -,

tudo sob o olhar curioso e ciumento de Maria,

primogênita

a quem aquela criança chamaria de Taminha

pelos tempos dos tempos.

No alpendre, Antonio,

do sorriso maroto

e do cenho fechado,

guardava as galinhas e os ovos –

os olhos sobre a fronteira da estrada para Uchoa,

lama aberta no descampado,

a eternidade da pequenidão

daquela vila de terra vermelha,

noventa e dois anos atrás.

……….

caio leonardo, no abril de 2019,

filho de Laura, neto de Carolina Augusta,

sobrinho de Maria, que Maria nunca foi –

ou era Carminha ou era Taminha -,

neto de Antonio

A Vida Secreta da Morte

Ele não come carne.

Ela não come peixe.

Eles se dão flores?

Ele não come ovos.

Ela não come foie-gras.

Eles se dão flores?

Um bouquet de rosas

é um filet à chateubriand

Um bouquet de flores do campo

é uma terrine de foie-gras

Um bouquet de copos-de-leite

são copos de leite

Um bouquet de girassóis

são ovos pochés:

Todos são iguais na morte a serviço do homem.

O boi morre pelos rapazes e as meninas do futebol.

As rosas morrem pela aniversariante entediada.

O ganso morre pelo senhor desembargador.

As flores do campo morrem pela menina com apendicite.

Os ovos morrem pelo bolo da noiva.

Os copos-de-leite morrem para encenar a pureza que não está na noiva.

Vida alimenta-se de vida.

Tudo o mais é disfarce.

Menos o bouquet de flores.

O bouquet de flores é um assassínio indecoroso.

As Línguas como Vontade e Representação

Dois amigos meus inventaram línguas, Gavin Adams e Guian de Bastos. A língua dos Adams era (ainda será?) falada entre ele e sua irmã, as raízes no gaélico, no inglês e no irlandês, coisas das Ilhas de onde sua família viera. Sei que Abergavenny existe por causa dele. Decorei e consigo pronunciar Llanfairpwllgrwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch por uma nunca longínqua influência dele.
 
Já o Guian inventou a língua de Vaspara, a história de Vaspara, a geografia de Vaspara e até o jornal local, que certo dia, nos primeiros anos dos 1900, publicou uma pequena nota sobre um concurso de balonismo ocorrido na capital, tudo muito colorido, sereno e aventureiro, não fosse a delegação do Brasil e suas impertinências. A Faculdade de Letras da USP, se for mesmo uma academia com alguma dignidade, guarda o notável estudo sobre a gramática da língua de Vaspara, que inclui a tradução desse artigo, tradução e estudo elaborados na penúltima década dos mesmos 1900, pela hoje doutora Claudia Santana Martins.
 
Gavin mora de mim quase à mesma distância que há entre o País de Gales e Vaspara. Guian mais perto. Mais perto do País de Gales, em Amsterdam. E Vaspara inteira mora dentro dele. Já Claudinha mora na São Paulo do Gavin, e eu morro de saudades de tudo e todos.
 
Hoje, recebi os “podcasts da semana” da New Yorker. Um deles é uma entrevista com David Peterson, o cabra endiabrado que criou não uma, porém DUAS línguas para Game of Thrones: Valyrian e Dothraki. Tenho certeza de que meus amigos vão se deliciar com isso. Todos os meus amigos. Inclusive o Ser Leo, que, pelo que me lembro, e me lembro de nada na vida, despreza o seriado: nos dias de hoje, não dobrar os joelhos perante a Khaleesi é o mesmo que uma mãe não ir ver o filho desfilar no 7 de Setembro.