O MEDO E A ORDEM

O seu golpe é medo

O seu gorpe é medo

O seu gorp'é medo

o seu gorpe medrÔ

o ser gorPe medrÔ

osser gorPE medrO

ossergorP E medrO/ 
                O/             
               r/
              d/
             e/
            m/
            
          E
           
        P/
       r/
      o/
     g/
    r/
   e/
  s/
 s/
o/

Caio Leonardo
24.9.2008

Céu de Giz

Ao pé do morro do Elefante,

na Chapada dos Veadeiros,

a caminho de São Jorge,

a noite seria escura, madrugada fria,

luz tímida de fogueira,

galhos retorcidos, capoeira.

 

Seria noite escura,

as gentes eram espigas que surgiam da lenha ardente

e se procuravam porque era festa

e em festa a gente se procura,

e aquela gente balançava,

porque era festa,

porque era noite,

noite sem lua,

noite que seria escura.

 

Veio o sorriso de Jai, a caipirinha de melancia,

a mãe e a filha, e os espíritos tantos

que dançavam apesar da música

que era boa como o scotch goiano

que me aquecia a mão.

 

Seria escura a noite,

não fosse aquela estrela no ombro do horizonte.

Na Chapada, as estrelas brotam do chão,

como os cristais.

 

E do chão o olhar foi subindo

subindo pelas frestas da noite

no ombro infinito do horizonte da savana

As estrelas, aquilo se expandiu,

a cabeça rodou do leste ao longe,

e voltou àquela primeira estrela-planeta –

ponto fixo no mar agitado.

 

Já não era noite escura,

a quase náusea de imensidão cedeu,

e dei outra volta pelo céu do cerrado.

Apeei onde a vereda era tomada de uma poeira

que se alargava e se espremia,

poeira espalhada,

levantada de carro e cavalo,

mas no céu,

poeira do calcário da terra no céu,

pó de pedra de trilha

suspenso no insondado:

a Via Láctea no Alto Paraíso.

 

Não era noite escura,

e eu já contava onze riscos no céu,

onze  enquanto dançavam.

Quando contei o que contava,

uma indignação astronômica percorreu a capoeira

e os tufos espigados tiraram os olhos do fogo

e foram buscar giz no céu.

Um giz fugaz.

Um giz raro

que corta e

marca e

some

na lousa do universo.

 

A música da festa parou

por incompetência e sorte:

aquela gente que se procurava

que se balançava e fogueirava

parou.

 

Na noite que era de ser escura,

as Perseidas cruzavam o assombro que nos cobria.

 

caio leonardo

inverno de 2016