21 de Dezembro, o Solstício

copernicus1-1Persas e hindus celebravam em nome de Mitra a vitória do sol sobre as trevas, no solstício de inverno, o dia mais curto do ano, 21 de dezembro no hemisfério norte. Essa é a mesma data em que os celtas celebram o Sol Criança, e crêem ter sido a data de nascimento do rei Arthur, no castelo de Tintagel, daí a celebração de Alban Arthuan (“a luz de Arthur”), uma das quatro “luzes” (Albans) em que se divide o ano celta.

Com Aureliano, os romanos passaram a celebrar o Deus Sol Invictus, inspirados no mitraísmo, pela mesma razão solar, porém em 25 de dezembro. Constantino, o imperador que tornou o cristianismo a religião do Império Romano, antes disso cunhava suas moedas com a efígie do jovem e imberbe Sol Invictus. Há quem sustente que vem daí os cristãos celebrarem o nascimento do deus feito homem em 25 de dezembro. Em 25 de Kislev (não exatamente dezembro, mas esses meses não raro se sobrepõem) os judeus celebram o milagre do óleo, que queimou miraculosamente não por um, mas por oito dias na menorah do Templo após a sua liberação por Judas Macabeus.

As festas em torno do solstício inspiraram o Natal; e o Natal norte-americano tem em alguma dose influenciado, desde o advento do Sionismo, a festa do Hannukah, com crianças recebendo presentes, em vez da tradicional gelt, ao cabo do oitavo dia de celebração, entre queijos e vinhos, em homenagem ao triunfo de Judite sobre Holofernes.

Seja pela religação com os astros, seja pela religação com seu deus, seja pela religação com seus ancestrais, seja até mesmo só por haver motivos alheios para festa: celebremos, cada um a seu modo, esta época do ano – porque todo rito de passagem serve a dar sentido à vida.

Feliz Natal. Gmar chatimah tovah. Que a luz vença as trevas.

Caio Leonardo, em 23 de dezembro de 2008
XmasLights

Mais do Mesmo, Antes do Fim de Tudo

O fim do mundo já aconteceu talvez mais vezes do que as pre-visões que fazem a graça de estar vivo neste fim… de ano. O zunzunzum em torno de 2012 é um patrocínio das redes sociais e de um gosto pelo banal, por qualquer ideia mal formada, porém repetível até o absurdo, adquirido pelas mídias desesperadas por sobrevivência num mercado sempre mutante – no caso delas, para o mal ou, mais hodiernamente, para o fim. O mundo em que as mídias tradicionais surgiram, de fato, acabou. O novo mundo da revolução tecnológica oferece-lhes um piso móvel, viscoso, oblíquo, de comportamento caótico, o perfeito oposto à certeza bucólica da banca da esquina. Essas mídias contam agora com a fascinação que a leitura escatológica do calendário maia possa exercer sobre leitores.

Praticamente todos os meios de comunicação vêm divertindo seus leitores com o “fim do mundo”, um tal que ninguém nele acredita, a ponto de várias empresas usarem a coisa como mote de publicidade de seus produtos. Festas estão sendo marcadas para celebrá-lo. Uma cidade na França está cercada pela polícia, por causa do abrigo ali feito para agasalhar os apocalípticos.

The Economist, a venerável revista inglesa que os brasileiros aprendemos a odiar, semana sim, semana não, conforme o tratamento que dê a este nosso Gigante recem-acordado, aparece desta vez com o gráfico abaixo, que mostra umas tantas predições malogradas de fim de mundo:

Fins do Mundo

Pois bem. Esta é a má notícia: o mundo vai, mesmo, acabar. É inexorável. Pode acabar ainda hoje, 20 de dezembro de 2012, basta que uma descarga de raios gama, vindo dos confins da galáxia, atravesse e reduza a nada nossa atmosfera e tudo o mais que aqui existe. Para que um grande asteróide choque-se com o planeta, pelo menos até agora, basta que ele exista e venha em nossa direção, o que só será percebido pelos nossos bravos cientistas uma ou duas semanas antes do impacto. Se uma coisa ou outra não acontecer, um dia certamente o sol morrerá. Muito antes disso, terá engolido os três primeiros planetas do seu sistema, nosotros inclusos. Isso tudo bem sabemos quase todos.

Agora chego com a ladainha ambiental. Bem antes de o sol engordar, terão acabado na Terra o ferro, o hélio, o silício, o granito, o mármore; a diversidade biológica, o atual patrimônio genético; talvez as montanhas todas terão sido reduzidas a montículos, depois da extração de tudo que nelas se contenha; a água doce natural; e o que mais se possa agregar nessa conta de tudo o que o homem (e a mulher) extraem da natureza – tudo feito e desfeito, quem diria?, como se não houvesse amanhã.

A lenga-lenga ambiental é o grande calendário contemporâneo de um “fim do mundo” causado pelo homem. Porém, nem mesmo a mais correta agenda ambiental impedirá a consumação dos dias, porque assim é o universo, percebido já por Fernando Pessoa, na sua Tabacaria:

“Ele [o dono da Tabacaria] morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.”

Qual a conclusão disso tudo, o carpe diem? Bem, façam como preferirem. De minha parte, sigo essa mesma filosofia do Pessoa via Álvaro de Campos, e o faço mais por concordância do que por adesão:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Que isso quer dizer? Que a vida não tem sentido, apenas direção – e ela dirige-se para a morte. Todo o resto é construção da imaginação humana. Usar a imaginação para viver bem, lançar um olhar generoso e de veneração a tudo quanto existe, vivo ou não vivo; oferecer um legado, em lugar de deixar uma lacuna: Isto bastará, mas não terá sido fácil.

 

Caio Leonardo, um dia antes

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker

Aqui, um complemento ao comentário sobre a lista dos Melhores Livros de 2012.

Hilary Mantel’s “Bring Up the Bodies” and Thomas Cromwell : The New Yorker.

No liame acima, Você encontrará a crítica de James Wood a Hilary Mantel, publicada pela New Yorker. Wood demonstra o porquê de Mantel merecer a atenção que tem tido:

“As a novelist, Mantel has the maddeningly unteachable gift of being interesting.”

Baci,

Caio Leonardo